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O jovem como protagonista das mudanças em sala de aula

Fotografia de aproximadamente 25 jovens sentados no chão e em poltronas reunidos em grupo. No centro deles já uma mentora conversando com a turma.
Fotografia de aproximadamente 25 jovens sentados no chão e em poltronas reunidos em grupo. No centro deles já uma mentora conversando com a turma.
Alunos participam do jogo “Se Vira” em que lidam com situações hipotéticas para exercitar o empreendedorismo (Reprodução/Revista Galileu – FOTO: MARCO SOBRAL/G.LAB)

Os jovens que estão conscientes do poder das suas vozes podem fazer uma grande diferença para impactar positivamente a sociedade. Eles precisam de atitude, empoderamento e da certeza que ideias inovadoras e empreendedoras são inspiradoras para um futuro promissor. Foi assim que os alunos das escolas onde a Fundação Telefônica Vivo promove o projeto ‘Pense Grande’ compartilharam as suas opiniões e experiências de protagonismo durante a 5ª edição do Educação 360 Jovem. O evento é uma realização de O GLOBO e Extra que aconteceu em maio, no Rio de Janeiro.

LEIA MAIS: Canal no Youtube Looking 4 Heroes aborda protagonismo do aluno e celular em sala de aula

O programa tem como meta capacitar jovens para serem protagonistas de suas escolhas futuras. Para isso, a iniciativa é apoiada em três pilares: empreendedorismo, tecnologia e comunidade. O projeto é facultativo nas escolas atendidas, e os alunos têm carga horária de 60 horas a cumprir. A partir da identificação da aspiração do jovem, ele começa a construir a ideia e transformá-la em produto ou serviço, recebendo orientações de um mentor na escola.

A sala de aula e a realidade dos jovens

Durante o evento Educação 360 Jovem, os estudantes trocaram ideias e falaram sobre suas experiências com o projeto. Eles falaram, principalmente, sobre a importância das aulas serem alinhadas à realidade e ao interesse dos jovens. Em um dos painéis, participaram Marcus Vinicius Oliveira de Souza, de 16 anos, da ETEC de Pirituba, São Paulo. “Do contrário, passamos a estudar por obrigação e não pela paixão, o que interfere no desempenho”, defendeu Marcus.

LEIA TAMBÉM: Livro reúne metodologias baseadas no protagonismo dos estudantes

Houve também a participação de Tamires de Jesus Costa, 17 anos, do Colégio Estadual Norma Ribeiro, Salvador (BA).A estudante Tamires deu um bom exemplo do que acontece em sua escola. A professora de inglês usa a tecnologia para despertar o interesse dos alunos. “Ela nos dá temas para produzirmos curtas-metragens com o celular. Assim, conseguimos aprender com mais facilidade o idioma, sem abrir mão de uma ferramenta tão presente na nossa vida”.

Durante os intervalos do Educação 360 Jovem, foram realizadas oficinas do jogo ‘Se Vira’. Elas fazem parte do ‘Pense Grande’ e buscava despertar nos participantes atitudes empreendedoras. A Fundação disponibiliza gratuitamente a metodologia do projeto que dá dicas que despertam os jovens e educadores para o tema do empreendedorismo e para tirarem do papel suas ideias e projetos.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Quando o jovem é protagonista da mudança em sala de aula“, da reporter XXX para a Revista Educação. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Usar as palavras como ferramenta

Cena 1. Algum dia não registrado de abril. Talvez final de março. Segundo horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Não preciso esclarecer que Elias tem dificuldades na escrita e leitura. Diante do caos, eu dialogo. Peço pra ele olhar nos meus olhos. Ele desvia. Quando der o sinal você não sai, Elias. A gente vai ter uma conversa. O sino toca. Elias corre. Professora, o Elias fugiu! Pega ele, Rafael! Não. Deixa quieto.

Cena 2. Volta do intervalo.

Elias entra na sala empurrando os colegas. Senta na carteira e encontra minha carta colada com uma fita crepe em cima do seu caderno. Eu observo tudo pela fresta da porta, sem ser notada.

Elias, você pode até fugir de mim mas saiba que eu nunca vou desistir de você. Eu acredito em você. Sei do seu potencial. Com amor, professora Madu.

Elias sorri no canto de boca. Olha pros lados pra confirmar que ninguém viu aquele episódio. Guarda a carta na mochila e volta a fazer pose de bagunceiro. Eu sorrio sozinha e continuo meu caminho pelo corredor até chegar na sala do 7°G.

Cena 3. 11 de setembro de 2017. Quarto horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Eu continuo atendendo os alunos, carteira por carteira. Passo pelo Elias, abaixo e digo olhando em seus olhos: você pode ficar aqui quando der o sinal? É rapidinho, quero te mostrar uma coisa. Ele acena que sim com a cabeça baixa.

Cena 4. Fim da aula/dia.

Elias, eu poderia te levar até a coordenação. Poderia te dar uma advertência e você sabe os motivos, eu não preciso falar. Mas eu quero escrever uma carta de comprometimento junto com você. Pode ser?

Pode.

Ele responde baixinho. Em um tom de voz que eu desconhecia. Sua voz é mais doce do que eu imaginava.

Redigimos juntos a carta no meu caderno.

A partir de hoje, Elias se compromete com seus estudos. Ele será um aluno responsável com seu aprendizado. Ele fará as atividades em sala, mostrando todo seu potencial.

Professora, mas eu não vou conseguir. Eu não me acho capaz.

Você é.

Cena 5. Usar as palavras como ferramenta

Usar as palavras como ferramenta
Ilustração: Maria Barge

13 de setembro de 2017. Primeiro horário no 7°F. Luiza vem correndo afobada balançando um papel.

Calma, Luiza. Não precisa correr assim. A professora vai passar em todos os grupos para orientar a produção dos panfletos da campanha. Espere que a vez do seu grupo já vai chegar.

Mas professora, a senhora precisa ver isso. Olha o texto que o Elias escreveu pra colocar no panfleto. Ele escreveu sozinho, disse que foi da cabeça dele.

“Usar as palavras como ferramenta. Lutar para acabar com o preconceito em todo o brasil”

Eu li e logo pensei que os verbos não estavam no modo imperativo, conforme havia orientado no roteiro da aula. O “B” do Brasil estava minúsculo.

Afastei esse pensamento e olhei pra Luiza que sorria olhando pra Elias que sorria olhando pra mim.

Usar e lutar no infinitivo do universo de Elias. O brasil em expansão para a maiúscula imaginação criativa do menino que duvidava da sua própria capacidade.

Fui até a carteira de Elias e dei um beijo em sua testa pequena. Sentei ao lado dele e juntos fizemos as mudanças necessárias para que a frase estivesse dentro do formato do gênero textual em estudo. Ele compreendeu.

Não se esqueçam de colocar a frase de Elias entre aspas com o nome dele logo abaixo.

Meu nome vai aparecer no panfleto, professora?

Lógico! A frase é tua! A palavra é a tua ferramenta.

Cena 6. 39 graus. Meu quarto é quase meio dia. Quase hora de ir pra escola.

Sentada na janela, fecho os olhos para reviver a lembrança. Sinto uma gota de suor deslizar lentamente da dobra do meu joelho até meu tornozelo esquerdo. Junto escorre uma gota de mar que desagua em minha boca. Abro os olhos pro mundo. Mesmo sem óculos beijo mais cores no meu quintal. Suspiro e faço minha citação do dia:

A palavra é minha ferramenta.

Confira mais relatos de Madu aqui.

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Professor da zona rural conta como levou 50 alunos para a livraria pela primeira vez

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“Será possível encontrar satisfação profissional em uma área em crise?” Dos meus 5 anos como professor, 4 foram embalados por esse questionamento. Depois de ter abandonado dois empregos promissores para trabalhar em escolas públicas, eu chegava a um grau elevado de desmotivação que me levava a uma conclusão negativa passa tal questão. Colecionei fracassos. Convivi com a indiferença dos meus alunos e me senti de pés e mãos atadas pela falta de estrutura. Me vi, então, diante da saída cada vez mais comum entre professores, desistir da carreira. E foi no auge desse marasmo que um universo novo se abriu diante de mim e dos meus alunos.”

Sou professor em uma escola de tempo integral na zona rural de Goiânia, a Escola Municipal José Carlos Pimenta. São cerca de 100 alunos do 1º ao 9º organizados em 5 turmas multisseriadas. Devido a essa organização, alguns professores respondem por 2 disciplinas, como é o meu caso. Ministro aulas de Língua Portuguesa e Inglesa do 4º ao 9º ano. As turmas são pequenas, uma grande vantagem. Mas dar aulas para duas turmas ao mesmo tempo é um grande dificultador, o isolamento cultural, geográfico e social, idem.

Tiago Iorc para ensinar inglês

Trabalhar com um público tão específico em um lugar tão singular, exigiu muito de mim, e por muito tempo eu não consegui estar à altura. Lembro-me do desafio de ensinar Língua Inglesa a uma turma de 4º e 5º anos. Como ensinar uma língua estrangeira a alunos de no máximo 10 anos oriundos de uma realidade rural e que, muitas vezes, não conhecem se quer o centro da cidade em que moram! Depois de meses de aulas desperdiçadas, resolvi apresentar as músicas do Tiago Iorc a eles. Enquanto escrevia algo no quadro, deixava o som tocando as músicas em inglês, aos poucos eles começavam a cantarolar e, interessados em aprender a letra, as aulas passaram a ter uma razão de ser. Desse detalhe simples, o estudo de Língua Inglesa tornou-se o momento mais aguardado.

Essa primeira experiência de sucesso me deu o indício de um novo caminho a seguir, um ensino baseado em experiências. Ainda em 2015, levamos os alunos do 8º e 9º anos a recuperar notas e desempenho de leitura no último semestre com um projeto de leitura. Em uma avaliação diagnóstica, em um nível máximo de desmotivação, eles recusaram-se a responder as questões, resultando uma nota média de 1,5 entre cerca de 30 alunos.

Literatura para expandir fronteiras

Mesmo com o sucesso das aulas de Língua Inglesa, confesso que presenciar o fracasso dessa avaliação foi um baque decisivo, então desisti da escola pública e decidi retornar à carreira de professor universitário. Consegui um trabalho em uma universidade em Trinad&Tobago e criei um projeto para contar histórias de personagens que conhecesse durante esse período morando fora.

Mas antes de sair efetivamente da escola, precisei fazer algo por meus alunos para tratar os problemas que a tal avaliação evidenciou. Reconheci que a questão, nesse caso específico, era mais desmotivação que falta de conhecimento, escolhi um livro para me ajudar na tarefa de reconquistá-los para o processo de ensino, a biografia de Malala Yousefzai.

Posteriormente avaliados, os alunos saíram do 1,5 para uma média de 8,5. Extremamente motivados, eles ainda realizaram uma campanha que arrecadou dinheiro para a fundação Malala.

Apoio de uma rede global

Fazendo uso da rede de pessoas que foi sendo criada em torno do meu canal, o looking4heroes.org, em 2016 criei o projeto de leitura Alimente Heróis Com Livros, obedecendo ao princípio de aprendizado construído e permeado por experiências marcantes para os alunos. Foram 50 crianças pela primeira vez em uma livraria adquirindo seus próprios livros, com esse projeto, fomos premiados em um concurso nacional de incentivo à leitura.

“Mais uma turminha interagindo, em Inglês, com a Queenie, direto da Austrália. “Professor, eu preciso aprender inglês para falar com a Queenie na semana que vem”. Acho que funcionou! :)”. Confira o relato da experiência e uma ferramenta prática aqui.

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“Mais uma turminha interagindo, em Inglês, com a Queenie, direto da Austrália. “Professor, eu preciso aprender inglês para falar com a Queenie na semana que vem”. Acho que funcionou! :)”

Foi assim que saí da desilusão para a satisfação. Atualmente, alimento canais na internet com minha caminhada na educação. Colocar meu trabalho em uma vitrine me dá força pessoal e institucional. Isso aumenta minhas possibilidades e me ajuda a ter mais credibilidade. Muitos projetos demandam contribuições, financeira, inclusive.

Através dos canais do Looking 4 Heroes eu tenho conquistado a ajudas. Em 2017 pretendo levar intercambistas para me ajudar nas aulas de Língua Inglesa. Também quero que eles fiquem hospedados nas casas dos meus alunos. Para isso quero organizar uma campanha de financiamento coletivo, meu trabalho exposto na internet ajuda nesse sentido.

Meu desafio para o novo ano é inovar mais e contar minhas histórias como professor a mais pessoas. Penso que o que tem me inspirado pode inspirar outros. Quero dar palestras para ampliar minha rede de apoio aos meus projetos e discutir educação sob a ótica da sala de aula. Fala-se muito sobre educação, mas quase nunca o professor tem voz. O professor lá de dentro da escola precisa ser ouvido, normalmente são outros que falam por nós.

O que é ser professor em uma escola rural

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Ser professor em uma escola pública rural é muito desafiador. Tanto que muitos profissionais sucumbem a esse ambiente hostil e desistem de ser relevantes. A organização ineficiente, a estrutura precária e o currículo são outros desafios. Inovar preso a um modelo tradicional, para não dizer ultrapassado, exige muito. No entanto, tenho sorte de fazer parte de um time que escolheu preparar o campo pra mim.

Inovar está nas mãos do professor

Professores, coordenação e direção não medem esforços para me deixar à vontade e com o mínimo de espaço para criar e experimentar. Em um ambiente como o nosso, se cada um não sair dos limites básicos de suas funções, nos tornamos meros repetidores e os resultados não chegam. A qualidade que se encontra em escolas públicas pelo Brasil é a custo de profissionais que, individualmente, decidiram pagar o preço. Eu e meus colegas da Escola Municipal José Carlos Pimenta decidimos arcar com esse custo, isso nos trás satisfação.   

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Professor, me olhe nos olhos

por Liz Dórea

Mamãe, dentre outros segredos, já foi pedagoga. Nunca falou palavra sobre a faculdade. Provavelmente, suspeito, porque aprendeu o que é ensinar sujando as botas no barro da vida concreta. Minha mãe é filha da multidão, amante do céu aberto, gente com gente demais dentro de si. É como existência que não sacia e precisa sentir o calor que só um sussurro no pé do ouvido abrasa. Por isso, não me espanto que tenha largado os artigos acadêmicos e metido o corpo no mundo. Mas mesmo a alma mais braba sentiria as pernas bambearem diante dum quadro negro cravado numa parede de pau-a-pique, empesteado pelas partículas de areia cuspidas pelo chão batido.

Ainda assim, no miolo do agreste baiano, onde deus parece ter se esquecido das vidas que ali pelejavam pra sobreviver, minha mãe acreditava, até a medula dos ossos, no tento de ensinar. Talvez educação seja ainda sua razão de estar no mundo. Mas quando a maior dúvida dum estudante é saber se vai ter o que comer na janta, educador nenhum tem o privilégio de arrebitar o nariz.

Tampouco força, menos ainda recurso. Numa escola agrária dum município paupérrimo, quem prepara a aula é a pedagogia da miséria. A pedagogia da violência doméstica; do alcoolismo, do trauma, da fome. Então, a professora baixa a cabeça e olha com respeito pr’aquele corpo desnutrido e guerreiro, porque dar vida à educação onde a própria vida é um fiapo dói. E nunca deixou de doer.

Amanhã, se a memória cair nos pensamentos de mamãe, aposto a alma que seus olhos vão aguar. Não à toa, tive donde puxar o hábito do choro incontido. Mas, assim como eu, ela reconheceu que seus ombros não suportariam o mundo. E não suportaram. A escola do sertão virou memória política e eu zarpei de casa pra estudar em São Paulo. Alguns anos galoparam desde lá. Mas nunca vou me esquecer do que ela ainda me disse antes de partir: empatia, Lica. Aquelas crianças iam pra escola pela merenda. Escola era pra sobreviver. E eu, gozando de toda a condição material do mundo, fui embora, com a garganta seca de engolir.

Diante de mim, desterrada e pequena, a Universidade. Sentei em suas cadeiras (que em minha utopia Hollywoodiana seriam poltronas num anfiteatro) e esperei o momento de olhar nos olhos daqueles homens e daquelas mulheres que galgaram o professorado na mais abastada instituição de ensino da A m é r i c a Latina. O instante não chegou. No fim do segundo ano de graduação, não espero mais. Já sigo feito uma lâmpada queimada: de olhar defunto e com a consciência de que ninguém, lá do alto do ofício, percebeu que um dia ele cintilou.

Daí, daquele ano em diante, me fiz apática e impenetrável tal qual todos os excelentíssimos professores doutores defronte de mim. Não levem a mal meu instinto; mas é que sobrevivo num regime de redução de danos. Foi preciso descolar meu peito do corpo pra não espumar. Pra não endoidecer com a total ausência de sentimento da educação universitária. Eu, você e eles. Nada, senão, caixas-pretas assertivas, com grande potencial de armazenamento.

Poderia ser diferente?

Estou exigindo demais? Não, não quero que saiba meu nome, professor. Quero que me olhe nos olhos. Quero que me enxergue como mulher, de carne, osso, paixão, dor e história. Quero que me escute declamar Cecília. Percebo seu rosto triste e magro, seu lábio amargo, suas retinas vazias e indago: em que espelho ficou perdida a sua face? Eu me interesso pela resposta. Porque todos temos dias ruins. Dias pra querer atear fogo no mundo ou dormir por dois anos. Então, me perdoe, mas às vezes o insight genial dum filósofo do século passado cujo nome não sei pronunciar pouco me emociona naquele momento.

Lá fora, pr’além das paredes anêmicas da sala de aula, existe uma vida, real e honesta, pra me ouriçar os pelos. precisamos, nós, ombro a ombro, acolher o arrepio. Aprender a deixar o sangue quente pulsar. Deixar que escorra pelos poros, que inunde a boca, que salte aos olhos. Deixar sentir. E entender que, eu e você, podemos sangrar. Empatia é isso, diria mamãe. Mas quem sou eu pra lhes ensinar alguma coisa? Deixo essa tarefa pra vida. Por enquanto, isso aqui é só mais uma opinião apaixonada, professor. Nada, senão, a confissão melancólica de quem descobriu, ainda na fibra da infância, que empatia não acha lugar nem no peito, quem dirá num Lattes.

Ilustração de Natalie Majolo. Originalmente publicado no Jornal do Campus, jornal produzido pelos alunos de Jornalismo da USP. 

Liz Dórea é baiana incurável, exilou-se na terra-da-garoa pra estudar jornalismo, já que nada sabe na vida, senão, palavrear. Faz verbo e fotografia como quem pudesse esquecer a saudade de casa. Mas, sabendo que falha, aceita o inverno, a melancolia e a gastrite de café porque não pode, sozinha, dinamitar a ilha de Manhattan.

Confira mais relatos sobre educação e sala de aula no Entrelinhas e Laços.

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Simpósio: Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade

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Hiperatividade na escola?

A ONG Sonhos que Constróem o Futuro promoverá um simpósio no próximo dia 7/4. Nele, aboradará temas como transtorno, tratamento, ritalina e a “robotização” das crianças. O encontro contará com recomendações sobre conduta e orientações psicológicas para pais e educadores, intervenção psicológica entre outros. Os aprendizados serão debatidos e compartilhados pelas doutoras Dra. Lilian Buniak e Dra. Marina Toscano.

Saiba mais na página do evento.

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Química também é espaço de reflexão

Relato de Gabriel Barbieri, professor de Química que quis compartilhar suas experiências conosco. Tem uma história para contar? Manda pra gente que ela pode ser publicada aqui.

Dando aula de química – sempre ao lado de professores de historia, geografia e outras ciências ditas “humanas” (como se houvesse alguma ciência acima do humano ou fora dele) – e ouvindo conversas de alunos sobre como o que viviam tinha reflexo nas aulas desses professores (e seus conteúdos) fiquei com a pulga atrás da orelha. “Será que isso poderia acontecer com as ciências ditas “exatas” ?

Como trazer uma molécula, um conhecimento, pra perto de um aluno? O que fazer para que a química e as outras ciências estejam presentes no processo de descobrimento e compreensão desse mundo que esta em constante transformação? Quem passou por um curso desta área sabe que uma das primeiras coisas que se aprende é a inexatidão das experiências.

Aulas de Historia são reflexões sobre a vida, sobre os valores que um “eu” traz e se percebe dia a dia. E quando se chega nas aulas de química, o que há? Teorias… teorias para explicar “quem é” o mundo, “como” ele funciona. Explicamos química orgânica falando de industria de tinta, de compostos tóxicos que nunca – e esperamos que nunca mesmo – teremos contato.

As ciências exatas poderiam ser um espaço de reflexão?

Busquei enxergar o mundo político, econômico, social. Percebi que a química – assim como as outras ciências – é fruto de homens de um momento histórico, de suas necessidades e buscas por saná-las, além de outras questões. Se na historia compreendemos o homem de seu tempo e lugar – Antiguidade, medievo, contemporaneidade, Ocidente, Roma, Grécia, França, Inglaterra – as moléculas, as explicações, as teorias cientificas surgiram e passaram a ser aceitas também a partir de um momento, perguntas, buscas e possibilidades de respostas de um período.

Faz mais sentido uma molécula existir quando entendo que os catalisadores surgem para atender uma demanda da indústria têxtil, que começa a se desenvolver e ganhar importância econômica. E que isso também está relacionado à centralização do poder, à unificação e formação de um Estado, por exemplo. Dessa necessidade consigo entender o surgimento de compostos tão distantes da minha realidade.

Entender a historia do surgimento de determinada teoria nos faz compreender porque tal conhecimento e tais descobertas foram importantes a ponto de estarem no currículo escolar. O conhecimento é produzido de acordo com um momento. Isso é feito a partir de todos os conhecimentos validados até ali e das necessidades que esse mundo sentem.

Assim, tiramos a ideia que muitos alunos têm da ciência como algo mágico, um milagre, uma espécie de mito do passado que devemos cultuar. O conhecimento está relacionado a uma série de fatores do mundo que o cientista faz parte (cultura, religião, política etc.), ele não é tão inocentemente livre como pregam os livros, que inúmeras vezes criam grandes heróis, quando, na verdade, o que houve foram discussões, debates, teorias divergentes para que se chegasse ate ali.

A conservação de alimentos que descobriu o Brasil

A primeira experiência que tive nesse sentido foi em uma aula sobre pressão osmótica e descobrimento do Brasil. Expliquei a importância do sal para os colonizadores da época: devido às características do processo de osmose – em que o solvente vai de uma solução menos concentrada para uma mais concentrada – não haveria a reprodução de bactérias nos alimentos devido à ausência de água.

O mundo é complexo, não adianta mais separar as ciências que falam de nós e nossos processos, e as ciências que falam de nossas técnicas. A ciência é onipresente, assim como as questões morais e sociais. Acredito que seja hora de pararmos de fingir que somos cartesianos, racionais ou passionais apenas. Precisamos buscar algo mais próximo do que diz Humberto Gessinger na canção “Esportes radicais” da banda Engenheiros do Hawaii: Sentir com inteligência / Pensar com emoção!

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O dia em que Gabriela deixou Rosalina

Essa coisa de identidade sempre me intrigou muito. Por acreditar que os nomes e apelidos carregam facetas da nossa múltipla identidade, pedi, logo no primeiro dia de aula, para que cada aluno me escrevesse como queria ser chamado.

– “Como assim, professora, eu não entendi. ”

– “Seu nome é João Lucas, certo? Como você quer que eu te chame? De João? Luquinhas? Como você gosta de ser chamado?”.

Eles me olhavam sorrindo. Muitos alunos têm nome composto. Eu, que sou a “Maria mais a Eduarda”, já fui Duda na infância, Maria nas andanças e Madu na sala de aula, sei bem como é isso de ter muitos nomes e de ter suas próprias preferências.

Sentada na minha cama pouco dormida, segurando as folhas que voavam por conta do ventilador ligado no máximo, me diverti e me emocionei lendo as respostas. Eu amo ler meus alunos (apesar do trabalho que dá ler o que 120 pessoinhas escrevem).  Além do nome pelo qual queria ser chamado eu pedi também pra que eles me contassem seus maiores sonhos e me falassem de pessoas inspiradoras.

– “Minha mãe que trabalha e cuida de casa”

– “Meu sonho é conhecer São Paulo”

– “Meu sonho é ter a casa própria”

– “Meu sonho é ser rica”

No meio de tantas reflexões sobre a vida dessas crianças, planejamentos de aula: 40 horas semanais de trabalho que se estendem algumas noites a fio acabei por não priorizar a organização de uma planilha com os nomes que os meus alunos escreveram. A ideia era fazer a lista de chamada pelos nomes que cada um gostaria de ser chamado. Ser professora é aprender todo dia a lidar com as frustrações e a deixar de lado a auto cobrança.

Aquela menina quietinha, fora dos padrões estampados nas revistas de moda e beleza, isolada sempre no canto direito da sala, na sombra que o sol da tarde faz na janela, se chama Rosalina Gabriela. Duas semanas de aula rolando e eu chamando ela de Rosalina. Eu chamava ela sempre, porque sabia que ela sabia as respostas e porque ela tinha que saber que eu sabia. Três semanas passaram e eu fui guardar uma redação dela no portfólio quando me deparo com o papel que ela me entregou com as respostas do primeiro dia de aula. “Quero ser chamada de Gabriela”. Fiquei relembrando todas as vezes que me referi a Gabriela como Rosalina. Errei.

Segunda-feira brava, sol cuiabano a pino, últimas aulas do dia. Entrei no 7°E com frio na barriga. Uma vez uma professora me disse que quando a gente tem frio na barriga quer dizer que a gente se preocupa com o nosso público, que a gente tem respeito por ele. Gosto dessa definição.

Pedi pros alunos formarem grupos de três pessoas. “Você não vai escolher os grupos hoje, professora?” “Hoje não, pode juntar com quem vocês quiserem”. Quando falei isso já engoli uma preocupação: os alunos mais recatados. A Gabriela. Virei pra classe e disse: “Antes de juntar as carteiras eu vou entregar os portfólios com as redações corrigidas, vocês vão precisar delas pra fazer a atividade de hoje”.

Fui entregando, chamando nome por nome. Aline… João… Mari… Gabriela! Ela me brilhou. Sorri em resposta e continuei chamando outros alunos no mesmo ritmo. Lembro de ouvir alguém interrogando: “Gabriela?” “Sim, é meu segundo nome”. É teu primeiro, mulher! Pensei sozinha.

Gabriela fez grupo com Rafael e Caíque. Eu nunca tinha visto Gabriela conversar com nenhum dos dois. Caíque, inclusive, é da turma que olha pra janela e não da turma que se esconde na sombra dela. Conversou demais com Caíque a Gabriela. Reparei que uma hora ela estava explicando alguma coisa do exercício pra ele. Depois vi que ela riu de um jeito que a Rosalina não ria. Quase tive que pedir pra Gabriela parar de falar nesse dia. Mas não pedi.

Deixa ela, a Gabriela, cravo e canela. Deixa de ser Rosalina, vencer Gabriela.

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Conheça o site do MEC criado para auxiliar professores

Portal do Professor

 

 

 

Professor, você sabia que o Ministério da Educação (MEC) tem um portal especialmente para o seu auxílio? O Portal do Professor tem como objetivo incentivar a dinâmica entre quem atua na educação e proporcionar a troca de experiências.

Milhares de conteúdos para apoiar o trabalho do professor

É possível acessar informações sobre práticas educacionais, cursos oferecidos pelo MEC. O portal também oferece materiais de estudo, notícias, acessar conteúdos multimídia, planilhas e interagir com outros professores. Não é preciso pagar para acessar a plataforma.

Matéria publicada pelo Universia

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Entrelinhas e laços: Sobre ser humana, sala de aula, sociedade. E sobre sonhos.

– Estou pensando como posso dizer isso pra senhora sem te ofender.

Foi assim que Amanda falou. E eu amei. Respondi empolgada com um “óóótimo!” E fiz um pequeno discurso sobre críticas construtivas. Enfatizo o pequeno discurso por causa de um dos itens do acordo co-construído com o 7° F. A professora não fará discursos muito longos ou desnecessários. Foi nesse mesmo contexto de criação dos novos acordos de convivência que Amanda soltou essa fala. Olhou indecisa pro ventilador que pouco cumpre sua função no mês de agosto em Cuiabá e voltou com uma nova oralidade digna de ser compartilhada:

– É que professora, às vezes a gente faz bagunça. Eu assumo. Mas aí a senhora pede pra gente parar várias vezes e não funciona. Aí a senhora começa a falar que preparou a aula pra gente e que ninguém se importa. Que a senhora tenta dar uma aula diferente mas que a gente não ajuda. É isso que eu queria falar pra senhora, professora.

– Obrigada pela sua fala, Amanda. Ela não foi nem um pouco ofensiva.

– Era isso que eu queria falar, isso é uma coisa que a senhora faz e a gente não gosta. Tem gente que chama isso de drama, né?

SIM! ELA ME CHAMOU DE DRAMÁTICA! Aff, eu amo a Amanda. Amo essa experiência de virar pra sala e falar:

– Então tá, agora é a vez de vocês falarem o que vocês não gostam na professora.

Eu entrei nas minhas quatro salas depois das férias com uma única certeza: a professora do fim do semestre passado ficou no semestre passado.

Fim de junho eu estava… Eu não estava. Eu não era. Eu não conjugava nenhum verbo de estado nem de ação. Só seguia no automático com uma pequena esperança de que os fenômenos da natureza trouxessem água milagrosa pra molhar meu agreste.

Entrega de notas pro conselho tenho que corrigir as provas nossa teve aluno que faltou no dia da prova preciso lavar roupa não tenho uma blusa descente pra trabalhar defina blusa descente seria aquela que desce? Tomara que caia? não raspei o suvaco axila maria eduarda meça suas palavras isso é jeito que moça fala por que é que eu tenho que tirar esses pelos que nasceram espontaneamente debaixo do meu braço mesmo? 7° G amanhã primeira aula preciso lembrar de devolver a caligrafia do Bruno e reservar o projetor

Resnãopire.

Não, isso não foi uma tentativa de escrita compulsiva beatnik. Isso foi uma tentativa de reprodução do meu pensamento acelerado. Um dos sintomas da famosa ansiedade-mal-do- século. Pensamento desenfreado que me tirou o sono, me tirou os sonhos, tomou conta de mim a ponto de me fazer esquecer quem eu realmente era.

Graças a ainda vigente legislação trabalhista minhas férias chegaram. A volta pra terra natal e pras estradas do meu interior foi mágica. Um reencontro comigo. Com a minha criança interior. Com a minha adolescente em crise interna, externa e eterna.

Voltei do recesso escolar como quem volta de um banho de cachoeira depois de horas de trilha no cerrado.

Renovada eu cheguei disposta a fazer diferente. Cheguei na piração de que a práxis docente é essa loucura mesmo. A ação-reflexão-ação me (des)orienta dentro e fora da sala de aula. Entre caos e organização eu vou continuar navegando. Ora enfrentando as altas marés ora em porto seguro. Porém sempre segura de que a adultice do cotidiano não pode romper minhas artimanhas de viver o hoje como quem vive o sempre.

Por isso minha primeira aula foi sobre saber ouvir o outro e construir junto com o outro um novo ambiente propício ao aprendizado. Por isso tive que pedir pros meus meninos e meninas apontarem meus defeitos antes de apontar os deles. Tive que falar sobre meus erros abertamente e comentar sobre minhas frustrações. Depois falamos sobre nosso relacionamento, sobre respeito, empatia, responsabilidades. Ainda deixei de tarefa: pesquise o que significa alteridade.

– Professora esse acordo que estamos fazendo é como se fossem as leis?

– Sim, Miguel! E digo mais: nós não estamos “brincando de fazer as leis da sociedade” aqui na sala de aula. Nós somos a sociedade e estamos construindo ela da forma que queremos hoje.

Senti e vi olhinhos cintilando no mesmo reflexo que o brilho dos meus.

É tão bom voltar a ser quem a gente não sabe que é.

Finalizo esse híbrido de gêneros textuais fazendo um apelo (porque como bem diagnosticou Amanda: sim, eu sou dramática):

Não perguntem as crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescerem.

Perguntem o que eles não querem deixar de ser.

Eu não quero deixar de ser sonhadora.

E você?

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Entrelinhas e laços: respostas que completam

Júlia tem dificuldades na aula de português. Defasagem de leitura, escrita e interpretação. Júlia não é a única. Em uma sala com 32 alunos mais da metade se encontram na mesma situação. Corrijo. Não é a mesma situação. Cada aluno é um planeta distinto girando no seu próprio tempo de rotação e translação.

Tive essa ideia de relacionar o sistema solar com a sala de aula junto com meu amigo Danyllo, que é professor de matemática. O ápice da analogia foi a compreensão de que eu, professora, não sou o sol. Eu sou um objeto voador não identificado que perpassa por todos os planetinhas na tentativa de compreender o funcionamento mágico e único de cada biosfera. Inventamos assim uma nova galáxia: a sala de aula.

A galáxia do 7° G

Na galáxia do 7° G, Júlia é um corpo celeste que, assim como os outros trinta e um, possui suas próprias limitações e sonhos. Posso vestir a roupa de pesquisadora, exploradora ou astronauta, mas nunca vou compreender as complexas características da vida no planeta Júlia. Contudo, eu tento com tudo que posso. Me aproximo com cuidado, faço perguntas, escuto, respeito, abraço e beijo. Com amor se ganha amor. Descobri muitas coisas da vida de Júlia. Muitas passagens tristes que não me sinto à vontade de revelar aqui. Ela me contou em segredo. O que consigo relatar para dar sentido a essa história sem romper nosso voto de confiança é que Júlia é uma menina de 12 anos. Negra. Moradora de um bairro periférico. Dona de uma trajetória de vida que carrega memórias desgostosas e impactantes no seu processo de aprendizagem. Pelo menos até agora.

Semana passada decidi adiantar a temática do livro e mudar um pouco a perspectiva trabalhada. Assim como todos os seres vivos, os professores têm que se adaptar constantemente as condições do ambiente. O capítulo trabalhado até então aborda como tema central a figura do herói. Presuma: nada de heroína até então. Quando falei que naquela aula iríamos falar de heroína um aluno foi logo dizendo:

“Eu sei o que é heroína professora, é uma droga.”

Me assustei, porque pra mim o primeiro significado de heroína é o da mulher heroica enquanto que pra ele é o de uma substância entorpecente ilícita. Preciso escrever algum texto sobre referências.

“Sim, Henrique. É uma droga. Mas não é dessa droga que vamos falar hoje. A gente não estava estudando vários textos sobre heróis? Então, hoje vamos falar das heroínas, das mulheres. Vamos falar especificamente de uma heroína que, diferente dos outros heróis que vimos até então, existiu na vida real.”

Dificuldade de aprendizagem e Carolina de Jesus

Aula passada os alunos tinham feito um exercício que caracterizava os heróis como “pessoas que gostam de fazer coisas além de suas forças”. Adiantei o capítulo seguinte, que traz a temática dos heróis da realidade, e passei um vídeo sobre a vida de Carolina de Jesus. Para quem nunca ouviu falar dessa mulher maravilha, deixo aqui o vídeo da aula, gravado e editado pelo PHCortês, youtuber de 15 anos dono do canal “Meus heróis negros brasileiros”:

Depois do vídeo vieram as perguntas de interpretação. Eu sabia que muitos alunos me chamariam na carteira. “Professora, não entendi. Como assim?” Independente das órbitas planetárias, a dificuldade de compreensão e interpretação é geral. Na tentativa de encontrar vida em todos os planetas, estruturei perguntas de níveis mais fáceis e outras mais complexas. Sempre exijo dos alunos a resposta completa dos exercícios, para ajudá-los a compreender o enunciado e a responder da melhor forma possível, pensando sempre que o leitor da resposta pode não ter acesso a pergunta e por isso precisa ser muito bem informado apenas pela resposta.

A primeira pergunta do quadro era: “Quem foi Carolina de Jesus?”

Eu esperava que meus alunos escrevessem uma resposta completa com o máximo de informações possíveis extraídas do vídeo, com adjetivos que caracterizassem Carolina e descrevessem ela como uma mulher que superou todas as barreiras impostas pela sociedade. Eu sabia que cada um escreveria isso com as suas próprias palavras. Cada planeta tem seu idioma e eu acho isso fantástico! Mas as vezes tenho que corrigir ou exigir mais. Faz parte do meu trabalho expandir os horizontes de cada planetinha.

Júlia, aquela Júlia do começo do texto, me chamou com muita empolgação.

“Professora, vem aqui ver a minha resposta!”

Júlia tinha escrito apenas três palavras.

 “Uma mulher negra.”

Eu suspirei ao ler a força daquelas três palavras.

“Ótimo, Júlia! Mas vamos começar a resposta daquele jeito bem completo que a gente já aprendeu? ‘Carolina de Jesus foi…’ ”

“Ah! Tá bom! A senhora quer a resposta completa. Fica aqui. Vou fazer e você vê se tá certo. Não sai daqui.”

Eu atendi o pedido e fiquei ali observando o movimento das mãos de Júlia. Ela pegou a borracha e apagou a resposta. Pegou o lápis e começou a escrever calmamente. Disponho a resposta de Júlia para você, leitora ou leitor, de forma pausada para que você se aproxime mais da minha experiência. Acompanhe:

“Carolina de Jesus

foi uma

mulher negra

Júlia olhou pra mim com olhos de lua cheia e sorriso de lua crescente. Eu disse sorrindo:

“Isso. Continue. O que mais?”

Ela voltou a olhar para o caderno e completou brilhantemente sua resposta:

e inteligente.”

“Carolina de Jesus foi uma mulher negra e inteligente.”

Fiquei chocada com a inteireza da resposta escrita por Júlia, sem nenhum erro ortográfico. Nenhuma resposta, por mais completa que fosse, substituiria aquela resposta escrita por Júlia e aquele sorriso que falou rompendo meu silêncio perplexo:

“Está completa, professora?”

“Está completa Júlia”

Escrevo agora essa minha resposta sem vírgula, porque Júlia não é vocativo que se separa por vírgula.

Júlia é sujeito dessa oração.

Sujeita completa, ainda que por um instante prestes a descompletar.

Sujeita a tantas situações da vida cotidiana que diminuirão sua plenitude mas sujeita também a nova possibilidade de não se sujeitar.

Júlia não sujeita, como Carolina.

(Peço uma pausa para completar e esvaziar os pulmões)

(Para transitar entre esse completar e descompletar)

E foi assim que o eclipse de Carolina de Jesus e Júlia me completou.

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Por que é importante que os alunos conheçam sua própria identidade étnica

Começamos novembro. E com esse mês se intensifica a discussão em torno das relações étnico-raciais. Para pegar esse bonde, trago à nossa conversa quão importantes são as ações da escola para a afirmação de identidades. Também quero falar quanto isso está relacionado ao sentimento de pertencimento a esta ou aquela etnia.

De fato, o campo das relações étnico-raciais é vasto e as possibilidades de trabalho com o tema infinitas. Contudo, o primeiro passo, a meu ver, consiste na desconstrução de imagens sedimentadas na sociedade quanto ao negro e ao indígena, bem como em trazer para o centro do currículo essas etnias.

Um exemplo. Em 2015, trabalhamos um projeto sobre os direitos da pessoa indígena. Numa das rodas de conversa cujo objetivo era conhecer que imagens do indígena estavam na cabeça do nosso alunado, um educando partilhou: “Vivi muito tempo em Parelheiros. Lá a gente via muito índio na ‘cidade’. Mas era muito tranquilo! Eles eram ‘domesticados’”.

Compreender o indígena como domesticado e – por oposição – como selvagem é uma categorização fundamental do projeto de colonização que vivenciamos ao longo desses séculos. Uma imagem reforçada sistematicamente em obras de arte, textos literários, livros didáticos, produções de TV, discursos políticos e religiosos… É  necessário estudar muito para desconstruir essa imagem que foi enfiada em nossa cabeça. E, mais uma vez, é nosso papel como educadores problematizá-la e desconstruí-la.

No projeto, seguimos aquela dica de sempre, ouvir o educando. Partimos dessa fala para discutir o que é ser selvagem. Dentro dos parâmetros de barbárie, quem realmente tem sido modelo de selvageria: o índio ou o homem branco ocidental? Resultou num trabalho de colagem muito bonito com a provocação “Quem é o selvagem?” junto a um espelho, no centro, cercada de fotos das mais diversas atrocidades cometidas por pessoas civilizadas.

Fomos além, expusemos os educandos a um mosaico de imagens dos indígenas das mais diversas etnias. Isso porque índio não é tudo igual. Pedimos que eles buscassem naquelas belíssimas fotos traços físicos que eles reconhecessem em si. Ao final alinhamos as fotos dos indígenas com fotos dos nossos educandos de acordo com as semelhanças que eles indicaram.

Não deu outra, o trabalho vertia, na comparação das fotografias, o quanto trazemos dessa ascendência pré-colombiana. Porque muitos de nós, educadores e educandos, temos sangue indígena em nossas veias. No entanto, é muito mais fácil ostentar com orgulho um sobrenome italiano que admitir os traços indígenas que muitas vezes se desenham em nossos rostos. E isso por um motivo óbvio: ninguém gosta de carregar estigmas. Daí que, junto a um trabalho de desconstrução e problematização de discursos tido como verdades inquestionáveis, faz-se necessário e urgente resgatar a autoestima dos nossos educandos valorizando as marcas étnicas que eles trazem em si. É preciso construir o orgulho de ter em seu rosto traços indígenas e negros. E nisso a escola pode dar uma grande colaboração!

Lembro de outro trabalho que realizamos por ocasião do Dia da Mulher Negra, em 25 de julho. Passei nas salas convidando as educandas para participar de sessões fotográficas que desenvolveríamos para um painel. No entanto, poderiam participar do projeto somente aquelas mulheres que se autodeclaravam negras. Em uma das turmas que entrei, tivemos a adesão de duas mulheres que foram imediatamente censuradas por uma terceira educanda que sentenciou: “Vocês não podem fazer essas fotos, não! Se eu, que sou mais ‘escurinha’ que vocês, não sou negra, vocês também não são.” O clima gerou um mal estar na turma. Mas a partir do momento em que as colegas iam voltando da sessão de fotos e contando como se sentiram valorizadas ao participar da proposta, outras alunas foram se declarando negras e pedindo para participar desse painel.

O resultado do trabalho era um mosaico de diversidade que me deu outra lição importante: discutir relações étnico-raciais não é colocar o branco de um lado e o não branco de outro. Há toda uma complexidade que precisa ser contemplada. E isso pode ser pensado a partir do alerta do grande sociólogo Boaventura de Sousa Santos:  Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”. 

Abordagens possíveis

Numa educação para as relações étnico-raciais, o binômio diferença/igualdade deve ser problematizado e considerado dentro do jogo social. Nosso anseio pela igualdade não pode sufocar as diferenças existentes entre os sujeitos, gerando uma massa sem rosto e sem história.

Portanto, são muitas as tarefas curriculares da escola nessa temática, mas tudo começa em tornar positivamente visível o sujeito que foi historicamente colocado à margem. Penso em duas abordagens complementares iniciais para a educação para as relações étnico-raciais:

1) denunciar esses estigmas escancarando a injustiça social presente neles;

2) afirmar as marcas étnicas tornando-as motivo de orgulho para os sujeitos que as ostentam em si.

É óbvio que isso perpassa toda a escola, todos os seus agentes, inclusive nas mínimas coisas. Não dá para tornar a escola como espaço da diversidade étnico-racial reduzindo a “cor de pele” a um único lápis da caixinha, mas isso dá corda para outra conversa…

Matéria publicada pelo Gestão Escolar