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Monique Evelle quer saber: “Há espaço para todo mundo no futuro?”

Imagem de Monique na rua, com o braço levantado protestando, e ao fundo outras oito pessoas
(Reprodução/Instagram)

Em 2017, Monique Evelle foi reconhecida pela revista Forbes como uma das 30 jovens com menos de 30 anos mais promissoras. Já participou de grandes eventos, como TEDxRioVermelho, TEDxSãoPaulo e Youth Business International. Também participou do Prêmio Laureate Brasil, Simpósio da Universidade de Harvard e Conectados al Sur.

Conhecemos Monique em 2013, durante a viagem do Caindo no Brasil. Já envolvida em diversos projetos na capital soteropolitana, tivemos uma breve conversa em um ônibus urbano a caminho de sua faculdade na época. Nos encantamos tanto que ela foi uma das pessoas inspiradoras que fizeram parte do Livro do Caindo no Brasil, escrito pelo Caio Dib, nosso fundador. Na jornada de Caio pelo país – que durou cinco meses e meio – em busca de escolas, projetos e histórias que fazem a diferença na educação brasileira.  

Recentemente, Monique deixou a função de repórter no semanal da Globo, Profissão Repórter. Agora, ela iniciou outros projetos de grande relevância. A jornalista passa a integrar, a partir de abril, o núcleo responsável pelo desenvolvimento e pela criação dos futuros trabalhos do Bossa Nova Studio. Ela cuidará da manutenção de projetos que englobam produções audiovisuais, plataformas digitais e ferramentas de entretenimento, relevância social e impacto em rede. O estúdio tem vários trabalhos consagrados nacional e Internacionalmente. Um deles é o projeto A Turma da Mônica Jovem, do Maurício de Souza.

Monique conversou com o portal Mundo Negro

A jovem deu uma entrevista exclusiva para o Mundo Negro, onde ela fala sobre novos rumos, amadurecimento, a moda da Diversidade e sua carreira. Olha só: 

Mundo Negro: O que você acha que mais mudou entre aquela adolescente inquieta que queria mudar o mundo, com essa jovem mulher que você se tornou? 

Monique Evelle: Eu digo para amigos próximos que em 2017 me tornei adulta. Isso porque quem não entendia que Monique Evelle, fundadora da Desabafo Social, era uma profissional formada e tudo mais, passou a entender com Monique Evelle, repórter do Profissão Repórter. Porque até então eu era apenas a ativista , militante e empreendedora social. Em 2017 me tornei a empresária e repórter. A chave mudou na cabeça das pessoas. De uns três anos pra cá me vejo muito mais estratégica, mais consciente nas minhas decisões. Seleciono mais onde quero estar e com quem quero estar e não sofro ao dizer não. Esses pontos me deixam menos sobrecarregada e consigo direcionar meus esforços para o que vale a pena.

Você é muito aberta sobre suas percepções boas e ruins nas suas relações de trabalho e sobretudo no contexto do feminismo e movimento negro. Fazendo um balanço, rolou mais alegrias ou decepções nessa sua caminhada e de que forma isso impactou o seu trabalho?

Mais alegrias com certeza. As tristezas aconteceram apenas em reportagens que qualquer ser humano ficaria impactado, como a de Feminicídio e Naufrágios. Eu costumo dizer que se Caco Barcellos não tivesse me parado naquela lanchonete em setembro de 2016 e eu não tivesse aceito três meses depois, nunca imaginaria trabalhar com audiovisual. Na verdade, o Profissão comprovou aquilo que sempre acreditei: fazer andar juntos o talento e técnica. Aparentemente eu tenho o talento de me comunicar com as pessoas. Saber como chegar respeitando o lugar do outro e assim por diante. No Profissão adquiri a técnica. Se hoje eu aposto em conteúdo audiovisual, me vejo como roteirista e diretora, foi o Profissão Repórter que me trouxe isso. Não tenho o que me queixar em relação a isso.

Você saiu do Profissões Repórter que é um dos programas mais intensos em termos de jornalismo da maior emissora do Brasil. Trabalhar na Globo foi do jeito que você imaginava que seria?

Eu nunca imaginei trabalhar na Globo, nunca mesmo. E depois que deixei meu crachá sem querer cair na rua, uma menina pegou , me devolveu e disse “cuidado para não deixar o sonho de muita gente cair”, eu tive um choque de realidade e ao mesmo tempo senti o peso da responsabilidade. Eu estava realizando o sonho de outras pessoas. Então eu sempre pensei que já que estou na maior emissora do Brasil que seja para fazer ressoar aquilo que eu fazia nas ruas e na internet. As reportagens que fiz mostram isso. A única coisa que tenho a dizer é que o Profissão Repórter foi um dos melhores espaços e ambientes que já trabalhei até hoje.

Você faz muitas palestras, eventos dentro e fora do país. Qual o tema que as pessoas mais te chamam para falar? Se fosse escolher um assunto que você adoraria abordar em um grande palco/plataforma, qual seria?

Sobre temas em eventos tive algumas fases. Mais adolescente era sobre Direitos da Juventude. Na casa dos 18 anos era tudo relacionado a raça e gênero. A partir dos 20 acrescentaram empreendedorismo e hoje tendências, futurismo e diversidade. Acredito que consigo fazer um mix de todas essas temáticas. E por isso gostaria de apresentar minha perspectiva até chegar numa resposta coletiva para a pergunta “Há espaço para todo mundo no futuro?”.

A diversidade é o tema do momento. Essa é uma preocupação real das empresas ou algo para parecer politicamente correto, como reciclar e inserir práticas sustentáveis? Se é uma oportunidade de negócio, pessoas negras estão sabendo surfar nessa onda, não só como profissionais contratados, mas também como empresas de consultoria nesse tema?

Há quem incorpore a cultura da diversidade por uma questão de oportunidade de negócio. E há quem faça isso porque entendeu que é necessário tanto para cultura organizacional, quanto para justiça social. Agora, por mais que haja algumas consultorias lideradas por negros e mulheres sobre o tema diversidade, ainda é pouco e geralmente não ganham concorrência de grandes empresas. O único conselho que posso dar é identificar mais parceiros do que concorrentes. E também tentar responder a seguinte pergunta: Minha empresa continuará existindo quando a onda passar? A partir daí a gente começa a pensar em leques de serviços que não seja tão pontual.

Dentro dos seus projetos para 2018, quais você gostaria de destacar pela relevância? Tem algo que estava na gaveta e que finalmente você poderá realizar?

Recebi várias propostas e uma delas foi da Bossa Nova Studio, uma empresa da Bossa Nova Group. Era para integrar o time de desenvolvimento de estratégias e produção audiovisual com foco em entretenimento e impacto social.

E cheguei num momento maravilhoso para cuidar de perto de um projeto que me deixa muito orgulhosa. Ele será lançado logo mais, só que não posso falar muito porque ainda é confidencial. Só posso dizer que será incrível e justo pra todo mundo. Agora, as outras novidades as pessoas vão saber aos poucos. Mas tem coisas que por mais que a gente saia, não sai da gente.

Post com modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Monique Evelle deixa Profissão Repórter e prova que inovação e futurismo são assuntos de preto“, da reporter Silvia Nascimento, para o Mundo Negro. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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A criminalização da juventude negra

A criminalização da juventude negra
(Reprodução/Porvir)

O jovem negro, pobre e periférico é o alvo das grades. Seja pela promessa torta socioeducativa, seja pelo mito da ressocialização. E é a juventude com este perfil que segue ameaçada por políticas de criminalização como a proposta de redução da maioridade penal que tramita no Congresso Nacional.

Políticas de criminalização? Sim! Uma das formas de controle das juventudes está na construção de criminalizações. Ou seja, o que é considerado crime e o que as autoridades realmente fiscalizam sob o argumento de ser crime. Essas são duas etapas do processo de criminalização, como explicam os juristas Nilo Batista e Raúl Zaffaroni.

O que eu quero dizer é que pensar em criminalização não se restringe às situações que levam um jovem a entrar numa Fundação Casa. Ou no sistema penitenciário. Engloba também a formação do imaginário social sobre o que é um sujeito visto como “não sociável” ou perigoso.

Os diferentes processos de criminalização possuem nuances. É preciso perceber que não são todos que levam ao encarceramento. Mas todas as formas de desvirtuamento dos jovens, enquanto seres humanos, envolvem sim um processo de criminalização. Por exemplo, a construção midiática dos termos “vândalo” e “menor” contribuem para a distorção da imagem do jovem como sujeito de direitos, um ser humano em desenvolvimento.

Aliás, a utilização da palavra “menor” pelos meios de comunicação é recorrente quando eles se referem a adolescentes pobres detidos por supostas práticas de atos infracionais. Ao longo da construção legislativa do Brasil sobre crimes cometidos por pessoas menores de 18 anos, o termo surgiu como uma forma de diferenciar as crianças em situação de rua – os “menores”, na época em que o “Código de Menores” estava vigente. Como muitas formas de estigmatização, termos pejorativos acabam se tornando parte do vocabulário. E eles permanecem até hoje em notícias veiculadas sobre adolescentes.

Portanto, podemos perceber que as classificações também fazem parte dos processos de criminalização. Quando lemos o termo “menor”, logo associamos a um jovem “bandido”, “perigoso”. Quando lemos “vândalo” a relação com “desordem” é imediata. Quando se fala em juventudes, sentidos como “transgressão” e “rebeldia” são comumente associados. E, portanto, soa como se nada de construtivo pudesse nascer dos jovens.

No entanto, a história nos mostra que repressões são cíclicas. Nenhuma das criminalizações que presenciamos hoje é inédita na história do Brasil. O processo de entendimento das vivências das juventudes negras e o respeito começa com a análise da construção do Brasil.

A criminalização das juventudes

Por meio de intervenções institucionais repressivas, inicialmente por parte das agências policiais, é possível percorrer um trajeto bem delimitado sobre as formas de criminalização das juventudes. Quando se fala em movimento secundarista, se volta a jovens estudantes de escolas públicas que lutam por melhores condições de ensino, mas ainda assim inseridos na ucaucação formal. Quando se fala em criminalização das artes de rua, por exemplo, engloba-se movimentos que ocupam as ruas. Movimentos estes que nascem da periferia, que dialogam com o movimento negro, cultural, do hip-hop, admirados por uma juventude questionadora. Não é diferente quando se pensa no encarceramento como resultado de um processo de criminalização. Um processo que não só marginaliza, mas também exclui, o perfil da juventude selecionada é indiscutível. Além disso, essa criminalização é um fator que aumenta ainda mais a evasão escolar, um dos maiores problemas da educação brasileira.

Os dados estão à mostra. E o perfil de juventude levada ao sistema socioeducativo ou penitenciário, impedida de exercer seu direito de existir, é conhecido. O Atlas da Violência de 2017 expõe que mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e 2015, sendo 92%  jovens entre 15 e 29 anos de idade. A  cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras.

Por outro lado, os processos criminais que resultariam na condenação dos autores dessas execuções são negligenciados. No ano de 2016, segundo a Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, no Rio de Janeiro, 99% dos casos registrados como “autos de resistência” – confrontos entre policiais e supostos agentes de crimes – foram arquivados sem investigação, sendo que do total de registros, 21% envolviam vítimas menores de 15 anos de idade.

Soluções para acabar com o extermínio da juventude negra

Ao extermínio da juventude negra no Brasil, destacam-se soluções já conhecidas e expressadas. O enfrentamento dessa situação de opressão, como as propostas de desmilitarização da polícia, que retiraria o caráter de “guerra” do treinamento das agências policiais, dentre outras iniciativas, são defendidas pela sociedade civil há anos.

É partindo dessa apropriação da história e das diferentes realidades juvenis, que as juventudes poderão unir forças em favor do bem viver para todos. Se o investimento da repressão estatal recai nas juventudes, é porque identifica nelas a força da revolução. Sigamos, jovens.

Matéria publicada pela Viração.