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Sem salário, professor recebe ajuda de alunos para seguir dando aulas

Fotografia do professor Bruno, sorrindo e no meio da sala de aula, rodeado por aproximadamente doze alunos.
Professor Bruno Paiva e alunos (Reprodução/Facebook)

No dia 15 de maio, o professor Bruno Rafael Paiva teve uma grande surpresa quando foi trabalhar. Ao entrar na sala do 1º ano do curso de edificações da EEEP Balbina Viana Arrais, em Brejo Santo, no Ceará,  ele se deparou com uma ação muito bonita dos seus alunos.

Depois de dois meses sem receber salário, o professor que leciona sobre artes, mundo do trabalho e horário de estudo, pensava em desistir das aulas. Afinal, ele não mora na mesma cidade da escola e estava com dificuldades. Por isso, seus alunos organizaram uma rifa, arrecadando mais de 400 reais para ajudar o professor. Além disso, eles entregaram também uma cesta de chocolates. 

Quando Paiva entrou na aula, participou de uma brincadeira que o levou até o prêmio. “Eu sempre tive uma relação muito boa com todos os meus alunos. Mas isso é uma coisa que eu jamais poderia esperar”, conta o professor, que se emocionou com a ação. 

Dificuldades de quem é professor

“Na escola em que trabalho, todos os professores recebem em dia, não é certo dizer que atrasam”, explica Paiva. “O problema é que, como sou substituto, estou enfrentando uma burocracia que leva de dois a três meses para colocar meu nome na folha de pagamento. Isso é terrível.”

O professor diz que já havia recorrido a todo tipo de ajuda, já que sua mãe, também professora, não recebeu parte do dinheiro que deveria. Além disso, ele estava se mudando de casa, tinha dívidas do carro e já estava com a energia cortada. “Tivemos que ir morar na casa da minha avó”, diz Paiva. “Eu já estava sem esperança”.

O próprio professor postou o vídeo com a reação, feito pelos alunos. A publicação já bateu mais de 150 mil compartilhamentos no Facebook. Segundo ele, muita gente tem mandado mensagens de apoio e pedidos de entrevistas. Paiva diz que o salário deve cair no dia 1º de junho, como está programado, mas a ação dos alunos já serviu de força para que ele continue. “Além da matéria, eu sempre me preocupei em ensinar os alunos a serem cidadãos”, diz ele.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Sem salário, professor recebe ajuda de alunos para seguir dando aulas“, do repórter Nathan Fernandes para a Revista Galileu. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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O jovem como protagonista das mudanças em sala de aula

Fotografia de aproximadamente 25 jovens sentados no chão e em poltronas reunidos em grupo. No centro deles já uma mentora conversando com a turma.
Fotografia de aproximadamente 25 jovens sentados no chão e em poltronas reunidos em grupo. No centro deles já uma mentora conversando com a turma.
Alunos participam do jogo “Se Vira” em que lidam com situações hipotéticas para exercitar o empreendedorismo (Reprodução/Revista Galileu – FOTO: MARCO SOBRAL/G.LAB)

Os jovens que estão conscientes do poder das suas vozes podem fazer uma grande diferença para impactar positivamente a sociedade. Eles precisam de atitude, empoderamento e da certeza que ideias inovadoras e empreendedoras são inspiradoras para um futuro promissor. Foi assim que os alunos das escolas onde a Fundação Telefônica Vivo promove o projeto ‘Pense Grande’ compartilharam as suas opiniões e experiências de protagonismo durante a 5ª edição do Educação 360 Jovem. O evento é uma realização de O GLOBO e Extra que aconteceu em maio, no Rio de Janeiro.

LEIA MAIS: Canal no Youtube Looking 4 Heroes aborda protagonismo do aluno e celular em sala de aula

O programa tem como meta capacitar jovens para serem protagonistas de suas escolhas futuras. Para isso, a iniciativa é apoiada em três pilares: empreendedorismo, tecnologia e comunidade. O projeto é facultativo nas escolas atendidas, e os alunos têm carga horária de 60 horas a cumprir. A partir da identificação da aspiração do jovem, ele começa a construir a ideia e transformá-la em produto ou serviço, recebendo orientações de um mentor na escola.

A sala de aula e a realidade dos jovens

Durante o evento Educação 360 Jovem, os estudantes trocaram ideias e falaram sobre suas experiências com o projeto. Eles falaram, principalmente, sobre a importância das aulas serem alinhadas à realidade e ao interesse dos jovens. Em um dos painéis, participaram Marcus Vinicius Oliveira de Souza, de 16 anos, da ETEC de Pirituba, São Paulo. “Do contrário, passamos a estudar por obrigação e não pela paixão, o que interfere no desempenho”, defendeu Marcus.

LEIA TAMBÉM: Livro reúne metodologias baseadas no protagonismo dos estudantes

Houve também a participação de Tamires de Jesus Costa, 17 anos, do Colégio Estadual Norma Ribeiro, Salvador (BA).A estudante Tamires deu um bom exemplo do que acontece em sua escola. A professora de inglês usa a tecnologia para despertar o interesse dos alunos. “Ela nos dá temas para produzirmos curtas-metragens com o celular. Assim, conseguimos aprender com mais facilidade o idioma, sem abrir mão de uma ferramenta tão presente na nossa vida”.

Durante os intervalos do Educação 360 Jovem, foram realizadas oficinas do jogo ‘Se Vira’. Elas fazem parte do ‘Pense Grande’ e buscava despertar nos participantes atitudes empreendedoras. A Fundação disponibiliza gratuitamente a metodologia do projeto que dá dicas que despertam os jovens e educadores para o tema do empreendedorismo e para tirarem do papel suas ideias e projetos.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Quando o jovem é protagonista da mudança em sala de aula“, da reporter XXX para a Revista Educação. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Criativos da Escola: Reta Final para as inscrições do Desafio Criativos da Escola

Imagem de divulgação do desafio criativos na escola.

Imagem de divulgação do desafio criativos na escola.

O Criativos da Escola é um programa do Instituto Alana que encoraja crianças e jovens a transformarem suas realidades. Seu principal objetivo é reconhecê-los como protagonistas de suas próprias histórias de mudança. Há 4 anos o Criativos promove o “Desafio Criativos da Escola”. Essa iniciativa celebra e premia projetos protagonizados por crianças e jovens de todo o país que, apoiados por seus educadores e educadoras, estão transformando suas comunidades. Em 2017, foram selecionados 11 grupos, dentre os 1492 projetos enviados do Brasil inteiro. Desde a primeira edição, em 2015, o Desafio já recebeu quase três mil projetos de todas as regiões brasileiras. Eles já abordaram temas como saúde, meio ambiente, educação, inclusão, tecnologia, políticas públicas, entre outros. 

Inscrições para o Desafio Criativos da Escola 2018

Agora, falta menos de um mês para o fim das inscrições para o Desafio Criativos da Escola 2018. Esta 4ª edição reconhecerá 11 ações que contribuem para a mudança da realidade dos estudantes, dentro e fora das salas de aula. Tanto professores quanto estudantes do Ensino Fundamental ou Médio podem cadastrar seus projetos. Eles podem já estar finalizados ou ainda em andamento e as inscrições porem ser feitas no site do Criativos da Escola até o dia 1º de outubro.

Como parte da premiação, três estudantes e um educador de cada grupo selecionado participarão de atividades que serão realizadas em Fortaleza (CE), na primeira semana de dezembro. Os representantes das ações escolhidas por seu protagonismo e impacto social trocarão experiências e fortalecerão seus projetos. Além disso, receberão prêmios em dinheiro para o projeto e para os professores responsáveis.

Os educadores que tiverem interesse em promover experiências de transformação protagonizadas por seus alunos podem acessar o Material de Apoio. E também o jogo Criativos da Escola – A missão, além de textos, vídeos e reflexões que podem contribuir com sua prática dentro e fora da sala de aula. Clique aqui e veja também as iniciativas premiadas pelo Desafio em 2017. Pelo terceiro ano consecutivo, o Desafio conta com alguns apoios. Entre eles o programa Parceria Votorantim pela Educação, do Instituto Votorantim, nos 105 municípios onde desenvolve suas atividades.

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Professor, o que você quer na sua escola?

Fotografia de aproximadamente oito crianças brincando na sala de aula com uma corda.
Fotografia de aproximadamente oito crianças brincando na sala de aula com uma corda.
(Reprodução/Facebook)

Há alguma coisa que você queria muito na sua escola? Pode ser oficinas de teatro, música, enfermagem, tecnologia, natureza, direitos humanos, grafite, racismo, quadrinhos, dança, circo. O que a sua necessidade, realidade e criatividade pedir. Esses são alguns dos temas das atividades promovidas pelo Quero na Escola!. Como isso acontece? Eles juntam pessoas que querem ajudar com as pessoas que estão precisando de ajuda. Ou seja, voluntários que têm algum conhecimento e que estão dispostos a colaborar em algum projeto dentro de uma escola que precise. 

Bom, funciona assim. Um professor ou aluno cadastra seu pedido no site do Quero Na Escola de acordo com a necessidade da sua escola. E um voluntário colabora com o projeto. Seja com uma habilidade, como fotógrafo para registrar alguma atividade, um depoimentos inspirador, entre outros. Eles já promoveram oficinas de mediação de conflito, edição de vídeo, jogos teatrais, aulas de excel, apresentações culturais, etc. Toda as participações serão voluntárias, sem remuneração, assim como também não haverá custos para os professores e as escolas envolvidas. 

Projeto Quero na Escola!

Tudo começou com uma necessidade social que foi mapeada durante o Social Good Brasil Lab. Lá, eles perceberam três coisas:

1. os estudantes têm muitos interesses além do currículo escolar
2. a escola já tem muitas demandas e não pode aumentar o atendimento
3. as pessoas querem colaborar, mas não são informadas sobre as oportunidades existentes

Esse projeto busca aproximar a escola pública com a sociedade. Por isso, a prioridade é o atendimento de demandas originais de alunos de escolas públicas por voluntários. Afinal, facilitar essa comunicação e fazendo essa ponte é uma maneira de abrir o  o círculo da escola para a comunidade e estimular novos conhecimentos, dar espaço ao protagonismo e aos sonhos dos estudantes e chance de participação a pessoas comuns.

Especial Professor

Agora, nesta edição, o projeto está com foco nos professores. Junto com a Fundação SM, eles lançaram em julho a terceira edição do Quero na Escola Especial Professor. Qualquer educador pode solicitar colaboração em algum projeto que já existe, ou até trazer algum conhecimento que seja interessante para os alunos ou para a equipe. 

Para se inscrever, os professores devem entrar no site do projeto e dizer que assunto ou tipo de especialista querem. Pode ser alguém para ensinar a mexer em algum programa, dar uma aula de yoga e relaxamento ou levar uma atividade que a escola não costuma ter para os alunos. Após as inscrições dos educadores, quem quer dar sua contribuição com a educação pública tem um mapa claro de como e onde ajudar. As participações serão organizadas pela equipe do Quero na Escola. Essa conexão e o agendamento de visitas acontecerá em outubro, como um presente no mês dos professores.

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Canal no Youtube Looking 4 Heroes aborda protagonismo do aluno e celular em sala de aula

Fotografia de Cléssio Bastos e aproximadamente cinco alunos ao lado de um mural de fotos.

Cléssio Bastos é professor de uma escola pública rural nos arredores de Goiânia. No entanto, logo no início da sua carreira, ele percebeu que estava muito infeliz e sem perspectivas para alguém que tinha acabado de começar. Por isso, ele criou o projeto Looking 4 Heroes. Nessa jornada, ele já conquistou muita coisa. Uma delas foi quando ele levou 50 alunos para a livraria pela primeira vez. Ou quando ele usou o Skype para ajudar nas aulas de inglês de uma escola rural de Goiás

Canal Looking 4 Heroes

Agora, depois de tudo isso, ele pegou uma câmera e saiu por aí conhecendo escolas e personagens incríveis da vida real. Ele compartilha tudo isso no seu canal Looking 4 Heroes, onde, segundo ele, há suas “tentativas de ser um professor relevante”.

No canal, ele publicou o vídeo “Protagonismo do aluno e celular em sala de aula”. Nele, ele fala sobre a importância do aluno ver uma relevância na aula. Assim, ele sente a liberdade para interferir e participar do seu aprendizagem. Ou seja, sucesso garantido. Ele mostra como ele transformou uma aula “normal” em uma super experiência de aprendizagem. Olha só:
 

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Laboratório de criatividade em escolas na periferia de SP traz educação socioemocional e mão-na-massa

No canto esquerdo da fotografia há aproximadamente quatro jovens sentados. No centro, há três jovens sentados em almofadas no chão discutindo sobre um assunto olhando para o notebook.
No canto esquerdo da fotografia há aproximadamente quatro jovens sentados. No centro, há três jovens sentados em almofadas no chão discutindo sobre um assunto olhando para o notebook.
(Reprodução/Facebook Área 21)

Existem muitas formas de contar o que é a Área 21.

Podemos contar sua história através das perguntas que provocaram sua criação. Como “Que competências os jovens precisam desenvolver para garantir seu sucesso no século XXI?”. Durante a cocriação da Área 21, diversos especialistas em educação e espaço maker e jovens foram envolvidos.

Também poderíamos contar começando pela jornada desse projeto. Ele é um Laboratório de Criatividade que traz os jovens para um jogo, onde eles passam por uma fase tutorial antes de partir para as missões reais e conquistar o universo. Ou podemos focar nas competências socioemocionais. Elas são o nosso coração! Tudo na metodologia é pensado para que os jovens desenvolvam criatividade, comunicação e empatia, colaboração e cooperação, pensamento crítico e autoeficácia. Isso acontece através de um super espaço, que tem direito a tudo que um bom “espaço maker”. Ou, como dizemos, espaço mão na massa, que tem cortadora a laser; impressora 3D; arduino; programação; robótica; vídeo e muito mais. O espaço da sala de aula deles é cheio de materiais e projetos realizados pelos alunos, para ter mais pertencimento e conforto. 

Os jovens na Área 21

As formas são muitas, mas, no meio de tantos olhares, o mais aguçado é, sem dúvidas, o dos jovens que fazem a Área 21. “É muito bom pra você aprender coisas novas para sua vida, também não é só pra trabalhar e atuar no mercado de trabalho. Você pode também levar como um aprendizado pra vida, né? Você aprende coisas novas e utiliza elas no dia a dia”, contou Fernando, de 16 anos.

“É um lugar que você vai lá e você coloca suas ideias em prática. Então, você trabalha muito com empatia para saber escutar e também ser escutado pelas outras pessoas. Em todo momento do curso, eles perguntam se você está bem, se você tá de acordo com aquilo, perguntam o porquê das coisas. Afinal, você tem que saber o que tá falando. Então, isso te obriga realmente a pensar. Você cria a sua opinião. Eu sei das coisas porque eu pesquisei sobre isso. Eu fui atrás. Eu criei um projeto sobre isso. E eu posso mudar alguma coisa com esse tipo de projeto. Isso é totalmente reconfortante e muito satisfatório, de verdade.” também contou Giovana, de 15 anos.

No fim, ou no começo, o que vale enfatizar é isso: a Área 21 é dos jovens, eles são os protagonistas, eles constroem, eles aprendem e eles ensinam. Tem muito para contar sobre o projeto, e esperamos poder fazer isso aqui no Caindo no Brasil, convidando vocês para entrar nesse Laboratório de Criatividade. 

Vamos?

Por Lyna Malheiros, coordenadora da Área21 pelo Instituto Tellus

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Monique Evelle quer saber: “Há espaço para todo mundo no futuro?”

Imagem de Monique na rua, com o braço levantado protestando, e ao fundo outras oito pessoas
(Reprodução/Instagram)

Em 2017, Monique Evelle foi reconhecida pela revista Forbes como uma das 30 jovens com menos de 30 anos mais promissoras. Já participou de grandes eventos, como TEDxRioVermelho, TEDxSãoPaulo e Youth Business International. Também participou do Prêmio Laureate Brasil, Simpósio da Universidade de Harvard e Conectados al Sur.

Conhecemos Monique em 2013, durante a viagem do Caindo no Brasil. Já envolvida em diversos projetos na capital soteropolitana, tivemos uma breve conversa em um ônibus urbano a caminho de sua faculdade na época. Nos encantamos tanto que ela foi uma das pessoas inspiradoras que fizeram parte do Livro do Caindo no Brasil, escrito pelo Caio Dib, nosso fundador. Na jornada de Caio pelo país – que durou cinco meses e meio – em busca de escolas, projetos e histórias que fazem a diferença na educação brasileira.  

Recentemente, Monique deixou a função de repórter no semanal da Globo, Profissão Repórter. Agora, ela iniciou outros projetos de grande relevância. A jornalista passa a integrar, a partir de abril, o núcleo responsável pelo desenvolvimento e pela criação dos futuros trabalhos do Bossa Nova Studio. Ela cuidará da manutenção de projetos que englobam produções audiovisuais, plataformas digitais e ferramentas de entretenimento, relevância social e impacto em rede. O estúdio tem vários trabalhos consagrados nacional e Internacionalmente. Um deles é o projeto A Turma da Mônica Jovem, do Maurício de Souza.

Monique conversou com o portal Mundo Negro

A jovem deu uma entrevista exclusiva para o Mundo Negro, onde ela fala sobre novos rumos, amadurecimento, a moda da Diversidade e sua carreira. Olha só: 

Mundo Negro: O que você acha que mais mudou entre aquela adolescente inquieta que queria mudar o mundo, com essa jovem mulher que você se tornou? 

Monique Evelle: Eu digo para amigos próximos que em 2017 me tornei adulta. Isso porque quem não entendia que Monique Evelle, fundadora da Desabafo Social, era uma profissional formada e tudo mais, passou a entender com Monique Evelle, repórter do Profissão Repórter. Porque até então eu era apenas a ativista , militante e empreendedora social. Em 2017 me tornei a empresária e repórter. A chave mudou na cabeça das pessoas. De uns três anos pra cá me vejo muito mais estratégica, mais consciente nas minhas decisões. Seleciono mais onde quero estar e com quem quero estar e não sofro ao dizer não. Esses pontos me deixam menos sobrecarregada e consigo direcionar meus esforços para o que vale a pena.

Você é muito aberta sobre suas percepções boas e ruins nas suas relações de trabalho e sobretudo no contexto do feminismo e movimento negro. Fazendo um balanço, rolou mais alegrias ou decepções nessa sua caminhada e de que forma isso impactou o seu trabalho?

Mais alegrias com certeza. As tristezas aconteceram apenas em reportagens que qualquer ser humano ficaria impactado, como a de Feminicídio e Naufrágios. Eu costumo dizer que se Caco Barcellos não tivesse me parado naquela lanchonete em setembro de 2016 e eu não tivesse aceito três meses depois, nunca imaginaria trabalhar com audiovisual. Na verdade, o Profissão comprovou aquilo que sempre acreditei: fazer andar juntos o talento e técnica. Aparentemente eu tenho o talento de me comunicar com as pessoas. Saber como chegar respeitando o lugar do outro e assim por diante. No Profissão adquiri a técnica. Se hoje eu aposto em conteúdo audiovisual, me vejo como roteirista e diretora, foi o Profissão Repórter que me trouxe isso. Não tenho o que me queixar em relação a isso.

Você saiu do Profissões Repórter que é um dos programas mais intensos em termos de jornalismo da maior emissora do Brasil. Trabalhar na Globo foi do jeito que você imaginava que seria?

Eu nunca imaginei trabalhar na Globo, nunca mesmo. E depois que deixei meu crachá sem querer cair na rua, uma menina pegou , me devolveu e disse “cuidado para não deixar o sonho de muita gente cair”, eu tive um choque de realidade e ao mesmo tempo senti o peso da responsabilidade. Eu estava realizando o sonho de outras pessoas. Então eu sempre pensei que já que estou na maior emissora do Brasil que seja para fazer ressoar aquilo que eu fazia nas ruas e na internet. As reportagens que fiz mostram isso. A única coisa que tenho a dizer é que o Profissão Repórter foi um dos melhores espaços e ambientes que já trabalhei até hoje.

Você faz muitas palestras, eventos dentro e fora do país. Qual o tema que as pessoas mais te chamam para falar? Se fosse escolher um assunto que você adoraria abordar em um grande palco/plataforma, qual seria?

Sobre temas em eventos tive algumas fases. Mais adolescente era sobre Direitos da Juventude. Na casa dos 18 anos era tudo relacionado a raça e gênero. A partir dos 20 acrescentaram empreendedorismo e hoje tendências, futurismo e diversidade. Acredito que consigo fazer um mix de todas essas temáticas. E por isso gostaria de apresentar minha perspectiva até chegar numa resposta coletiva para a pergunta “Há espaço para todo mundo no futuro?”.

A diversidade é o tema do momento. Essa é uma preocupação real das empresas ou algo para parecer politicamente correto, como reciclar e inserir práticas sustentáveis? Se é uma oportunidade de negócio, pessoas negras estão sabendo surfar nessa onda, não só como profissionais contratados, mas também como empresas de consultoria nesse tema?

Há quem incorpore a cultura da diversidade por uma questão de oportunidade de negócio. E há quem faça isso porque entendeu que é necessário tanto para cultura organizacional, quanto para justiça social. Agora, por mais que haja algumas consultorias lideradas por negros e mulheres sobre o tema diversidade, ainda é pouco e geralmente não ganham concorrência de grandes empresas. O único conselho que posso dar é identificar mais parceiros do que concorrentes. E também tentar responder a seguinte pergunta: Minha empresa continuará existindo quando a onda passar? A partir daí a gente começa a pensar em leques de serviços que não seja tão pontual.

Dentro dos seus projetos para 2018, quais você gostaria de destacar pela relevância? Tem algo que estava na gaveta e que finalmente você poderá realizar?

Recebi várias propostas e uma delas foi da Bossa Nova Studio, uma empresa da Bossa Nova Group. Era para integrar o time de desenvolvimento de estratégias e produção audiovisual com foco em entretenimento e impacto social.

E cheguei num momento maravilhoso para cuidar de perto de um projeto que me deixa muito orgulhosa. Ele será lançado logo mais, só que não posso falar muito porque ainda é confidencial. Só posso dizer que será incrível e justo pra todo mundo. Agora, as outras novidades as pessoas vão saber aos poucos. Mas tem coisas que por mais que a gente saia, não sai da gente.

Post com modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Monique Evelle deixa Profissão Repórter e prova que inovação e futurismo são assuntos de preto“, da reporter Silvia Nascimento, para o Mundo Negro. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Entrelinhas e laços: as protagonistas

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

“Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz os assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modifica-lo.”

Assim que terminei de ler emocionada a crônica de Affonso Romano de Sant’Anna o 8ºC olhou pra mim como se eu fosse a autora daquelas palavras. Depois de um breve silêncio, um suspiro coletivo e uma fala de Caíque:

– Nossa, professora! Que texto profundo.

Foi assim, de primeira viagem, que meus navegantes do 8ºC entraram na maré das crônicas. Aquela aula de introdução ao novo gênero foi mesmo profunda. A sala percebeu que, de fato, as crônicas provocam reflexões e críticas.

Em casa, preparando um novo planejamento, reli a crônica “Porta de colégio” e nas entrelinhas encontrei uma nova passagem: o protagonismo juvenil. Era essa a temática que brilhava dentro da minha cabeça enquanto as abas cresciam na tela do meu computador.

Queria encontrar um texto que mostrasse aos alunos que enredo de crônica é sucessão de acontecimentos no presente. Queria um texto que mostrasse o agora. Uma crônica com personagens adolescentes que não frequentam a escola pensando em se preparar pra vida adulta, porque estão ocupados demais fazendo a vida acontecer no agora. Organizando debates na escola. Mobilizando o bairro. Promovendo eventos culturais.

Busquei em vários sites, contatei alguns colegas da área, mas não encontrei nenhuma crônica que atendesse minhas expectativas.

A segunda aula sobre crônicas no 8ºC não teve o texto que eu queria e não foi tão inspiradora quanto a primeira. Os alunos estavam agitados. Alguns mais que outros. Outros menos que alguns. Eu mesma não me excluo da agitação, pois tinha acabado de sair da minha turma de sétimo ano (professores de sextos e sétimos me entenderão!). Enfim, aquela aula foi bagunçada demais e não atingiu o ápice como a primeira. Saí de lá pensativa. “Preciso trazer sem falta um texto interessante sobre protagonismo juvenil pra essa turma na próxima aula”.

No fim do dia, estava em outra sala, do oitavo E, esperando alguns alunos terminarem a atividade. Olhei pra porta porque percebi um aglomerado anormal. O sinal já tinha tocado, o barulho do corredor já tinha cessado. Porém, lá estavam 5 alunas do 8 C me esperando. Uma delas fez sinal que queria falar comigo. Os dois alunos terminaram o exercício e saíram dando passagem para as meninas que me traziam uma alegria inesperada:

– Acho que você vai gostar da nossa ideia, professora.

Me disse Laura sorrindo até a ponta do rabo de cavalo que saudava o imponente coque de Jamile. Ao lado das duas, Michele e seu crespo proferiram:

– Sabe o que é professora, hoje depois da sua aula eu fiquei pensando muito numa coisa. Alguns alunos atrapalham as aulas, estão com muita falta de respeito e o bullying está passando de todos os limites. A Mari fez uma fala hoje lá pra turma, bem depois que a senhora saiu e eu fiquei pensando que a gente poderia passar em todas as salas conversando sobre isso. Fazendo tipo uma palestra.

– E falando sobre padrão de beleza, também! A gente quer falar sobre isso com os alunos.

Complementou Emily Cachos enquanto eu descia da minha elevação aos céus. A história de protagonismo juvenil que eu tanto busquei estava sendo encenada na minha frente!

Começamos a conversar sobre a proposta e as cinco meninas foram se empolgando a medida que minha animação crescia. Ou foi ao contrário? Não sei se delas pra mim ou de mim pra elas, mas sei que a energia fluiu tanto que a professora de matemática também entrou na sala e o entusiasmo nos abraçou. Pela primeira vez na minha escola senti o significado do substantivo sororidade.

Quando já estávamos saindo, Mari fisgou meu semblante e finalizou meu dia letivo fazendo um pedido:

– Professora Madu, escreve uma crônica do dia de hoje!

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

Escrevo essa pra Mari, Laura, Michele, Emily e Jamile. Escrevo pra todas as gurias e guris que tiveram iniciativa, que buscaram fazer qualquer coisa de diferente na escola. Escrevo para os adolescentes protagonistas, inquietos e curiosos. Para os jovens inconformados. Para os adultos que protagonizam a juventude desde o dia que conheceram Holden Caufield. Escrevo para os professores que querem levar um texto sobre protagonismo juvenil pra sala de aula mostrando pros alunos que melhor que ficção, só mesmo a realidade.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Escola é espaço de aprendizagem e protagonismo

Imagem de estudantes durante ocupação em cima de cadeiras, na faixa de pedestres da rua, segurando uma faixa grande escrito "Tira das Olimpíadas e investe na educação"
Imagem de estudantes durante ocupação em cima de cadeiras, na faixa de pedestres da rua, segurando uma faixa grande escrito "Tira das Olimpíadas e investe na educação"
Em 2016, estudantes no Rio de Janeiro ocuparam as escolas e as ruas contra cortes na Educação e a Reforma do Ensino Médio (Reprodução/Nova Escola)

O potencial de mobilização dos jovens é grande, mas ainda é subestimado e subutilizado pela sociedade. Esse é um dos indicativos da pesquisa “Novos fluxos na busca por oportunidades: Trajetórias de jovens nas periferias da cidade”, da Fundação Itaú Social. A pesquisa destaca a relação dos estudantes com o território escolar. De autoria de Fernanda Zanelli, gestora de projetos socioculturais para juventudes, a publicação fala sobre a formação das periferias.

Além desse panorama, a obra indica alguns elementos que são a chave para novas experiências. A escola é tida como um espaço de aprendizagem importante para socialização, articulação sobre temas e grupos e para desenvolver o protagonismo estudantil. “Dentro dessa rede, os estudantes podem dar sua opinião sobre diferentes temas, dialogar, desenvolver projetos e ter contato com novidades”, relatou Fernanda Zanelli para o Portal Nova Escola.

Como uma agregadora de oportunidades, onde se formam relações de confiança (amigos) e vínculos indiretos (conhecidos), a escola é um caminho para apresentar possibilidades de experiências diversificadas e externas à escola. Além disso, ela amplia os espaços da cidade ocupados pelos jovens da periferia e as possibilidades de Educação e trabalho. “É por meio dos pares que a novidade é legitimada e muitos têm conhecimento sobre cursinhos pré-vestibulares, cursos gratuitos, coletivos e ONGs que podem colaborar para sua formação ou ingresso no mercado de trabalho”, explica a autora.

Gestão democrática

Ações de gestão democrática que envolvam os alunos nas discussões e decisões podem fazer da escola um espaço de maior pertencimento, melhor convivência e mais oportunidades de desenvolvimento. “São muitas portas possíveis de serem abertas nesse processo. Ainda mais quando se tem uma rede que auxilie a fazer escolhas mais conscientes e em melhores condições”, defendeu Fernanda na entrevista para a Nova Escola. Na visão da autora, falta um fluxo sustentável para encaminhar as demandas da escola, encaminhá-las e absorvê-las. “Isso precisa estar inserido numa rotina para não ser algo efêmero”.

Entre as principais recomendações do estudo para políticas e programas voltados para a juventude estão o reconhecimento de que precisa ser diversa; o apoio para que jovens se sintam seguros em explorar novos territórios e ousar novos olhares; levar a sério o protagonismo juvenil não como consultivo, mas na perspectiva de construção conjunta; ampliação de programas de aprendizagem; aproximar os serviços públicos do jovem; reconhecer as inovações já em curso desenvolvidas pela juventude e articulação entre as diferentes políticas sociais.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação Escola é espaço de aprendizagem e protagonismo, da repórter Laís Semis para a Nova Escola.

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Alunos criam dicionário de gírias urbanas e brincadeiras da favela

Brincadeiras de favela
Brincadeiras de favela
(Reprodução/Porvir)

Os aspectos socioculturais da favela proporcionam aos estudantes da escola pública reflexões para transformar a própria realidade. E foi assim que surgiu o “É de Quebrada que Eu Vou”. Um projeto que buscou compreender e valorizar a cultura popular como forma de expressão artística e ideológica-identitárias. Afinal, o protagonismo dos jovens e uma educação com mais significado são essenciais para promover o engajamento dos alunos.

Por que a cultura presente nas favelas não é discutida nos currículos escolares da escola pública, tendo em vista que grande parte de seus integrantes é oriundo desses espaços? A partir desse questionamento, dei início ao projeto. Primeiro, sugeri que os estudantes do 5º ano da Escola Municipal Gersino Coelho, de Salvador (BA), pesquisassem a origem dos seus bairros. Depois, trouxe para os nossos estudos a história das formações dos primeiros quilombos brasileiros. Assim, há um estimulo de descobertas e percepções das semelhanças e diferenças desses dois espaços.

Já que para discutir sobre a cultura urbana em nossa sociedade era preciso também discutir a cultura do gueto, que sempre sofreu preconceito e discriminação, resolvi oportunizar aos alunos, que são atores sociais desse espaço, refletir sobre a própria realidade.

Durante a execução do projeto, discutimos a origem e formação das favelas no Brasil. Em especial na Bahia, fazendo relação com o período colonial para compreender o processo de escravidão e pós escravidão. Também buscamos entender os reais motivos de a maioria da população da favela ser negra. Assim, compreendendo também as manifestações culturais nos espaços marginalizados e os fatores positivos e negativos sobre o espaço da favela.

História e identidade cultural

Várias atividades foram desenvolvidas sobre esses e outros assuntos. Afinal, o objetivo era que os alunos pudessem compreender e valorizar sua cultura e o espaço em que vivem. Tivemos a oportunidade de ler diversos poemas do Sergio Vaz e articular com os temas estudados. Além disso, conhecemos através de vídeos e slides o trabalho do grupo Sarau da Onça, da periferia de Salvador, e a Universidade das Quebradas, no Rio de Janeiro. Ambas realizam um belíssimo trabalho de valorização da produção cultural com pessoas da periferia.

Para melhor compreender a diversidade cultural presente no gueto, realizamos uma mostra cultural sobre a Formação do Povo Brasileiro. Após várias pesquisas e estudos apresentamos sobre as etnias que deram origem a nossa identidade cultural.

Outra atividade muito significativa que realizamos foi a construção do “Dicionário Interativo das Gírias Urbanas”. Nessa atividade, fizemos uma pesquisa sobre as gírias faladas nas comunidades e seus respectivos significados.

Na atividade Formas de Brincar na Favela, os alunos realizarem pesquisas e debates sobre as diversas maneiras de brincar na favela e os direitos das crianças e adolescentes. Produzimos um livro com os nomes e o passo a passo das brincadeiras. Como muitas brincadeiras na favela são improvisadas com materiais acessíveis, resolvemos reconstruir no espaço escolar as diferentes maneiras de brincar. Nós montamos com sucata brinquedos e brincadeiras, como andar no pé-de-lata, empinar pipas, futebol com bola de meia, amarelinha, pega-pega, vai e vem com garrafa pet, peteca de jornal, etc.

A forma de brincar pelas crianças da favela também denota a construção da cultura. É através da forma de brincar que a criança contextualiza e assemelha as ações e regras sociais. E, em especial, as do local em que estão inserida. O espaço da rua, os becos e as quebradas geralmente são os lugares em que a criança da favela tem disponível para experimentar as normas que estão submetidas Assim, a partir do jogo simbólico é possível construir e reconstruir regras para exercer seu papel de cidadão.

Expressão cultural

Já ao estudarmos sobre a expressão da cultura do gueto, escolhemos a cultura hip hop por ser uma expressão forte na favela. Estudamos diversas letras de rap, analisamos o discurso presente e estabelecemos uma relação com o nosso dia-a-dia.

Trouxemos para a nossa escola como convidados um MC, um grafiteiro e um DJ. Os alunos tiveram a oportunidade de realizar uma entrevista para conhecer melhor a cultura hip hop. O dia da entrevista sem dúvida merece destaque, pois os convidados nos presentearam com várias lições de vida. Falaram das dificuldades de nascer, crescer e viver na favela e do preconceito enfrentado no dia a dia. Depois das entrevistas, os convidados realizaram um grande show para toda a comunidade escolar.

Após meses de estudos sobre os aspectos artísticos e culturais da favela, seus elementos geográficos e socioeconômicos, entre outros, sugeri aos alunos que construíssem com sucatas maquetes dos lugares em que moravam. O resultado foi maravilhoso. No dia da exposição, realizamos também a feira empreendedora da favela.

Matéria publicada pelo Porvir.

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Após ocupações, alunos querem ter voz na escola

ocupação escolas públicas

O que até outro dia era considerado um lugar em que se passava algumas horas do dia fazendo atividades quase sem conexão com o mundo exterior. Agora, a escola é vista por alunos que protestam contra o plano de reorganização do ensino proposto pelo governo de São Paulo como um espaço de possibilidades. Depois de mais de um mês desde que a escola Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, foi ocupada em um processo acompanhado por outros estudantes em centenas de unidades de ensino por todo o estado, jovens contam que aprenderam a trabalhar juntos, a trocar experiências com a comunidade e se dizem mais preparados para novas demandas e estabelecer um diálogo com os responsáveis pela gestão.

ocupação escolas públicas

O Porvir visitou cinco escolas ocupadas em diferentes bairros da capital paulista onde conversou com estudantes de diversas instituições públicas. Nas conversas, buscava entender como o atual modelo de ensino é avaliado. Além disso, mapeava-se quais são as expectativas após um movimento que levou oficinas e shows que até pouco tempo atrás pareciam distantes do ambiente escolar. “A gente ocupou a escola e começou a fazer as atividades culturais. Mas por que a gente precisa ocupar a escola para fazer isso? Por que nos dias letivos não tinha aula de música, uma capoeira… por que tem que ser sempre aquilo?”, questiona Ângelo Gabriel dos Santos Moreira. Ela está 2º ano do ensino médio da Escola Estadual Dona Ana Rosa de Araújo, localizada na Vila Inah, na zona oeste da cidade.

O interesse por assuntos que não constam na programação oficial é acompanhado também pela chance de olhar o conteúdo que eles já conhecem por outros ângulos. “Nesse um mês de ocupação, nós aprendemos mais do que no ano letivo, mais do que na sala de aula. Nós não sabíamos nada de política, por exemplo. Aprendemos que as aulas chatas podem ser criativas. Vários professores estão nos dando aulas todos os dias das duas às seis da tarde”, conta Allekxander Henrike Buniark, 21, do 2º ano do ensino médio da Fernão Dias. Em uma fala bastante comum ouvida pelo Porvir, o estudante cobra maior reconhecimento e participação de alunos dentro da gestão escolar: “Queremos ter voz ativa. As decisões da escola não podem ser tomadas apenas pelos diretores e professores. A escola foi feita para o aluno”, diz.

Redescobrimento do espaço

Até para que o aluno tenha a possibilidade de se desenvolver de forma plena, a discussão sobre mudanças também chega ao espaço físico da escola, que muitos comparam a uma prisão, relação fácil de ser feita dada à presença marcante de grades e portões de ferro que impedem a livre circulação. “Primeiro, a escola precisa ter estrutura para receber o aluno. A minha escola parece um presídio. Como é possível estudar em uma escola assim?”, questiona Manoela Romero Day, 15, do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Godofredo Furtado, Pinheiros.

O mesmo sentimento é compartilhado por Clara Bruder, 16. Aluna do segundo ano da Dona Ana Rosa Araújo, que avalia a chance de conhecer novas pessoas como parte de um “redescobrimento”. “Antes, a gente não saia da nossa zona de conforto para conhecer as outras pessoas. A gente tem 20 minutos de intervalo…aquele banho de sol depois de horas dentro da sala de aula”, afirma.

Mão na massa

Em uma ação para mudar o cenário na Dona Ana Rosa de Araújo, alunos deram início a uma horta. Eles desentupiram uma canaleta que, de tão suja, costumava reter a água da chuva que deveria escoar e pintaram paredes com a ajuda de latas de tinta doadas por moradores do bairro.”Os alunos querem uma escola mais colorida e não aquela coisa preto no branco, bege no branco. Fica feio”, explica Pablo Carlos Ramos Moreira, 17, do primeiro ano do ensino médio. Segundo ele, o plano é tornar a escola mais interativa e que não seja vista só pelo lado do ensino. “É um espaço de convivência para todo mundo, porque a gente passa a maior parte do nosso tempo aqui e temos na escola a nossa segunda família e nossa segunda casa”.

Outro ponto quase unânime relatado pelos alunos ao Porvir diz respeito à valorização do trabalho de funcionários que não frequentam a sala de aula, mas desempenham papel importante para que a escola funcione, como é o caso de cozinheiros e faxineiros. Como muitos estudantes passam o dia todo na escola, a divisão de tarefas coloca alguns em funções que durante dias letivos eram impensáveis e que acabaram se tornando um desafio, como descreve Victória Martini, 17 anos,  do segundo ano do ensino médio da Escola Estadual Professor Manuel Ciridião Buarque. “Os alunos que estão na equipe da cozinha falam ‘nossa, eu nunca mais vou deixar a louça jogada’”.

Por um modelo atualizado

“A gente quer uma escola com mais áreas verdes. Falta circular mais pra fora da sala de aula. Dentro da sala, quais são nossos estímulos? Um caderno, uma lousa, uma caneta”, reflete Camila Cavicchioli, 18, do terceiro ano da Escola Estadual Francisco Borges Vieira. Ela estava apoiando colegas na Escola Estadual Orville Derby, na Vila Formosa, zona leste. Para a estudante, a organização e a disposição dos alunos na sala de aula também não favorece o aprendizado. “Por que as carteiras ficam de frente para o professor? Ele fica lá na frente da sala olhando pra gente. Geralmente, fica de costas para a lousa porque já parece ter todo o conhecimento. Não sobra espaço para o aluno dialogar”, diz.

Além de disciplinas como português, matemática e ciências, os estudantes dizem sentir falta de um espaço para artes, teatro, música, dança e o desenvolvimento de competências que vão além dos conteúdos. “Na escola a gente não aprende a ter um senso crítico. Eu tenho uma aula de sociologia e cinco de matemática”, questiona Camila. Durante a ocupação, os alunos já se reuniram na Orville Derby para oficinas e rodas de conversa sobre gênero, música negra, genocídio na periferia, entre outras.

Escola dialogando com o entorno

A estudante conta que a escola ainda está muito distante dos interesses dos alunos. “A escola da periferia não representa a realidade da periferia”, observa. Ela menciona que a cultura local não é contemplada nem pelas aulas e nem livros didáticos. O aluno Bruno Vicente, 17, do nono ano da  Escola Estadual Antonio Candido Barone, também defende que a escola deve dialogar mais com a realidade do seu entorno. “O conceito de educação precisa ser criado a partir da cultura de cada lugar”, diz o menino, que gostaria de aprender mais sobre hip hop na escola porque, segundo ele, é uma forma de discutir problemas sociais.

“O currículo traz coisas que a gente precisa aprender, lógico. Mas não deixa a gente ter liberdade de expressão. A gente tem que trabalhar o que está na apostila, mas tem outros conteúdos da mesma matéria que a gente quer estudar”, conta Ângelo Moreira, da Dona Ana Rosa Araújo.

Maneiras de aprender

Se a discussão sobre o que aprender era recorrente na fala dos alunos, o como aprender também foi questionado por eles. “Eles dão um exercício para todo mundo da sala. É um padrão. Eles não veem o grau de dificuldade das pessoas. Quem aprendeu, aprendeu, e quem não, fica sem aprender”, conta Pamela Melo, 17, do segundo ano. Na mesma linha, Clara Bruder, da Dona Ana Rosa de Araújo, fala que é preciso mudar a forma de avaliação que eles são submetidos. “Precisa parar de olhar a nota como uma coisa tão importante. Uma nota não define o tanto que eu aprendi. Isso que me deixa frustrada.”

Após as ocupações, a adolescente diz que os alunos poderão questionar mais sobre o modelo de escola. “Vai haver disciplina para aprender,  mas não aquela de fazer a gente ficar sentadinho, mandar a gente pro intervalo e fazer voltar em filinha. Acho que a gente vai conseguir chegar ao ponto de questionar isso. Esse é o meu sonho.”

Matéria publicada pelo Porvir