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Reforma do Ensino Médio: Quero na Escola conversa com alunos sobre suas opiniões

Imagem das mãos de uma menina segurando dois livros
(Pixabay)

Quero Na Escola é um canal onde o aluno pode dizer o que mais quer aprender e a comunidade saber onde pode participar da educação. Esse movimento conversou com estudantes para saber o que eles pensam sobre a Reforma do Ensino Médio. Além disso, eles questionaram a necessidade de escolher seu itinerário de aprendizagem, uma das mudanças mais significativas.

As alterações para as escolas adaptarem-se à reforma começaram neste ano. Sancionada pelo presidente Michel Temer (PMDB) em fevereiro de 2017, a medida gerou polêmicas e insatisfações. Sobretudo entre parte significativa dos estudantes, que se mobilizaram contra a reforma do Ensino Médio.

O Quero Na Escola escutou 209 alunos de 14 estados brasileiros. Dos entrevistados, 30 (14%) sequer sabiam da reforma. Entre os que sabiam, 33% relataram já ter escolhido a área que seguirão entre Linguagens e suas tecnologias; Matemática e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias; Ciências humanas e sociais aplicadas; ou Formação técnica e profissional.

Construção do conhecimento básico

A estudante Camila Odete Silva, 17, de Alagoas, afirma que a princípio a Reforma do Ensino Médio parecia positiva. Mas a impressão foi desfeita após olhar a proposta em detalhes. “Filosofia, artes, educação física e sociologia são disciplinas que tem de ser obrigatórias. Pois são pontos fundamentais para a formação do cidadão. Sem falar que priorizar uma das áreas de conhecimento levaria a uma desestruturação de conhecimento básico muito grande”, diz. Os demais alunos ouvidos dividem-se entre querer mais de uma opção de formação (33%) e ainda não saber e precisar de mais tempo para decidir (31%). Destes que ainda não escolheram, a maior parte já está no fim do Ensino Médio.

Nem todas as escolas vão oferecer as cinco áreas, nem disponibilizar a escolha no primeiro ano do Ensino Médio. Essa decisão fica a critério das instituições junto com os estados, que são responsáveis por essa etapa de ensino. Isso pode forçar alguns estudantes a alterar sua escolha de área ou mudar de escola. Neste caso, 62% dos estudantes optariam por mudar de escola para manter sua área de interesse. Enquanto a minoria (33%) preferiria mudar de área a mudar de escola.

A diferença entre as escolas públicas e particulares

“Eles colocam essa escolha, mas a gente nem tem direito de escolher”, afirma Letícia Maria Oliveira Ferreira, 16, do Ceará, sobre o fato de que muitos jovens terão de decidir entre trocar de área ou de escola. Esta segunda opção, mais provável entre os jovens, exigirá tanto da família quanto do Estado uma logística e reorganização cuidadosa. Especialmente para evitar salas lotadas ou jovens estudando muito longe de casa. Além disso, outra questão crucial do debate é a evasão escolar. A mudança de escola, a decisão da área de interesse e a logística da mudança são questões que podem ter uma grande relação com o engajamento e a presença dos estudantes na escola.

A jovem do Ceará afirma ainda recear que alunos de escolas particulares tenham melhor desempenho no vestibular, isso porque o ensino privado terá mais condições de oferecer todas as cinco áreas. Já as públicas veem-se diante de mais um desafio, e provavelmente só vão conseguir ofertar um ou dois itinerários formativos. Ela também afirma temer que a necessidade de optar por estudar mais uma área do que as demais leve a um ensino mais técnico e menos voltado ao desenvolvimento integral dos jovens e que a reforma acabe levando a uma maior disparidade entre a rede pública e particular. “Parece que querem que a gente [de escola pública] entre logo no mercado de trabalho e nem vá para a faculdade, porque a gente vai escolher só algumas matérias prioritárias, mas vão cair todas no vestibular”, observa Letícia.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “O que os alunos esperam da reforma do Ensino Médio“, da reporter Ingrid Matuoka para o Centro de Referências em Educação Integral. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Ampliação de recursos para Ensino Médio é insuficiente e não reduz desigualdades, alerta CENPEC

Estudo do CENPEC alerta que ampliação de recursos para Ensino Médio é insuficiente e não reduz desigualdades, alerta CENPEC. O governo federal anunciou a liberação de R$ 406 milhões para o Programa de Fomento às Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral. O investimento garantirá a ampliação do número de escolas que ofertam matrícula em tempo integral de 516 para 967. O programa foi criado junto com a Reforma do Ensino Médio, aprovada em fevereiro de 2017.

O CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária avalia positivamente a ampliação anunciada pelo MEC. No entanto, ressalta que ela atenda menos de 5% das cerca de 20 mil escolas com ensino médio no país. A organização alerta para o fato de outras modalidades de ensino e um conjunto maior de escolas não terem recebido aumento de recursos. De acordo com o CENPEC, isso pode agravar as desigualdades educacionais no Brasil.

Wagner Santos, coordenador do Núcleo de Juventude do CENPEC, defende: “Um bom ensino médio deve garantir que todos os alunos tenham as mesmas possibilidades de desenvolvimento pessoal, de inserção no mercado de trabalho e de acesso ao ensino superior, independentemente de estudarem em tempo de integral ou parcial, ou em turmas do diurno ou noturno”.

Em 2018, alguns estados começam a colocar em prática as primeiras experiências do chamado “novo ensino médio”. É o caso de São Paulo. Na cidade, 33 escolas técnicas estaduais (Etecs), ligadas ao Centro Paula Souza, vão oferecer duas novas opções de curso baseados no modelo da reforma. Serão o ensino médio com habilitação técnico-profissional e o ensino médio com qualificação profissional. Serão oferecidas 1.741 na primeira modalidade, já com as 3.000 horas estabelecidas pela reforma. Já os cursos com qualificação, que terão 395 vagas, seguirão com as 2.400 horas atuais.

A medida provisória da Reforma do Ensino Médio afirma que os cinco itinerários formativos previstos serão oferecidos conforme as capacidades das redes de ensino. Isso não acontecerá de acordo com os contextos locais e com demandas das diversas juventudes. “No caso de São Paulo, há capacidade instalada para o ensino técnico, mas apenas nas Etecs. E como fica o restante da rede estadual ou outros estados, que têm dificuldades para oferecer qualquer um dos percursos?”, questiona Santos.

Formação de professores é essencial

Mônica Gardelli Franco, superintendente do CENPEC, lembra que para os cinco percursos previstos pela reforma são necessários infraestrutura e professores devidamente capacitados. “Hoje, apenas 54,9 % dos professores do ensino médio têm formação superior na área em que lecionam. Como irão oferecer uma formação aprofundada em determinada área sem formação?”, pergunta a dirigente.

Mônica acredita que, para que todas as escolas de ensino médio sejam impactadas, será necessário investir em formação de professores e equipes gestoras com o suporte de tecnologias, entre outras iniciativas. “Como temos a missão e o compromisso com a sociedade civil de produzir conhecimento e refletir e de impactar políticas públicas, estamos nos preparando para colaborar com os estados, principalmente na reflexão sobre o que significa um trabalho com juventude, aproveitando os cerca de 20 anos de trabalhos do CENPEC”, diz ela.