Publicado em Deixe um comentário

Racismo na escola: professora e jovem escrevem relato juntas

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA

Seis da matina. Ainda não levantei da cama, mas o barulho do alarme e a luz do celular na cara já me lembram que é dia feira. Tenho evitado ler mensagens antes de levantar como uma tentativa de criar um novo ritual matutino mais saudável. Mas nessa manhã uma mensagem pediu pra ser lida:

“Madu, a senhora sabe muitas coisas sobre campanhas contra o preconceito e tals. Hj eu presenciei uma coisa que eu pensei que nunca passaria na minha vida. E eu queria lutar contra o preconceito de alguma forma. Se a senhora souber algum jeito, me fale pfvr.”

Primeiro, uma alegria: as aulas do ano passado de criação de uma campanha contra o preconceito racial surtiram efeito! Quase de imediato minha alegria de professora se vai e a pergunta aparece em caixa alta e negrito na minha cabeça: Como posso ajudar essa aluna a lutar contra o preconceito?

Passei o dia com a perguntada grudada em mim.

Me coloquei no meu lugar, de quem não sofre com o racismo que assola nosso país. Me coloquei no lugar da Rafaela, minha aluna que me acordou com esse pedido tão… tão necessário!

Como? Como lutar contra o preconceito? Como não se sentir impotente diante dessa realidade perversa?

Rafaela me contou melhor o que tinha acontecido e eu entendi porque ela estava tão incomodada.

Então fiz um convite pra ela escrever aqui pra vocês. Um dos jeitos de lutar contra o preconceito é não se calando.

Em tempos de violência e repressão, não se calar é resistir.

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA
(Foto: Pixabay)

Deixo aqui as palavras dela e espero que elas cheguem longe e resistam

Olá, meu nome é Rafaela, tenho 13 anos e vim aqui falar sobre o preconceito racial.

O Brasil é considerado um dos países mais racistas do mundo, mesmo com tantas misturas de raças. Algumas pessoas pensam que o racismo nunca pode acontecer ou que é bem raro.

Infelizmente eu com apenas 13 anos vi o racismo acontecer na minha frente várias vezes. Infelizmente algumas pessoas maltratam outras para se sentir superior ou melhor que alguém.

Você julgar uma pessoa apenas por ela ser negra ou “diferente” é burrice. Nesse mundo não existe idade para sofrer e nem praticar o bullying. Meu melhor amigo foi revistado pela polícia simplesmente por ser negro e pobre. Tenho certeza de que tem muitas pessoas sofrendo por coisas piores.

Todos devemos nos unir e acabar com isso de uma vez. Eu sei que não é fácil mas poderíamos tentar pelo menos.

Publicado em Deixe um comentário

Combatendo o racismo na escola: abordagens possíveis

Combate do racismo na escola
(Pixabay)

Não há uma única forma de manifestação do racismo, tampouco de combatê-lo. No dia 20 de novembro e celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra. Pensando nisso, o Centro de Referências em Educação Integral reuniu experiências incríveis que ajudam a combater o racismo na escola.

Entre as estratégias utilizadas para estimular atitudes mais inclusivas e o respeito às diferenças, destacam-se debates e brincadeiras. Ganham destaque também a contação de histórias com bonecos e o reconhecimento de situações discriminatórias. Além disso, a incorporação de narrativas que tragam os negros como protagonistas são muito importantes.

Combatendo o racismo na escola
(Reprodução/Centro de Referências em Educação Integral)

“Da Educação Infantil à Superior, é essencial conhecer e ressaltar o protagonismo africano e afro-brasileiro na produção do conhecimento, como Dandara, Acotirene, Milton Santos, João José Reis, Muniz Sodré, Conceição Evaristo, Chiquinha da Silva, e relacionar esses exemplos positivos a cada um de nossos estudantes negros”, aponta Eduardo Oliveira, professor de História e Cultura Africana e Afro-brasileira na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Cultura negra nas paredes

Em Aracruz, interior do Espírito Santo, o Centro Municipal de Educação Básica Mário Leal Silva criou uma iniciativa interessante. Desenvolvido ao longo de um ano, o projeto estimula intervenções individuais e coletivas contra o racismo na escola, em diferentes frentes.

A primeira etapa consistiu em um levantamento do perfil dos alunos. Em seguida, houve um diagnóstico para entender de que forma a escola abordava o preconceito racial. Depois, eles promoveram uma conversa com professores, familiares e funcionários.

Este encontro serviu para reforçar a importância da participação de todos no combate a essa violência. Outra finalidade foi em relação a direção, que pôde identificar atitudes preconceituosas na escola (sem mencionar nomes). O objetivo era esclarecer atitudes racistas e de que maneiras, sutis ou evidentes, elas se manifestam no cotidiano.

A instituição também abriu a conversa para que a comunidade escolar pudesse contar histórias de quando viveram ou presenciaram situações discriminatórias. Para quem não quisesse se expor, foi oferecida a oportunidade de relatar a história em uma folha e entregá-la posteriormente para a direção.

As paredes da escola foram tomadas por diversos murais ao longo do ano, resultado de trabalhos desenvolvidos pelos alunos. Eles apresentavam temas como a tradição e palavras africanas e as influências culturais da África no Brasil.

Outros funcionários também se engajaram na missão. As merendeiras, por exemplo, preencheram o espaço com receitas africanas que passaram a preparar na cantina.

As reuniões de familiares também se tornaram palco para a discussão. Os familiares compartilhavam com o grupo peças ou elementos de sua cultura. O encontro também servia para discutir a responsabilidade de todos para um convívio sem preconceitos.

Por fim, a direção combinou com todos que, em casos de discriminação, os envolvidos participariam de uma conversa mediada pela gestão. A proposta é adotar um tom menos punitivista e mais educativo.

Igualdade racial na Educação Infantil

Em São Paulo, a Escola Municipal de Educação Infantil Nelson Mandela recorreu a bonecos de pano para abordar este assunto com os pequenos. Afinal, muitas vezes eles espelham atitudes e falas de adultos carregadas de preconceito.

A diretora Cibele Racy contou que trouxe um boneco negro de tamanho real para a escola. Em seguida, ela explicou para as crianças que se tratava de um príncipe africano chamado Azizi Abayomi.

“Isso já foi um choque para boa parte das crianças, porque ele era um príncipe, mas não tinha olhos azuis e cabelos louros”, diz a diretora sobre o primeiro boneco que levou à escola, ainda em 2011.

Em seguida, teve início um processo de conversa com as crianças sobre aquele personagem. Usando a imaginação, professores e alunos criavam a história de Azizi. “Estudar esse príncipe permitiu que os alunos falassem sobre a própria vida. Uma abordagem mais lúdica sobre o racismo, especialmente nessa idade, funciona melhor”, disse Cibele.

Pouco tempo depois, o personagem ganhou uma esposa e filhos, abrindo mais possibilidades de discussão. Alguns temas abordados foram o gênero, diferentes configurações de família e relações inter-raciais.

Combatendo o racismo entre os educadores

No esforço de incluir a discussão nas aulas, a diretora da CMEB Mário Leal Silva, Mônica Louvem, apresentou o filme O Triunfo. A obra trata da hostilização contra alunos negros e das ações de um professor para mudar isso. Depois, eles debateram as soluções encontradas pelo personagem com seu corpo docente.

Em seguida, formularam juntos sugestões de como introduzir conteúdos ligados à cultura africana no planejamento das aulas. Algumas alternativas foram a leitura de textos e a análise de pinturas e desenhos e a posterior produção. Os materiais produzidos foram expostos nos murais da escola.

Outro exemplo é o professor Eduardo Oliveira, da UFBA. Em suas aulas, ele tenta mostrar como o racismo transforma diferença em desigualdade para perpetuar privilégios. Se quisermos quebrar este ciclo, diz, é preciso compreender as origens do preconceito, nosso País e a produção de conhecimento dentro das escolas e da Academia.

“O racismo não se perpetua por argumentos racionais, mas por uma percepção deturpada do outro. Por isso, é preciso ler o corpo dos nossos estudantes com dignidade e respeito, e começar a educá-los para ver as diferenças como oportunidade de enriquecimento de nós todos. É ler o cabelo, a cor da pele, lábios e nariz sem uma caracterização negativa, para inclusive aumentar a autoestima dos alunos”, coloca.

Se para os professores cabe atenção aos corpos e a valorização da cultura africana, por parte dos gestores, cabe integrar e garantir a efetivação das legislações sobre ensino de cultura e história africana no projeto político-pedagógico da escola, tornando-as presente não só na sala de aula, mas também nos espaços da administração, da merenda, da limpeza e segurança.

“É no cotidiano, no chão da escola, que a gente pode ter uma ação transformadora, para que possamos concretamente reconhecer os direitos de todos os cidadãos, particularmente de negras e negros, que têm sido vilipendiados nos últimos 500 anos da nossa história”, conclui o professor da UFBA.

Matéria publicada pelo Centro de Referências em Educação Integral.

Publicado em Deixe um comentário

Capoeira na escola é uma janela para a desconstrução do racismo

Brincar de princesa, de dinossauro, de monstro, de jogador de futebol, mas também de Zumbi dos Palmares. Aprender a usar o corpo no ritmo do berimbau em um jogo dançado. Fortalecer a autoestima com novos referenciais. Ampliar visões de mundo. Aproximar crianças, brancas e negras, da cultura africana. Levar a Capoeira para a Educação Infantil traz um pouquinho disso tudo, e muito mais. E essa é a proposta do projeto Brincadeira de Angola.

Desde 1998, o projeto leva a Capoeira para crianças do Brasil e de outros países. Isso acontece por meio de aulas em escolas públicas e particulares. A iniciativa também beneficia projetos sociais de acolhimento de crianças refugiadas e em situação de vulnerabilidade. Além disso, atua na formação de professores de todo o mundo ministrando cursos pagos e gratuitos.

Capoeira na Escola

Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade

Em 2014, a Unesco declarou a roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ancorada no conceito da educação integral e desenvolvimento das potencialidades sócio-artísticas-culturais das crianças, a abordagem proposta pelas aulas da Brincadeira de Angola não coloca o foco na atividade física, mas sim no objetivo de apresentar às crianças o caráter lúdico e a historicidade da Capoeira.

“Quando a gente trabalha com crianças, trabalhamos nesse mundo simbólico, no mundo da fantasia e para isso utilizamos todo tipo de recurso teatral, desde fantoches, bolas e contação de histórias”, explica Aline Cristine da Silva, capoeirista e professora do método.

Nas aulas de Capoeira não são só as crianças que aprendem. Os adultos também aprendem muito sobre o universo da infância e sobre como as crianças olham e se percebem no mundo. “Aprendi muito sobre empatia. Quando a criança chega chorando, ela está precisando de alguém que entenda o seu sentimento. Quando vou trabalhar uma simples parada de mãos, é muito mais do que o desenvolvimento de uma capacidade motora.  Para executar este movimento a criança terá que enfrentar sentimentos como medo, insegurança e frustração, trabalhando a tolerância ao erro, a resiliência e a capacidade de autossuperação”, explica.

Trabalho nas escolas é importante para crianças brancas e negras

O método da Brincadeira de Angola foi criado pelo Mestre de Capoeira Omri Ferradura Breda. Para ele, o trabalho com a capoeira nas escolas é importante para crianças brancas e negras. Ele abre uma janela de conhecimento e valorização da cultura negra. Consequente, trabalha com a desconstrução e combate a práticas racistas presentes na sociedade.

“A valorização da cultura negra acontece em um processo de emancipação mental, descolonização simbólica e desconstrução de valores racistas. Crianças brancas precisam de referenciais positivos negros para compreenderem como podem vir a ser agentes de transformação dentro da sociedade que as privilegia. Crianças negras precisam destes mesmos referenciais para fortalecerem sua autoestima, construírem uma história e terem ferramentas para enfrentarem o racismo”, disse Omri.

Como mulher negra, Aline reforça a importância do trabalho com a capoeira para desconstrução de valores racistas e estereótipos de gênero. “Trabalho em escolas onde a maioria das crianças são brancas. E estar nesses lugares sendo mulher e negra é muito importante para as crianças e para mim também. Poder levar a nossa cultura para esses lugares e estar conscientizando as crianças brancas e empoderando as crianças negras. Porque a representatividade de forma positiva é muito importante”, disse. Se quiser refletir mais sobre o assunto, confira o post Para empoderar jovens negros, é preciso olhar a historia e a cultura por outra perspectiva.

Caminho para o fim do racismo

Mas Omri alerta para a falsa ideia de que ter aulas de capoeira é um caminho definitivo para acabar com o racismo. “A aula de capoeira não é ‘remédio'”, afirma. Nesse sentido, o projeto político pedagógico da escola deve estar, também, comprometido com o combate ao racismo.

“A primeira imagem de personagens negros em livros didáticos é em situações a-históricas, posto que não se apresenta a História pré-colonial africana, em sua riqueza e diversidade. Os africanos de diversas origens são chamados pelos nomes genéricos de ‘negro’ ou ‘escravo’, e sua cultura é apresentada como selvagem. As fotos ou gravuras em que aparecem são sempre relacionadas à escravidão ou a papéis subalternos na sociedade moderna, como faxineira ou porteiro. Os valores que estigmatizam a população negra são confirmados pela educação escolar em diversas ações e omissões”, explicou.

Um reflexo disso são situações de racismo vivenciadas dentro do ambiente escolar. O mestre de Capoeira comenta que já presenciou momentos de discriminação entre as crianças durante suas aulas. “Nestes casos sempre cabe reflexão e ação específica com pequenas rodas de conversa, tentando ajudar a conscientizar, mas tendo a clareza de que a aula de capoeira não vai resolver os problemas de racismo na sociedade”, disse.

Ainda assim, entendendo o espaço da aula de capoeira como um momento de expressão de uma linguagem artística, cultual e política, Omri vê no seu trabalho potência para contribuir para um futuro melhor.

“Uma criança criada em um ambiente de valorização de heróis negros, cantando músicas que ressaltam positivamente personagens negros e vendo mestres negros durante sua formação terá referenciais positivos para se espelhar e construir uma autoimagem positiva. Isso aumenta a chance desta criança vir a ser um adulto consciente e um agente de transformação social”, finalizou.

Matéria publicada pelo Catraquinha

Publicado em Deixe um comentário

Racismo na escola: ‘ele não ia brincar comigo porque sou marrom’

Racismo na Escola

Luciana Bento é mãe e escreve sobre maternidade, negritude e literatura afro. Conhecida nas redes pelo blog A Mãe Preta, ela escreveu um texto que explica de forma didática como o racismo acontece na prática dentro das escolas, e como ele se constrói e se perpetua nas referências das crianças. Não por acaso, o texto se chama “Como nasce o racismo”. Ele narra uma situação viva pela filha, de três anos.

“Mamãe, o menino falou que não ia brincar comigo porque os amigos dele são brancos e eu sou marrom. Ele disso que não gosta de marrom.”
“E o que você disse filha?”
“Eu disse que eu gosto de marrom, e que às vezes as famílias são marrom. E toda a minha família é marrom e eu sou linda!”
” Ah é filha? E ele?”
” Ele disse que só brinca com os amiguinhos brancos.”

Por que uma criança diz algo assim? De onde vem a referência de que é preciso rejeitar alguém pela cor da pele? São as perguntas que Luciana se faz, antes até de se preocupar com a filha, que, pelo que indica sua resposta, está bem amparada e consciente da beleza de suas raízes.

Racismo pode afastar crianças da escola

No texto, a mãe chama a atenção para a complexidade do racismo estrutural. Não basta conscientizar os de filhos sobre a questão, mas sim trabalhar o assunto em larga escala, na comunidade escolar, juntos aos professores, à direção e envolvendo as famílias não negras na discussão. Afinal, toda situação como a narrada acima envolve pelo menos duas partes, e para evitar que ela não se repita, é preciso muito mais do que empoderar a criança que sofre o preconceito.

Racismo Educação“Eu posso até informar a escola o que minha filha me contou essa manhã. Mas nada me garante que o meu bilhete na agenda será observado. Nada garante que as professoras olharão com mais cuidado para as interações entre as crianças e perceberão essas situações a ponto de intervir. Nada me garante que a escola tomará atitudes para que as crianças vejam as diferenças de forma positiva. Nada me garante que a família do menino será informada, para que também possa se dedicar a uma educação para conviver e respeitar as diferenças”, observa.

“Trabalho de formiguinha”

Assim, ela pondera o que talvez seja a questão principal do racismo na sociedade. Ele precisa ser urgentemente encarado como um problema comum a todos. Somente amparada por uma família, escola e adultos sensíveis à importância dessas reflexões é que a criança poderá aprender desde cedo a valorizar as diferenças.

“Nosso trabalho de formiguinha só vai resolver uma parte do problema, a parte que os afeta. Minha filha contou isso com naturalidade, como se fosse mais um fato corriqueiro da escola e sorriu quando me contou a sua resposta para o menino. Eu posso trabalhar para que ela entenda que é o menino que sai perdendo com essa atitude, mas e a outra parte? Quem trabalha pra ensinar o menino a conviver e respeitar as diferenças? Quem ensina pra essa criança que essa atitude é racismo? Quem percebe logo na primeira infância as raízes dessa atitude e procura combatê-la?”, questiona.

Ativista 24 horas por dia, ela ressaltou, em entrevista ao Catraquinhaque “o racismo de criança para criança é um reflexo do que a sociedade faz”. Clique aqui para ler a publicação na íntegra.

Matéria publicada pelo Catraquinha

Publicado em Deixe um comentário

Por que é importante que os alunos conheçam sua própria identidade étnica

Começamos novembro. E com esse mês se intensifica a discussão em torno das relações étnico-raciais. Para pegar esse bonde, trago à nossa conversa quão importantes são as ações da escola para a afirmação de identidades. Também quero falar quanto isso está relacionado ao sentimento de pertencimento a esta ou aquela etnia.

De fato, o campo das relações étnico-raciais é vasto e as possibilidades de trabalho com o tema infinitas. Contudo, o primeiro passo, a meu ver, consiste na desconstrução de imagens sedimentadas na sociedade quanto ao negro e ao indígena, bem como em trazer para o centro do currículo essas etnias.

Um exemplo. Em 2015, trabalhamos um projeto sobre os direitos da pessoa indígena. Numa das rodas de conversa cujo objetivo era conhecer que imagens do indígena estavam na cabeça do nosso alunado, um educando partilhou: “Vivi muito tempo em Parelheiros. Lá a gente via muito índio na ‘cidade’. Mas era muito tranquilo! Eles eram ‘domesticados’”.

Compreender o indígena como domesticado e – por oposição – como selvagem é uma categorização fundamental do projeto de colonização que vivenciamos ao longo desses séculos. Uma imagem reforçada sistematicamente em obras de arte, textos literários, livros didáticos, produções de TV, discursos políticos e religiosos… É  necessário estudar muito para desconstruir essa imagem que foi enfiada em nossa cabeça. E, mais uma vez, é nosso papel como educadores problematizá-la e desconstruí-la.

No projeto, seguimos aquela dica de sempre, ouvir o educando. Partimos dessa fala para discutir o que é ser selvagem. Dentro dos parâmetros de barbárie, quem realmente tem sido modelo de selvageria: o índio ou o homem branco ocidental? Resultou num trabalho de colagem muito bonito com a provocação “Quem é o selvagem?” junto a um espelho, no centro, cercada de fotos das mais diversas atrocidades cometidas por pessoas civilizadas.

Fomos além, expusemos os educandos a um mosaico de imagens dos indígenas das mais diversas etnias. Isso porque índio não é tudo igual. Pedimos que eles buscassem naquelas belíssimas fotos traços físicos que eles reconhecessem em si. Ao final alinhamos as fotos dos indígenas com fotos dos nossos educandos de acordo com as semelhanças que eles indicaram.

Não deu outra, o trabalho vertia, na comparação das fotografias, o quanto trazemos dessa ascendência pré-colombiana. Porque muitos de nós, educadores e educandos, temos sangue indígena em nossas veias. No entanto, é muito mais fácil ostentar com orgulho um sobrenome italiano que admitir os traços indígenas que muitas vezes se desenham em nossos rostos. E isso por um motivo óbvio: ninguém gosta de carregar estigmas. Daí que, junto a um trabalho de desconstrução e problematização de discursos tido como verdades inquestionáveis, faz-se necessário e urgente resgatar a autoestima dos nossos educandos valorizando as marcas étnicas que eles trazem em si. É preciso construir o orgulho de ter em seu rosto traços indígenas e negros. E nisso a escola pode dar uma grande colaboração!

Lembro de outro trabalho que realizamos por ocasião do Dia da Mulher Negra, em 25 de julho. Passei nas salas convidando as educandas para participar de sessões fotográficas que desenvolveríamos para um painel. No entanto, poderiam participar do projeto somente aquelas mulheres que se autodeclaravam negras. Em uma das turmas que entrei, tivemos a adesão de duas mulheres que foram imediatamente censuradas por uma terceira educanda que sentenciou: “Vocês não podem fazer essas fotos, não! Se eu, que sou mais ‘escurinha’ que vocês, não sou negra, vocês também não são.” O clima gerou um mal estar na turma. Mas a partir do momento em que as colegas iam voltando da sessão de fotos e contando como se sentiram valorizadas ao participar da proposta, outras alunas foram se declarando negras e pedindo para participar desse painel.

O resultado do trabalho era um mosaico de diversidade que me deu outra lição importante: discutir relações étnico-raciais não é colocar o branco de um lado e o não branco de outro. Há toda uma complexidade que precisa ser contemplada. E isso pode ser pensado a partir do alerta do grande sociólogo Boaventura de Sousa Santos:  Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”. 

Abordagens possíveis

Numa educação para as relações étnico-raciais, o binômio diferença/igualdade deve ser problematizado e considerado dentro do jogo social. Nosso anseio pela igualdade não pode sufocar as diferenças existentes entre os sujeitos, gerando uma massa sem rosto e sem história.

Portanto, são muitas as tarefas curriculares da escola nessa temática, mas tudo começa em tornar positivamente visível o sujeito que foi historicamente colocado à margem. Penso em duas abordagens complementares iniciais para a educação para as relações étnico-raciais:

1) denunciar esses estigmas escancarando a injustiça social presente neles;

2) afirmar as marcas étnicas tornando-as motivo de orgulho para os sujeitos que as ostentam em si.

É óbvio que isso perpassa toda a escola, todos os seus agentes, inclusive nas mínimas coisas. Não dá para tornar a escola como espaço da diversidade étnico-racial reduzindo a “cor de pele” a um único lápis da caixinha, mas isso dá corda para outra conversa…

Matéria publicada pelo Gestão Escolar