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Rede de professores transformadores une educadores que fazem a diferença

Muitas vezes, falamos de transformação na educação e não vemos professores que estão todos os dias na sala de aula nas rodas de conversa. Nos últimos anos, esse cenário tem mudado. Parte disso, se deve ao poder de organização de redes dos próprios educadores. Nossa colaboradora Bruna Aieta entrevistou Elô Lebourg, idealizadora da rede Professores transformadores.

Elô Lebourg é professora, pesquisadora e mestra em Educação. “Descobri que sou uma pessoa transformadora durante minha incrível jornada no projeto Lavras Novas: nosso patrimônio! Por três anos, eu e meus alunos da Escola Municipal de Lavras Novas vivemos experiências educativas (e afetivas!) incríveis”, ela conta. O processo não é fácil e a educadora percebeu que sentia falta de ter outros professores por perto. Daí surgiu a ideia de criar essa rede que quer unir professores que transformam a educação todos os dias.

Qual foi o impulso inicial da criação da rede? Como aconteceu todo o processo?

Em minha experiência como professora, em Ouro Preto-MG, nem sempre pude contar com o apoio dos colegas docentes que trabalhavam nas mesmas escolas que eu… Sentia necessidade de conversar sobre minha prática e sobre os desafios que vivia em sala de aula. Precisava da orientação dos colegas e, também, de falar sobre minhas tantas angústias… Então, fui em busca de uma rede de professores com esse objetivo – o de estabelecer possibilidades de diálogo e de trocas de experiência – mas não encontrei o que estava procurando. Por isso, tive a ideia de criar a rede Professores transformadores. Estudei muito à época, escrevi um projeto, conversei com professores sobre a ideia, convidei colegas para me ajudar a materializá-la e, então, em 2015, a rede foi criada!  

Quais dicas você dá para um professor se organizar e criar um grupo de professores transformadores na sua cidade?

Importante ressaltar que, embora a rede tenha surgido no contexto de Ouro Preto-MG, ela pretende dialogar com docentes de outras cidades, Estados e até países. Caso um professor ou um coletivo de professores tenha interesse, pode vir a fazer parte da rede de onde estiverem. São várias as instâncias de participação.

Que tipo de troca está mais presente na rede?

Temos conversado bastante sobre nossas práticas e nossos projetos como professores. De várias formas, nos aproximamos para falar sobre como temos encarado a complexidade de ser professor no Brasil atualmente. Às vezes, essas conversas são lamentos, que acolhemos amorosamente. Às vezes, elas são uma forma de apresentar sonhos e ideias de professores que estão buscando maneiras mais interessantes de dar aula. Entre sonhos e lamentos, o grupo tem percebido a transformação a partir desse movimento de consciência do papel do professor, das suas potencialidades e das formas de superar limites.

E o que a rede oferece hoje pro mundo?

Creio que estamos oferecendo uma escuta amorosa e ativa para os professores que compõem a rede. Também temos organizado possibilidades de diálogo por meio dos textos escritos por nossos colunistas (publicamos três textos por semana, no nosso site e na página de nossa rede no Facebook), das nossas campanhas digitais e das ações presenciais que realizamos.

Roda de conversa sobre educação democrática, na 1ª Semana de Integração do Curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana-MG. Foto: Divulgação

O que é preciso transformar na educação?

A educação já está em constante transformação, assim como cada um de nós. Como professores, compreender isso pode ser libertador. O entendimento de que as relações nunca se repetem também: para cada estudante, serei uma professora diferente. Ultrapassando a atuação do professor, algo precisa ser transformado com urgência: a educação necessita ser compreendida, de uma vez, como um direito e ser valorizada, sistêmica e estruturalmente, em termos de políticas de Estado. Os governos necessitam cumprir o que está posto na Constituição brasileira e investir na educação do povo e na valorização dos professores. 

O que é ser um professor transformador?

Para mim, um professor transformador é aquele que atua de maneira engajada e responsável na formação dos seus alunos. Ele também se assume em constante formação e compreende a importância do seu papel para a transformação social. Ao mesmo tempo, é um profissional que reconhece que não cabe a ele o papel de “salvar” o país por meio da educação, e que se distancia da cruel lógica de que a docência é um “dom” ou uma “vocação”. Um professor transformador é um trabalhador do povo.

O contexto político atual da educação pública impacta como o movimento de transformar a educação?

Impacta muito, como todo contexto político. Especificamente agora, temos percebido o fortalecimento de uma mentalidade que culpabiliza os professores por muitos problemas educacionais e sociais, que tem criado o mito de um professor doutrinador que atua nas escolas e que necessita ser vigiado, exposto, denunciado. O professor corre perigo numa sociedade que o percebe dessa maneira. No momento, estamos ainda mais atentos a isso e trabalhando sempre com a perspectiva de acolher professores que estão enfrentando dificuldades ou sofrendo perseguições.

Vocês publicaram um livro há pouco tempo atrás. Como foi sua participação na obra impressa?

Lançamento do livro Nós, professores transformadores: olhares sobre protagonismo e valorização docente, em Recife-PE. Foto: Divulgação

Sou organizadora e coautora de dois livros da rede. Logo em 2015, quando lançamos as colunas escritas por professores da rede, percebemos que os textos impactavam positivamente os professores leitores. E o potencial de alcance desses textos era incrível!

Nesse momento, tivemos a ideia de organizar parte desse conteúdo em um material impresso. Foi então que, em 2016, lançamos o primeiro livro da rede, Nós, professores transformadores: olhares sobre protagonismo e valorização docente, escrito por cinco professores. A ideia foi tão bem recebida que, em 2019, vamos lançar nosso segundo livro, Professores em travessia pela educação: textos sobre práticas docentes e transformação. Dessa vez, somos sete autores, num livro mais robusto e que traz reflexões importantes sobre a educação brasileira e a prática docente.

Qual artigo da sua autoria que você mais gostou? Por quê?

De 2015 a 2018, publiquei 95 textos pela rede Professores transformadores! Foi uma experiência potente, na qual pude ressignificar aspectos importantes da minha prática, além de fazer conhecer um pouco das histórias que tenho vivido, como professora. Certamente, escolher um texto entre tantos é uma tarefa complicada, então digo que um dos textos que mais me impactou escrever foi O professor e a compaixão (publicado em 07/08/2017 e que compõe o segundo livro de nossa rede).

Nele, conto sobre um menininho, de cerca de um ano de idade, que foi agredido, pelos pais, na minha frente. A cena foi tão violenta que adoeci logo em seguida. Este texto foi escrito para tentar nos lembrar de que, numa frequência maior do que pensamos, meninos como esse, “educados” por meio da violência, serão nossos alunos. Precisamos, como professores, criar essa consciência de que a história de vida dos nossos alunos nos importa e de que, frequentemente, lidaremos com crianças, adolescentes e jovens que vivem uma realidade massacrante. Não podemos nos esquecer de que acolhê-los, com compaixão e empatia, também faz parte do nosso trabalho como professores.

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Professor, o que você quer na sua escola?

Fotografia de aproximadamente oito crianças brincando na sala de aula com uma corda.

Fotografia de aproximadamente oito crianças brincando na sala de aula com uma corda.
(Reprodução/Facebook)

Há alguma coisa que você queria muito na sua escola? Pode ser oficinas de teatro, música, enfermagem, tecnologia, natureza, direitos humanos, grafite, racismo, quadrinhos, dança, circo. O que a sua necessidade, realidade e criatividade pedir. Esses são alguns dos temas das atividades promovidas pelo Quero na Escola!. Como isso acontece? Eles juntam pessoas que querem ajudar com as pessoas que estão precisando de ajuda. Ou seja, voluntários que têm algum conhecimento e que estão dispostos a colaborar em algum projeto dentro de uma escola que precise. 

Bom, funciona assim. Um professor ou aluno cadastra seu pedido no site do Quero Na Escola de acordo com a necessidade da sua escola. E um voluntário colabora com o projeto. Seja com uma habilidade, como fotógrafo para registrar alguma atividade, um depoimentos inspirador, entre outros. Eles já promoveram oficinas de mediação de conflito, edição de vídeo, jogos teatrais, aulas de excel, apresentações culturais, etc. Toda as participações serão voluntárias, sem remuneração, assim como também não haverá custos para os professores e as escolas envolvidas. 

Projeto Quero na Escola!

Tudo começou com uma necessidade social que foi mapeada durante o Social Good Brasil Lab. Lá, eles perceberam três coisas:

1. os estudantes têm muitos interesses além do currículo escolar
2. a escola já tem muitas demandas e não pode aumentar o atendimento
3. as pessoas querem colaborar, mas não são informadas sobre as oportunidades existentes

Esse projeto busca aproximar a escola pública com a sociedade. Por isso, a prioridade é o atendimento de demandas originais de alunos de escolas públicas por voluntários. Afinal, facilitar essa comunicação e fazendo essa ponte é uma maneira de abrir o  o círculo da escola para a comunidade e estimular novos conhecimentos, dar espaço ao protagonismo e aos sonhos dos estudantes e chance de participação a pessoas comuns.

Especial Professor

Agora, nesta edição, o projeto está com foco nos professores. Junto com a Fundação SM, eles lançaram em julho a terceira edição do Quero na Escola Especial Professor. Qualquer educador pode solicitar colaboração em algum projeto que já existe, ou até trazer algum conhecimento que seja interessante para os alunos ou para a equipe. 

Para se inscrever, os professores devem entrar no site do projeto e dizer que assunto ou tipo de especialista querem. Pode ser alguém para ensinar a mexer em algum programa, dar uma aula de yoga e relaxamento ou levar uma atividade que a escola não costuma ter para os alunos. Após as inscrições dos educadores, quem quer dar sua contribuição com a educação pública tem um mapa claro de como e onde ajudar. As participações serão organizadas pela equipe do Quero na Escola. Essa conexão e o agendamento de visitas acontecerá em outubro, como um presente no mês dos professores.

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“Eu gostei dessa aula porque a gente saiu da sala, professora”.

Imagem de poste e pessoa colando lambe lambe

“Eu gostei dessa aula porque a gente saiu da sala, professora”.

Imagem com fanzines criados pelos alunos

Aquela fala de Gilberto continua ecoando em mim. Foi no semestre passado que essa aula aconteceu. Conheci uma menina que dava oficina de lambe-lambe e convidei ela para encerrar a aula de poesia concreta no sétimo ano.

Alguma coisa acontece quando alguém novo adentra uma sala de aula pela primeira vez. É um estranhar-se/entranhar-se misterioso. Um limiar entre o desejo de conhecer o outro e o desconcerto de ainda não conhecer.

Eu amo observar os alunos mais bagunceiros (também conhecidos como criativos inconformados) nesse prelúdio da “aula com gente de fora”. Alguns se curvam, abaixam o farol do olhar. Outro já revelam a juba e o reinado logo de cara. Independente da primeira reação, os rebeldes sempre gostam dessas aulas – mesmo quando fazem cara de desdém.

Foi na aula de lambe da Marcela que Karina assumiu pela primeira vez que não sabia ler. Falou em alto e bom tom. Depois scaneou a turma toda com seus olhos em pleno manifesto e proclamou:

– Mas estou aprendendo.

Ah Karina, te admiro tanto!

Outro episódio de forasteiros em sala de aula aconteceu meses depois. Conheci outra menina, minha xará Duda, que ministrava oficinas de zine. Não pensei duas vezes e convidei ela para encerrar a trajetória de crônicas que estava trilhando com os meus três oitavos.

Rolou meditação guiada, exposição aberta de medos, choro e muita criatividade na hora de produzir os zines.

Essas aulas fora da curva fazem com que o menino que nunca se expressou se solte, se acomode no incômodo. É um fenômeno raro que poderia ser mais cotidiano.

Poderia?

Pode!

A presença de Marcela e Duda anunciaram o início de uma nova fase no meu trabalho em sala de aula como professora de Língua Portuguesa. É necessário sair do comum e tornar isso comum. Os alunos anseiam, clamam, as vezes até esperneiam pelo inédito! E quando falo inédito, não me refiro a nada muito espetacular. Falo de uma volta na própria escola pra observar as coisas e fazer uma lista.

– Sabe tudo isso aí que vocês escreveram, gurizada? Tudo isso são substantivos! (Obrigada pela dica de aula, Camilla!)

Agora tudo que vejo, todos que conheço, toda novidade que pra mim se apresenta como pérola na concha do cotidiano me faz pensar: Como posso levar isso pra sala de aula?

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Projeto ‘Boleto Solidário’ ajuda a pagar inscrição de alunos do Enem

Em 13 dias, mais de 50 alunos de cursinhos populares e comunitários de São Paulo que não conseguiram isenção da taxa do ENEM puderam ter a certeza de participação no exame. Como? O projeto “Boleto Solidário” conectou esses jovens com voluntários. Com isso, é possível garantir o pagamento dos boletos da inscrição do exame – sem intermediários.

A ideia é da jornalista e mobilizadora social Amanda Bozza. Para o Portal G1, ela explicou: “Eu sempre quis ajudar jovens que vinham de uma realidade social parecida com a que eu vivi. Como fui bolsista integral do Prouni, e isso sem dúvida transformou minha vida, eu sentia que tinha um dever social em retribuir o impulso que eu recebi. A educação sempre foi meu foco, pois eu era a prova viva da transformação”.

Ela criou uma página no Facebook para se aproximar de voluntários parceiros.  Para encontros os alunos, Amanda teve a ajuda da Frente de Cursinhos Comunitários e Populares – SP. Eles entraram em contato com os coordenadores dos cursinhos. As organizações criavam uma planilha com número de alunos que precisavam de padrinhos e os contatos dos cursinhos. Cada vez que aparecia um voluntário, Amanda ligava para o cursinho.

Boleto Solidário: isenção da taxa do Enem
“Aproveito para agradecer imensamente o trabalho. Sabemos bem o quanto as taxas são uma das barreiras que afastam nossos estudantes da universidade e esse trabalho em parceria é fundamental para alcançarmos nossos sonhos”, contou aluno beneficiado.

 

 

 

 

Oportunidade para diminuir a desigualdade social

O designer Guilherme Nagüeva, 32 anos, foi um dos voluntários. Ele diz que queria dar ao estudante de baixa renda a mesma oportunidade que outros alunos com melhores condições financeiras têm: a de tentar. Ele também contou ao G1: “Educação é um dos pontos fundamentais para mudar a vida de alguém. Mas o que a gente faz quando as pessoas sequer têm a chance de pagar a inscrição para o Enem? Não estou falando de cursar uma faculdade, a gente está falando apenas de tentar entrar em uma universidade. Tem gente que faz um curso superior, mas tem muitos que sequer conseguem tentar”.

A ideia agora é continuar com o projeto para ajudar a pagar inscrições de outros vestibulares. “Outro desejo também é expandir para além de SP em áreas e comunidades mais carentes”, explica Amanda.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação Projeto ‘Boleto Solidário’ ajuda a pagar inscrição de alunos do Enem em SP”, do portal G1. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Jovem roda escolas públicas de SP para incentivar jovens a buscarem seu propósito

Kelvin Freittas tem 23 anos e nasceu na periferia de Itaquaquecetuba, extremo Leste de São Paulo. Órfão de pai – que nunca teve a oportunidade de conhecer – morava num quarto em cima da cada da avó e perdeu familiares pela violência da região. Foi aos 14 anos, quando teve acesso à internet pela primeira vez em uma lan house. Descobriu o Youtube e decidiu trabalhar com produções de vídeos pela internet.

Ele seguiu um caminho bem diferente do de vários amigos, que foram para funções do crime local. Kelvin se engajou no seu sonho e começou a participar de eventos que envolviam a produção audiovisual por causa da escola. Hoje, ele é empreendedor social em uma produtora de vídeos. O jovem também está rodando escolas públicas das periferias de São Paulo para contar sua história e sensibilizar os estudantes. Conversamos com ele para conhecer mais sobre esse jovem e seus projetos:

Como você começou a se envolver com a produção de vídeos? 

Fui participar de um Festival de Cinema da cidade, pela minha escola, e é aqui é que começa a minha identificação com educação e cinema. Sonhar na quebrada com cinema era algo surreal! “Não dá! É difícil demais”, todo mundo me dizia. Com essa oportunidade que a escola me deu, eu voei.
 
Entrei pra esse projeto, sem recurso, sem câmera, mas com muita coragem, garra e perseverança. Nosso filme foi premiado como um dos melhores de todas as escolas do Alto Tietê. No ano seguinte, participamos  e ganhamos novamente. O que eu mais ganhei nesse segundo ano não foi o prêmio, mas um grande amigo, porque lá eu conheci Eduardo Lyra, escritor, jornalista e fundador do Instituto Gerando Falcões, que me deu um horizonte de vida.
 
Jovens assistindo palestra de Kelvin Freittas
 
Na época eu comecei a trabalhar com ele, ele não podia me pagar dinheiro, mas ele me deu muitas oportunidades. Uma delas foi me colocar em contato com Ferando Grostein Andrade, diretor do documentário “Quebrando o Tabu” e outros grandes filmes, documentários e peças publicitarias de sucesso.
 
Esse cara me deu a oportunidade de trabalhar numa produtora, a Spray Filmes, que me treinou do zero em pós produção e em outras áreas do cinema. Fiquei lá por 3 anos e depois fui convidado para trabalhar como editor sênior no canal Desimpedidos, o maior canal de futebol no Youtube [com 6 Milhões de inscritos].
Depois fundei minha própria produtora na comunidade, a Social Filmes, gerando renda local, empregando gente e dando oportunidade para outros “Kelvin’s” sonhadores da comunidade.
 
Passei por tudo isso, pra poder provar que o cara que vem da mesma realidade que eu, pode chegar a qualquer lugar, mesmo que o lugar onde você mora não passe um ônibus que te leve pra esse sonho.
E provar que a periferia vibra, ela é talentosa, só precisa alguém vir e dizer: vai lá! É possível, se eu conseguir escolher o que queria e fazer acontecer, acredita que dá!

Como surgiu a ideia de rodar as escolas das periferias de SP para despertar o propósito e o projeto de vida dos estudantes?

Depois que abri minha produtora, passei a apoiar o Projeto Cinearte aqui na cidade de várias maneiras. Mas não adianta a gente ter um super projeto legal, com um super potencial mas os alunos as vezes não acreditavam que aquilo era capaz de fazê-los alçar novos vôos. Do ano de 2015 para o ano de 2017 houve uma queda de 50% das inscrições das escolas, e isso me chateou muito. Então, decidi ir de escola em escola convocar os alunos para participarem. Mesmo que eles não gostassem de cinema como eu gostava na época da escola, eles aprendem muito mais do que fazer um filme no projeto.
 
Uma observação importante é que desses 50% dos alunos que não participaram nos dois últimos anos não foram culpa dos alunos ou desinteresse total. Eu descobri que a maioria das escolas não se inscreveram por dois motivos. O primeiro porque os diretores não repassavam isso pra escola. Depois, porque quando chegava até eles o projeto não tinha nenhum professor que pudesse acompanhá-los nas reuniões. Isso me chateou muito. Porque eu conheço o potencial do projeto. Então decidi ir até eles.
 

Quais os retornos que você já teve dos alunos e dos professores/pais?

O retorno geralmente é imediato, eu chego nas escolas públicas daqui e fico chocado com clima negativo que elas têm. A falta de esperança que existe tanto dos diretores, professores quanto dos alunos.
Daí quando eu chego, conto minha história e mostro pra eles outro caminho além do tráfico, do crime a resposta é: sério? Tem outro caminho? Eu posso sonhar? Consigo vencer meus medos sozinho?
Porque a palestra vai muito além de convidá-los para o Cinearte. Sempre após as palestras vem alunos e professores me abraçando, emocionados, chorando e muito mais inspirados a sonhar mais.
 
Teve um caso de uma escola, que no final da palestra a diretora virou e falou “Eu não ia participar do Cinearte esse ano, mas agora eu vou inscrever vocês!” e os alunos gritaram como se fosse Gol de Copa do Mundo. Aquilo pra mim não teve preço.

Onde você quer chegar com essa iniciativa?

Kelvin Freittas apresentando sua história para jovensO principal motivo de eu ir nas escolas é de incentivar eles a participarem esse e os próximos anos do projeto. Mas o real motivo vai além disso. Eu tenho ido de escola em escola pra provar pra eles que o crime não é o melhor caminho, que o “mano não vai descolar o tênis de mil reais da pior forma”. Que ele pode “trampa” e sonhar com o que ele quiser e só depende dele. Parece frase pronta, eu sei. Mas isso na comunidade faz TODA  A DIFERENÇA.
 
Chegar na escola e falar “mano, eu vim da onde você vem, eu sonhava como você sonha (quando sonha), eu estudava numa escola como você estuda, e as quatro paredes bege e cinza da escola não foi meu limite, sonhei mais alto e fiz” faz toda a diferença na vida desse cara. Os alunos passam em média 4 horas do dia deles numa escola que não os motiva, não aproveita as habilidades deles e não dá ferramentas pra exercitarem elas. Se alguém não for lá e fazer o papel difícil de inspirá-los e dar uma ferramenta de transformação, que é o Cinearte, eu não sei onde esse aluno, essa aluna vai parar. Alguém tem que fazer isso.
 
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Escola e comunidade se juntam para resgatar cultura extrativista da Mata Atlântica

Que a sociedade deixe de consumir algo, deixe de exigir certo produto, mude sua cultura. É esse o tamanho do desafio que uma escola em Ubatuba abraçou. A ideia foi de fomentar, ao invés da devastadora produção de palmito, a extração do fruto da palmeira, e a comercialização dele como um alimento diferente, saboroso e regional – um sorvete do sudeste –, que nem antigamente.

Escola e comunidade se juntam para resgatar cultura extrativista da Mata Atlântica. Na foto, grupo completo posa para registrar o momento do trabalho em campo

O resultado já se vê: atualmente a polpa da juçara é fonte econômica de algumas comunidades quilombolas e tradicionais de Puruba e região norte do município, um dos poucos locais onde há resquícios originários de Mata Atlântica, e onde vivem os alunos da Escola Municipal José Belarmino Sobrinho.

“Ao invés de vender o palmito por um valor irrisório, retiram a polpa, reproduzem as sementes, replantam em áreas degradáveis”, conta o professor de português e vice-diretor da escola, Israel Paulo. É ele que lidera essa iniciativa de educação, cultura e meio ambiente na escola.

Escola se junta com a comunidade

Com tema norteador “Caiçara Sim – com muito orgulho!”, a instituição se juntou ao esforço comunitário, e está espalhando essa outra tradição. São educadores e educandos como agricultores de valores, ideias, atitudes, o resgate de nossas raízes que transforma. Uma mudança de foco, simples, mas que atinge todo o sistema de cultivo, produção e consumo.

estudantes plantando palmito para resgatar cultura extrativista da Mata AtlânticaCom fama de problemático, o palmito é produto que leva dez anos para ser colhido. É um produto pouco acessível, que modifica e muito o ecossistema da floresta. Esse extrativismo vem da demanda do mercado, um mercado que exige demais da mata. Foi e é preciso buscar alternativas.

Os estudantes viram na prática o cultivo sustentável da palmeira e de outras árvores nativas da região. Aprenderam que é possível – e gostoso – consumir a fruta da árvore. Agora, estão também semeando, produzindo mudas e plantando por vários cantos do entorno. Se juntaram com diversos moradores para espalhar essa ideia e fomentar essa outra cultura.

O professor Israel está fazendo sobre esse acontecimento o seu trabalho de mestrado, em liderança, na americana Andrews University. Conta que foi em 2016, durante um evento da semana do meio ambiente, que o projeto tomou forma. Isso aconteceu quando o sogro, o especialista agroflorestal, Eraldo Alves Filho, deu uma palestra:

“Ele que incentivou a fazer a semeadura. E conscientizar os alunos da importância da sustentabilidade, a importância de preservar a palmeira juçara. Então ele foi o precursor dessa ideia, e eu aderi”. É por esse caminho que seguem: regionalidade, desenvolvimento local sustentável e valorização da cultura tradicional.

Bruna Aieta está pesquisando relações e espaços que buscam a transformação da educação e da sociedade. Ela compartilhará algumas histórias no Caindo no Brasil

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A educação é luta e aconchego

Conexão com estudantes: xícara de café no centro da foto e flores e livro no entorno

Contei para o 8° B que estava fazendo estágio em uma outra escola do bairro. Ensino médio. Noturno.

“Escreve uma crônica sobre essa experiência, professora”.

Desde quando começamos a estudar crônicas os alunos pegaram gosto pelo gênero. Dia desses Talita chegou com uma crônica que ela tinha escrito. Escreveu assim do nada, porque quis.

Enfim, aqui está a crônica que Lucas pediu. A crônica sobre essa curta experiência em uma sala de terceiro ano de Ensino Médio.

Fiquei um mês observando as aulas da professora Marisa. Todas as quintas a noite eu batia ponto lá na escola. Me sentia avulsa no início. Não era minha escola, eu não via meus alunos meio pequenos meio grandes (ainda se diz pré-adolescentes?). Os alunos do Ensino Médio já passaram do pré e da adolescência. São jovens. Alguns já adultos. Algumas já mães. Alguns pais – talvez. A mãe é informação explícita no contexto escolar. Já o pai…

Duas mães na mesma sala. Na lousa, aula sobre crase. No chão, panelinhas e chupetas. Assistiam à aula e as filhas.

Eu poderia encher todos os seguintes parágrafos de outras cenas que vi. De acontecimentos que realmente mexeram comigo. Mas até quem nunca pisou em uma sala de aula de uma escola pública – no período noturno, em uma turma de terceiro ano de Ensino Médio – consegue imaginar um esboço ainda que muito estereotipado e pessimista.

Eu prefiro preencher as linhas que seguem com a sensação de aconchego que carrego dentro de mim depois dessas quatro semanas de observação e desses poucos 40 minutos de aula que acabei de ministrar. Aconchego é mesmo a palavra que eu queria. Peço ajuda ao verbete.

Aconchegar (verbo transitivo direto e indireto)

  1. Chegar (umas coisas para junto de outras).
  2. Aproximar muito.
  3. Chegar muito a si.

Me aconcheguei a realidade daqueles alunos. Tão próximos do meu bairro, tão distantes de mim. No dia da minha aula, aconcheguei um texto a eles. “O legado das ocupações nas escolas”. Talvez quisesse deixar um legado ali. Simbólico, singelo.

Alguns chegaram atrasados, mas tiraram o fone de ouvido e se juntaram a roda. Nem todos participaram da conversa sobre o que foi lido, mas todos leram e responderam a provocação que estava na folha sobre a carteira:

O que você já fez para colaborar com um ambiente de aprendizagem e boa convivência na sua escola?

Não fiz nada. Presto atenção na aula. Comprei rifa para ajudar na pintura das salas. Organizei a rifa para ajudar na pintura das salas.

A resposta que eu mais gostei? Acho que foi a de João: Não fiz nada AINDA.

Ainda. Advérbio de tempo capaz de deixar tudo tão mais… aconchegante! Agradeço por ter sido tão bem-vinda pela professora Marisa e por todos os alunos do terceirão. Com aconchego e gratidão respondo agora uma das questões que a professora colocou no quadro no meu primeiro dia de estágio.

1) Argumente promovendo a progressão temática. Utilize um dos elementos coesivos abaixo:

CONTUDO

EMBORA

JÁ QUE

  1. a) A educação brasileira tem muitos desafios a enfrentar CONTUDO somos muitos os que estamos caminhando em busca de possibilidades onde parece que não há mais soluções. Estamos cada dia mais perto de nós, dos outros e do que queremos juntos. Ainda não chegamos lá, mas chegaremos. Como a Emily. A Emily que veio tirar foto comigo depois da aula e pediu meu face. “Vou te marcar no post de quando eu passar na UFMT” Mal sabe ela que já me marcou.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Racismo na escola: professora e jovem escrevem relato juntas

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA

Seis da matina. Ainda não levantei da cama, mas o barulho do alarme e a luz do celular na cara já me lembram que é dia feira. Tenho evitado ler mensagens antes de levantar como uma tentativa de criar um novo ritual matutino mais saudável. Mas nessa manhã uma mensagem pediu pra ser lida:

“Madu, a senhora sabe muitas coisas sobre campanhas contra o preconceito e tals. Hj eu presenciei uma coisa que eu pensei que nunca passaria na minha vida. E eu queria lutar contra o preconceito de alguma forma. Se a senhora souber algum jeito, me fale pfvr.”

Primeiro, uma alegria: as aulas do ano passado de criação de uma campanha contra o preconceito racial surtiram efeito! Quase de imediato minha alegria de professora se vai e a pergunta aparece em caixa alta e negrito na minha cabeça: Como posso ajudar essa aluna a lutar contra o preconceito?

Passei o dia com a perguntada grudada em mim.

Me coloquei no meu lugar, de quem não sofre com o racismo que assola nosso país. Me coloquei no lugar da Rafaela, minha aluna que me acordou com esse pedido tão… tão necessário!

Como? Como lutar contra o preconceito? Como não se sentir impotente diante dessa realidade perversa?

Rafaela me contou melhor o que tinha acontecido e eu entendi porque ela estava tão incomodada.

Então fiz um convite pra ela escrever aqui pra vocês. Um dos jeitos de lutar contra o preconceito é não se calando.

Em tempos de violência e repressão, não se calar é resistir.

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA
(Foto: Pixabay)

Deixo aqui as palavras dela e espero que elas cheguem longe e resistam

Olá, meu nome é Rafaela, tenho 13 anos e vim aqui falar sobre o preconceito racial.

O Brasil é considerado um dos países mais racistas do mundo, mesmo com tantas misturas de raças. Algumas pessoas pensam que o racismo nunca pode acontecer ou que é bem raro.

Infelizmente eu com apenas 13 anos vi o racismo acontecer na minha frente várias vezes. Infelizmente algumas pessoas maltratam outras para se sentir superior ou melhor que alguém.

Você julgar uma pessoa apenas por ela ser negra ou “diferente” é burrice. Nesse mundo não existe idade para sofrer e nem praticar o bullying. Meu melhor amigo foi revistado pela polícia simplesmente por ser negro e pobre. Tenho certeza de que tem muitas pessoas sofrendo por coisas piores.

Todos devemos nos unir e acabar com isso de uma vez. Eu sei que não é fácil mas poderíamos tentar pelo menos.

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Escola municipal constrói casa na árvore e observatório de pássaros

EMEI Dona Leopoldina lança escola da árvore. Na foto, alunos nesse novo espaço

Há seis meses, crianças e educadores da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Dona Leopoldina ganharam  uma casa na árvore e um observatório de pássaros. A ideia para a construção destes dois espaços surgiu em 2015, quando a escola perguntou aos estudantes: “Qual é o nosso sonho de escola?”.

EMEI Dona Leopoldina lança escola da árvore. Na foto, alunos nesse novo espaço

A diretora da EMEI, Marcia Corvelo, conta que esse assunto envolveu toda a unidade escolar e que o Conselho Mirim decidiu que a escola deveria ter uma casa na árvore e um observatório de pássaros – no conselho das crianças, elas deliberam quais serão as iniciativas e atuam diretamente na gestão do espaço. A partir daí, os pequenos passaram a elencar e desenhar quais seriam as características de cada espaço. Uma das exigências era que os dois ambientes não tivessem telhado.

Com as ideias no papel, o projeto para as construções dos espaços iniciou em 2015, por meio de uma parceira entre a escola, as famílias e equipe do Museu da Casa Brasileira, da Secretaria Estadual de Cultura. Tudo foi facilitado, pois, no mesmo ano, a escola já havia iniciado um estreitamento de relações e trabalho colaborativo com o núcleo técnico e educativo do museu. Professores da unidade têm a oportunidade de participar, quinzenalmente, de momentos formativos com a equipe da instituição.

A partir das exigências das crianças, o museu solicitou que um dos seus arquitetos fizesse um projeto. A escola apresentou a ideia para a comunidade, pediu doações e organizou eventos para angariar fundos para a construção. O processo para a conquista de todos os materiais, por doação e compra, mais a montagem, durou cerca de dois anos. A construção foi feita pouco a pouco, com ajuda dos funcionários e da comunidade, principalmente com o auxilio do avô de uma das crianças, que é construtor.

A inauguração dos espaços ocorreu no final de 2017 e, desde então, as atividades que aconteciam nas salas convencionais, com telhado e quatro paredes, ganharam novos sentidos e perspectivas. Do alto, durante as aulas, as crianças ouvem de perto o canto das variadas espécies de aves que circulam pela escola. A diretora diz que nas árvores do território é possível encontrar pica-pau, sabiá-laranjeira, bem-te-vi, maritaca, papagaio, águia e gavião. Com vista privilegiada, as crianças percebem a procura dos pássaros pelas árvores frutíferas que compõem o terreno. Ameixas e amoras aos montes brotam por lá.

Novos espaços garantem diversidade de experiências

Além dos dois novos ambientes, a escola possui outros espaços de convivência e aprendizagens que fogem do convencional, como: viveiro (estufa), meliponário (criação de abelhas sem ferrão), várias salas verdes (sem paredes e organizadas na área externa da escola), parque sonoro, estacionamento e pista de corrida para triciclos, horta, composteira, ateliê de artes, salas multimídia, refeitório com cozinha experimental, ateliê de costura, parque, quadra e playground projetados pelos alunos. 

Marcia diz que todos estes espaços compõem os viveiros de aprendizagens e que, mesmo não sendo espaços estruturados com paredes, são ambientes educadores. A diretora ainda ressalta que esses ambientes seguem a proposta do Projeto Político-Pedagógico “Construindo Viveiros de Infância”, desenvolvido na escola e balizado em três eixos – arte, natureza e brincadeira. 

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Escola constrói casa na árvore e observatório de pássaros”, no site da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Projeto Tá de Pé passa a receber fiscalizações de obras via Twitter

O projeto Tá de Pé lançou em 2017 um aplicativo que permite o monitoramento cidadão de obras de creches e escolas públicas em todo o Brasil. Agora, a iniciativa passa a contar com mais uma plataforma de mobilização e controle social. Os cidadãos podem enviar fotos de obras para o perfil do projeto no Twitter (twitter.com/tadepeapp), com a hashtag #tadepeobras.

Imagem de placa oficial do Governo Federal indicando a construção de uma escola com quatro salas
Placa de obra de escola municipal na cidade de Passo de Camaragibe, Alagoas (Foto: Divulgação)

 

Como a fiscalização deverá ser feita

De acordo com a ONG Transparência Brasil, idealizadora do aplicativo, as imagens deverão mostrar a placa que identifica a obra e esta deve conter dados como nome, investimento e a sigla do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). É recomendado enviar, também, o endereço da obra fiscalizada, contendo o nome da rua/avenida e número. Assim, é possível que a Transparência Brasil avalie possíveis irregularidades. Certifique-se de que as informações da placa estão legíveis nas imagens!

As fotos devem mostrar o estado da construção. Por isso, é indicado fotografar itens como estruturas externas, revestimentos, cercas, dentre outros elementos visíveis. Assim, os engenheiros parceiros da Transparência Brasil poderão identificar indícios de atraso. Somente construções de creches e escolas de educação básica municipais e estaduais serão avaliadas nesta fase experimental do projeto na rede social.

Caso sejam identificados indícios de atraso ou incongruências na construção da escola ou creche, a Transparência Brasil encaminhará uma notificação ao governo responsável pela conclusão da obra. Eventuais respostas e justificativas concedidas pelo poder público serão publicadas no perfil da organização no Twitter. As informações também poderão ser acompanhadas pelo aplicativo Tá de Pé, disponível para Android e iOS.

Matéria baseada na publicação “Projeto Tá de Pé passa a receber fiscalizações de obras via Twitter”, da repórter Gabriela Beira, do portal Transparência Brasil. Leia a entrevista original e na íntegra clicando no link.

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Professor cria “Quebrada Maps” para ensinar geografia na zona leste

Para ensinar geografia com um olhar local, uma escola pública da zona leste de São Paulo adotou uma nova estratégia: a construção coletiva de mapas. Desenvolvido na escola municipal Padre Chico Falconi, no Jardim Nazaré, o projeto “Quebrada Maps” une histórias de pessoas que moram no bairro com a tecnologia para trabalhar os conteúdos fora da sala de aula.

A partir de diversas pesquisas, o Caindo no Brasil entende que garantir a valorização cultural e regional possibilita uma maior conexão do aluno com a escola e com o que está sendo aprendido. Projetos como o “Quebrada Maps” podem garantir maior engajamento dos jovens e impedir a evasão escolar.

Esse novo jeito de ensinar foi implantado pelo professor Wellington Fernandes com o objetivo de  conectar as aulas com a realidade dos estudantes da região que fica entre os distritos de Guaianases e Itaim Paulista. “A ideia é criar a nossa cartografia, representar nossas identidades e falar sobre o território”, conta.

O educador começou o projeto em parceria com Jéssica Cerqueira, em uma escola do Rio Pequeno, na zona oeste. Depois de receber o prêmio do programa Vai Tec (Valorização de Iniciativas Tecnológicas), em 2017, a experiência foi para a zona leste, onde ele atua ao lado da colega Camila Ribeiro.

Durante o projeto, os alunos produzem vídeos, criam mapas e divulgam os dados coletados

Com uma imagem de satélite do bairro, a estudante Gabrielle Santana, 13, mostra os lugares onde todos da sala moram. “São as quebradas da gente, onde vivemos. Pontos interessantes para visitar e os [espaços] mais importantes para nós”, conta apontando para o Parque Chácara das Flores. “É um local especial para mim”.

“Nós mapeamos os lugares onde poderíamos ter aulas. Conheci lugares que nunca tinha ido. Se vierem para a zona leste pela primeira vez, conheçam a Casa de Cultura do Itaim Paulista”, recomenda Jennifer Paiva, 13.

Jovem negra posa para foto em frente a um mapa do Brasil para divulgar o Quebrada Maps
Thauny mostra mapa com regiões em que moradores nasceram (Sheyla Melo/Agência Mural/Folhapress)

Moradores do bairro também fizeram parte

Outro foco do projeto é a coleta de depoimentos, momento em que surgem mapas colaborativos que abordam preconceitos. Evelyn Miranda, 14, entrevistou as pessoas do bairro para saber o que eles pensam sobre a África. Do tema surgiu uma nuvem de palavras. “Tivemos a ideia de criar um mural com as palavras que mais apareceram. Depois fomos estudar e ver filmes sobre a África. Foi bem interessante”, diz a estudante.

“São as imagens que os entrevistados têm sobre a Africa, muitas delas revelam os estereótipos, depois construímos um contraponto a partir de imagens reais no Google Street View”, comenta o professor. Já a aluna Thauany Silva, 14, diz que gosta dos dois jeitos de estudar: nas aulas de campo e na sala de aula. Ela analisou as origens das pessoas do seu bairro e concluiu que muitas vem de outro estado para São Paulo, em busca de trabalho.

“Aqui tem muitos moradores que vieram de Pernambuco, Bahia e Minas. Meu pai mesmo é de Alagoas”, conta a adolescente, que já sabe que no futuro será jornalista. Para o professor essa é uma maneira da turma se conhecer e se apropriar do espaço. “Não apareceu nenhum aluno querendo ser cartógrafo ainda”, afirma. “Mas uma noção sobre o bairro que vivem eles já têm”.

Compartilhamos a matéria original escrita por Sheyla Melo, correspondentede Guaianases da Agência Mural. Apenas adicionamos um parágrafo com a opinião do Caindo no Brasil sobre a iniciativa. A matéria foi publicada pela Folha de S.Paulo com o título “Professor cria “Quebrada Maps” para ensinar geografia na zona leste”.

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Alunos desenvolvem microscópio com R$ 25 e ideia será expandida para escolas públicas

Imagem de inseto sendo vista pelo microscópio de baixo custo
Lente usada para leitura de DVD aumenta imagem em até 300 vezes (Foto: John Pacheco/G1)

Baseado numa ideia americana, mas com a criatividade e o jeitinho brasileiro, dois alunos e um professor do Instituto Federal do Amapá (Ifap) desenvolveram um pequeno microscópio de baixo custo gastando cerca de R$ 25, utilizando materiais reutilizados e pequenos acessórios. O objetivo é expandir a produção e aumentar o ensino de Biologia em escolas públicas sem laboratórios. 

O Caindo no Brasil acredita que iniciativas como essa aumentam o interesse pela educação científica tanto pelos criadores da solução quanto para os alunos que serão beneficiados. Além disso, garante uma maior conexão entre a vida dos alunos e a escola. Isso pode ajudar a combater a evasão escolar e aumentar o engajamento dos jovens na escola.

Desenvolvido pelos alunos Carlos Eduardo Silva e Thaís Rodrigues, ambos de 16 anos, orientados pelo professor Joádson Rodrigues, o projeto é realizado apenas parafusos, capas de CD e pequenas lanternas. As lentes são formadas por leitores de DVD reaproveitados. Além disso, a visualização de pequenos microorganismos pode ser feita no microscópio com o uso do celular.

 

Imagem do microscópio de baixo custo
Equipamento desenvolvido usa aparelho celular como lente (Foto: John Pacheco/G1)

 

O G1 do Amapá entrevistou os estudantes: “Aqui no Ifap não tínhamos o laboratório de biologia quando entrei, em 2016. O professor havia visto esse trabalho na internet nos Estados Unidos e quis trazer para a nossa realidade. Fomos vendo o projeto original e trocando as peças para outros materiais mais acessíveis”, comentou Carlos Eduardo, que cursa Edificações. 

Projeto apoiará comunidades ribeirinhas

O Ifap vai iniciar ações de extensão para levar o microscópio para escolas da periferia e da Zona Rural. “Essa extensão vai ser proposta para as escolas ribeirinhas, onde não tem esse laboratório. Vamos educar professores e alunos, pois não precisa nem de energia elétrica, somente o celular”, declarou Márcio Castro, diretor-geral do campus Macapá.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação Alunos do Ifap desenvolvem microscópio com R$ 25 e ideia será expandida para escolas públicas”, do repórter John Pacheco para o G1 Amapá.