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Na zona leste de SP, escola articula alunos e poder público para políticas de sustentabilidade

A EMEF Sebastião Francisco, o Negro não tinha a melhor reputação em seu bairro. A grande quantidade de lixo e entulho depositada nas calçadas da escola e o mau cheiro proveniente do descarte inadequado causavam má impressão entre os moradores da Cidade Líder, na zona leste de São Paulo, além de ameaçarem a saúde pública.

Para mudar esse quadro e a relação da escola com seu território, no início deste ano, professores e coordenação se uniram para criar o projeto “Vamos jogar limpo? O entorno escolar e o caminho para aprender juntos”. O projeto trabalha uma escola mais sustentável com os alunos e poder público.

A iniciativa começou com uma atividade simples de diagnóstico: uma visita com os alunos à calçada da escola. A proposta era que eles, muitos dos quais também jogavam lixo naquele espaço, identificassem sozinhos os problemas ali presentes, o que de fato aconteceu.

As dificuldades de acessibilidade, a falta de placas de trânsito e de faixa de pedestre também não passaram despercebidas. “Mas alguns alunos vivem em condições tão precárias que não identificavam nada errado. Para eles, o lixo e os buracos da calçada eram normais. Até não tão graves quanto os de suas vizinhanças”, conta Janaína da Silva Coelho, professora de Ciências e uma das responsáveis pelo projeto.

Alunos e Poder Público
A fachada da EMEF Sebastião Francisco, o Negro era ponto de acúmulo de lixo em seu bairro (Reprodução/Portal Aprendiz)

Os alunos então elencaram os problemas identificados durante a caminhada. Eles mapearam o entorno da escola e conversaram com o grupo de Educação Ambiental da EMEF. Nestes encontros, refletiram sobre como gostariam que fossem as calçadas e seu bairro. A localidade ainda tem poucos equipamentos públicos de lazer. A conclusão é que desejavam que as calçadas (e a rua) fossem espaços limpos, que permitissem o brincar e a convivência.

Enquanto os alunos eram impactados por essas primeiras ações, um outro grupo de professores se articulou para incidir nas instâncias de poder, isto é, cobrar ações dos vereadores e da Prefeitura Regional.

Essa segunda frente do projeto contou com a ajuda de Irene Quintáns, arquiteta da Rede Ocara, que auxiliou o processo de articulação. “Foi uma conversa que expandiu muito nossa visão. Não sabíamos, por exemplo, que há leis que especificam como deve ser o entorno da escola. Assim, nos munimos de informação e ampliamos nosso olhar. Entendemos que precisávamos olhar não só para a nossa calçada”, relembra a professora Janaína.

Desta maneira, o projeto ultrapassou o perímetro da escola e passou a agregar questões do bairro. “Na praça no fim da rua, havia um bueiro aberto que podia causar problemas a qualquer momento. Percebemos que aquilo também era problema nosso”, conta a professora.

“O que o poder público pode fazer por nós?”

Com essa nova perspectiva e um mapeamento do que estava sendo negligenciado, a equipe entrou em contato com a gestão pública. O prefeito regional Jacinto Reyes foi convidado a caminhar pela calçada, assim como fizeram os alunos meses antes, e também pelos quarteirões e praças próximas. Os próprios alunos ficaram responsáveis por apresentar os principais problemas ao gestor.

Como resposta, veio a promessa de incluir a EMEF Sebastião Francisco, o Negro em um mutirão, ainda sem data. Até o momento, as mudanças concretas foram o fechamento do bueiro e a implantação de placas sobre a proibição de jogar lixo na calçada da escola.

Alunos e Poder Público
Alunos da EMEF Sebastião Francisco, o Negro, em caminhada para identificar os problemas das calçadas no entorno da escola (Reprodução/Portal Aprendiz)

Internalizar mudanças

Placas pouco adiantariam, no entanto, sem um diálogo mais profundo com os moradores do bairro. Era necessário entender o porquê do descarte inadequado e conscientizá-los de seus malefícios. Para isso, os alunos, acompanhados dos professores, bateram de porta em porta para conversar com os vizinhos. “Nessa etapa, ficou nítido que o hábito de jogar lixo na lixeira em frente a escola estava internalizado, eles acreditavam que era uma lixeira pública”, conta Janaína.

Foi preciso esclarecer então que cada morador deveria deixar seu lixo em sua própria calçada até o momento da coleta, realizada pela Prefeitura três vezes por semana, às 24h. “Então percebemos que o horário era um obstáculo para muitos deles que, para garantir que o lixo seria recolhido, deixavam na frente da escola. É mais uma demanda a se conversar com a Prefeitura, porque o atual sistema de coleta não condiz com a rotina dos moradores”, ressalta a professora.

O problema inicial ainda não foi resolvido por completo, mas a educadora garante que a situação já avançou. Além das contribuições da Prefeitura Regional, a EMEF também tomou a atitude de trancar sua lixeira com cadeado, abrindo somente nos dias de coleta, e de separar os papelões para os catadores, que antes reviravam a lixeira para realizar essa tarefa. A equipe quer ainda comprar bancos para a calçada. Assim, pode tornar o espaço mais amigável e estimular a convivência.

Para Janaina Silva Coelho, o projeto fez com que a relação entre moradores e escola melhorasse. “Quando o vizinho vê que o lixo diminuiu, ele entende que aquilo também é mérito dele. É importante empoderar a comunidade e informá-la sobre seus direitos. O horário da coleta é ruim? Então vamos falar com os gestores para mudar.”

Agir no bairro

Além disso, as mudanças já ocorridas evidenciam a importância das parcerias firmadas ao longo do “Vamos jogar limpo?”. Para a equipe responsável, articular diferentes agentes preocupados com o mesmo objetivo é um dos principais legados do projeto.

“Ainda estamos em um processo inicial de posicionar a escola como um agente de mudança no bairro todo, mas é o nosso sonho”, conta Janaína. “Colocar o lixo para fora de casa não faz com que deixe de ser um problema. A maneira com que lidamos com o lixo reflete a maneira que tratamos o planeta”, acrescenta.

Alunos e Poder Público
No projeto “Vamos jogar limpo?” os alunos caminharam pelas calçadas, mapearam os problemas e projetaram o bairro dos sonhos (Reprodução/Portal Aprendiz)

Territórios Educativos

O projeto “Vamos jogar limpo? O entorno escolar e o caminho para aprender juntos”  foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio.

O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que explorem as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida. Ele integra saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo e de diversos tipos de unidades escolares. Confira os outros projetos vencedores.

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz

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Volta ao mundo sozinha em benefício da Educação e da Sustentabilidade no Brasil

Ecovilas
Vanessa Tenório na Croácia, onde ela atuou como voluntária em duas ecovilas e visitou uma creche (Reprodução/Voe Nessa)

Cinco anos visitando todos os continentes do mundo, com o objetivo de juntar informações, conhecimento e experiências sobre educação e sustentabilidade. E depois disso tudo? Abrir uma escola brasileira com todas essas inspirações colhidas.

Esse é o plano – que já está sendo executado – de Vanessa Tenório. Ela trabalhou por 22 anos no mundo corporativo e decidiu realmente fazer algo que a completava. Ela quer entender como que o mundo pode melhorar, e colocar isso em prática.

Vanessa conquistou sua independência desde cedo. Começou a trabalhar com 15 anos, se casou aos 18 e se divorciou aos 25. Após todos esses acontecimentos, ela viajou sozinha por 10 anos durante suas férias por toda América do Sul. No entanto, quando voltava para a sua rotina normal, sentia um vazio.

“Então, comecei um processo de auto-conhecimento muito profundo”, afirma Vanessa. “Nesse processo, voltei para o meu primeiro curso de graduação, que foi Letras. Eu atuei um ano e meio como funcionária pública, mas vi que não tinha forças para transformar a educação como quero hoje”.

Depois desse período, ela teve uma motivação principal que despertou a vontade de pôr em prática seu projeto: fazer algo transformador no mundo, especialmente para as pessoas que não têm condições financeiras para pagar uma boa educação.

Apesar de todos os questionamentos, da insegurança de largar um emprego estável, de deixar a sua família no Brasil e outros obstáculos, Vanessa entendeu que ela precisava priorizar o que gostaria de viver.

Entre dificuldades e descobertas

Ecovilas
Vanessa na Dinamarca, na ecovila Friland, onde ela colaborou com um projeto de construção natural durante seis dias (Reprodução/Voe Nessa)

Vanessa seguiu seu plano e já está viajando há 8 meses. Ela desenvolveu um breve planejamento inicial, mas tudo é feito de acordo com a sua vivência e experiências. “A maior dificuldade é quando eu faço a mudança”, conta Vanessa. “Tenho que me adaptar às novas regras do local, cultura, pessoas e lugar. Eu levo uns dois ou três dias de adaptação, e a minha média por país tem sido um mês e meio”.

Além disso, pontes para próximas hospedagens são fundamentais para a viagem. “Meu orçamento é de 20 euros por dia. Mas meu maior custo é com transporte, porque as ecovilas dão roupas de acordo com a estação e me ajudam muito”.

O ponto inicial da viagem foi a Conferência de Ecovilas da Europa, onde ela poderia fazer muitas conexões positivas para o projeto. De março até julho de 2017, época em que aconteceu o evento, Vanessa ficou entre Portugal e Espanha, e conheceu mais de 20 projetos nesse tempo. Na conferência, haviam 650 participantes, o que abriu portas significativas para a sua experiência.

Observadora e participante

Quando Vanessa começa a fazer parte de uma ecovila, há alguns pontos que ela tenta observar com mais clareza. “Tento identificar como os princípios da permacultura são implementados de maneira sustentável e, como também sou colaboradora voluntária, já fiz de tudo”.

Apesar de conhecer inúmeros projetos inspiradores, Vanessa conta que muitas ecovilas ainda não são realmente uma comunidade. “Ainda vi muito individualismo predominando. Algumas pessoas queriam apenas um lugar para ficar no campo, em paz, em casas ecológicas, mas o espírito de comunidade – onde eles celebram junto, com acordos coletivos e boa convivência – ainda não existe. Muitas das ecovilas ainda estão visando lucro e estão dentro do sistema”, ela conta. “Eu saí de um sistema totalmente insatisfeita, e não quero entrar em um novo sistema assim. Quando percebo que não me sinto bem naquele ambiente, que não me sinto confortável, eu saio do lugar”.

Voltar para o Brasil para criar uma escola

Algumas experiências não são tão positivas, mas desistir não é uma opção. “As interações são muito importantes. Conheci muitos projetos que me incentivam, mas a minha maior motivação são as crianças”, ela conta. O foco dela, quando voltar para o Brasil, será o de criar uma filial da Cidade Escola Ayni no Rio de Janeiro.

Além disso, para colher mais informações e se aprofundar no assunto, durante esses dois anos de autoconhecimento antes da sua jornada, Vanessa visitou muitos lugares no Brasil. Ela fez o Gaia em Terra Una, em Minas, e também foi para o festival Gaia 10 anos, em Brasília. Lá, haviam ecovilas de todo o Brasil. “Muita gente que conheci nas ecovilas pelo mundo foi estudar no Brasil”, disse Vanessa. “A primeira delas que conheci, na Espanha, viajou para a América Latina para conhecer mais ecovilas. Aqui na Europa, existe muito a parte técnica. Na América do Sul, eles encontraram a parte natural, que veio dos nossos ancestrais”.

Brasil é referência mundial

Vanessa conta também que o Brasil é uma grande referência mundial, e ela encontrou muito projetos durante a sua jornada que aprenderam com práticas brasileiras. “Na minha primeira experiência com educação, por exemplo, que aconteceu em Portugal, eu vi o Pacheco apresentando um projeto brasileiro, o Âncora.”

Seu objetivo com essa escola é inspirar as pessoas a viverem de uma forma diferente, de uma forma mais natural e sustentável, e, segundo ela, “a melhor maneira de conseguir essa transformação é através da educação”.