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Usar as palavras como ferramenta

Cena 1. Algum dia não registrado de abril. Talvez final de março. Segundo horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Não preciso esclarecer que Elias tem dificuldades na escrita e leitura. Diante do caos, eu dialogo. Peço pra ele olhar nos meus olhos. Ele desvia. Quando der o sinal você não sai, Elias. A gente vai ter uma conversa. O sino toca. Elias corre. Professora, o Elias fugiu! Pega ele, Rafael! Não. Deixa quieto.

Cena 2. Volta do intervalo.

Elias entra na sala empurrando os colegas. Senta na carteira e encontra minha carta colada com uma fita crepe em cima do seu caderno. Eu observo tudo pela fresta da porta, sem ser notada.

Elias, você pode até fugir de mim mas saiba que eu nunca vou desistir de você. Eu acredito em você. Sei do seu potencial. Com amor, professora Madu.

Elias sorri no canto de boca. Olha pros lados pra confirmar que ninguém viu aquele episódio. Guarda a carta na mochila e volta a fazer pose de bagunceiro. Eu sorrio sozinha e continuo meu caminho pelo corredor até chegar na sala do 7°G.

Cena 3. 11 de setembro de 2017. Quarto horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Eu continuo atendendo os alunos, carteira por carteira. Passo pelo Elias, abaixo e digo olhando em seus olhos: você pode ficar aqui quando der o sinal? É rapidinho, quero te mostrar uma coisa. Ele acena que sim com a cabeça baixa.

Cena 4. Fim da aula/dia.

Elias, eu poderia te levar até a coordenação. Poderia te dar uma advertência e você sabe os motivos, eu não preciso falar. Mas eu quero escrever uma carta de comprometimento junto com você. Pode ser?

Pode.

Ele responde baixinho. Em um tom de voz que eu desconhecia. Sua voz é mais doce do que eu imaginava.

Redigimos juntos a carta no meu caderno.

A partir de hoje, Elias se compromete com seus estudos. Ele será um aluno responsável com seu aprendizado. Ele fará as atividades em sala, mostrando todo seu potencial.

Professora, mas eu não vou conseguir. Eu não me acho capaz.

Você é.

Cena 5. Usar as palavras como ferramenta

Usar as palavras como ferramenta
Ilustração: Maria Barge

13 de setembro de 2017. Primeiro horário no 7°F. Luiza vem correndo afobada balançando um papel.

Calma, Luiza. Não precisa correr assim. A professora vai passar em todos os grupos para orientar a produção dos panfletos da campanha. Espere que a vez do seu grupo já vai chegar.

Mas professora, a senhora precisa ver isso. Olha o texto que o Elias escreveu pra colocar no panfleto. Ele escreveu sozinho, disse que foi da cabeça dele.

“Usar as palavras como ferramenta. Lutar para acabar com o preconceito em todo o brasil”

Eu li e logo pensei que os verbos não estavam no modo imperativo, conforme havia orientado no roteiro da aula. O “B” do Brasil estava minúsculo.

Afastei esse pensamento e olhei pra Luiza que sorria olhando pra Elias que sorria olhando pra mim.

Usar e lutar no infinitivo do universo de Elias. O brasil em expansão para a maiúscula imaginação criativa do menino que duvidava da sua própria capacidade.

Fui até a carteira de Elias e dei um beijo em sua testa pequena. Sentei ao lado dele e juntos fizemos as mudanças necessárias para que a frase estivesse dentro do formato do gênero textual em estudo. Ele compreendeu.

Não se esqueçam de colocar a frase de Elias entre aspas com o nome dele logo abaixo.

Meu nome vai aparecer no panfleto, professora?

Lógico! A frase é tua! A palavra é a tua ferramenta.

Cena 6. 39 graus. Meu quarto é quase meio dia. Quase hora de ir pra escola.

Sentada na janela, fecho os olhos para reviver a lembrança. Sinto uma gota de suor deslizar lentamente da dobra do meu joelho até meu tornozelo esquerdo. Junto escorre uma gota de mar que desagua em minha boca. Abro os olhos pro mundo. Mesmo sem óculos beijo mais cores no meu quintal. Suspiro e faço minha citação do dia:

A palavra é minha ferramenta.

Confira mais relatos de Madu aqui.

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Racismo na escola: ‘ele não ia brincar comigo porque sou marrom’

Racismo na Escola

Luciana Bento é mãe e escreve sobre maternidade, negritude e literatura afro. Conhecida nas redes pelo blog A Mãe Preta, ela escreveu um texto que explica de forma didática como o racismo acontece na prática dentro das escolas, e como ele se constrói e se perpetua nas referências das crianças. Não por acaso, o texto se chama “Como nasce o racismo”. Ele narra uma situação viva pela filha, de três anos.

“Mamãe, o menino falou que não ia brincar comigo porque os amigos dele são brancos e eu sou marrom. Ele disso que não gosta de marrom.”
“E o que você disse filha?”
“Eu disse que eu gosto de marrom, e que às vezes as famílias são marrom. E toda a minha família é marrom e eu sou linda!”
” Ah é filha? E ele?”
” Ele disse que só brinca com os amiguinhos brancos.”

Por que uma criança diz algo assim? De onde vem a referência de que é preciso rejeitar alguém pela cor da pele? São as perguntas que Luciana se faz, antes até de se preocupar com a filha, que, pelo que indica sua resposta, está bem amparada e consciente da beleza de suas raízes.

Racismo pode afastar crianças da escola

No texto, a mãe chama a atenção para a complexidade do racismo estrutural. Não basta conscientizar os de filhos sobre a questão, mas sim trabalhar o assunto em larga escala, na comunidade escolar, juntos aos professores, à direção e envolvendo as famílias não negras na discussão. Afinal, toda situação como a narrada acima envolve pelo menos duas partes, e para evitar que ela não se repita, é preciso muito mais do que empoderar a criança que sofre o preconceito.

Racismo Educação“Eu posso até informar a escola o que minha filha me contou essa manhã. Mas nada me garante que o meu bilhete na agenda será observado. Nada garante que as professoras olharão com mais cuidado para as interações entre as crianças e perceberão essas situações a ponto de intervir. Nada me garante que a escola tomará atitudes para que as crianças vejam as diferenças de forma positiva. Nada me garante que a família do menino será informada, para que também possa se dedicar a uma educação para conviver e respeitar as diferenças”, observa.

“Trabalho de formiguinha”

Assim, ela pondera o que talvez seja a questão principal do racismo na sociedade. Ele precisa ser urgentemente encarado como um problema comum a todos. Somente amparada por uma família, escola e adultos sensíveis à importância dessas reflexões é que a criança poderá aprender desde cedo a valorizar as diferenças.

“Nosso trabalho de formiguinha só vai resolver uma parte do problema, a parte que os afeta. Minha filha contou isso com naturalidade, como se fosse mais um fato corriqueiro da escola e sorriu quando me contou a sua resposta para o menino. Eu posso trabalhar para que ela entenda que é o menino que sai perdendo com essa atitude, mas e a outra parte? Quem trabalha pra ensinar o menino a conviver e respeitar as diferenças? Quem ensina pra essa criança que essa atitude é racismo? Quem percebe logo na primeira infância as raízes dessa atitude e procura combatê-la?”, questiona.

Ativista 24 horas por dia, ela ressaltou, em entrevista ao Catraquinhaque “o racismo de criança para criança é um reflexo do que a sociedade faz”. Clique aqui para ler a publicação na íntegra.

Matéria publicada pelo Catraquinha