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Como cientistas brasileiros colonizaram o YouTube

A pesquisadora Aline Ghilardi, 31, é uma paleontóloga “que segue o estereótipo” da profissão. Ela busca entender como eram e como evoluíram os dinossauros, principalmente os que viviam no Brasil. Recentemente, recebeu ajuda de uma fonte incomum para localizar os restos de “arcossauros mesozoicos”, como estas criaturas são chamadas no jargão da paleontologia. Fãs do canal que ela mantém no YouTube a alertaram para a presença de ossadas em algumas cacimbas (que é como são chamados os reservatórios naturais d’água) no interior pernambucano.

Ela e o marido, o também paleontólogo Tito Aureliano, são responsáveis pelo Colecionadores de Ossos, um de vários canais do YouTube surgidos nos últimos anos e que fazem sucesso explorando um filão da divulgação de conhecimentos científicos. Um tema contra-intuitivo no mundo virtual, supostamente dominado por conteúdo banal ou apelativo.

Aline Ghilardi e Tito Aureliano
A paleontóloga Aline Ghilardi aproveita a pesquisa de campo para gravar os vídeos (Reprodução/YouTube)

É possível encontrar uma boa lista dos principais canais de ciência do YouTube brasileiro no ScienceVlogs Brasil, uma página surgida em 2015 e que funciona como um “selo de qualidade” para os canais desta temática.

Há conteúdos para todos os gostos. Nos canais, é possível aprender sobre assuntos tão diversos e complexos quanto cladística (um sistema adotado na biologia para classificar os seres vivos); o paradoxo de Fermi (sobre o contato com civilizações alienígenas); e buracos negros, entre outros.

Quem fala sobre o quê

Mas alguns atingem um público amplo. Entre os mais populares estão o Manual do Mundo (9,1 milhões de inscritos), o Nerdologia (1,8 milhão) e o Canal do Pirula (598 mil). Este último é batizado com o apelido do biólogo e doutor em zoologia pela USP Paulo Miranda Nascimento, que construiu sua audiência com vídeos longos sobre temas como evolução, meio ambiente, e religião.

Iberê Thenório e Mariana Fulfaro, do canal Manual do Mundo
Iberê Thenório e Mariana Fulfaro, do canal Manual do Mundo (Reprodução/Manual do Mundo)

Nos canais, é possível aprender sobre temas como astronomia e física (Space Today, Ciência Todo Dia, Primata Falante e o Ciência e Astronomia), biologia (Papo de Biólogo e Biologia Total) e até robótica (no canal Peixe Babel, da mineira Camila Laranjeira).

A divulgação científica é bem forte no YouTube fora do Brasil. Para quem tem um bom entendimento da língua inglesa, vale a pena olhar canais como o Veritasium, o SciShow e o SmarterEveryDay.

Nicho e super-nicho

“O YouTube tem canais de nicho, e tem os de super-nicho. O meu é de super-nicho. Tem mais de mil vídeos, e são todos de astronomia”, diz o geofísico e doutor em geociências Sérgio Sacani, 42, do canal SpaceToday, dedicado à astronomia.

Segundo ele, a maioria dos inscritos do canal é de jovens adultos, e não necessariamente crianças.

“Por exemplo, se eu postar um vídeo hoje às duas da tarde, ninguém assiste. O pessoal que acompanha o meu canal já sabe que eu posto geralmente à noite, e é um público mais velho. É um público que trabalha. Então, durante o dia, eles não estão em casa para assistir vídeo”, diz. Antes de criar um canal de YouTube, Sérgio mantinha um blog com o mesmo nome. Uma parte dos seguidores “migrou” para a plataforma de vídeos, diz Sacani, cujo trabalho “oficial” é com engenharia de petróleo.

O público também é mais velho no canal da paleontóloga Aline Ghirardi. A maior faixa de espectadores tem de 24 a 35 anos de idade, segundo ela.

“O YouTube pede para postarmos no começo da tarde, que é quando as crianças estão acessando o site. E hoje o maior público do YouTube é de crianças. Mas não necessariamente isso funciona para a gente da divulgação científica”, diz Pedro Loos, 21, responsável pelo canal Ciência Todo Dia, que tem 257 mil inscritos. Ele começou a gravar, editar e publicar os próprios materiais ainda muito jovem, com 14 anos de idade. Naquela época, os envios eram sobre jogos eletrônicos.

Loos está concluindo o curso de Física na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje, ele vive da renda gerada pelo canal e pretende manter o projeto depois de formado. Um dos vídeos mais populares do canal é sobre o paradoxo de Fermi, visto mais de 300 mil vezes.

Se o universo é tão antigo e vasto, é provável que existam várias civilizações alienígenas. Mas se é assim, porque é que nenhuma delas nunca fez contato conosco? Essa é a contradição batizada em homenagem ao físico Enrico Fermi (1901-1954), e que Loos aborda no vídeo.

Tecnologia e exatas

O designer Estevão Pessota, 29, costuma deixar a TV ligada no YouTube. O próprio mecanismo de sugestões do site cria uma “playlist” para ele com os últimos envios dos canais de ciência e tecnologia nos quais está inscrito. Ele conta que um dos primeiros canais a chamar a atenção foi o PressTube (cujo clássico são os vídeos de objetos sendo destruídos em uma prensa hidráulica). Depois, migrou para sites com mais substância.

Os canais “cabeçudos” não se resumem a páginas de ciências exatas, porém. O historiador e professor Davi Martins, por exemplo, usa o YouTube para acompanhar canais que tratam de psicologia (como o do psicanalista lacaniano e professor da USP Christian Dunker) e, claro, de história (como o Leitura ObrigaHistória).

“Há muita crítica na academia a alguns canais como o Nerdologia (que também trata de História). Mas os próprios acadêmicos da área raramente se propõem a fazer algo desse tipo”, diz Martins.

“Sempre teve demanda, é só um novo meio”

Para o biólogo Paulo Jubilut, 37, não é correto dizer que o público brasileiro estava “carente” de conteúdos científicos. “Na realidade as pessoas já consumiam isto. Tinham acesso à divulgação científica por meio de jornais, revistas, TV. O que a internet fez foi criar uma nova forma de acesso. As pessoas são curiosas por natureza. Quem descobrir uma forma de atingir essa curiosidade vai fazer sucesso”, diz ele.

Até 2011, Jubilut dava aulas de Biologia em um cursinho em Santa Catarina, onde mora. Acabou demitido depois de “brigar com uns alunos bagunceiros”, segundo diz. Hoje, é responsável por uma página no Facebook que tem 3,3 milhões de curtidas. O canal no YouTube está com 1,1 milhão de inscritos.

Professor Paulo Jubilut
(Reprodução/Youtube)

“Me tornei um produtor de conteúdo de Biologia. Hoje são 25 pessoas trabalhando no escritório”, conta ele, que oferece videoaulas da disciplina e também presta consultoria para empresas. Embora o canal não se restrinja ao conteúdo didático, Jubilut recebeu recentemente o selo do YouTube Educação (ou YouTubeEdu). Trata-se de uma espécie de “certificado” que o site fornece para alguns produtores de conteúdos educativos.

A partir desse novo modelo, surge também uma nova forma de ensinar. Especialmente para as escolas e dentro das salas de aula. Afinal, essa é uma ótima maneira de cativar os alunos, devido ao grande interesse dos jovens por esse formato. Ou seja, essa ferramenta tem um grande potencial para engajar os alunos, promover sentido na educação, despertar o interesse (inclusive científico) e ainda combater a evasão escolar.

Da prensa de Gutenberg a Carl Sagan

Se você era criança na década de 1990, é possível que se lembre do programa O Mundo de Beakman, que foi exibido no Brasil pela primeira vez de 1994 a 2002, pela TV Cultura. Na geração anterior, o astrônomo Carl Sagan fez sucesso com a série Cosmos. Co-produzida pela BBC, a série foi exibida no Brasil pela Rede Globo, em 1982. O ator Sílvio Navas dublava a voz de Sagan na versão brasileira.

Mas a história da divulgação científica é muito mais antiga: foi ainda nos séculos 16 e 17 que os cientistas começaram a abandonar o latim (a língua “oficial” da ciência da época) e passaram a publicar livros em línguas vernáculas (como inglês, italiano ou espanhol), que alcançavam um público mais amplo.

Considerado um dos pais do método científico, o astrônomo Galileu Galilei (1564-1642) foi também um dos primeiros a escrever um livro de ciência para leigos. A obra foi redigida em italiano e utilizava diálogos entre personagens para facilitar o entendimento.

Na década de 1740 o editor inglês John Newbery (1713-1767) já comercializava livros de divulgação científica voltados para crianças e adolescentes. Um deles chegou a vender 30 mil cópias, uma quantidade muito expressiva para a época.

Matéria publicada pela BBC Brasil.

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Professores youtubers: conheça os canais que democratizam a educação

Qual professor nunca se sentiu “trocado” pelos smartphones. E aquele que achou que o modelo de aulas tradicionais já estava falho para uma geração hiperconectada? Essa foi um pouco da história do  Jubilut, do Biologia Total, canal com mais de um milhão de inscritos. Paulo formou-se em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ele lecionou por dez anos em cursinhos e colégios, até perceber que algo estava errado. 

Abriu seu canal no Youtube como experimento e hoje o projeto conta com plataforma de estudos completa, com site próprio e cursos exclusivos, cujas mensalidades partem de R$ 17. Em entrevista para a Revista Galileu, ele conta: “Hoje somos uma empresa de 25 funcionários, fizemos vídeos na África para explicar sobre os animais de lá”, conta o edutuber (como são apelidados os youtubers de educação). 

Imagem do professor Jubilut, usando um jaleco branco e segurando um crânio, com um fundo azul e ao lado o texto "Extensivo medicina - Biologia para futuros médicos"

Estudantes também se beneficiam com professores youtubers

A maioria dos edutubers busca usar os canais para alavancar as próprias plataformas de ensino, Neles, os profissionais conseguem ganhar mais com o conteúdo. Eles lucram, e os estudantes gastam menos que em cursinhos convencionais. A revista Galileu contou que essa economia foi fundamental para Jhosen Congeta, de 27 anos. Ele cursa o primeiro ano de medicina na USP de Ribeirão Preto. Para chegar na universidade, conciliou o trabalho de vendas online e o cursinho.

A revista também identificou que Jhosen não é o único que gosta de estudar com auxílio da tecnologia. Segundo dados do YouTube, 65% dos usuários procuram a plataforma quando querem aprender. Todos os dias, conteúdos educativos têm 500 milhões de visualizações. São assistidos por quatro vezes mais tempo do que vídeos fofos de gatinhos.

 

Esse post é um resumo com alterações do Caindo no Brasil de matéria publicada pelos repórteres André Jorge de Oliveira e Giuliana Viggiano para a Revista Galileu, com o título “Professores youtubers: conheça os canais que democratizam a educação”. Clique no link para conferir a matéria original e completa.

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5 dicas para aprender Ciências na prática

Ciência em Show explica

Quer aprender Ciências na prática? Nos últimos anos, uma série de iniciativas surgiram para tornar mais interessante o ensino de Física, Química e Ciências. Áreas tão presentes no nosso cotidiano, quando vistas apenas como matérias curriculares perdem o encanto na maioria das vezes.

Por isso, selecionamos cinco dicas de iniciativas que trazem a educação científica de uma maneira mais interessante e com significado. Dentro de suas casas, gravando vídeos para o Youtube, ou em shows e palestras para centenas de pessoas, esses projetos mostram as ciências na prática de maneira simples e divertida:

Química Extrema

Talvez uma das melhores maneiras de aproximas o estudantes da área das Ciências é dando destaque para outros jovens mostrarem seu interesse. Felipe Resende criou o canal em 2013. A ideia foi exatamente para mostrar a Química no cotidiano, abordando o tema de maneira simples e acessível:

Manual do Mundo

Dicas para não morrer de frio em casa, construir gosmas psicodélicas ou até mesmo tingir formigas. Iberê Thenório compartilha diversas experiências, truques e dicas em que todos podem aprender sobre diversas áreas da ciência na prática. O Manual do Mundo é um dos principais canais de educação do Youtube, com quase 10 milhões de inscritos.

Peixe Babel

O nome Peixe Babel vem do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias. É uma espécie fictícia de peixe que ao ser colocado dentro do seu ouvido (ou melhor, no seu cérebro) te torna capaz de entender qualquer idioma. Assim como o Peixe Babel da ficção, esse canal é voltado para explicar de forma acessível temas de robótica, uma área pouco explorada na mídia e pouco entendida:

Ciência em Show

Três físicos formados pela USP ensinam Ciências, Física e Química a partir de questionamentos, teoria e muita prática. Os show desse trio são realmente ciência na prática, com muitos efeitos de experimentos que acontecem na frente dos alunos e público em geral. Confira o site oficial do projeto.

Ciência em Show com ciência na prática
Cientistas durante apresentação. Foto: Reprodução