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Crianças e indígenas aprendem sobre astronomia no Norte do Brasil

Nélio Sasaki

Nélio Sasaki é português e tem um projeto que está inovando a educação na região norte do Brasil. Doutor em Astrofísica, ele é diretor do Planetário Digital de Manaus e do Planetário Digital de Parintinse. Além disso, é líder do NEPA e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Sua história no Amazonas começou em 2012, quando ele foi aprovado em concurso público para o cargo de professor  universitário. Na época, não havia qualquer ação concreta no sentido de promover o Ensino de Astronomia enquanto ciência no Estado do Amazonas.

Nélio Sasaki
(Foto: Divulgação)

Ela nos contou um pouco sobre esse projeto e essa jornada educacional que ele tem construído no Norte do país. Nélio falou que, em uma reunião para decidir o que seria realizado durante a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT)durante seu primeiro ano como professor no campus Parintins, ele solicitou uma oportunidade para falar sobre Astronomia. “O único objeto que eu tinha em mãos era o meu telescópio, o primeiro da cidade”, lembra. “A partir disso, ministrei palestras sobre Buracos Escuros, Astronomia Estelar, Astronomia Planetária, entre outros assuntos. E das 18h até às 21h, eu atendia em média 100 pessoas para observação do céu noturno. Tudo foi realizado de maneira bem simples. Inclusive, na falta de sala e/ou energia, dei palestra ao ar livre no jardim do campus. As observações do céu foram realizadas em um campo de futebol da universidade”.

Em toda essa jornada educacional, já foram realizadas ações como astronomia para crianças, indígenas e alunos com Síndrome de Down, inclusive em libras. Houve também capacitação de alunos e professores; letramento científico; observações; laboratório pedagógico de Astronomia; palestras; oficinas; workshops; elaboração de materiais paradidáticos sobre Astronomia (em libras e Línguas indígenas), entre outros. Olha só a conversa que nós tivemos onde ele conta um pouco mais sobre essa jornada, sobre a educação científica, além de dar dicas e grandes inspirações:

Como começou sua atuação na Amazônia e como você introduziu a Astronomia enquanto ciência na região?

Em junho de 2012, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) abriu concurso para professor universitário. Fiz o concurso e, em agosto de 2012 assinei o termo de posse. Logo depois, no mesmo mês, eu já estava ministrando minha primeira aula como docente  da UEA.

Naquele mesmo ano, em outubro, foi realizada a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT). No evento, ministrei palestras sobre Astronomia e colaborei com observações do céu com os telescópios disponíveis. As atividades fora bem sucedidas e, às vésperas do evento, também treinei um grupo de 15 alunos de diferentes cursos para ajudarem no atendimento ao público durante as observações. Atendemos, em média, 300 pessoas a cada noite de observação.

O que aconteceu depois do SNCT?

Após a SNCT, aquele grupo de estudantes queria continuar estudando sobre Astronomia. Porém, eu não tinha bolsa de estudos para todos eles. Foi então que resolvi escrever meu primeiro projeto para trazer recursos para uma região no interior do Amazonas, a ilha de Parintins. No início de 2013, recebi a notícia da aprovação do projeto. Foi então que, em maio, foi criado o Núcleo de Ensino e Pesquisa em Astronomia (NEPA).

O NEPA surgiu como núcleo interdisciplinar e suas ações são todas direcionadas para o Ensino de Astronomia e Astronáutica. Em 2014, conheci pessoalmente o Germano Afonso – renomado astrônomo que lida com Astronomia Indígena. Relatei a ele as atividades que o NEPA estava desenvolvendo no Amazonas. Germano me parabenizou e também ofereceu total apoio. Com o passar dos anos, os projetos foram sendo aprovados, um após o outro. Atualmente, comemoramos cinco anos de existência do NEPA. E temos cinco anos de ações voltadas ao Letramento Científico, através da Astronomia, no Amazonas.

Como as agências de fomento estão estimulando o trabalho com o estudo de Astronomia na região?

(Foto: Divulgação)

Temos a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), que tem nos apoiado bastante. Além dos projetos aprovados no âmbito do Programa de Popularização da Ciência, Tecnologia e Inovação, nos anos 2013, 2014 e 2015, que tiveram o financiamento da FAPEAM, também foi financiado pela FAPEAM a aquisição dos Planetários Digitais de Manaus e Parintins. Vale destacar que a FAPEAM possui mais de 83 programas vigentes, ou seja, é muito atuante não somente na área da Astronomia, mas também nas demais áreas do conhecimento.

Em 2015, começou a história do NEPA com o CNPq e, logo em seguida, CAPES, MCTIC e MEC. A essa altura o NEPA  tinha projectos aprovados na esfera estadual e também nacional. Em 2016, houve uma redução drástica nos recursos voltados para a pesquisa e para a popularização da Ciência e Tecnologia. Então, o núcleo recebeu a notícia da União Astronómica Internacional (IAU) que nosso projecto havia sido recomendado. Ficamos imensamente felizes, pois era a garantia de que todos os projetos teriam sequência. Em 2017 e 2018, o NEPA teve outros projetos recomendados e financiados pela IAU/OAD. Hoje, possuímos projetos em todas as esferas (estadual, nacional, internacional) e contamos com o apoio de várias agências de fomento e entidades renomadas.

Como é a relação dos estudiosos da universidade com os povos da região? Como os saberes locais são valorizados e os aprendizados compartilhados?

Bom, eu sou muito grato para os docentes de outras Instituições de Ensino Superiordo Brasil e do exterior. Recebemos apoio de várias partes: América do Sul, América Central, América do Norte, Europa, Ásia (principalmente do Japão) e Oceania. O apoio de cada um dos parceiros  internacionais e nacionais resultaram em projectos realizados em parceria com estas outras Instituições. Uma experiência inédita para a unidade da UEA em Parintins-AM.

Sobre os docentes da UEA, no começo, eles ficaram divididos. Alguns acharam excelente o surgimento deste processo. Outros optaram por esperar um pouco mais para ver o nosso trabalho consolidado. Por parte dos académicos, desde o início, eles abraçaram as nossas ideias. No começo do NEPA, tínhamos cinco estudantes. Hoje, já temos 28 estudantes, 24 do sexo feminino e 4 do sexo masculino. Desse total, 17 são bolsistas e 11 são voluntários, com mais de 11 linhas de ação diferentes.

Você poderia nos contar um pouco mais sobre seu trabalho sobre astronomia e educação inclusiva?

Atualmente, o NEPA trabalha com a seguinte diretriz:

Encorajar a participação das mulheres na Ciência, em particular, na Astronomia e Astronáutica;

– Promover a igualdade de género e étnica;

– Fortalecer as culturas Afro-indígenas existentes no Amazonas;

– Promover o Letramento Científico nas escolas do interior do Amazonas.

Dentre as 24 mulheres que compõem o núcleo, três são indígenas. São 17 projetos de extensão universitária da unidade de Parintins, num total de 33 projetos. Isso significa que 52% dos projetos de extensão universitária do campus de Parintins são do NEPA. Todos possuem seus respectivos bolsistas, um por cada projeto. Isso representa mais de 90 mil reais em investimento da Universidade do Estado do Amazonas e do Governo do Amazonas  na formação dos acadêmicos e nas pesquisas em Astronomia.

Os projetos que realizamos envolvem assuntos como: Ensino de Astrofísica; Astromatemática; Astroquímica; Astrolinguagem; Astrogeografia; Astronomia Indígenano; Astrofilosofia e Empoderamento Feminino; Astronomia Cultural; Astronomia dos Povos da Antiguidade; Astrobiologia para crianças; Astronomia em LIBRAS; e Astropedagogia. Tudo isso em diferentes etapas da educação, como Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos. Além das escolas regulares, trabalhamos com escolas de alfabetização, com a intenção de promover uma educação inclusiva. Também atendemos escolas da zona urbana, rural, ribeirinha e das comunidades indígenas e quilombolas.

Como esse trabalho aborda a educação inclusiva?

Nélio ensina astronomia para crianças
(Foto: Divulgação)

O NEPA também trabalha junto às escolas de Ensino Especial, alunos com Síndrome de Down e a Comunidade Surda. O projeto voltado para a Astronomia Indígena cria materiais lúdicos sobre Astronomia em Língua indígena. De forma aprecida, a Astronomia Afrobrasileira traz consigo a visão do céu conforme os negros trouxeram da África para o Brasil. As cartilhas e materiais são escritos em língua da matriz africana. O projecto Astronomia dos Povos da Antiguidade permite um diálogo entre a Astronomia e a disciplina Ensino Religioso. Também estudamos o diálogo entre Astronomia e Filosofia. A proposta é pensar  como a humanidade percebe o mundo, o cosmos e os impactos das tecnologias desenvolvidas pela humanidade.

Na área de Ensino, nossa tarefa é ministrar cursos de capacitação para professores e de formação para os alunos. Essas ações  permitiram os primeiros indígenas do Baixo Amazonas a serem convocados para a seletiva internacional que a Olimpíada Brasileira de Astronomia. Concomitantemente ao trabalho desenvolvido na área de Ensino, temos a divulgação científica. Assim, essas duas ações  atingem o público-alvo de 4-17 anos (alunos regularmente matriculados na escola), 18-99 anos (alunos da EJA) e os acadêmicos. Ou seja, vamos desde a Astronomia básica até a mais avançada. Na área da Pesquisa, temos duas frentes, a saber: uma que lida com Pesquisa em Ensino de Astronomia e outra que lida com Astronomia Planetária e Extragaláctica.

Você tem dicas e referências para quem gostaria de saber mais sobre o estudo de Astronomia?

A Região Norte é muito carente de recursos, quando comparada às demais regiões brasileiras. Quando o assunto é Astronomia, para os amantes desta Ciência, a única chance de se estudar sobre o assunto era sair do seu estado e ir estudar em outras regiões (Centro-Oeste ou Sudeste, por exemplo).

Hoje, o NEPA possui estrutura para receber aqueles que desejam estudar Astronomia no estado do Amazonas, na Região Norte. A tendência é que futuramente tenhamos uma graduação em Astronomia (a primeira do Norte do país). Ou seja, o NEPA busca transformar em um Centro de Estudos Avançados em Ensino de  Astronomia e nossa ligação com as escolas é muito forte, tanto na formação dos alunos quanto na formação dos professores. No ano de 2019, o NEPA em parceria com a OBA irá realizar o 1º EREA no Amazonas. Neste sentido, a dica e, ao mesmo tempo, a referência que eu deixo é justamente o NEPA – para todos que são amantes da Astronomia e residem no Amazonas.

Como professores de escolas com poucos recursos podem trabalhar Astronomia na sala de aula? Existem dicas de ferramentas?

Essa é uma questão excelente. Em geral, as escolas alegam não terem recursos para  se trabalhar com Astronomia. Neste caso, o NEPA consegue a verba junto aos órgãos de fomento e leva às escolas toda a estrutura necessária para o desenvolvimento das atividades de Astronomia naquela instituição. Um exemplo é o planetário. Normalmente, o NEPA coloca o planetário no barco e segue rio adentro atendendo as escolas das comunidades e/ou municípios vizinhos. Vale sublinhar que todas as ferramentas necessárias o NEPA levará, basta a escola agendar connosco pelo e-mail: secretaria.nepa@gmail.com.

Por fim, gostaria de agradecer às entidades pelo apoio, financiamento e/ou parcerias: FAPEAM, CNPq, CAPES, MCTIC, MEC, FUNAI, IAU/OAD,UNESCO, Astrónomos sem Fronteiras, FULLDOME, Governo do Amazonas, Governo Federal, Universidade do Estado do Amazonas, UFAM, OBA, SAB, ABP, APAS.

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Projeto ‘Já falou para seu menino hoje?’ dá dicas de como promover a igualdade de gênero

Escola Arte de Ser está na cidade de Rio Verde, em Goiás. O objetivo deles é promover o empoderamento do aluno durante a sua aprendizagem. Dentro disso, há uma proposta muito interessante de educação sexual e equidade de gênero, e por isso ele criaram o projeto “Já falou para seu menino hoje?”. Essa iniciativa incrível busca incentivar famílias e educadores a conversarem com os meninos sobre igualdade no dia a dia.

Eles atuam no contraturno escolar e acreditam em uma educação baseada na autonomia. Assim, apresentam um currículo construído pelos próprios alunos, priorizando a afetividade, a responsabilidade e o cuidado com o outro.

Já falou para seu menino hoje?

Dentro desse super projeto, eles compartilham na sua página no Facebook mensagens e dicas para educar crianças livres de estereótipos nocivos. Eles promovem uma educação que visa uma sociedade menos violenta, na qual meninos e meninas tenham igualdade de possibilidades. “A ideia é empoderar os meninos sobre sua sensibilidade, empatia e capacidade de respeito aos direitos humanos”, afirma Caroline Arcari pedagoga, especialista em educação sexual.

Pensando nisso, o Portal Lunetas selecionou algumas dicas do projeto de como educar os pequenos para uma sociedade menos violenta. Olha só:

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Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “‘Já falou para seu menino hoje?’: dicas para promover a igualdade“, do Portal Lunetas. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Como as meninas conquistaram o respeito na minha escola

Imagem de uma estudante na rua, colando um lambe lambe em um poste, com o texto "Ensine os homens a respeitar, e não as mulheres a temer"

Esse texto é uma publicação da Revista Gestão Escolar, escrito pela Priscila Damasceno Arce, diretora da EMEF Sebastião Francisco O Negro, na zona leste de São Paulo-SP. Estudou em escola pública a vida toda e também foi professora e coordenadora pedagógica. É especialista em alfabetização e mestranda em formação de formadores pela PUC-SP. Nós do Caindo no Brasil compartilhamos o texto na íntegra pois achamos que o assunto é crucial para a equidade de gênero nas escolas e para uma educação mais humana. Veja a matéria na íntegra no site. 

Imagem de uma estudante na rua, colando um lambe lambe em um poste, com o texto "Ensine os homens a respeitar, e não as mulheres a temer"
Ação do Coletivo Feminista da EMEF Sebastião Francisco O Negro espalhou cartazes lambe-lambe pelo bairro para pedir respeito às mulheres (Acervo pessoal

Vivemos um momento delicado na história da Educação brasileira, em que muitos querem decidir o que a escola deve ou não ensinar. A escritora Hannah Arendt define tais situações como “crises periódicas” na Educação. Quando uma crise acontece, diz ela, precisamos refazer nossas perguntas e não tentar respondê-las com ideias pré-concebidas, ou seja, imbuídas de preconceitos. 

Diariamente ouvimos notícias tristes sobre o aumento da violência contra as mulheres, apesar de muitas conquistas dos movimentos sociais e feministas. A lei nº 11.340/06, mais conhecida como Lei Maria da Penha, estabelece punições para casos de violência no ambiente doméstico e familiar, englobando a violência física, sexual e até psicológica. Maria da Penha Fernandes, que foi vítima de violência doméstica e lutou pela criação desta lei, trabalha como coordenadora da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV), no Ceará. Ela defende a educação formal desde os níveis mais básicos de escolarização como forma de discussão e prevenção de questões sociais que têm impacto na sociedade.

O desafio na escola começa primeiro com a ausência de respeito ao outro. Depois, de maneira mais intensa, com a ausência de respeito às mulheres e com a identidade de gênero assumida por ambos os sexos. Em minha escola, nós percebíamos que os meninos exercitavam a cultura machista no tratamento dado às meninas e aos meninos que não se identificavam com o gênero masculino. Compreendemos esse desafio não como mais uma demanda de trabalho que não pertencia à escola, mas como um problema diante do qual não poderíamos fazer vista grossa e fingir que não era conosco. A escola é perpassada pelas demandas da sociedade e sofre as consequências na prática, quando o debate não acontece fora dela. 

Em suas aulas, os professores lidavam frequentemente com dúvidas em relação à orientação sexual, identidade de gênero, sexualidade e a diferença em relação ao tratamento dado a meninas e meninos – nas mídias, em casa, na rua, na escola e outros espaços sociais. Passamos em equipe a refletir sobre a necessidade de lidar com essas dúvidas em projetos e aulas pontuais, assim como criar um espaço de referência que funcionasse como apoio e intensificação dessas questões com orientações educativas para a formação das crianças e jovens e prevenção de formas de violência e discriminação de gênero.

Em 2017, um grupo de professores assumiu voluntariamente esses encontros e buscou ajuda de colegas que haviam enfrentado essa situação na rede de ensino. Nós nos inspiramos no Movi-Femi HR para criar um time que ajudasse a combater o tratamento desrespeitoso que as meninas recebiam diariamente na escola e na sociedade. Inicialmente coordenado pelo professor Eduardo Kawamura, esse grupo é formado atualmente por estudantes, que oferecem aulas fundamentadas em leituras e relatos de suas experiências aos meninos e meninas. Da mesma maneira, esses alunos denunciam práticas de racismo e homofobia que deveriam deixar de existir, fortalecendo o ambiente de respeito ao outro em nossa escola.

Dessa iniciativa nasceu o desabafo de muitas meninas, que não toleravam mais a forma como eram tratadas – revelando o assédio velado sofrido todos os dias em diferentes espaços sociais. Através da interlocução, elas tomaram consciência que não poderiam tratar com normalidade as situações relatadas, o típico “deixa para lá”.

O Coletivo Feminista se caracteriza como espaço formativo para educar meninas e meninos para uma cultura de tolerância e respeito. Ele orienta o debate sobre a igualdade política, social e econômica entre os sexos.

O grupo, que desde o ano passado realizava encontros periódicos, tornou-se este ano projeto oficial da escola, com encontros semanais no contraturno das aulas. A escola assume o compromisso do debate e estudo dessas questões em sala de aula, mas a presença do coletivo intensifica as ações e funciona como suporte para a tomada de decisão quando são identificados casos de discriminação e violência. Dá apoio também a estudos de textos teóricos, leitura crítica da imagem da mulher e analisa a linguagem veiculada nas mídias em geral, com produção de material educativo e informativo.

Imagem de um varal com um shorts pendurado, com o texto "Meu nome não é fiufiu" pintado em vermelho
Ação do Coletivo Feminista customizou roupas com mensagens que pediam respeito às mulheres e espalhou pelas salas de aula da EMEF Sebastião Francisco O Negro, em São Paulo (Acervo pessoal)

Entre as ações realizadas pelo Coletivo Feminista para conscientizar a comunidade do entorno, as meninas colaram lambe-lambes com mensagens pelas ruas do bairro. Posteriormente, houve um debate sobre essa interação, a partir de mensagens deixadas nos cartazes – algumas, inclusive, com uma retórica de intolerância e não aceitação da ação. E também realizaram uma instalação de arte na escola usando peças de roupas que normalmente são alvo de julgamento e intolerância de gênero, com mensagens críticas e políticas que interagiam com o espaço e o público alvo – fazendo com que todos experimentassem diferentes sensações.

Nós acreditamos que debates constroem progressivamente uma narrativa contada por mulheres, a partir da liberdade e da compreensão dos estereótipos envolvidos em frases como “Isso é coisa menino” e “Menina não faz essas coisas”. Essa conversa engloba ainda identidade de gênero, discriminação de gênero, direito das mulheres, violência doméstica, assédio, misoginia, relacionamento, expectativas de gênero (as tarefas domésticas, por exemplo). No percurso compreendemos a necessidade de tratar as questões de gênero com toda equipe, pois nem todos tiveram acesso a essa formação durante a vida.

Uma formação que nega a diversidade e igualdade de gênero compromete a formação das crianças para um mundo mais justo entre mulheres e homens.

Tenho orgulho em dizer que hoje, em nossa escola, meninas identificam e relatam situações que consideram assédio, os meninos frequentam sem medo as aulas de balé, há meninas que ensinam futebol aos meninos e meninos que se sentem à vontade para ir à escola com maquiagem, além de uma infinidade de coisas que acontecem porque a cultura está em permanente transformação, como diz a escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie, autora de “Sejamos todos feministas”.

A escola se compromete em reconhecer os estudantes como são e não como deveriam ser, de acordo com expectativas injustas de gênero. Por isso, a primeira conversa franca que eles têm sobre o assunto acontece, muitas vezes, na escola e não em casa. E o que aprendi como diretora de escola com tudo isso? Que se na minha época de estudante existisse um coletivo feminista na escola seria uma mulher muito mais poderosa do que sou hoje!

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3 curiosidades para você conhecer o legado da cientista Marie Curie

Muito se sabe sobre Marie Curie, cientista responsável por descrever os elementos químicos Polônio e o Rádio e primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel — Física (1903) e Química (1911). Mas para celebrar a vida dessa mulher incrível, separamos três fatos sobre ela que você talvez não conheça.

Ela foi educada em segredo

Curie nasceu e cresceu em Varsóvia, na Polônia, que na época era controlada pelo Império Russo. Ela obteve sua educação universitária na Flying University. A instituição secreta polonesa que educava mulheres em locais que migravam de acordo com a necessidade.

Isso ocorreu porque na época os russos consideravam educar mulheres uma atividade ilegal: “Os esforços de germanização e rusificação (dependendo da pare da Polônia onde se vivia) visando o ensino superior tornaram quase impossível os cidadãos participarem de um currículo que, de alguma forma, não estivesse trabalhando para apagar a cultura polonesa”, explica o especialista Eric Grundhauser, para o Atlas Obscura.

Marie Curie

Mulheres fizeram uma vaquinha para ajudá-la a continuar suas pesquisas sobre o Rádio — elemento que ela mesma descobriu

Quando visitou os Estados Unidos em 1921 Marie Curie ganhou um grama de Rádio para continuar suas pesquisas graças a uma arrecadação feita por mulheres norte-americanas — naquele período, esse material era extremamente caro. O presidente dos EUA durante aquele período, Warren G. Harding, e sua esposa, Florence Harding, apoiaram o esforço de angariação de fundos.

“Ela, que descobriu o Rádio, que compartilhou livremente todas as informações sobre seu processo de extração, e que havia dado o Rádio para que os pacientes com câncer pudessem ser tratados, encontrou-se sem os meios financeiros para adquirir a substância cara”, relata Ann Lewicki no periódico Radiology. Em 1921 um grama de rádio custava US$ 100 mil, o que hoje equivale a aproximadamente US$ 1,3 milhão.

O esforço feminino deu certo e em menos de um ano a quantia foi obtida. O que sobrou, exatos US$ 56.413,54 foram deixados para as pesquisas da filha Irène Joliot-Curie. Ela recebeu o Nobel em 1935.

Os cadernos dela (ainda) são super radioativos

“As décadas de exposição de Marie Curie [à radiação] a deixaram cronicamente doente e quase cega de catarata e, finalmente, causaram a morte aos 67 anos, em 1934, de anemia grave ou leucemia”, escreve Denis Grady para The New York Times. “Mas ela nunca soube plenamente que seu trabalho havia arruinado sua saúde”.

O efeito da radioatividade é tão grande que hoje, mais de 100 anos após suas descobertas, os cadernos que a cientista utilizava ainda estão contaminados pelas substâncias. Hoje, seus arquivos são guardados em caixas de chumbo: para acessá-los, é preciso assinar um termo de responsabilidade.

“E não são apenas os manuscritos de Curie que são perigosos de tocar. Se você visita a coleção de Pierre e Marie Curie na Biblioteca Nacional, na França, muitas de suas posses pessoais — de móveis a livros de receitas — requerem roupas protetoras para serem manipuladas com segurança”, afirma Adam Clark Estes ao Gizmodo.

Matéria publicada em Smithsonian