Publicado em Deixe um comentário

Carta: a prática em sala de aula acontece no encontro com o outro

Encontro com o outro
Rosely Marchetti Honório, professora de História da EMEF Infante Dom Henrique, em São Paulo. (Foto: Raoni Maddalena)

Caro e cara profissional da Educação,

É com imenso carinho que me aproprio deste espaço para celebrar com você o encerramento de 2017. Momento de reencontro, de renascimento, de recomeço. Enfim, de redefinição de projetos. A oportunidade de pensar sobre o que, o porquê e o como prosseguir, é necessariamente permeada por um processo reflexivo.

É no movimento dialético entre a possibilidade de aprender e o desejo de conhecer que nós, professores, conseguimos criar ações que repercutem socialmente e garantem os direitos de aprendizagem. Isto é o que temos aprendido, eu e o professor César Sampaio, parceiro na concepção e na realização do projeto vencedor do Prêmio Educador Nota 10 deste ano, “O Migrante Mora em Minha Casa”, que realizamos na EMEF Infante Dom Henrique (aliás, a escola passará a se chamar EMEF Carolina Maria de Jesus, em homenagem à grande escritora que viveu pertinho da escola, no bairro do Canindé, em São Paulo).

A análise de nossas experiências e o esboço de nossas intenções para 2018 nos conduzem à indagação sobre o caráter social de nossos planos pedagógicos. A prática em sala de aula acontece no cotidiano do encontro com o outro. O estudante, sujeito portador de história, de vivência, de saberes, de desejos e de vontades. É na interação entre professor e estudantes que compartilhamos um campo de conhecimentos. Nela, as fronteiras entre o ensinar e o aprender são desconstruídas. Isso acontece quando os envolvidos no processo compreendem que o conhecimento é tecido nas relações sociais.

A forma indigna como os estudantes de origem boliviana eram tratados pelos colegas brasileiros em sala de aula obrigou-nos a abordar profundamente a relação entre a migração e o trabalho escravo contemporâneo. O processo de sensibilização e de reflexão no qual todos nós mergulhamos, mediado pelo diálogo, pelo respeito e pela escuta recíproca. Isso contribuiu para que os envolvidos se entendessem e entendessem as suas vivências.

Aprendemos que, na relação com a aprendizagem, os estudantes participam e se interessam quando a realidade é trazida para a sala de aula e quando são ouvidos. O que confere sentido à existência da escola são crianças, adolescentes, jovens e adultos com os quais nos encontramos todos os dias.

Nestes últimos dias do ano, não vemos nada que nos faça querer parar e admirar. Já estamos em movimento e para o próximo ano. A ideia é iniciar a organização de um acervo permanente e sustentável sobre o cotidiano da escola na sua relação com o do território do Canindé e do Pari, onde fica a nossa escola, em diferentes temporalidades.

Reconhecimento do Prêmio Educador Nota 10 fortalece o projeto

O reconhecimento advindo com o recebimento do Prêmio Educador Nota 10 vem repercutindo. Um grupo de amigos, ex-alunos que concluíram o ensino fundamental há 25 anos retornou com muita vontade de contribuir. Todos entusiasmados com os rumos que a Escola vem tomando.

O que vemos à nossa frente são conquistas por uma Escola pública de qualidade. O futuro para o qual estamos sendo empurrados não pode ser visto com clareza nem apreciado de forma plena. É preciso continuar a  mover-se e agir.

Um grande abraço e feliz 2018!

Rosely Marchetti Honório, professora de História da EMEF Infante Dom Henrique e vencedora do Prêmio Educador Nota 10 de 2017

Matéria publicada pela Nova Escola

Publicado em Deixe um comentário

Projeto valoriza saberes populares a partir das memórias dos rios do território

rios

Alberto Caieiro, heterônimo criado por Fernando Pessoa, escreveu em um de seus mais famosos poemas que nem mesmo o Tejo – maior e mais importante rio de Portugal – era mais belo que aquele de sua aldeia, pois só no curso d’água local habitavam as histórias que acompanhavam sua vida.

Nas periferias da cidade de São Paulo, o argumento não é diferente. Por um lado, os diversos rios, córregos, riachos e afluentes que recortam os territórios evocam memórias, saberes e outras narrativas. De outro, protagonizam situações de dificuldade vividas pelos moradores como as frequentes enchentes.

Com esta percepção e buscando tornar as aulas da turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) mais interessantes e contextualizadas ao cotidiano. A EMEF Carlos Augusto de Queiroz Rocha, localizada na zona sul da capital, começou um processo de escuta de seus estudantes.

“Percebemos que muitos não sabiam sequer o nome dos córregos que afetavam suas vidas, mesmo que morassem lá há 40 anos”, conta a professora Tania Uehara Alves. Nessa região periférica, ficou claro que não só os moradores, mas também os rios estão invisibilizados socialmente”.

rios
Alunos do EJA particiapam de estudo do meio do projeto “Um rio que passou em minha vida”. Eles analisaram o entorno do Córrego Zavuvus (Reprodução/Portal Aprendiz)

Da constatação, nasceu o projeto “Um rio que passou em minha vida”. O projeto tem a proposta de levar os conteúdos das diferentes disciplinas. O trabalho é feito dentro da perspectiva das discussões e memórias em torno dos cursos d’água do entorno da escola. Há especial destaque para três deles:  os córregos Zavuvus, Cordeiro e Apucas, todos pertencentes à bacia hidrográfica do Rio Pinheiros.

Assim, as águas foram utilizadas para entender porcentagens, estatísticas e proporções, ciclos hidrológicos. Os rios e a ocupação da cidade também adentraram a sala de aula por meio de manifestações culturais de diferentes naturezas. Textos de Mia Couto e Carolina de Jesus foram usados no projeto.

“Conseguimos fazer estudos do meio e percorrer toda a extensão dos córregos. Também fomos às casas dos alunos. Conversamos com seus filhos e netos e envolvemos as famílias no projeto”, relata Tania, que coordena o projeto.

Conscientização e afeto

Outro ponto trabalhado foi que, de forma geral, os alunos – muitos deles migrantes – não viam os córregos da região com o mesmo carinho que lembravam dos rios de suas infâncias, sinônimos de diversão e sustento. Sabendo da importância de um olhar empático para a conscientização e aprendizagem, o projeto buscou então tecer, de maneira interdisciplinar, relações entre os rios de agora e aqueles que ficaram na memória de cada um.

O processo histórico e político de urbanização das periferias também foi abordado pelo projeto com criticidade. Como resultado, os alunos passaram a ter um novo olhar para as enchentes que periodicamente assolam a comunidade. “O discurso inicial era de que elas eram culpa dos moradores que jogavam lixo na rua e nos córregos. Nosso trabalho foi mostrar que isso também contribui, mas que, na verdade, há um processo maior de descaso pelo qual a cidade passou”, explica Tania Uehara.

Outra estratégia bem sucedida foi utilizar a arte como ferramenta para reavivar as memórias dos alunos e valorizar suas identidades. “A população do bairro não se sente representada e nem valorizada, então trazer suas origens e identidades é uma ação de muita potência”, acredita Tânia. “Os alunos recuperam suas cantigas, reavivam memórias e trazem suas famílias para participar desse processo. É uma experiência profunda de conhecimento da própria história”, finaliza.

Territórios Educativos

O projeto “Um rio que passou em minha vida” foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio. O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida. Assim, integra os saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo.

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz