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Projeto ‘Já falou para seu menino hoje?’ dá dicas de como promover a igualdade de gênero

Escola Arte de Ser está na cidade de Rio Verde, em Goiás. O objetivo deles é promover o empoderamento do aluno durante a sua aprendizagem. Dentro disso, há uma proposta muito interessante de educação sexual e equidade de gênero, e por isso ele criaram o projeto “Já falou para seu menino hoje?”. Essa iniciativa incrível busca incentivar famílias e educadores a conversarem com os meninos sobre igualdade no dia a dia.

Eles atuam no contraturno escolar e acreditam em uma educação baseada na autonomia. Assim, apresentam um currículo construído pelos próprios alunos, priorizando a afetividade, a responsabilidade e o cuidado com o outro.

Já falou para seu menino hoje?

Dentro desse super projeto, eles compartilham na sua página no Facebook mensagens e dicas para educar crianças livres de estereótipos nocivos. Eles promovem uma educação que visa uma sociedade menos violenta, na qual meninos e meninas tenham igualdade de possibilidades. “A ideia é empoderar os meninos sobre sua sensibilidade, empatia e capacidade de respeito aos direitos humanos”, afirma Caroline Arcari pedagoga, especialista em educação sexual.

Pensando nisso, o Portal Lunetas selecionou algumas dicas do projeto de como educar os pequenos para uma sociedade menos violenta. Olha só:

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Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “‘Já falou para seu menino hoje?’: dicas para promover a igualdade“, do Portal Lunetas. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Escola tem que ser uma experiência igual para meninas e meninos

Imagem de uma menina sorrindo e chutando uma bola de futebol

Esse texto é uma publicação da Revista Gestão Escolar, escrito pela Camila Zentner Tesche. Ela é formada em Pedagogia com especialização em Educação Infantil pela USP e está na coordenação pedagógica da Escola da Prefeitura de Guarulhos Manuel Bandeira há oito anos. Nós compartilhamos o texto na íntegra pois achamos que a equidade de gênero é um assunto essencial para a educação e a construção social dos alunos. Veja a matéria na íntegra no site

Imagem de uma menina sorrindo e chutando uma bola de futebol
(Pixabay)

Na semana passada fui a uma palestra que trazia alguns dados sobre a educação brasileira. Um deles, em especial, chamou minha atenção: a cada dez docentes, oito são mulheres. É certo que tal informação não é novidade, visto que por muito tempo esta foi considerada uma profissão quase que exclusivamente “feminina” – fazendo uma relação com a maternidade e um possível “dom” que as mulheres teriam para ensinar. Profissões como engenharia mecânica ou aeronáutica, que teriam supostamente características mais masculinas, como a força e a habilidade em matemática, tem em sua maioria homens. Quando vemos mulheres ocupando esses cargos, geralmente há um estranhamento. E eu pergunto: por que isso ainda acontece?

Na música “Menina Moleca” do grupo Palavra Cantada, a menina que corre, sobe na árvore e decide jogar futebol é chamada de “lelé da cuca”, porque não faz “coisas de menina”. Temos avançado muito nas discussões sobre o assunto da igualdade de gênero, mas será que no nosso dia a dia lá na escola estamos promovendo a igualdade entre meninos e meninas? Ou será que estamos reafirmando essas diferenças e reproduzindo preconceitos e estereótipos?

Repare bem: na escola, assim como na sociedade de modo geral, há diversos “marcadores de gênero”, como são chamadas aquelas separações que automaticamente a gente faz: brinquedos de menino / brinquedos de menina; azul para menino / rosa para menina; no banheiro, a identificação das meninas é a figura de uma bailarina / dos meninos, um jogador de futebol.

Por um momento, você pode pensar: “Mas sempre foi assim! É natural que seja assim!”. Não é. Mesmo vendo essa divisão em crianças bem pequenas, que trazem essa fala de casa,  há ali um pensamento que foi construído historicamente e que lá na outra ponta, na vida adulta, é determinante para que ainda hoje tenhamos tantas diferenças na colocação de cada um no mundo do trabalho. Está presente na mulher que ganha menos que o homem, mesmo exercendo a mesma função; nas mulheres que são sobrecarregadas com tarefas domésticas, somadas ao trabalho que exercem fora de casa; agressões à mulher e por aí vai.

O que fazer

Então, cabe refletir: o que podemos fazer, enquanto escola, para promover a igualdade, principalmente de possibilidades, para meninos e meninas?

Comece pelo mais simples! Tente eliminar aos poucos os marcadores de gênero, desconstruindo a ideia de que eles são algo natural da vida. Promova a discussão com os professores na escola e questione: “Por que fazer fila de meninos e meninas? Não há outras formas de nos organizarmos pelo espaço escolar?”. O mesmo acontece com os brinquedos e as brincadeiras que são oferecidas para as crianças.

A escola também deve mudar sua postura frente às situações que surgirem quando, por exemplo, um menino é motivo de chacota pelos colegas por querer brincar de boneca. Eu, como educadora, devo fazer a minha intervenção a fim de combater tal discurso, perguntando: “Mas em casa o papai não cuida também de você? Não há brinquedos de menino e outros de menina”.

Amplie ainda mais seu trabalho

A desconstrução dos marcadores pode chegar até ao vestuário das crianças. Se eu permito que as meninas venham sempre de saia e sandália de salto, de cara elas já têm o movimento reduzido na escola, não explorando o corpo na sua totalidade, deixando de desenvolver habilidades como saltar, correr e pular como os meninos.

Pensando assim, você pode ampliar o seu trabalho. Desenvolva projetos que tragam tanto práticas masculinas para todos vivenciarem e discutirem, assim como aquelas que tradicionalmente são vistas como femininas. Há alguns anos, nossa escola desenvolveu um projeto idealizado pela professora de Educação Física com futebol. Como era previsto, os meninos amaram e as meninas detestaram. Não porque futebol é coisa de menino e não de menina, mas pela falta de conhecimento e até de habilidade delas, que não acessam essa prática. Durante o desenvolvimento do projeto foram apresentadas as grandes jogadoras do Brasil, como Marta e Cristiane (é importante trazer sempre para a escola referências femininas porque o comum é aparecer somente as masculinas), os meninos e meninas jogaram bola, separados e também juntos em futebol de casal. Ao discutir e descontruir discursos, eles chegaram à conclusão que o esporte é para todos que gostam e querem participar.

Da mesma forma, é importante que as práticas tidas como culturalmente femininas também ganhem visibilidade e sejam validadas na escola, como um projeto de dança ou ginástica.

Só não vale deixar de lado essas questões! Voltando ao dado que citei no início do texto, das mulheres serem a maioria no professorado, proponho o seguinte: por que não aproveitamos essa “vantagem” para combater as desigualdades que nós, mulheres, ainda sofremos? Vamos promover um mundo mais justo para todo mundo! Você vem?

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Como as meninas conquistaram o respeito na minha escola

Imagem de uma estudante na rua, colando um lambe lambe em um poste, com o texto "Ensine os homens a respeitar, e não as mulheres a temer"

Esse texto é uma publicação da Revista Gestão Escolar, escrito pela Priscila Damasceno Arce, diretora da EMEF Sebastião Francisco O Negro, na zona leste de São Paulo-SP. Estudou em escola pública a vida toda e também foi professora e coordenadora pedagógica. É especialista em alfabetização e mestranda em formação de formadores pela PUC-SP. Nós do Caindo no Brasil compartilhamos o texto na íntegra pois achamos que o assunto é crucial para a equidade de gênero nas escolas e para uma educação mais humana. Veja a matéria na íntegra no site. 

Imagem de uma estudante na rua, colando um lambe lambe em um poste, com o texto "Ensine os homens a respeitar, e não as mulheres a temer"
Ação do Coletivo Feminista da EMEF Sebastião Francisco O Negro espalhou cartazes lambe-lambe pelo bairro para pedir respeito às mulheres (Acervo pessoal

Vivemos um momento delicado na história da Educação brasileira, em que muitos querem decidir o que a escola deve ou não ensinar. A escritora Hannah Arendt define tais situações como “crises periódicas” na Educação. Quando uma crise acontece, diz ela, precisamos refazer nossas perguntas e não tentar respondê-las com ideias pré-concebidas, ou seja, imbuídas de preconceitos. 

Diariamente ouvimos notícias tristes sobre o aumento da violência contra as mulheres, apesar de muitas conquistas dos movimentos sociais e feministas. A lei nº 11.340/06, mais conhecida como Lei Maria da Penha, estabelece punições para casos de violência no ambiente doméstico e familiar, englobando a violência física, sexual e até psicológica. Maria da Penha Fernandes, que foi vítima de violência doméstica e lutou pela criação desta lei, trabalha como coordenadora da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV), no Ceará. Ela defende a educação formal desde os níveis mais básicos de escolarização como forma de discussão e prevenção de questões sociais que têm impacto na sociedade.

O desafio na escola começa primeiro com a ausência de respeito ao outro. Depois, de maneira mais intensa, com a ausência de respeito às mulheres e com a identidade de gênero assumida por ambos os sexos. Em minha escola, nós percebíamos que os meninos exercitavam a cultura machista no tratamento dado às meninas e aos meninos que não se identificavam com o gênero masculino. Compreendemos esse desafio não como mais uma demanda de trabalho que não pertencia à escola, mas como um problema diante do qual não poderíamos fazer vista grossa e fingir que não era conosco. A escola é perpassada pelas demandas da sociedade e sofre as consequências na prática, quando o debate não acontece fora dela. 

Em suas aulas, os professores lidavam frequentemente com dúvidas em relação à orientação sexual, identidade de gênero, sexualidade e a diferença em relação ao tratamento dado a meninas e meninos – nas mídias, em casa, na rua, na escola e outros espaços sociais. Passamos em equipe a refletir sobre a necessidade de lidar com essas dúvidas em projetos e aulas pontuais, assim como criar um espaço de referência que funcionasse como apoio e intensificação dessas questões com orientações educativas para a formação das crianças e jovens e prevenção de formas de violência e discriminação de gênero.

Em 2017, um grupo de professores assumiu voluntariamente esses encontros e buscou ajuda de colegas que haviam enfrentado essa situação na rede de ensino. Nós nos inspiramos no Movi-Femi HR para criar um time que ajudasse a combater o tratamento desrespeitoso que as meninas recebiam diariamente na escola e na sociedade. Inicialmente coordenado pelo professor Eduardo Kawamura, esse grupo é formado atualmente por estudantes, que oferecem aulas fundamentadas em leituras e relatos de suas experiências aos meninos e meninas. Da mesma maneira, esses alunos denunciam práticas de racismo e homofobia que deveriam deixar de existir, fortalecendo o ambiente de respeito ao outro em nossa escola.

Dessa iniciativa nasceu o desabafo de muitas meninas, que não toleravam mais a forma como eram tratadas – revelando o assédio velado sofrido todos os dias em diferentes espaços sociais. Através da interlocução, elas tomaram consciência que não poderiam tratar com normalidade as situações relatadas, o típico “deixa para lá”.

O Coletivo Feminista se caracteriza como espaço formativo para educar meninas e meninos para uma cultura de tolerância e respeito. Ele orienta o debate sobre a igualdade política, social e econômica entre os sexos.

O grupo, que desde o ano passado realizava encontros periódicos, tornou-se este ano projeto oficial da escola, com encontros semanais no contraturno das aulas. A escola assume o compromisso do debate e estudo dessas questões em sala de aula, mas a presença do coletivo intensifica as ações e funciona como suporte para a tomada de decisão quando são identificados casos de discriminação e violência. Dá apoio também a estudos de textos teóricos, leitura crítica da imagem da mulher e analisa a linguagem veiculada nas mídias em geral, com produção de material educativo e informativo.

Imagem de um varal com um shorts pendurado, com o texto "Meu nome não é fiufiu" pintado em vermelho
Ação do Coletivo Feminista customizou roupas com mensagens que pediam respeito às mulheres e espalhou pelas salas de aula da EMEF Sebastião Francisco O Negro, em São Paulo (Acervo pessoal)

Entre as ações realizadas pelo Coletivo Feminista para conscientizar a comunidade do entorno, as meninas colaram lambe-lambes com mensagens pelas ruas do bairro. Posteriormente, houve um debate sobre essa interação, a partir de mensagens deixadas nos cartazes – algumas, inclusive, com uma retórica de intolerância e não aceitação da ação. E também realizaram uma instalação de arte na escola usando peças de roupas que normalmente são alvo de julgamento e intolerância de gênero, com mensagens críticas e políticas que interagiam com o espaço e o público alvo – fazendo com que todos experimentassem diferentes sensações.

Nós acreditamos que debates constroem progressivamente uma narrativa contada por mulheres, a partir da liberdade e da compreensão dos estereótipos envolvidos em frases como “Isso é coisa menino” e “Menina não faz essas coisas”. Essa conversa engloba ainda identidade de gênero, discriminação de gênero, direito das mulheres, violência doméstica, assédio, misoginia, relacionamento, expectativas de gênero (as tarefas domésticas, por exemplo). No percurso compreendemos a necessidade de tratar as questões de gênero com toda equipe, pois nem todos tiveram acesso a essa formação durante a vida.

Uma formação que nega a diversidade e igualdade de gênero compromete a formação das crianças para um mundo mais justo entre mulheres e homens.

Tenho orgulho em dizer que hoje, em nossa escola, meninas identificam e relatam situações que consideram assédio, os meninos frequentam sem medo as aulas de balé, há meninas que ensinam futebol aos meninos e meninos que se sentem à vontade para ir à escola com maquiagem, além de uma infinidade de coisas que acontecem porque a cultura está em permanente transformação, como diz a escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie, autora de “Sejamos todos feministas”.

A escola se compromete em reconhecer os estudantes como são e não como deveriam ser, de acordo com expectativas injustas de gênero. Por isso, a primeira conversa franca que eles têm sobre o assunto acontece, muitas vezes, na escola e não em casa. E o que aprendi como diretora de escola com tudo isso? Que se na minha época de estudante existisse um coletivo feminista na escola seria uma mulher muito mais poderosa do que sou hoje!