Em um mundo predominantemente ouvinte, pouco se compreende e se discute sobre o acesso da população surda aos debates da agenda política do país. Ao mesmo tempo, quase não há espaço para apreciação e valorização da cultura surda, e da forma com que esta possibilita um outro jeito de ver o mundo. Com o objetivo de responder a estes desafios, e buscando a inclusão de adolescentes surdos no contexto do mundo ouvinte, a Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos (EMEBS) Vera Lúcia Aparecida Ribeiro, em São Paulo, realiza o projeto Teatro em LIBRAS.

Em 2016, no contexto da crise política que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a professora Maria Aparecida Pereira de Castro Augusto, responsável pelo projeto, identificou que seus estudantes estavam à margem da discussão que envolvia o país. Eles não tinham acesso a diferentes fontes de informação e com pouca contextualização dos fatos e eventos políticos que diariamente se encontravam na pauta nacional.  “Eles liam no jornal, mas a família não explicava o que acontecia, faltava a contextualização. Nisso, pensamos em fomentar uma abordagem crítica, que valorizasse a multiplicidade de fontes de informação, mas sem emitir opinião sobre o que acontecia, deixando que eles decidissem isso”, explica Maria Aparecida, lembrando que, muitas vezes, o repertório em LIBRAS dos familiares é insuficiente para discutir cenários ou situações complexas.

Teatro em Libras

Para falar de política com adolescentes de 7°, 8° e 9° anos, a professora, em diálogo com seus pares, deu início a rodas de conversa com os estudantes. Nelas, o grupo conversava sobre o que estava acontecendo no país, mobilizando diferentes veículos de mídia como fontes de informação. Em seguida, trabalhou-se a diferença de discursos destes veículos, e a relação e poder da mídia na sociedade, utilizando a leitura do clássico de George Orwell, “A revolução dos bichos”. Com os estudantes bastante mobilizados e interessados no texto, surgiu a ideia de montar uma peça, aberta à comunidade, encenada e produzida pelos estudantes surdos.

Direitos em cena

Muitos dos estudantes já acessavam o teatro com alguma regularidade. A escola recebe convites com frequência para apresentações de teatro com intérpretes em LIBRAS. Contudo, com a proposta de reconhecer e valorizar os estudantes em sua própria língua, os 28 alunos que participaram da produção elaboraram e apresentaram a peça em LIBRAS. Os professores foram intérpretes para o português para a plateia ouvinte.

Para a construção do texto em LIBRAS são muitos os processos. Entre eles, adaptação do texto verbal em gestos. Posteriormente, contextualização das emoções, entrelinhas, sugestões e figuras de linguagem presentes no universo falado. O projeto envolveu estudantes, professores, familiares e parceiros da comunidade no processo. A peça se tornou importante ferramenta para fomentar a inclusão e a sociabilização dos alunos surdos. Assim, desenvolveu suas habilidades artísticas, de comunicação e de compreensão do mundo, que muitas vezes está distante.  “Ficou perceptível como o teatro fez deles um grupo mais coeso e com vontade de crescer intelectualmente e ampliar seu repertório cultural”, descreve a professora. Ela afirmou que o impacto foi tão grande que motivou os alunos do ano seguinte a seguir com o projeto.

“A volta ao mundo em 180 gestos”

Em 2017, o projeto teve sequência com a montagem e encenação de “A volta ao mundo em 180 gestos”. A iniciativa teve ainda maior produção autoral das meninas e meninos. Encenada em 22 de novembro no CEU Vila Atlântica, alunos da EMEBS apresentaram aos ouvintes de diversas escolas da região. Tratava-se de um enredo que discutia algumas das tradições de seis países ao redor do globo. Baseada na leitura da obra de “A volta ao mundo em 80 dias”, de Júlio Verne. Diferente da primeira, não foi traduzida e sim toda interpretada com gestos e linguagem corporal.

“A LIBRAS é a segunda língua mais falada do Brasil. É muito rica, mas ainda ignorada. Ao apresentar uma peça para pessoas da mesma faixa etária, buscamos iniciar a discussão sobre a cultura surda”, explica. “E o teatro é universal. Para meus alunos, é um empoderamento saber que, quando estão no palco, todos podem entendê-los ”, conclui.

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz