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Entrelinhas e laços: as protagonistas

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

“Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz os assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modifica-lo.”

Assim que terminei de ler emocionada a crônica de Affonso Romano de Sant’Anna o 8ºC olhou pra mim como se eu fosse a autora daquelas palavras. Depois de um breve silêncio, um suspiro coletivo e uma fala de Caíque:

– Nossa, professora! Que texto profundo.

Foi assim, de primeira viagem, que meus navegantes do 8ºC entraram na maré das crônicas. Aquela aula de introdução ao novo gênero foi mesmo profunda. A sala percebeu que, de fato, as crônicas provocam reflexões e críticas.

Em casa, preparando um novo planejamento, reli a crônica “Porta de colégio” e nas entrelinhas encontrei uma nova passagem: o protagonismo juvenil. Era essa a temática que brilhava dentro da minha cabeça enquanto as abas cresciam na tela do meu computador.

Queria encontrar um texto que mostrasse aos alunos que enredo de crônica é sucessão de acontecimentos no presente. Queria um texto que mostrasse o agora. Uma crônica com personagens adolescentes que não frequentam a escola pensando em se preparar pra vida adulta, porque estão ocupados demais fazendo a vida acontecer no agora. Organizando debates na escola. Mobilizando o bairro. Promovendo eventos culturais.

Busquei em vários sites, contatei alguns colegas da área, mas não encontrei nenhuma crônica que atendesse minhas expectativas.

A segunda aula sobre crônicas no 8ºC não teve o texto que eu queria e não foi tão inspiradora quanto a primeira. Os alunos estavam agitados. Alguns mais que outros. Outros menos que alguns. Eu mesma não me excluo da agitação, pois tinha acabado de sair da minha turma de sétimo ano (professores de sextos e sétimos me entenderão!). Enfim, aquela aula foi bagunçada demais e não atingiu o ápice como a primeira. Saí de lá pensativa. “Preciso trazer sem falta um texto interessante sobre protagonismo juvenil pra essa turma na próxima aula”.

No fim do dia, estava em outra sala, do oitavo E, esperando alguns alunos terminarem a atividade. Olhei pra porta porque percebi um aglomerado anormal. O sinal já tinha tocado, o barulho do corredor já tinha cessado. Porém, lá estavam 5 alunas do 8 C me esperando. Uma delas fez sinal que queria falar comigo. Os dois alunos terminaram o exercício e saíram dando passagem para as meninas que me traziam uma alegria inesperada:

– Acho que você vai gostar da nossa ideia, professora.

Me disse Laura sorrindo até a ponta do rabo de cavalo que saudava o imponente coque de Jamile. Ao lado das duas, Michele e seu crespo proferiram:

– Sabe o que é professora, hoje depois da sua aula eu fiquei pensando muito numa coisa. Alguns alunos atrapalham as aulas, estão com muita falta de respeito e o bullying está passando de todos os limites. A Mari fez uma fala hoje lá pra turma, bem depois que a senhora saiu e eu fiquei pensando que a gente poderia passar em todas as salas conversando sobre isso. Fazendo tipo uma palestra.

– E falando sobre padrão de beleza, também! A gente quer falar sobre isso com os alunos.

Complementou Emily Cachos enquanto eu descia da minha elevação aos céus. A história de protagonismo juvenil que eu tanto busquei estava sendo encenada na minha frente!

Começamos a conversar sobre a proposta e as cinco meninas foram se empolgando a medida que minha animação crescia. Ou foi ao contrário? Não sei se delas pra mim ou de mim pra elas, mas sei que a energia fluiu tanto que a professora de matemática também entrou na sala e o entusiasmo nos abraçou. Pela primeira vez na minha escola senti o significado do substantivo sororidade.

Quando já estávamos saindo, Mari fisgou meu semblante e finalizou meu dia letivo fazendo um pedido:

– Professora Madu, escreve uma crônica do dia de hoje!

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

Escrevo essa pra Mari, Laura, Michele, Emily e Jamile. Escrevo pra todas as gurias e guris que tiveram iniciativa, que buscaram fazer qualquer coisa de diferente na escola. Escrevo para os adolescentes protagonistas, inquietos e curiosos. Para os jovens inconformados. Para os adultos que protagonizam a juventude desde o dia que conheceram Holden Caufield. Escrevo para os professores que querem levar um texto sobre protagonismo juvenil pra sala de aula mostrando pros alunos que melhor que ficção, só mesmo a realidade.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Entrelinhas e laços: Sobre ser humana, sala de aula, sociedade. E sobre sonhos.

– Estou pensando como posso dizer isso pra senhora sem te ofender.

Foi assim que Amanda falou. E eu amei. Respondi empolgada com um “óóótimo!” E fiz um pequeno discurso sobre críticas construtivas. Enfatizo o pequeno discurso por causa de um dos itens do acordo co-construído com o 7° F. A professora não fará discursos muito longos ou desnecessários. Foi nesse mesmo contexto de criação dos novos acordos de convivência que Amanda soltou essa fala. Olhou indecisa pro ventilador que pouco cumpre sua função no mês de agosto em Cuiabá e voltou com uma nova oralidade digna de ser compartilhada:

– É que professora, às vezes a gente faz bagunça. Eu assumo. Mas aí a senhora pede pra gente parar várias vezes e não funciona. Aí a senhora começa a falar que preparou a aula pra gente e que ninguém se importa. Que a senhora tenta dar uma aula diferente mas que a gente não ajuda. É isso que eu queria falar pra senhora, professora.

– Obrigada pela sua fala, Amanda. Ela não foi nem um pouco ofensiva.

– Era isso que eu queria falar, isso é uma coisa que a senhora faz e a gente não gosta. Tem gente que chama isso de drama, né?

SIM! ELA ME CHAMOU DE DRAMÁTICA! Aff, eu amo a Amanda. Amo essa experiência de virar pra sala e falar:

– Então tá, agora é a vez de vocês falarem o que vocês não gostam na professora.

Eu entrei nas minhas quatro salas depois das férias com uma única certeza: a professora do fim do semestre passado ficou no semestre passado.

Fim de junho eu estava… Eu não estava. Eu não era. Eu não conjugava nenhum verbo de estado nem de ação. Só seguia no automático com uma pequena esperança de que os fenômenos da natureza trouxessem água milagrosa pra molhar meu agreste.

Entrega de notas pro conselho tenho que corrigir as provas nossa teve aluno que faltou no dia da prova preciso lavar roupa não tenho uma blusa descente pra trabalhar defina blusa descente seria aquela que desce? Tomara que caia? não raspei o suvaco axila maria eduarda meça suas palavras isso é jeito que moça fala por que é que eu tenho que tirar esses pelos que nasceram espontaneamente debaixo do meu braço mesmo? 7° G amanhã primeira aula preciso lembrar de devolver a caligrafia do Bruno e reservar o projetor

Resnãopire.

Não, isso não foi uma tentativa de escrita compulsiva beatnik. Isso foi uma tentativa de reprodução do meu pensamento acelerado. Um dos sintomas da famosa ansiedade-mal-do- século. Pensamento desenfreado que me tirou o sono, me tirou os sonhos, tomou conta de mim a ponto de me fazer esquecer quem eu realmente era.

Graças a ainda vigente legislação trabalhista minhas férias chegaram. A volta pra terra natal e pras estradas do meu interior foi mágica. Um reencontro comigo. Com a minha criança interior. Com a minha adolescente em crise interna, externa e eterna.

Voltei do recesso escolar como quem volta de um banho de cachoeira depois de horas de trilha no cerrado.

Renovada eu cheguei disposta a fazer diferente. Cheguei na piração de que a práxis docente é essa loucura mesmo. A ação-reflexão-ação me (des)orienta dentro e fora da sala de aula. Entre caos e organização eu vou continuar navegando. Ora enfrentando as altas marés ora em porto seguro. Porém sempre segura de que a adultice do cotidiano não pode romper minhas artimanhas de viver o hoje como quem vive o sempre.

Por isso minha primeira aula foi sobre saber ouvir o outro e construir junto com o outro um novo ambiente propício ao aprendizado. Por isso tive que pedir pros meus meninos e meninas apontarem meus defeitos antes de apontar os deles. Tive que falar sobre meus erros abertamente e comentar sobre minhas frustrações. Depois falamos sobre nosso relacionamento, sobre respeito, empatia, responsabilidades. Ainda deixei de tarefa: pesquise o que significa alteridade.

– Professora esse acordo que estamos fazendo é como se fossem as leis?

– Sim, Miguel! E digo mais: nós não estamos “brincando de fazer as leis da sociedade” aqui na sala de aula. Nós somos a sociedade e estamos construindo ela da forma que queremos hoje.

Senti e vi olhinhos cintilando no mesmo reflexo que o brilho dos meus.

É tão bom voltar a ser quem a gente não sabe que é.

Finalizo esse híbrido de gêneros textuais fazendo um apelo (porque como bem diagnosticou Amanda: sim, eu sou dramática):

Não perguntem as crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescerem.

Perguntem o que eles não querem deixar de ser.

Eu não quero deixar de ser sonhadora.

E você?

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Entrelinhas e laços: respostas que completam

Júlia tem dificuldades na aula de português. Defasagem de leitura, escrita e interpretação. Júlia não é a única. Em uma sala com 32 alunos mais da metade se encontram na mesma situação. Corrijo. Não é a mesma situação. Cada aluno é um planeta distinto girando no seu próprio tempo de rotação e translação.

Tive essa ideia de relacionar o sistema solar com a sala de aula junto com meu amigo Danyllo, que é professor de matemática. O ápice da analogia foi a compreensão de que eu, professora, não sou o sol. Eu sou um objeto voador não identificado que perpassa por todos os planetinhas na tentativa de compreender o funcionamento mágico e único de cada biosfera. Inventamos assim uma nova galáxia: a sala de aula.

A galáxia do 7° G

Na galáxia do 7° G, Júlia é um corpo celeste que, assim como os outros trinta e um, possui suas próprias limitações e sonhos. Posso vestir a roupa de pesquisadora, exploradora ou astronauta, mas nunca vou compreender as complexas características da vida no planeta Júlia. Contudo, eu tento com tudo que posso. Me aproximo com cuidado, faço perguntas, escuto, respeito, abraço e beijo. Com amor se ganha amor. Descobri muitas coisas da vida de Júlia. Muitas passagens tristes que não me sinto à vontade de revelar aqui. Ela me contou em segredo. O que consigo relatar para dar sentido a essa história sem romper nosso voto de confiança é que Júlia é uma menina de 12 anos. Negra. Moradora de um bairro periférico. Dona de uma trajetória de vida que carrega memórias desgostosas e impactantes no seu processo de aprendizagem. Pelo menos até agora.

Semana passada decidi adiantar a temática do livro e mudar um pouco a perspectiva trabalhada. Assim como todos os seres vivos, os professores têm que se adaptar constantemente as condições do ambiente. O capítulo trabalhado até então aborda como tema central a figura do herói. Presuma: nada de heroína até então. Quando falei que naquela aula iríamos falar de heroína um aluno foi logo dizendo:

“Eu sei o que é heroína professora, é uma droga.”

Me assustei, porque pra mim o primeiro significado de heroína é o da mulher heroica enquanto que pra ele é o de uma substância entorpecente ilícita. Preciso escrever algum texto sobre referências.

“Sim, Henrique. É uma droga. Mas não é dessa droga que vamos falar hoje. A gente não estava estudando vários textos sobre heróis? Então, hoje vamos falar das heroínas, das mulheres. Vamos falar especificamente de uma heroína que, diferente dos outros heróis que vimos até então, existiu na vida real.”

Dificuldade de aprendizagem e Carolina de Jesus

Aula passada os alunos tinham feito um exercício que caracterizava os heróis como “pessoas que gostam de fazer coisas além de suas forças”. Adiantei o capítulo seguinte, que traz a temática dos heróis da realidade, e passei um vídeo sobre a vida de Carolina de Jesus. Para quem nunca ouviu falar dessa mulher maravilha, deixo aqui o vídeo da aula, gravado e editado pelo PHCortês, youtuber de 15 anos dono do canal “Meus heróis negros brasileiros”:

Depois do vídeo vieram as perguntas de interpretação. Eu sabia que muitos alunos me chamariam na carteira. “Professora, não entendi. Como assim?” Independente das órbitas planetárias, a dificuldade de compreensão e interpretação é geral. Na tentativa de encontrar vida em todos os planetas, estruturei perguntas de níveis mais fáceis e outras mais complexas. Sempre exijo dos alunos a resposta completa dos exercícios, para ajudá-los a compreender o enunciado e a responder da melhor forma possível, pensando sempre que o leitor da resposta pode não ter acesso a pergunta e por isso precisa ser muito bem informado apenas pela resposta.

A primeira pergunta do quadro era: “Quem foi Carolina de Jesus?”

Eu esperava que meus alunos escrevessem uma resposta completa com o máximo de informações possíveis extraídas do vídeo, com adjetivos que caracterizassem Carolina e descrevessem ela como uma mulher que superou todas as barreiras impostas pela sociedade. Eu sabia que cada um escreveria isso com as suas próprias palavras. Cada planeta tem seu idioma e eu acho isso fantástico! Mas as vezes tenho que corrigir ou exigir mais. Faz parte do meu trabalho expandir os horizontes de cada planetinha.

Júlia, aquela Júlia do começo do texto, me chamou com muita empolgação.

“Professora, vem aqui ver a minha resposta!”

Júlia tinha escrito apenas três palavras.

 “Uma mulher negra.”

Eu suspirei ao ler a força daquelas três palavras.

“Ótimo, Júlia! Mas vamos começar a resposta daquele jeito bem completo que a gente já aprendeu? ‘Carolina de Jesus foi…’ ”

“Ah! Tá bom! A senhora quer a resposta completa. Fica aqui. Vou fazer e você vê se tá certo. Não sai daqui.”

Eu atendi o pedido e fiquei ali observando o movimento das mãos de Júlia. Ela pegou a borracha e apagou a resposta. Pegou o lápis e começou a escrever calmamente. Disponho a resposta de Júlia para você, leitora ou leitor, de forma pausada para que você se aproxime mais da minha experiência. Acompanhe:

“Carolina de Jesus

foi uma

mulher negra

Júlia olhou pra mim com olhos de lua cheia e sorriso de lua crescente. Eu disse sorrindo:

“Isso. Continue. O que mais?”

Ela voltou a olhar para o caderno e completou brilhantemente sua resposta:

e inteligente.”

“Carolina de Jesus foi uma mulher negra e inteligente.”

Fiquei chocada com a inteireza da resposta escrita por Júlia, sem nenhum erro ortográfico. Nenhuma resposta, por mais completa que fosse, substituiria aquela resposta escrita por Júlia e aquele sorriso que falou rompendo meu silêncio perplexo:

“Está completa, professora?”

“Está completa Júlia”

Escrevo agora essa minha resposta sem vírgula, porque Júlia não é vocativo que se separa por vírgula.

Júlia é sujeito dessa oração.

Sujeita completa, ainda que por um instante prestes a descompletar.

Sujeita a tantas situações da vida cotidiana que diminuirão sua plenitude mas sujeita também a nova possibilidade de não se sujeitar.

Júlia não sujeita, como Carolina.

(Peço uma pausa para completar e esvaziar os pulmões)

(Para transitar entre esse completar e descompletar)

E foi assim que o eclipse de Carolina de Jesus e Júlia me completou.

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Entrelinhas e laços: o dia em que Gabriela deixou Rosalina

Essa coisa de identidade sempre me intrigou muito. Por acreditar que os nomes e apelidos carregam facetas da nossa múltipla identidade, pedi, logo no primeiro dia de aula, para que cada aluno me escrevesse como queria ser chamado.

– “Como assim, professora, eu não entendi. ”

– “Seu nome é João Lucas, certo? Como você quer que eu te chame? De João? Luquinhas? Como você gosta de ser chamado?”.

Eles me olhavam sorrindo. Muitos alunos têm nome composto. Eu, que sou a “Maria mais a Eduarda”, já fui Duda na infância, Maria nas andanças e Madu na sala de aula, sei bem como é isso de ter muitos nomes e de ter suas próprias preferências.

Sentada na minha cama pouco dormida, segurando as folhas que voavam por conta do ventilador ligado no máximo, me diverti e me emocionei lendo as respostas. Eu amo ler meus alunos (apesar do trabalho que dá ler o que 120 pessoinhas escrevem).  Além do nome pelo qual queria ser chamado eu pedi também pra que eles me contassem seus maiores sonhos e me falassem de pessoas inspiradoras.

– “Minha mãe que trabalha e cuida de casa”

– “Meu sonho é conhecer São Paulo”

– “Meu sonho é ter a casa própria”

– “Meu sonho é ser rica”

No meio de tantas reflexões sobre a vida dessas crianças, planejamentos de aula: 40 horas semanais de trabalho que se estendem algumas noites a fio acabei por não priorizar a organização de uma planilha com os nomes que os meus alunos escreveram. A ideia era fazer a lista de chamada pelos nomes que cada um gostaria de ser chamado. Ser professora é aprender todo dia a lidar com as frustrações e a deixar de lado a auto cobrança.

madu-gomesAquela menina quietinha, fora dos padrões estampados nas revistas de moda e beleza, isolada sempre no canto direito da sala, na sombra que o sol da tarde faz na janela, se chama Rosalina Gabriela. Duas semanas de aula rolando e eu chamando ela de Rosalina. Eu chamava ela sempre, porque sabia que ela sabia as respostas e porque ela tinha que saber que eu sabia. Três semanas passaram e eu fui guardar uma redação dela no portfólio quando me deparo com o papel que ela me entregou com as respostas do primeiro dia de aula. “Quero ser chamada de Gabriela”. Fiquei relembrando todas as vezes que me referi a Gabriela como Rosalina. Errei.

Segunda-feira brava, sol cuiabano a pino, últimas aulas do dia. Entrei no 7°E com frio na barriga. Uma vez uma professora me disse que quando a gente tem frio na barriga quer dizer que a gente se preocupa com o nosso público, que a gente tem respeito por ele. Gosto dessa definição.

Pedi pros alunos formarem grupos de três pessoas. “Você não vai escolher os grupos hoje, professora?” “Hoje não, pode juntar com quem vocês quiserem”. Quando falei isso já engoli uma preocupação: os alunos mais recatados. A Gabriela. Virei pra classe e disse: “Antes de juntar as carteiras eu vou entregar os portfólios com as redações corrigidas, vocês vão precisar delas pra fazer a atividade de hoje”.

Fui entregando, chamando nome por nome. Aline … João … Mari … Gabriela! Ela me brilhou. Sorri em resposta e continuei chamando outros alunos no mesmo ritmo. Lembro de ouvir alguém interrogando: “Gabriela?” “Sim, é meu segundo nome”. É teu primeiro, mulher! Pensei sozinha.

Gabriela fez grupo com Rafael e Caíque. Eu nunca tinha visto Gabriela conversar com nenhum dos dois. Caíque, inclusive, é da turma que olha pra janela e não da turma que se esconde na sombra dela. Conversou demais com Caíque a Gabriela. Reparei que uma hora ela estava explicando alguma coisa do exercício pra ele. Depois vi que ela riu de um jeito que a Rosalina não ria. Quase tive que pedir pra Gabriela parar de falar nesse dia. Mas não pedi.

Deixa ela, a Gabriela, cravo e canela. Deixa de ser Rosalina, vencer Gabriela.

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Entrelinhas e laços: muito prazer

Sou uma professora de Língua Portuguesa de uma escola da rede de ensino estadual de Mato Grosso. Refaço. Sou uma Maria cheia de angústias, que se transformam em coragem, todo dia-feira que atravesso os portões de minha escola cuiabana na esperança de vivenciar o aprendizado de forma genuína, criativa e emancipadora em conjunto com meus alunos.

Sou sonhadora. Sou realista. Sou recebida toda segunda-feira com um abraço do Henrique, dois chicletes da Laura e vários sorrisos, alguns mais tímidos outros escancarados. Dia desses fui recebida com uma carta endereçada para “minha professora mais querida desse colégio”. “Ti amuh professora”.

Olho pra sala de aula como se fosse uma grande narrativa complexa. Cheia de protagonistas, todos narradores personagens. Nas entrelinhas, busco os espaços ainda não percorridos, novos laços afetivos, convites para a descoberta do saber. Do duvidar e do questionar. Leva tempo pra construir e contar essa história cheia de aventuras e desventuras.

Você pode acompanhar aqui no site do Caindo no Brasil os capítulos dessa minha jornada

Relato minúcias inspiradoras, tropeços entre as trocas de sala, conquistas menores que a do ouro, mas valiosas como a água. Um registro extracurricular do pouco tudo que me move diariamente e me faz acreditar que apesar de tantos sujeitos ocultos, da falta de coerência e de concordância da educação pública brasileira nós continuaremos diariamente lutando por exclamações!

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A educação é luta e aconchego

Conexão com estudantes: xícara de café no centro da foto e flores e livro no entorno

Contei para o 8° B que estava fazendo estágio em uma outra escola do bairro. Ensino médio. Noturno.

“Escreve uma crônica sobre essa experiência, professora”.

Desde quando começamos a estudar crônicas os alunos pegaram gosto pelo gênero. Dia desses Talita chegou com uma crônica que ela tinha escrito. Escreveu assim do nada, porque quis.

Enfim, aqui está a crônica que Lucas pediu. A crônica sobre essa curta experiência em uma sala de terceiro ano de Ensino Médio.

Fiquei um mês observando as aulas da professora Marisa. Todas as quintas a noite eu batia ponto lá na escola. Me sentia avulsa no início. Não era minha escola, eu não via meus alunos meio pequenos meio grandes (ainda se diz pré-adolescentes?). Os alunos do Ensino Médio já passaram do pré e da adolescência. São jovens. Alguns já adultos. Algumas já mães. Alguns pais – talvez. A mãe é informação explícita no contexto escolar. Já o pai…

Duas mães na mesma sala. Na lousa, aula sobre crase. No chão, panelinhas e chupetas. Assistiam à aula e as filhas.

Eu poderia encher todos os seguintes parágrafos de outras cenas que vi. De acontecimentos que realmente mexeram comigo. Mas até quem nunca pisou em uma sala de aula de uma escola pública – no período noturno, em uma turma de terceiro ano de Ensino Médio – consegue imaginar um esboço ainda que muito estereotipado e pessimista.

Eu prefiro preencher as linhas que seguem com a sensação de aconchego que carrego dentro de mim depois dessas quatro semanas de observação e desses poucos 40 minutos de aula que acabei de ministrar. Aconchego é mesmo a palavra que eu queria. Peço ajuda ao verbete.

Aconchegar (verbo transitivo direto e indireto)

  1. Chegar (umas coisas para junto de outras).
  2. Aproximar muito.
  3. Chegar muito a si.

Me aconcheguei a realidade daqueles alunos. Tão próximos do meu bairro, tão distantes de mim. No dia da minha aula, aconcheguei um texto a eles. “O legado das ocupações nas escolas”. Talvez quisesse deixar um legado ali. Simbólico, singelo.

Alguns chegaram atrasados, mas tiraram o fone de ouvido e se juntaram a roda. Nem todos participaram da conversa sobre o que foi lido, mas todos leram e responderam a provocação que estava na folha sobre a carteira:

O que você já fez para colaborar com um ambiente de aprendizagem e boa convivência na sua escola?

Não fiz nada. Presto atenção na aula. Comprei rifa para ajudar na pintura das salas. Organizei a rifa para ajudar na pintura das salas.

A resposta que eu mais gostei? Acho que foi a de João: Não fiz nada AINDA.

Ainda. Advérbio de tempo capaz de deixar tudo tão mais… aconchegante! Agradeço por ter sido tão bem-vinda pela professora Marisa e por todos os alunos do terceirão. Com aconchego e gratidão respondo agora uma das questões que a professora colocou no quadro no meu primeiro dia de estágio.

1) Argumente promovendo a progressão temática. Utilize um dos elementos coesivos abaixo:

CONTUDO

EMBORA

JÁ QUE

  1. a) A educação brasileira tem muitos desafios a enfrentar CONTUDO somos muitos os que estamos caminhando em busca de possibilidades onde parece que não há mais soluções. Estamos cada dia mais perto de nós, dos outros e do que queremos juntos. Ainda não chegamos lá, mas chegaremos. Como a Emily. A Emily que veio tirar foto comigo depois da aula e pediu meu face. “Vou te marcar no post de quando eu passar na UFMT” Mal sabe ela que já me marcou.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Racismo na escola: professora e jovem escrevem relato juntas

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA

Seis da matina. Ainda não levantei da cama, mas o barulho do alarme e a luz do celular na cara já me lembram que é dia feira. Tenho evitado ler mensagens antes de levantar como uma tentativa de criar um novo ritual matutino mais saudável. Mas nessa manhã uma mensagem pediu pra ser lida:

“Madu, a senhora sabe muitas coisas sobre campanhas contra o preconceito e tals. Hj eu presenciei uma coisa que eu pensei que nunca passaria na minha vida. E eu queria lutar contra o preconceito de alguma forma. Se a senhora souber algum jeito, me fale pfvr.”

Primeiro, uma alegria: as aulas do ano passado de criação de uma campanha contra o preconceito racial surtiram efeito! Quase de imediato minha alegria de professora se vai e a pergunta aparece em caixa alta e negrito na minha cabeça: Como posso ajudar essa aluna a lutar contra o preconceito?

Passei o dia com a perguntada grudada em mim.

Me coloquei no meu lugar, de quem não sofre com o racismo que assola nosso país. Me coloquei no lugar da Rafaela, minha aluna que me acordou com esse pedido tão… tão necessário!

Como? Como lutar contra o preconceito? Como não se sentir impotente diante dessa realidade perversa?

Rafaela me contou melhor o que tinha acontecido e eu entendi porque ela estava tão incomodada.

Então fiz um convite pra ela escrever aqui pra vocês. Um dos jeitos de lutar contra o preconceito é não se calando.

Em tempos de violência e repressão, não se calar é resistir.

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA
(Foto: Pixabay)

Deixo aqui as palavras dela e espero que elas cheguem longe e resistam

Olá, meu nome é Rafaela, tenho 13 anos e vim aqui falar sobre o preconceito racial.

O Brasil é considerado um dos países mais racistas do mundo, mesmo com tantas misturas de raças. Algumas pessoas pensam que o racismo nunca pode acontecer ou que é bem raro.

Infelizmente eu com apenas 13 anos vi o racismo acontecer na minha frente várias vezes. Infelizmente algumas pessoas maltratam outras para se sentir superior ou melhor que alguém.

Você julgar uma pessoa apenas por ela ser negra ou “diferente” é burrice. Nesse mundo não existe idade para sofrer e nem praticar o bullying. Meu melhor amigo foi revistado pela polícia simplesmente por ser negro e pobre. Tenho certeza de que tem muitas pessoas sofrendo por coisas piores.

Todos devemos nos unir e acabar com isso de uma vez. Eu sei que não é fácil mas poderíamos tentar pelo menos.

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Camila Coragem: o que ensinar exige

Ensinar exige rigorosidade metódica.

Esse é um dos tópicos do sumário do clássico freiriano “Pedagogia da autonomia”.

Ensinar exige pesquisa.

Ensinar exige curiosidade.

Ensinar exige tantas coisas que eu dei conta só de ler o sumário do livro e fiquei dias processando todos os requisitos que Freire me contou naquela noite quente e chuvosa da primeira semana de novembro.

A reflexão me trouxe a lembrança de um episódio de maio que reverberou novas atitudes e práticas mais amadurecidas.

Eu levei minhas quatro turmas de sétimo ano na exposição itinerante da Bienal de São Paulo. Foi um desafio enorme trabalhar em sala de aula conceitos de arte contemporânea e pós modernidade. O tema da Bienal era incerteza viva.

Por ser tão incerta e tão viva eu falhei. Falhei no processo, falhei na visita e falhei na avaliação.

Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática

Cinco meses depois decido sair mais uma vez dos arredores da escola e mostrar que a construção do saber se dá em outros espaços, com outros sujeitos e sobre outros temas, diferentes dos do livro didático.

Dessa vez fiz diferente.

Fiz pequeno e intuitivo. Fiz grande e organizado.

Ensinar exige tomada consciente de decisões.

Estou desenvolvendo um projeto de produção audiovisual no contraturno. Os alunos escreveram o roteiro de um curta e agora estamos na fase de gravação. Camila é a aluna que mais se envolveu com esse projeto. Sempre tem aquela pessoa que se apaixona, agarra a ideia e se desenvolve de uma forma muito autêntica e genuína. Camila já gostava muito de fotografia. Ela começou a me seguir no Instagram e viu que eu também sou entusiasta desse universo. Ela se aproximou de mim, me pediu dicas e me enviou fotos suas. Eu vi ali uma semente brotar me pedindo mais água pra crescer.

Certo dia eu estava rolando o feed infinito no Facebook a procura de nada e encontrei uma oportunidade que caiu feito chuva no solo de Camila: uma oficina de fotografia criativa para iniciantes.

Consegui pagar meia inscrição pra ela e fomos juntas.

No caminho ela observava a transição pela janela do Uber. Da periferia para o centro.

– Você costuma vir pra esses lados da cidade, Camila?

– Não. Eu nunca saio do bairro. De vez em quando vou visitar uns parentes que tenho lá no Pedregal, sabe?

Pedregal é um extremo oposto ao da nossa escola.

– Minha mãe não me deixa sair sozinha. Nunca peguei ônibus só. Ela me deixou ir nesse curso porque a senhora conversou com ela e porque você está comigo… Ela fala que é perigoso uma menina sair por aí sozinha. E é mesmo né…

Fiquei um tempo em silêncio e na minha mente passou um filme de todas as vezes que transitei meu corpo sozinho pelo mundo. Sou uma mulher consciente dos desafios que enfrento na sociedade. Sou branca e venho de uma família de classe média do interior paulista. Tenho consciência de meus privilégios também. Sou adulta, mas já fui adolescente. De todas minhas identidades caleidoscópicas, naquele instante eu assumi a de educadora. Educadora responsável por levar “sozinha” uma aluna em um ambiente completamente diferente dos que ela frequenta para fazer um curso sobre um assunto que está fora dos parâmetros curriculares.

Respirei, inspirei e parafraseei Guimarães Rosa:

– É perigoso, Camila. Mas a vida exige coragem! Nós, mulheres, precisamos ser cuidadosas, sim.  Mas precisamos ser corajosas.

Chegamos no local do curso. Metade cheio. É o nome do café-bar, loja-galeria, ateliê colaborativo que abriu recentemente suas portas no centro histórico da capital mato-grossense. Eu amo esse lugar. Camila também amou. Ela observava tudo com um olhar de viajante que me fez recordar minha primeira viagem.

O curso estava dividido em duas partes: teórica e prática. No início ela estava tímida, mas no final saiu pelo café com seu celular e depois com a minha câmera registrando cada instante, cada cenário, cada universo que só o olhar dela é capaz de enxergar.

A foto de Camila

Depois da sessão fotográfica voltamos pra sala e exibimos nossas produções. Rodolfo, o fotógrafo que ministrou a oficina, ia passando as fotos na tela e fazendo comentários. De repente aparece a foto de Camila.

Foto de mulher negra

Eu finalizo meu relato aqui. Com essa foto que me preencheu a alma e me deixou afônica.

E com mais um tópico do sumário-poesia do nosso patrono da educação:

Ensinar exige convicção de que a mudança é possível.

Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços.

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“Ser professor é trabalhar para promover diariamente microtransformações”

Há 178 dias, através do programa Ensina Brasil, eu pisava em sala de aula como professor pela primeira vez. Jamais imaginei que aquela segunda-feira significaria tanto para mim.

Quando abracei a oportunidade de trabalhar como Professor na rede pública, já imaginava os desafios que vinham pela frente. As dificuldades da Educação Pública brasileira não são novidade para ninguém: infraestrutura precária, ausência de recursos tecnológicos, realidades sociais e familiares complexas, defasagem idade-série e evasão em massa no Ensino Fundamental II e Médio.

Hoje, eu vejo que não é isso que impossibilita o desenvolvimento do aluno. Dificulta? Sem dúvida, mas não é condição suficiente para impedir. Infraestrutura precária não impede o aluno de aprender. Ausência de recursos tecnológicos sofisticados muito menos. Realidades sociais complexas interagem de maneira imprevisível no ambiente e você precisa aprender a conviver com isso.

Quem disse que lidar com o que é diferente é fácil? Não se trata de romantizar. Trata-se de entender e acolher o que é real. É admitir que você não é herói, mas que se você sair de lá, mais uma oportunidade de influenciar aquela realidade estará sendo deixada de lado. É perceber que o momento perfeito para começar algo é agora.

Ser professor é resistir

O primeiro grande ensinamento que a profissão me trouxe talvez tenha sido compreender que o ato de ser Professor exige resistência. É real e cruel a pressão que o Sistema exerce sobre os profissionais. Por sinal, não gosto de me referir ao Sistema como um ente imaginário. Refiro-me ao somatório de burocracias sem fim, comunicação hostil no ambiente escolar, disputas de poder desvinculadas dos objetivos de aprendizagem, dificuldades estruturais, distanciamento de algumas famílias do ambiente escolar.

É perceber que se você não exercer pressão no sentido oposto, permanentemente, o Sistema te devora. Piscou? O Sistema te engoliu. O segundo grande ensinamento é de que resistência, desvinculada de propósito, te transforma num peso morto. O Sistema exerce tanta pressão sobre você, que se você não exercer uma pressão maior no sentido contrário, já era.

Percebi que estava sendo engolido quando depois de 2 ou 3 meses em aula em sala, meus níveis de motivação caíram drasticamente. O brilho no olho dava lugar a uma sensação de frustração e um sentimento de impotência diante daquela realidade.

Ser professor

Microtransformações

Carregava comigo as dificuldades de dia a dia, com peso de quem assumia para si a responsabilidade pelas escolhas feitas por outras pessoas. Compreendi que meu objetivo é outro: é mostrar o “caminhos das oportunidades”. É trabalhar para promover diariamente microtransformações positivas na vida de cada um dos meus alunos.

Foi então que escolhi fazer uma mudança importante na forma como eu lidava com essas questões. Optei conscientemente por exercer pressão através da construção de um personagem, que desde então representa a forma como eu lido com as dificuldades do dia a dia. Escolhi ser e interpretar alguém que a partir do momento em que pisa em sala de aula, torna-se a pessoa mais entusiasmada, alegre e contagiante do ambiente. Escolhi contagiar meus alunos pela alegria. Escolhi me aperfeiçoar na arte de motivar. Entendi que naquele contexto, ser o Professor que meus alunos precisam significa ser a pessoa que opta por contagiar pela presença integral, sincera, atenta e genuína.

“Sou preguiçoso”

Esses dias ouvi de alguns alunos do período noturno:

– “Como ele consegue, depois de trabalhar o dia todo, chegar com esse gás?” (Algo dito por jovens na faixa dos seus 16 anos que já trabalham durante o dia inteiro antes de ir à aula).

Na medida em que você pratica, misturam-se realidade e ficção. Hoje já não sei mais o que é o personagem e quem é o Pedro “de verdade”. O que deveria nascer como encenação foi incorporado ao que sou. Perdeu-se dentro do meu próprio Sistema. Junto com essa reflexão, percebo também que:

  • Professor precisa ser “fazedor”. Quer começar um projeto de informática e programação? Vai. Quer começar um Grêmio Estudantil? Vai. Deu errado? Corrige e continua.
  • Professor precisa acolher a incerteza a sua volta e mesmo com todas as pressões do Sistema, fazer acontecer.
  • Professor precisa se permitir errar muito. Acolher o erro e refletir sobre ele faz parte do processo.

É preciso saber parar, pensar e recomeçar. E que sensação boa a de aprender errando! Nesse 11 de agosto, Dia Nacional do Estudante, celebramos aqueles que buscam constantemente evoluir e ampliar seus conhecimentos.

A todos os professores do Brasil, meu desejo que jamais esqueçamos da mágica por trás dos “erros”. Nessa breve experiência na rede pública, reconheço cada vez mais que quando incentivamos o desenvolvimento da curiosidade e interesse pelas coisas que existem e acontecem no mundo, estudar fica muito mais fácil, divertido e prazeroso!

Citando Milton Nascimento, em “Coração de Estudante”: “Há que se cuidar da vida; Há que se cuidar do mundo”. Aproveitemos esse dia para recarregarmos as energias diante das dificuldades do dia a dia e para mantermos vivo o Estudante que há dentro de cada um de nós, Professores.

Feliz Dia Nacional do Estudante!

Conheça outros relatos de professores do Ensina Brasil no Entrelinhas e Laços.

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Professor, me olhe nos olhos

por Liz Dórea

Mamãe, dentre outros segredos, já foi pedagoga. Nunca falou palavra sobre a faculdade. Provavelmente, suspeito, porque aprendeu o que é ensinar sujando as botas no barro da vida concreta. Minha mãe é filha da multidão, amante do céu aberto, gente com gente demais dentro de si. É como existência que não sacia e precisa sentir o calor que só um sussurro no pé do ouvido abrasa. Por isso, não me espanto que tenha largado os artigos acadêmicos e metido o corpo no mundo. Mas mesmo a alma mais braba sentiria as pernas bambearem diante dum quadro negro cravado numa parede de pau-a-pique, empesteado pelas partículas de areia cuspidas pelo chão batido.

Ainda assim, no miolo do agreste baiano, onde deus parece ter se esquecido das vidas que ali pelejavam pra sobreviver, minha mãe acreditava, até a medula dos ossos, no tento de ensinar. Talvez educação seja ainda sua razão de estar no mundo. Mas quando a maior dúvida dum estudante é saber se vai ter o que comer na janta, educador nenhum tem o privilégio de arrebitar o nariz.

Tampouco força, menos ainda recurso. Numa escola agrária dum município paupérrimo, quem prepara a aula é a pedagogia da miséria. A pedagogia da violência doméstica; do alcoolismo, do trauma, da fome. Então, a professora baixa a cabeça e olha com respeito pr’aquele corpo desnutrido e guerreiro, porque dar vida à educação onde a própria vida é um fiapo dói. E nunca deixou de doer.

Amanhã, se a memória cair nos pensamentos de mamãe, aposto a alma que seus olhos vão aguar. Não à toa, tive donde puxar o hábito do choro incontido. Mas, assim como eu, ela reconheceu que seus ombros não suportariam o mundo. E não suportaram. A escola do sertão virou memória política e eu zarpei de casa pra estudar em São Paulo. Alguns anos galoparam desde lá. Mas nunca vou me esquecer do que ela ainda me disse antes de partir: empatia, Lica. Aquelas crianças iam pra escola pela merenda. Escola era pra sobreviver. E eu, gozando de toda a condição material do mundo, fui embora, com a garganta seca de engolir.

Diante de mim, desterrada e pequena, a Universidade. Sentei em suas cadeiras (que em minha utopia Hollywoodiana seriam poltronas num anfiteatro) e esperei o momento de olhar nos olhos daqueles homens e daquelas mulheres que galgaram o professorado na mais abastada instituição de ensino da A m é r i c a Latina. O instante não chegou. No fim do segundo ano de graduação, não espero mais. Já sigo feito uma lâmpada queimada: de olhar defunto e com a consciência de que ninguém, lá do alto do ofício, percebeu que um dia ele cintilou.

Daí, daquele ano em diante, me fiz apática e impenetrável tal qual todos os excelentíssimos professores doutores defronte de mim. Não levem a mal meu instinto; mas é que sobrevivo num regime de redução de danos. Foi preciso descolar meu peito do corpo pra não espumar. Pra não endoidecer com a total ausência de sentimento da educação universitária. Eu, você e eles. Nada, senão, caixas-pretas assertivas, com grande potencial de armazenamento.

Poderia ser diferente?

Estou exigindo demais? Não, não quero que saiba meu nome, professor. Quero que me olhe nos olhos. Quero que me enxergue como mulher, de carne, osso, paixão, dor e história. Quero que me escute declamar Cecília. Percebo seu rosto triste e magro, seu lábio amargo, suas retinas vazias e indago: em que espelho ficou perdida a sua face? Eu me interesso pela resposta. Porque todos temos dias ruins. Dias pra querer atear fogo no mundo ou dormir por dois anos. Então, me perdoe, mas às vezes o insight genial dum filósofo do século passado cujo nome não sei pronunciar pouco me emociona naquele momento.

Lá fora, pr’além das paredes anêmicas da sala de aula, existe uma vida, real e honesta, pra me ouriçar os pelos. precisamos, nós, ombro a ombro, acolher o arrepio. Aprender a deixar o sangue quente pulsar. Deixar que escorra pelos poros, que inunde a boca, que salte aos olhos. Deixar sentir. E entender que, eu e você, podemos sangrar. Empatia é isso, diria mamãe. Mas quem sou eu pra lhes ensinar alguma coisa? Deixo essa tarefa pra vida. Por enquanto, isso aqui é só mais uma opinião apaixonada, professor. Nada, senão, a confissão melancólica de quem descobriu, ainda na fibra da infância, que empatia não acha lugar nem no peito, quem dirá num Lattes.

Ilustração de Natalie Majolo. Originalmente publicado no Jornal do Campus, jornal produzido pelos alunos de Jornalismo da USP. 

Liz Dórea é baiana incurável, exilou-se na terra-da-garoa pra estudar jornalismo, já que nada sabe na vida, senão, palavrear. Faz verbo e fotografia como quem pudesse esquecer a saudade de casa. Mas, sabendo que falha, aceita o inverno, a melancolia e a gastrite de café porque não pode, sozinha, dinamitar a ilha de Manhattan.

Confira mais relatos sobre educação e sala de aula no Entrelinhas e Laços.

Guia de sobrevivência da educação inovadora

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Quantos projetos educacionais que você conhece “morreram” no último ano? Pensando no desafio de continuidade e sustentabilidade de projetos realizados dentro e fora de sala de aula, lançamos o Guia de sobrevivência da educação inovadora.

Caio Dib elencou os dez principais desafios para que essa continuidade aconteça. “Dar aulas no ensino básico e superior, fazer um projeto em uma ONG ou até mesmo participar de um projeto paralelo já é bastante trabalhoso. Muitas vezes, não conseguimos dar tanta atenção à pontos que são muito importantes, como colaboração, registro e divulgação do projeto, negociação com tomadores de decisão e até mesmo financiamento”, conta. [/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row full_width=”stretch_row” gap=”20″ css=”.vc_custom_1572065459753{background-color: #f0f0f0 !important;}”][vc_column width=”1/2″][vc_column_text]

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São 10 capítulos que contam com os aprendizados das entrevistas com especialistas em educação e de áreas com desafios semelhantes. Afinal, o que educadores, gestores educacionais, engenheiros aeroespaciais, preparadores vocais e outros profissionais podem nos ensinar para que nossos projetos educacionais sejam sustentáveis e cada vez mais potentes?

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Você também pode conferir o relato do grupo de estudos Educadores em Rede ou ler a matéria do Porvir.

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A opinião de educadores sobre o livro

O prefácio do Guia de Sobrevivência da Educação Inovadora foi escrito por Maria Eduarda Gomes, que foi professora de Língua Portuguesa em uma escola pública na periferia de Cuiabá (MS) pelo Ensina Brasil e hoje colabora com a ONG Verdescola:

“No cotidiano dos professores, fica fácil entender porque o universo tende ao caos. A tentativa de deixar as aulas mais interessantes e próximas da realidade dos alunos se mistura com o plano de desenvolver um projeto extraclasse e termina na lembrança de que ainda falta corrigir as provas de duas turmas.

Fui até a física me confortar porque Caio Dib me levou em uma viagem por outras áreas do conhecimento e trouxe na bagagem um presente para nós educadores. Como lidar com a turbulência do chão da escola e sustentar os projetos inovadores? A manutenção é mesmo um desafio e a termodinâmica já contou essa história. Me inspiro nas analogias assertivas de Caio: precisamos colocar energia no sistema! A escrita concisa e prática anima e alimenta nossa vontade de fazer acontecer. As dicas nos encorajam, já que as ferramentas apresentadas podem de fato nos ajudar a sustentar nossos sonhos na realidade. 

O Guia de sobrevivência da educação inovadora nos revela alguns caminhos possíveis que já foram trilhados por diversos educadores e especialistas. A visão panorâmica e criativa de Caio resulta em um livro que incita a práxis docente. É impossível só ler.  A praticidade presente em todas as páginas nos convida a entrar e sair da sala de aula renovados e com resultados! Em tempos de urgência por mudança, esse livro é catalisador!”

O que você vai encontrar no livro?

  • Prefácios da Priscila Cruz (Movimento Todos pela Educação) e Cléssio Bastos (professor de escola pública rural em Goiás)
  • Introdução ao livro e porque trabalhei com pontos de vista de educadores e profissionais de outras áreas
  • Porque é importante conhecer sua turma
  • Base teórica, pra que te quero!
  • O desafio da colaboração
  • A arte de negociar
  • Trabalho bom é trabalho registrado
  • A importância de medir seu impacto
  • Nas manchetes do jornal: divulgue seu trabalho
  • Pagando as contas: dinheiro também importa
  • E essa saúde? Pensando na saúde integral dos educadores

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Com quem conversamos

Para escrever o livro, falamos com diversos profissionais da educação e de outras áreas que podem contribuir para o trabalho dos educadores brasileiros.  Entrevistamos professores de sala de aula, educadores informais, profissionais do Terceiro Setor, astrônomos, engenheiros, preparadores vocais e mentais, psicomotristas e outras pessoas que conseguem encontrar soluções criativas para esses desafios.

“Nunca imaginei que aprenderia sobre colaboração com um engenheiro aeroespacial ou sobre como cuidar da saúde com um preparador vocal. Também pude conhecer vários professores e educadores que se destacam e fazem a diferença com os recursos que têm”, contou Caio.[/vc_column_text][/vc_column][vc_column width=”1/2″][vc_single_image image=”5114″ img_size=”full” alignment=”center”][/vc_column][/vc_row][vc_row full_width=”stretch_row” gap=”30″][vc_column][vc_column_text]

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