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Ideias para aproveitar melhor os espaços e o tempo das crianças na Educação Infantil

Esse texto é uma publicação da Revista Gestão Escolar, escrito pela Eurismar Silva Ribeiro. Ela é coordenadora pedagógica no CEI Dolores Lustosa, em Sobral, Ceará, desde outubro de 2015. É pedagoga e tem especialização em psicopedagogia institucional e em gestão escolar. Nós compartilhamos o texto na íntegra pois achamos que a criatividade e a educação humana é essencial para o aprendizado alunos. Veja a matéria na íntegra no site
 
Fotografia de uma criança mostrando a palma das mãos que está de pintada com tinta colorida. O rosto da menina também está pintado.
(Pixabay)

Quando cheguei ao CEI Dolores Lustosa, em Sobral, no Ceará, recebi a função de coordenar o trabalho dos professores das crianças de zero a três anos. Eu nunca tinha coordenado e nem dado aula para esse público. Foi um desafio e tanto! Procurei o Projeto Político-Pedagógico da instituição para entender os fundamentos das práticas pedagógicas de lá. E também comecei a observar o que era feito pelas professoras: como davam aula; como organizavam o espaço e os materiais; como tratavam as crianças e como era organizada a rotina. Ao mesmo tempo pesquisava e lia sobre o desenvolvimento infantil, rotina, ambiência entre outros assuntos que surgia sobre o trabalho pedagógico na creche. A diretora Ticiane ajudou demais indicando excelentes fontes de leitura, quase que diariamente.

Observação, estudo e prática

Nas observações diárias do trabalho pedagógico dos professores fiz diversas descobertas. Uma delas é que as crianças interagem o tempo todo com o espaço e seus materiais, além da interação com os colegas nas brincadeiras de faz de conta. Vi várias formas de organizar o trabalho pedagógico. Nas salas em que o professor focava seu trabalho nas interações e brincadeiras, as crianças eram mais tranquilas, felizes, ativas, curiosas e atentas.

Percebi que as crianças precisam de tempo para brincar. E o papel do professor é organizar o espaço e os materiais para que a criança possa brincar e se desenvolver, brincando de faz de conta nos cantinhos ambientados, imitando, se expressando e vivenciando atividades do dia a dia.

Diante das observações e descobertas, resolvi estudar com os professores textos e vídeos que embasavam suas práticas. Assim, eles poderiam tomar consciência sobre quais teorias estavam por trás do seu fazer pedagógico. Além disso, é possível promover a troca de experiências entre eles.  Isso porque só consigo fazer mudanças (intervenções) significativas na prática dos professores que coordeno, estudando, pesquisando, planejando e refletindo com eles sobre a prática. Por isso parto sempre da pesquisa e do estudo sobre o problema vivido.

Lemos o livro: “Interações: ser professor de bebês – cuidar, educar e brincar, numa única ação”, de Cisele Ortiz e Maria Tereza V de Carvalho. Assistimos a alguns vídeos da professora da Faculdade de Educação da USP Tizuko Morchida sobre a importância do brincar e como organizar o espaço para as brincadeiras (vários disponíveis no YouTube, como este). Vimos também o documentário “Território do Brincar” do Instituto Alana (veja aqui como assistir). Lemos o texto “Qual lugar da sucata na escola?” da revista NOVA ESCOLA sobre o uso de materiais não estruturados na Educação Infantil, e muito mais.

Estudando, descobrimos que o educador infantil precisa fazer intervenções constantes no espaço. Assim, ele pode atender as necessidades e curiosidades das crianças. Pois é mexendo, pegando, sentindo, interagindo, experimentando o espaço e seus materiais que as crianças aprendem. É preciso aproveitar bem todos os espaços e recursos disponíveis e buscar materiais não estruturados constantemente.

As mudanças

Os professores aceitaram o desafio da mudança do ambiente. Fomos organizando novos espaços, renovando os materiais de alguns cantinhos que são permanentes, fazendo intervenções nos diversos ambientes que as crianças frequentam no CEI. No parque, por exemplo, uma professora passou a armar uma rede e as crianças adoraram se deitar e balançar. Pendurou também malhas no teto onde muitas brincaram de escalar, se enrolar, e fazer casinha.

Outro dia fizemos até um foguinho num cantinho do parque e uma criança de três anos sugeriu que cozinhássemos ovos. E assim as professoras, juntas com eles, cozinharam e degustaram ovos no parque. E também aproveitaram a oportunidade e conversaram sobre os cuidados que precisamos ter com o fogo e panelas no fogão. Passamos a brincar mais com água, construímos com as crianças e enchemos lagos na areia do parque, onde elas colocaram brinquedos para flutuar nele.

A partir daí passamos a coletar material não estruturado e levar diariamente um sacolão com eles para brincar de faz de conta. Além das mudanças no espaço, decidimos dobrar o tempo das crianças no parque. E também oportunizamos o convívio das crianças pequenas com as maiores. Também resolvemos visitar as demais salas de aula participando de alguma atividade da turma visitada.  Agora faz parte da rotina planejar o uso dos espaços e materiais disponíveis, organizar contextos  e oportunidades para aprender brincando.

Organizamos o nosso fazer pedagógico em projetos temáticos, sempre tendo em vista as necessidades e os desejos das crianças. Nessa época, estudamos a vida no jardim. Afinal, sempre que as crianças achavam bichinhos no parque ficavam muito curiosas e admiradas. Então para permitir que as crianças plantassem, mexessem com a terra, com a água e conhecessem os bichinhos que habitam o jardim, decidimos elaborar o projeto que foi um sucesso.

E vocês, coordenadores, já fizeram algo semelhante? Contem suas experiências.

Eurismar Silva Ribeiro é coordenadora pedagógica no CEI Dolores Lustosa, em Sobral, Ceará, desde outubro de 2015. É pedagoga e tem especialização em psicopedagogia institucional e em gestão escolar. 

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4 modelos inovadores de gestão escolar

Imagem de cinco meninos na escola concentrados usando o computador
(Pixabay)

Tomás da Nóbrega, bacharel em Economia pela FEA-USP e analista na Somos Educação, escreveu o artigo “Modelos inovadores de gestão escolar” para o Econoeduc – Grupo de Estudos Econômicos em EducaçãoConfira o texto na íntegra:

Imagine uma escola com mensalidades de US$165 (R$515). E que proporcionam aos alunos um aprendizado comparável ao das escolas mais conceituadas e caras do país. A média de mensalidade das dez escolas paulistanas mais bem colocadas no último ENEM é R$3.054. Parece impossível? É o que alguns empreendedores estão fazendo pelo mundo.

A forma como o conhecimento é transmitido está mudando ao redor do mundo. E muitas dessas metodologias promovem mais significado na educação, despertam o engajamento e combatem a evasão. Veja 4 modelos inspiradores de gestão escolar:

Charter Schools Americanas

Essa história começa na década de 1990, quando surgem nos Estados Unidos as charter schools, escolas de parceria público-privada. Com um modelo diferente de governança, essas escolas são gratuitas para os alunos. E o mantenedor é uma instituição privada, podendo esta ter ou não fins lucrativos. Esses mantenedores privados são remunerados pelo governo com base em métricas de qualidade e na quantidade de alunos matriculados. Assim, constituindo uma opção adicional para pais e alunos na hora de escolher a instituição de ensino.

Com regras menos rígidas de gestão, essas escolas têm o dever de entregar resultados pedagógicos, conforme medido pelos exames governamentais. E com a gestão livre e as métricas pedagógicas, começou-se a criar um ambiente de inovação ímpar nos modelos de escola. Por um lado, as receitas dadas às escolas dependem das restrições orçamentárias do governo. Por outro lado, as expectativas de aprendizado também seriam definidas pelo governo. O que acontece entre a entrega do aprendizado e o orçamento da escola seria uma equação equilibrada dos gestores: uma estrutura que garantisse a entrega pedagógica exigida, mas que conseguisse ser enxuta. Haveria uma possibilidade de inovar.

Sala de aula invertida

O modelo de escola tradicional tem algumas figuras e atividades icônicas, que vêm à cabeça de todos nós. A professora, com o giz na mão e o livro na mesa, expondo a matéria para a turma. Enquanto em torno de 30 alunos da turma ficam sentados, quietos, passivos, prestando atenção e copiando a matéria da lousa, eventualmente fazendo perguntas. Em casa, as “lições de casa” servem para fixar a matéria vista na sala de aula. Eu mesmo estudei numa escola assim, e há grandes chances de você também ter estudado numa dessas. E em um formato muito semelhante, nossos pais, nossos avós e tantas outras gerações antes de nós aprenderam nesse formato. O formato tradicional – ainda que entregue bons resultados em determinados caso – não é o único possível.

Na mesma época em que nasceram as charter schools, na década de 1990, a humanidade entrou em novo ciclo de revolução tecnológica que mudou a forma como lidamos com muitas questões da nossa vida. Hoje, a maioria de nós não se imagina vivendo sem um smartphone ou um acesso ao computador – por exemplo, segundo estudo da Deloitte, 80% dos brasileiros já têm um smartphone. As rotinas e os hábitos se transformaram profundamente nas últimas décadas. E essas mudanças provocadas pelas inovações tecnológicas acabaram mudando inclusive as escolas.

Algumas charter schools inovaram para trazer as novas tecnologias digitais ao ambiente de ensino-aprendizagem. Os alunos começaram a receber os conteúdos expositivos em plataformas tecnológicas, como computadores e tablets. Afinal, o momento de exposição de conteúdo, quando puramente passivo, onde a professora expõe e os alunos copiam, exige pouca interação aluno-professor. É possível fazer uma aula excepcional e interativa, com todo o conteúdo apresentado para todos os alunos. E a sala de aula, sem o caráter expositivo, transforma-se em um ambiente de atividades, trabalhos em grupos e resolução de exercícios, com o intuito de fixar conteúdos, contando sempre com o suporte dos professores nessa fase. A esse modelo, que altera a lógica do modelo tradicional de escola, convencionou-se chamar sala de aula invertida. O aluno aprende o conteúdo de forma individual e realiza atividades e exercícios com o professor e a turma.

Essa incorporação de tecnologia na sala de aula abriu um novo mundo: o uso dos dados. As tecnologias conseguem gerar dados pedagógicos de forma quase instantânea. Esse processo, em uma escola tradicional, demandaria que o professor corrigisse os materiais e compilasse os dados em um processo demasiadamente demorado. Com essa economia de tempo, onde o professor não gasta seus escassos recursos de tempo no trabalho de gerar dados. Assim, ele pode focar em algo muito mais valioso: analisar os dados que mostram as evidências de aprendizado. Com dados em mãos é possível, por exemplo, analisar a eficácia de uma aula virtual baseado na performance dos alunos nos exercícios referente àquela aula. Assim, só é necessário reformular os conteúdos que não trazem resultados. Cria-se, dessa forma, conteúdos consistentemente melhores para o aprendizado dos alunos que garantem um processo de aprendizado com equidade para todos.

O formato de ensino invertido, aliado ao uso de evidências de aprendizado foi, com o passar dos anos, sendo sofisticado. Surgiram métodos individualizados de ensino, em que o aluno recebe uma trilha única de aprendizado, modelada para suas necessidades específicas.

Vamos supor que um aluno, ao final do primeiro mês de aula, aprendeu muito bem as primeiras aulas de matemática. No entanto, ele teve dificuldades em uma aula do final do mês. É possível colocar, apenas para este aluno, um conteúdo especial de revisão dessa aula. E, para outro aluno, que teve dificuldade em outro ponto da matéria, um conteúdo especial para ele. Afinal de contas, a exposição de conteúdos é feita em tablets ou computadores individuais. Outro exemplo para ilustrar: um aluno que tem maior aptidão e interesse por matérias de exatas pode receber no seu planejamento conteúdos específicos para suas aptidões.

É um formato novo, onde o aluno é exposto aos conteúdos mais relevantes para ele. E isso pode ser a partir das defasagens que ele apresento, ou por conteúdos que despertam maior interesse. Em algumas escolas de flex rotation, na sala de aula, o aluno recebe uma lista de estações nas quais pode estudar. Por exemplo, em uma estação ocorre um jogo de matemática, em outra um trabalho em grupo sobre história, em outra revisão de exercícios etc. Esse formato trata cirurgicamente déficits de aprendizagem e proporciona maior flexibilidade e interesse para os alunos.

Novo modelo de gestão de escolas privadas

Essas economias de custo permitem, na prática, ganhos para todos. Nas Spark Schools, na África do Sul, por exemplo, a equipe administrativa e os professores têm salários até 70% mais elevados do que os salários comparáveis no mercado. Para os pais, as mensalidades custam em torno de US$165 (R$515). Além disso, os alunos de lá superam os pares de outras escolas, em média, em 1,5 anos de escolaridade, sendo que essa distância aumenta quanto mais tempo os alunos permanecem na escola. Portanto, os benefícios se estendem a mantenedores, professores, equipe administrativa, pais e alunos.

Assim como a Spark School, modelos similares de gestão começam a surgir. Alguns exemplos são a Pioneer Academies, também na África do Sul ou a Euroschool na Índia. Na América Latina há um projeto recente no Peru, as Innova Schools. Escolas que utilizem tecnologia e modelos inovadores de gestão, com alta qualidade pedagógica.

Diferentemente das charter schools americanas, que contam com recursos públicos, a estrutura dessas escolas privadas deve ser enxuta. É condição necessária para a sustentabilidade do modelo de negócios. Por isso, nota-se que se organizam em redes, com escritórios que centralizam diversos serviços compartilhados, gerando ganhos de escala. A centralização de funções é tamanha que nas Spark Schools, por exemplo, cada escola tem apenas quatro funcionários que não são professores.

Um exemplo que leva essa metodologia para outro patamar são as Bridge International Academies. Essa rede, que começou em 2008, hoje conta com mais de 500 escolas espalhadas pela África e Índia. Lá, estudam diariamente mais de 100.000 alunos. O projeto conta com um hub em Cambridge, EUA, que centraliza os dados pedagógicos dos alunos e coordena o processo de ensino-aprendizagem. A rede, que tem mensalidades inferiores a US$10 por mês, tem altas ambições em número de unidades e de alunos. E um de seus objetivos é o de atingir nada menos que 10 milhões de alunos na próxima década. Enquanto não atinge a escala necessária, ainda apresenta resultados financeiros negativos. Mesmo assim, o grupo conta com apoiadores de peso como Bill Gates e Mark Zuckerberg.

Para onde vamos

Segundo dados divulgados recentemente pela OCDE, o Brasil gasta US$3.8k por aluno da rede pública por ano para os primeiros anos do ensino fundamental por ano. Esse valor é o dobro do que custa a anuidade na escola Spark (US$1.9k) e bem mais alto do que na Pioneer Academies (US$2.5k). Existem organizações que estão gastando muito menos do que o Estado brasileiro, com resultados educacionais expressivos. Logicamente, uma comparação dessas deve ser feita com cautela. Afinal, países diferentes têm diferenças no mercado de trabalho e nas expectativas de aprendizado. Além disso, há a questão do idioma, pois muitos países de língua inglesa conseguem aproveitar conteúdos globais. Mesmo assim, essas escolas estão mostrando formas novas e revolucionando a educação em vários lugares do mundo, entregando educação de qualidade com eficiência.

Entretanto, é importante lembrar que, para uma escola, não existe receita infalível. Existem muitas formas de conduzir o processo de ensino-aprendizagem que conseguem resultados profundos consistentemente. São quase infinitas as variáveis envolvidas nesse processo de ensino-aprendizagem, e um bom modelo pedagógico e um de gestão adereçam muitas, mas não todas essas variáveis.

Mesmo assim, esses modelos trazem um fôlego de inovação e novas possibilidades para se trilhar em prol de melhor educação em diversos níveis.

Post na íntegra da publicação “Modelos inovadores de gestão escolar”, de Tomás da Nóbrega, bacharel em Economia pela FEA-USP e analista na Somos Educação, para o ECONOEDUC.

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Escola de SP exercita a democracia e envolve alunos na gestão

Matéria publicada pelo Catraquinha

Democracia é um tema muito importante no contexto atual e pode ser levada para o dia a dia da educação. É o que mostra a experiência da escola municipal de Guarulhos (SP) Manuel Bandeira, relatada pelo portal Porvir.

A escola envolve os alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental 1 na gestão democrática. Os estudantes participam de definições de investimentos financeiros, recreio, refeições e como conduzir a indisciplina. Essa mudança se deu a partir de 2013. Nesse ano, uma nova diretoria aproveitou a sistematização do Projeto Político-Pedagógico da rede municipal. Ela também se inspirou no Projeto Âncora, de Cotia (SP), iniciativa inspirada na Escola da Ponte.

Aos poucos, as crianças passaram a fazer parte das decisões. Hoje, a partir da gestão democrática, os alunos têm autonomia para se organizar por meio de um conselho composto por representantes da classe. Esse conselho avalia propostas discutidas em rodas de conversa, depois levadas a assembleias para serem votadas.

Conheça a iniciativa de perto

O Porvir acompanhou o funcionamento da escola, incluindo a construção coletiva que leva à escolha dos conteúdos a serem aprendidos em classe. Veja na íntegra aqui. E assista ao vídeo abaixo, um dos documentários da série Janelas de Inovação, da Fundação Telefônica com o Canal Futura, realizado por Caroline Monteiro e Abacateiro Filmes, que relata a experiência: