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Alunos criam dicionário de gírias urbanas e brincadeiras da favela

Brincadeiras de favela
Brincadeiras de favela
(Reprodução/Porvir)

Os aspectos socioculturais da favela proporcionam aos estudantes da escola pública reflexões para transformar a própria realidade. E foi assim que surgiu o “É de Quebrada que Eu Vou”. Um projeto que buscou compreender e valorizar a cultura popular como forma de expressão artística e ideológica-identitárias. Afinal, o protagonismo dos jovens e uma educação com mais significado são essenciais para promover o engajamento dos alunos.

Por que a cultura presente nas favelas não é discutida nos currículos escolares da escola pública, tendo em vista que grande parte de seus integrantes é oriundo desses espaços? A partir desse questionamento, dei início ao projeto. Primeiro, sugeri que os estudantes do 5º ano da Escola Municipal Gersino Coelho, de Salvador (BA), pesquisassem a origem dos seus bairros. Depois, trouxe para os nossos estudos a história das formações dos primeiros quilombos brasileiros. Assim, há um estimulo de descobertas e percepções das semelhanças e diferenças desses dois espaços.

Já que para discutir sobre a cultura urbana em nossa sociedade era preciso também discutir a cultura do gueto, que sempre sofreu preconceito e discriminação, resolvi oportunizar aos alunos, que são atores sociais desse espaço, refletir sobre a própria realidade.

Durante a execução do projeto, discutimos a origem e formação das favelas no Brasil. Em especial na Bahia, fazendo relação com o período colonial para compreender o processo de escravidão e pós escravidão. Também buscamos entender os reais motivos de a maioria da população da favela ser negra. Assim, compreendendo também as manifestações culturais nos espaços marginalizados e os fatores positivos e negativos sobre o espaço da favela.

História e identidade cultural

Várias atividades foram desenvolvidas sobre esses e outros assuntos. Afinal, o objetivo era que os alunos pudessem compreender e valorizar sua cultura e o espaço em que vivem. Tivemos a oportunidade de ler diversos poemas do Sergio Vaz e articular com os temas estudados. Além disso, conhecemos através de vídeos e slides o trabalho do grupo Sarau da Onça, da periferia de Salvador, e a Universidade das Quebradas, no Rio de Janeiro. Ambas realizam um belíssimo trabalho de valorização da produção cultural com pessoas da periferia.

Para melhor compreender a diversidade cultural presente no gueto, realizamos uma mostra cultural sobre a Formação do Povo Brasileiro. Após várias pesquisas e estudos apresentamos sobre as etnias que deram origem a nossa identidade cultural.

Outra atividade muito significativa que realizamos foi a construção do “Dicionário Interativo das Gírias Urbanas”. Nessa atividade, fizemos uma pesquisa sobre as gírias faladas nas comunidades e seus respectivos significados.

Na atividade Formas de Brincar na Favela, os alunos realizarem pesquisas e debates sobre as diversas maneiras de brincar na favela e os direitos das crianças e adolescentes. Produzimos um livro com os nomes e o passo a passo das brincadeiras. Como muitas brincadeiras na favela são improvisadas com materiais acessíveis, resolvemos reconstruir no espaço escolar as diferentes maneiras de brincar. Nós montamos com sucata brinquedos e brincadeiras, como andar no pé-de-lata, empinar pipas, futebol com bola de meia, amarelinha, pega-pega, vai e vem com garrafa pet, peteca de jornal, etc.

A forma de brincar pelas crianças da favela também denota a construção da cultura. É através da forma de brincar que a criança contextualiza e assemelha as ações e regras sociais. E, em especial, as do local em que estão inserida. O espaço da rua, os becos e as quebradas geralmente são os lugares em que a criança da favela tem disponível para experimentar as normas que estão submetidas Assim, a partir do jogo simbólico é possível construir e reconstruir regras para exercer seu papel de cidadão.

Expressão cultural

Já ao estudarmos sobre a expressão da cultura do gueto, escolhemos a cultura hip hop por ser uma expressão forte na favela. Estudamos diversas letras de rap, analisamos o discurso presente e estabelecemos uma relação com o nosso dia-a-dia.

Trouxemos para a nossa escola como convidados um MC, um grafiteiro e um DJ. Os alunos tiveram a oportunidade de realizar uma entrevista para conhecer melhor a cultura hip hop. O dia da entrevista sem dúvida merece destaque, pois os convidados nos presentearam com várias lições de vida. Falaram das dificuldades de nascer, crescer e viver na favela e do preconceito enfrentado no dia a dia. Depois das entrevistas, os convidados realizaram um grande show para toda a comunidade escolar.

Após meses de estudos sobre os aspectos artísticos e culturais da favela, seus elementos geográficos e socioeconômicos, entre outros, sugeri aos alunos que construíssem com sucatas maquetes dos lugares em que moravam. O resultado foi maravilhoso. No dia da exposição, realizamos também a feira empreendedora da favela.

Matéria publicada pelo Porvir.

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Empreendedorismo na educação apoia projetos de vida

Há 48 anos, um grupo de mães se uniu para criar o projeto Arrastão, com o objetivo de atuar na proteção humana e no desenvolvimento local das comunidades Campo Limpo, Capão Redondo, Vila Andrade, Jardim Ângela, Santo Amaro, Centro e Lapa. Hoje, a ONG atende mais de 1000 pessoas por dia. Ela atua em programas nas áreas de educação, arte e cultura. Geração de renda, habitação social e qualidade de vida também são apoiadas na sede, no Campo Limpo.

Há duas semanas, o Caindo no Brasil foi conhecer o Arrastart, um dos programas da ONG voltados para jovens com idades entre 15 e 29 anos. Criado em parceria com a Fundação Telefônica Vivo, o Arrastart é a extensão da formação do Projeto Pense Grande e busca empoderar e instrumentar os jovens para gerar e implementar novas soluções, com o uso de tecnologias, que resolvam problemas de suas comunidades e da cidade.

Além de ferramentas para o empreendedorismo

Programa Arrastart - ONG Arrastão e Pense Grande

O projeto trabalha com introdução de conceitos, metodologias, abordagens e ferramentas como Design Thinking, cultura maker, inovação social, entre outros. O jovem da periferia é convidado para a possibilidade de ser protagonista. Isso num cenário de inovação tecnológica e social. Os participantes criam uma proposta de negócio social e até mesmo ser acelerado pelo Pense Grande.

Mais do que ferramentas para criação de um negócio, o programa apoio o projeto de vida dos jovens beneficiados. Henrique Heder, coordenador do Arrastart, reforçou: “É um processo de autoconhecimento que gera um encontro com ele mesmo. Os jovens se surpreendem como nunca pararam para pensar neles mesmos. Existe um desejo muito grande deles contribuírem para a área social”.

Desse processo, surgiram soluções como o Educanerd, um app envolvendo games e educação para visitação de museus e centros culturais, ou o Manobra Saúde, uma espécio de “Uber” para unir motoristas qualificados a atender clientes que precisem de cuidados especiais por condições físicas ou realização de exames. Além disso, mais de 4500 jovens participaram das formações desenvolvendo as competências empreendedoras e criando 90 propostas de startups. Mariana Ferreira, uma das jovens que participaram do programa, contou: “Eu aprendi que ser empreendedor é pegar um problema social, pegar uma questão que é um nicho de mercado e transformar em um projeto é trazer uma ideia inovadora realmente.”

Programa Arrastart - ONG Arrastão e Pense Grande

Em 2017, o projeto pretende criar um laboratório maker dentro da ONG Arrastão. Assim, aproximará os jovens ainda mais do ecossistema de inovação e empreendedorismo. A ideia também busca garantir um espaço de coworking para os jovens e possibilidades de testarem suas ideias a partir da cultura mão na massa. Henrique, coordenador do Arrastart, contou: “Estamos nos preparando para sermos um polo local de impacto social. Temos um compromisso com o desenvolvimento local da região”.