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“Eu gostei dessa aula porque a gente saiu da sala, professora”.

Imagem de poste e pessoa colando lambe lambe

“Eu gostei dessa aula porque a gente saiu da sala, professora”.

Imagem com fanzines criados pelos alunos

Aquela fala de Gilberto continua ecoando em mim. Foi no semestre passado que essa aula aconteceu. Conheci uma menina que dava oficina de lambe-lambe e convidei ela para encerrar a aula de poesia concreta no sétimo ano.

Alguma coisa acontece quando alguém novo adentra uma sala de aula pela primeira vez. É um estranhar-se/entranhar-se misterioso. Um limiar entre o desejo de conhecer o outro e o desconcerto de ainda não conhecer.

Eu amo observar os alunos mais bagunceiros (também conhecidos como criativos inconformados) nesse prelúdio da “aula com gente de fora”. Alguns se curvam, abaixam o farol do olhar. Outro já revelam a juba e o reinado logo de cara. Independente da primeira reação, os rebeldes sempre gostam dessas aulas – mesmo quando fazem cara de desdém.

Foi na aula de lambe da Marcela que Karina assumiu pela primeira vez que não sabia ler. Falou em alto e bom tom. Depois scaneou a turma toda com seus olhos em pleno manifesto e proclamou:

– Mas estou aprendendo.

Ah Karina, te admiro tanto!

Outro episódio de forasteiros em sala de aula aconteceu meses depois. Conheci outra menina, minha xará Duda, que ministrava oficinas de zine. Não pensei duas vezes e convidei ela para encerrar a trajetória de crônicas que estava trilhando com os meus três oitavos.

Rolou meditação guiada, exposição aberta de medos, choro e muita criatividade na hora de produzir os zines.

Essas aulas fora da curva fazem com que o menino que nunca se expressou se solte, se acomode no incômodo. É um fenômeno raro que poderia ser mais cotidiano.

Poderia?

Pode!

A presença de Marcela e Duda anunciaram o início de uma nova fase no meu trabalho em sala de aula como professora de Língua Portuguesa. É necessário sair do comum e tornar isso comum. Os alunos anseiam, clamam, as vezes até esperneiam pelo inédito! E quando falo inédito, não me refiro a nada muito espetacular. Falo de uma volta na própria escola pra observar as coisas e fazer uma lista.

– Sabe tudo isso aí que vocês escreveram, gurizada? Tudo isso são substantivos! (Obrigada pela dica de aula, Camilla!)

Agora tudo que vejo, todos que conheço, toda novidade que pra mim se apresenta como pérola na concha do cotidiano me faz pensar: Como posso levar isso pra sala de aula?

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8 competências que professores me inspiram a desenvolver

Passados 16 meses desde meu primeiro dia de trabalho numa escola pública e milhares (literalmente) de aulas me ofereceram a oportunidade de interagir com profissionais brilhantes e observar como trabalham outros professores, a quem aprendi a cultivar admiração, respeito e profunda empatia. São pessoas que reconhecem e admitem os desafios de trabalhar em redes públicas de ensino e ainda assim, fazem acontecer. Ainda que exista a sensação de viver um “salve-se quem puder” na Educação brasileira, espero aqui conseguir compartilhar motivos para sermos otimistas.

Como em qualquer organização, pública ou privada, coexistem bons, medianos e maus profissionais nas escolas do país. Podem ser diferenciados pela forma como percebem a si próprios no trabalho e assumem (ou não) responsabilidade direta pela aprendizagem dos alunos. Como disse a querida amiga e educadora Janaína Barros, “é preciso entender o lugar social que ocupamos enquanto professores para não acabarmos negociando o inegociável”Definitivamente, não há espaço para culpa e autoflagelação quando se trata de fazer uma criança aprender.

Em tempo, no livro “Por que fazemos o que fazemos?” (Editora Planeta, 2017), o filósofo e educador Mario Sergio Cortella aborda a busca por propósito no trabalho e desvenda o tema com a precisão científica de um pesquisador e a amigável informalidade de quem explica um conceito novo a um leigo. Em meio a certa padronização de uma visão de mundo que busca tornar tudo fácil e intuitivo, será necessário (e possível) simplificar o ato de instruir e educar?

Em certo ponto Cortella conceitua a desmotivação, algo inerente ao ser humano, como a “perda da potência para fazer algo que passo a julgar que não vale mais”. Seja por consequência do tempo de carreira, legítimo cansaço físico/emocional, experiências, valores pessoais próprios ou por influências externas, muitos profissionais da Educação não mais enxergam a potência que um dia os motivaram a ingressar na sua área de trabalho, tenham sido inicialmente atraídos por vocação ou simples e legítima necessidade financeira.

Neste artigo tenho cuidado em utilizar uma definição particular do que seria o “bom” professor (com especial cuidado em representar uma categoria dominada por mulheres). Ainda que se tratando de um conceito subjetivo e sujeito a interpretações, fiz das minhas vivências em sala de aula, escolas e de conversas com alunos, pais e outros profissionais, a base para identificar traços comuns aos professores que alcançam, a meu ver, consistentemente bons resultados de aprendizagem, sendo alguns deles:

1) Habilidade de engajar e inspirar
2) Comunicação assertiva e empática
3) Busca pela excelência
4) Curiosidade, otimismo e crença na construção coletiva do aprendizado

Reparem que intencionalmente evito dizer que esses professores nasceram ou simplesmente são assim por influência genética ou mesmo divina. Afinal, há certamente envolvida nessa questão uma percepção particular da possibilidade de todo profissional se aperfeiçoar continuamente. Reforço que enquanto Professor, negar a possibilidade de remodelar nossos hábitos, costumes e comportamentos de acordo com as experiências que vivenciamos seria rejeitar o princípio fundador da nossa atuação: orientar para a mudança e crescimento.

Para cada pesquisa que leio, que reafirma a baixa influência da formação continuada sobre a atuação dos professores após os anos iniciais em sala, me apego às conversas com outros colegas que demonstram as incansáveis tentativas de superar a inércia (própria e do sistema) e a acomodação que tendem a se instalar no decorrer dos anos. São profissionais que se atualizam constantemente, ressignificam sua atuação e se esforçam para desenvolverem aulas eficazes, capazes de garantir aos alunos novas habilidades e competências.

Felizmente, vários professores buscam se moldar de acordo com o seu contexto de atuação, entendendo qual é o profissional que precisam ser para seus alunos. Isso começa em sala de aula, por exemplo, quando fazem pequenas adaptações de maneira a atender o perfil de cada turma. Inevitáveis perguntas: imaginar que salas com 40 alunos devem se sujeitar ao seu estilo imutável de aula não seria negar a individualidade de cada um ali? E o quanto nos permitimos, nos mais variados ambientes profissionais, o exercício de adaptação ao contexto?

Penso ainda que os bons profissionais, de qualquer área do conhecimento, se destacam por perceberem e incorporarem em suas carreiras desde muito cedo o desenvolvimento contínuo como pré-requisito de uma melhor qualidade de vida, satisfação pessoal, e claro, desempenho profissional. Cito “desempenho” por último por acreditar que isto seja mais a consequência do processo do que ponto de partida, como alguns tendem a assumir.

E quando falo de desenvolvimento, me refiro principalmente às atitudes simples — de pequenos cursos online a projetos extracurriculares — que cabem no nosso já sobrecarregado dia-a-dia e que nos ajudam a encarar a rotina de trabalho de forma otimista; que nos despertam para novos desafios e impedem que passemos a tratar o trabalho como uma tarefa automatizada e, por consequência, carente de vida própria.

Percebi que bons profissionais aprendem a cultivar apreço permanente pelo que fazem.

Assim, aqui apresento as 8 competências que a mim parecem facilitar a atividade profissional dos “bons” professores e que deveriam ser desenvolvidas por profissionais de qualquer área de conhecimento. Porque mudar, ou melhor, se desenvolver, é preciso!

Habilidades professores: foto de pátio de escola pública

1) Testa e aprende com o “erro”

Todo professor admite que para despertar o interesse de uma turma e mantê-la engajada, desperta e motivada ao longo de uma aula, é necessário testar várias vezes. Não foram poucos os momentos em que acreditando conhecer meus alunos, elaborei uma aula “incrível”, porém ineficaz em fazê-los aprenderem. Ou ainda, aquele projeto escolar “impecável” que jamais atingiu o resultado previsto de engajar a comunidade.

Como se não bastasse a necessidade, intrínseca à profissão, de se reinventar constantemente, empregar diferentes metodologias e elaborar atividades para cada perfil de aluno, bons professores reconhecem e buscam minimizar a influência de fatores externos nas suas aulas. É o caso de um colega que sempre dispõe de aulas diferentes para dias de chuva, muito quentes, evitando assim correr o risco de jogar planejamento por água abaixo.

Isso faz com que a convivência com os “altos e baixos” da profissão — de uma verdadeira experiência de aprendizagem até uma aula esquecível — passem a integrar um único processo de desenvolvimento baseado na lógica do teste de hipóteses. Cada “erro” passar a ser visto como uma tentativa testada ou simplesmente uma forma de “não fazer”, o que por si só já é muito valioso e abre espaço para novas experimentações.

A mim soa cada vez mais evidente ser graças aos incansáveis e repetidos esforços de buscar alcançar uma aula excelente (aquela em que todos aprendem), que se constroem as melhores e mais certeiras oportunidades de aprendizagem.

· Ainda que consideremos aspectos específicos de cada cultura organizacional, será que nos permitimos ver as tentativas frustradas como condição necessária para alcançar um resultado que surpreenda e vá além do esperado?

2) Pede e oferece feedbacks

A implementação de uma cultura de feedbacks em grande parte das empresas ainda é um enorme desafio. Primeiro, porque não é fácil dar feedbacks (não somos um povo que fala tão abertamente sobre nossas necessidades de melhoria, que dirá dos outros) e segundo, porque nem todo mundo sente-se confortável em escutar comentários sobre a sua atuação profissional, ainda que de forma objetiva e desvinculada de julgamentos.

O problema é que sem esse tipo de confiança e abertura na comunicação entre membros de uma equipe, dificilmente se criam oportunidades de reflexão mais profundas e transformadoras. Como seria possível falar de Plano Político Pedagógico (documento que define a identidade da escola) se não há expectativa entre os membros do grupo de que seus pares tenham liberdade de apontar aperfeiçoamentos que podem beneficiar a todos? É possível trabalhar em equipe quando não há esse espaço?

Um dia, ao realizar a devolutiva de um trabalho para alunos do 9º ano, disse ao grupo: “O trabalho de vocês estava bom, seguiu as instruções básicas que pedi e contou com um toque fantástico de criatividade. O que acham que poderia ter sido melhor?” Para minha surpresa: “Nada, professor, acho que não tem nada para melhorar.”

Naquele dia meu objetivo foi fazê-los entenderem que sempre existem oportunidades de melhoria. O que é bom deve ser valorizado e destacado objetivamente, enquanto as oportunidades de avanço devem receber tanta ou mais atenção, no sentido de incentivar e permitir uma reflexão crítica sobre determinada obra ou comportamento.

Bons professores, além de excelentes na arte de escutar, sabem ir até seu diretor, coordenador, outros professores e aos alunos para perguntar sobre práticas inovadoras, pedir ajuda e solicitar avaliações genuínas a respeito do seu próprio trabalho. Eles entendem que uma reflexão crítica sobre a sua forma de atuação é condição necessária para que o mesmo aconteça com os alunos.

· No seu ambiente de trabalho, há uma cultura de feedbacks estabelecida? Você se sente confortável em pedir ao seu superior? E já ofereceu um a alguém?

3) Constrói coletivamente

A profissão de professor pode ser um tanto quanto solitária. Por mais surpreendente que isso possa soar, já que estamos constantemente cercados por alunos, profissionais da escola e de outros colegas, me refiro a um tipo de solidão que não aquela definida pela ausência de contatos físicos ou por situações de isolamento.

Trata-se de uma solidão decorrente da ausência de políticas estruturadas de formação continuada; da enorme carga de trabalho e atividades envolvidas (correção de provas, elaboração de aulas, adaptação de conteúdos); da dificuldade de contar com o apoio de uma sobrecarregada (quando existente) Coordenação Pedagógica e claro, das condições adversas de infraestrutura, sobretudo na Educação pública.

Nos ambientes corporativos por onde passei acreditava ser a competitividadeum elemento que tanto ajudava (quando incentivava o atingimento de objetivos) quanto prejudicava (quando, por exemplo, sobrepunha metas individuais às coletivas). E de certa forma, antes de ingressar na escola pública, idealizava um espaço no qual a vontade coletiva de oferecer uma Educação de qualidade se sobressairia às tentativas de fazer da escola um instrumento para atender interesses individuais.

Minha visão romantizada de até então ignorava ser a escola uma combinação de seres humanos dos quais emergem interesses particulares e onde sobressaem egos inflados e conflitos (não saudáveis) de opinião. Ainda que direcionados pelo discurso de alcance do “bem comum”, trata-se de espaço tão ou mais politizado (com “p” minúsculo) que qualquer outro ambiente de trabalho. Em meio a esse desarranjo de vontades, nos cabe a função de mediar pais, colegas, gestores e governo, de modo a fazer acontecer.

Os “bons” professores entendem que para lidar com essas questões de forma pragmática e resolutiva, é preciso que se construa um senso de coletividade que inspire e agregue pessoas em torno de projetos transformadores. É claro que se espera do Diretor da escola, enquanto liderança formal, a proatividade de buscar fomentar tais comportamentos entre a equipe, porém nem sempre trata-se de tarefa trivial.

Bons professores percebem a importância de trabalhar em equipe e agregar as pessoas em torno de si, sem para isso depender de uma hierarquia formalizada. Tampouco me refiro a ignorar e sobre passar outros profissionais. Pelo contrário, acredito que devemos respeitar os espaços de cada um enquanto buscamos articular coletivamente pautas relevantes.

Na Educação, a mudança precisa ser baseada na colaboração, troca e concepção de construção de um bem coletivo: público, duradouro e intergeracional.

· E você, sente que nos ambientes por onde transita consegue agir de modo a ser um elemento que aumenta a coesão e a sinergia da equipe? Se não, como fazer para sê-lo sem depender da autoridade formal de um(a) chefe ou superior?

4) Domina o saber técnico e vai além

Foi-se o tempo no qual empregado do setor público era sinônimo de profissional acomodado, pouco produtivo, preso à burocracia. Contudo, de todas as minhas experiências na escola pública, uma das mais frustrantes é sem dúvida a de me deparar com certos profissionais que se limitam à função “pela qual são pagos para exercer”. Me refiro ao porteiro que se recusa a auxiliar numa inspeção de alunos; ao professor que não participa de uma atividade comunitária voluntária com responsáveis pelos alunos; à merendeira que rejeita auxiliar pontualmente numa limpeza do ambiente.

Sei ainda ser improvável que um professor consiga se limitar a uma única função na escola, especialmente em contextos mais vulneráveis. É imposta a ele a necessidade de exercer a função de psicólogo, mãe, pai, e sabemos que essa multiplicidade de papeis, imposta por uma sociedade incapaz de acolher os jovens em sua totalidade, cobra seu preço, tanto físico quanto emocional. Não são poucos os que adoecem, sofrem com crises de ansiedade, depressão, problemas vocais e chegam à exaustão.

Reconhecidos os desafios, chamo atenção para algo que depende exclusivamente de uma preocupação interna em agir de modo a transformar o ambiente a nossa volta. Na psicologia, Julian Rotter definiu o conceito de lócus de controle como o grau ao qual as pessoas acreditam ter controle sobre os eventos de suas vidas, em oposição às forças externas além do controle próprio. Pessoas com um elevado grau de lócus de controle interno acreditam que os eventos derivam em grande parte de suas próprias ações.

Aqui me refiro a profissionais que se perguntam: o que eu faço com o que tenho disponível em prol dos meus objetivos e propósitos na Educação? Do que faço na minha posição privilegiada enquanto professor com alunos que não possuem outras referências e oportunidades? São pessoas que tentam fazer acontecer sem depender dos recursos aparentemente disponíveis; que não aceitam calados o ordenamento natural das coisas supondo “ser assim que as coisas são”. De quem reconhece o lugar social que ocupa e age sistemática e objetivamente para transformá-lo.

A história de pessoas que empreendem está diretamente associada a situações em que, cansados do status quoforam lá e fizeram, assumindo que caso contrário, ninguém mais o faria. Empreendedores iniciam movimentos, perseveram, criam oportunidades, aceitam desafios e assumem que o necessário a se fazer é tudo que ainda não foi feito.

Na escola, bons professores não se limitam ao ensino de conteúdos e valores em sala de aula, ainda que essa seja sua função primordial. Por sinal, duas coisas ainda me surpreendem: 1) ver que muitos colegas persistem em alegar ser a “transmissão de conteúdos” sua única função na escola e 2) de que imaginam ser possível construir uma escola em que todos aprendem quando cada um pensa de forma tão fragmentada.

Mas cuidado: uma postura empreendedora pode provocar nos profissionais mais acomodados uma sensação de que estão sendo atacados. No entanto, nesse caso o “inimigo” é invisível: não percebem ser o “ataque” nada mais que o confrontamento com a própria inércia e acomodação diante dos problemas.

Bons profissionais, independente da área de trabalho, enxergam e criam oportunidades de transformação; não se conformam com um ambiente medíocre; inovam, testam, aprimoram e empreendem a mudança que querem ver.

· Em nossos ambientes profissionais, estamos prontos para assumir uma postura assim frente aos desafios que nos são postos? Qual o preço a se pagar por provocar o sistema a sair da inércia? E estamos dispostos a assumir tais responsabilidades?

5) Pratica a presença

Nas organizações ocidentais, o grande termo da moda é o tal mindfulness. Como resultado da perda da capacidade de vivermos plenamente no presente em meio a um cenário de excesso de estímulos e constante desatenção, as empresas estão oferecendo cursos, capacitações, trazendo “gurus” indianos e um exército de coachs para ajudar seus empregados a reencontrar esse “estado mental de controle sobre as experiências, atividades e sensações do presente.”

Agora reflita: você acharia possível entrar uma sala com 35°C, 40 alunos de 11–13 anos e não estar presente? É provável que na sua “ausência” um aluno acabasse pendurado no ventilador (quebrado, por sinal). Brincadeiras à parte, a profissão nos exige esse estado de atenção permanente com o que está acontecendo nesse exato instante com o nosso aluno. Bons professores reconhecem a importância e praticam o estar inteiro (de corpo e alma) em sala de aula.

Aliás, essa demanda por presença costuma ser mais benéfica do que causadora de estresses. Uma sensação compartilhada por muitos professores revela o estar em sala de aula como uma terapia: “comecei o dia estressado e preocupado, mas quando entrei em sala, tudo se acalmou”. Nesse caso, não tem tanto a ver com o comportamento dos alunos, mas sim com o fato de que melhora porque nos colocamos presentes.

Naquele instante, as preocupações com as contas, problemas da casa, filhos na escola e roupa suja, tudo isso passa a ser menos relevante do que a atenção e a presença que você pratica junto com seu aluno. Estar presente facilita o engajamento, melhora a sua respiração, privilegia a interação entre as partes e contribui para um clima mais equilibrado, mesmo com todos os desafios de sala de aula.

Experimente passar uma aula inteira “ausente” e não há resultado mais previsível do que de provocar o desinteresse dos alunos. Eles são os primeiros a sentirem se você está ou não ali. Claro que muitos profissionais desenvolvem habilidades teatrais para minimizar essa ausência e outros entram no que considero o “modo automático”.

Esse automatismo é sinal de quem já entra em sala pensando em sair. De quem entra em corpo, mas a alma já não quer se dedicar àquilo. Mas, se a sua prática já se assemelha mais a de um robô do que a de um ser humano, faz algum sentido continuar em sala?

· E você, está vivendo acomodado no automatismo negativo da rotina ou faz dela uma forma de se encontrar e estar presente? O que você faz para estar presente no dia a dia? E se está insatisfeito no seu ambiente profissional, o que o impede de mudar?

6) Organiza, planeja e… improvisa

“Ser professor é dominar a arte de lidar com incertezas”. Esse é um provérbio brasileiro dito por mim 2 meses depois de começar a dar aulas para as turmas de 11–13 anos. Digo isso porque não bastasse o que eu fizesse em termos de organização e planejamento, havia sempre alguma coisa que eu não tinha previsto, seja o calor, ausência de metade da sala, uma chuva repentina que impedia os alunos de chegarem, um apagão ou mesmo uma mudança repentina no horário da escola. E tudo isso, claro, no mesmo dia.

Ser professor me ensinou muito sobre organização, sobretudo pela necessidade de cumprir horários de aula rigorosos, de documentar o aprendizado dos alunos, preparar, corrigir, aplicar e entregar avaliações; de planejar aulas e participar de formações, e toda uma infinidade de atividades que requerem de você atenção, preparo e uma boa dose de planilhas, post-its e calendários.

Enquanto ainda tentava me organizar em meio a 17 turmas e algo próximo de 600 alunos, percebi que bons professores tinham sempre planos B, C e D preparados. A experiência em sala de aula, a capacidade de antecipar os desafios e pensar em soluções para eles, tudo isso favorecia que cada aula se tornasse uma oportunidade de aprendizagem, mesmo que fosse necessário abrir mão da aula planejada e adaptar atividades. Foi quando percebi que planejamento e improvisação andam juntos.

O profissional que antecipa dificuldades e cria planos de como lidar com elas sabe que por mais cuidadoso que seja haverá sempre forças externas exercendo pressão para que o plano não transcorra como pensado. Seja na escola ou numa agência de publicidade, o profissional que antevê e incorpora a incerteza como parte fundamental do seu dia-a-dia sai na frente pela capacidade de solucionar os desafios que lhes são impostos.

· Afinal, já parou para pensar que o “simples improviso” carrega anos de experiência, organização, planejamento, testes e tentativas sem sucesso? Afinal, o que interpretamos como improviso não estaria mais para um excelente planejamento?

7) Comunica, motiva e inspira

Se existe uma habilidade que eu admiro nos bons professores e tento desenvolver a cada dia é a de inspirar e motivar. Para falarmos de Educação é preciso reconhecer seu caráter de longo-prazo, com altos e baixos, por vezes penosa, construída pouco a pouco, com esforço e dedicação, sobre bases em constante transformação. Basta pensar que o aluno para quem dou aula hoje é muito diferente daquele com quem estarei no final do ano, e isso nos cria tanto desafios quanto enormes oportunidades.

Primeiro, porque para qualquer relação prosperar é necessário que haja uma boa comunicação entre as partes. Enquanto entusiasta de práticas de comunicação não-violenta, percebo o quanto o ambiente escolar ainda carece de profissionais e práticas que nos ajudem a nos conectarmos de forma mais genuína, quebrando as barreiras da hierarquia aluno-professor em prol de uma Educação mais humanizada, dialógica, fruto da interação e não da mera exposição de conteúdos.

Falo também sobre professores a quem admiro pela habilidade com que motivam o outro através da forma como se comunicam, demonstrando cuidado pelo aprendizado, olhando no olho, chamando pelo nome, se interessando pelos sonhos dos alunos, os ajudando a sonhar e compartilhando altas expectativas. Eles acreditam que seus alunos são capazes e merecem mais e melhores oportunidades.

Na semana passada, tive a feliz surpresa de receber de um aluno a seguinte mensagem: “Professor, obrigado por perguntar como eu estava me sentindo hoje na aula. Poucos professores fazem isso.” Um gesto despretensioso foi suficiente para mudar o dia de um aluno, agora imaginem o poder disso em um sistema de Educação? E mais, qual seria o efeito de pequenas atitudes assim numa escala global?

Para inspirar não é preciso ser a pessoa mais carismática; tampouco ter a beleza de um ator global ou ser pessoa tecnicamente mais preparada para determinada função. O processo de inspirar outros seres humanos possui bases muito mais simples: carinho, admiração, respeito, interesse e cuidado. Cabe a nós, professores ou profissionais de qualquer área de atuação, querer reconhecer e assumir essa responsabilidade.

· Você sente que em seu ambiente profissional existem pessoas que demonstram esse cuidado com o outro? E você, de que forma procura se comunicar e inspirar outras pessoas? Através do afeto, do esforço, da persistência, do cuidado?

8) Respeita e acolhe a diversidade

Para refletir sobre a escola pública que queremos para as futuras gerações, precisamos pensar sobre o quanto ela se coloca aberta, disponível e preparada para acolher a diferença. Infelizmente ainda me deparo semanalmente com casos de bullying, homofobia, misoginia, transfobia, racismo e preconceito (religioso, social), seja em sala de aula ou em casos encaminhados para mediação na coordenação escolar. Contudo, vejo que bons professores estão conseguindo encontrar formas de fazer diferente.

Vale mencionar que situações assim não ocorrem apenas por falta de informação. Afinal, se voltarmos a 10 anos atrás, quando sequer conversávamos sobre o tema, identificamos avanços importantes que inegavelmente contribuíram para a discussão sobre a temática da diversidade sexual e de gênero, por exemplo, mesmo que ainda tenhamos um longo caminho a percorrer. Nas escolas o assunto é (finalmente) cada vez mais abordado, enfrentando esperada resistência, inclusive de outros professores, e aos poucos vem deixando de ser considerado tabu.

Reconheço e admiro o trabalho de bons professores que buscam desenvolver projetos que acolhem e trazem a temática da diversidade para dentro de sala de aula, passando pela valorização da mulher, participação política, reconhecimento da identidade negra e das peculiaridades da formação da cultural local. Tratam-se de questões fundamentais quando pensamos na escola pública como ponto de partida do convívio em sociedade e da formação integral de uma pessoa.

Bons seres humanos, não apenas professores, fazem da diversidade uma ferramenta para se reconhecerem no mundo. Cabe a nós, professores, publicitários, pedreiros, padeiros, jornalistas e profissionais de todas as áreas de atuação, fazermos do acolhimento ao outro, e não apenas da tolerância, elemento central das nossas relações. Em um mundo que se reconhece cada vez mais polarizado, talvez seja essa a única forma de construirmos mudanças positivas, duradouras, intergeracionais e com impactos profundos para as futuras gerações.

No seu ambiente profissional, de que forma a questão da diversidade é abordada? Há um discurso institucional de tolerância ou de acolhimento? E sente que há espaço real para discussões? Se não, como construí-lo aos poucos?

Pedro Sarvat é professor na rede pública estadual de Campo Grande (Mato Grosso do Sul) pelo Ensina Brasil. Críticas, sugestões, dúvidas e elogios são todos bem-vindos. Ele está disponível através do: psarvat@gmail.com

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A educação é luta e aconchego

Conexão com estudantes: xícara de café no centro da foto e flores e livro no entorno

Contei para o 8° B que estava fazendo estágio em uma outra escola do bairro. Ensino médio. Noturno.

“Escreve uma crônica sobre essa experiência, professora”.

Desde quando começamos a estudar crônicas os alunos pegaram gosto pelo gênero. Dia desses Talita chegou com uma crônica que ela tinha escrito. Escreveu assim do nada, porque quis.

Enfim, aqui está a crônica que Lucas pediu. A crônica sobre essa curta experiência em uma sala de terceiro ano de Ensino Médio.

Fiquei um mês observando as aulas da professora Marisa. Todas as quintas a noite eu batia ponto lá na escola. Me sentia avulsa no início. Não era minha escola, eu não via meus alunos meio pequenos meio grandes (ainda se diz pré-adolescentes?). Os alunos do Ensino Médio já passaram do pré e da adolescência. São jovens. Alguns já adultos. Algumas já mães. Alguns pais – talvez. A mãe é informação explícita no contexto escolar. Já o pai…

Duas mães na mesma sala. Na lousa, aula sobre crase. No chão, panelinhas e chupetas. Assistiam à aula e as filhas.

Eu poderia encher todos os seguintes parágrafos de outras cenas que vi. De acontecimentos que realmente mexeram comigo. Mas até quem nunca pisou em uma sala de aula de uma escola pública – no período noturno, em uma turma de terceiro ano de Ensino Médio – consegue imaginar um esboço ainda que muito estereotipado e pessimista.

Eu prefiro preencher as linhas que seguem com a sensação de aconchego que carrego dentro de mim depois dessas quatro semanas de observação e desses poucos 40 minutos de aula que acabei de ministrar. Aconchego é mesmo a palavra que eu queria. Peço ajuda ao verbete.

Aconchegar (verbo transitivo direto e indireto)

  1. Chegar (umas coisas para junto de outras).
  2. Aproximar muito.
  3. Chegar muito a si.

Me aconcheguei a realidade daqueles alunos. Tão próximos do meu bairro, tão distantes de mim. No dia da minha aula, aconcheguei um texto a eles. “O legado das ocupações nas escolas”. Talvez quisesse deixar um legado ali. Simbólico, singelo.

Alguns chegaram atrasados, mas tiraram o fone de ouvido e se juntaram a roda. Nem todos participaram da conversa sobre o que foi lido, mas todos leram e responderam a provocação que estava na folha sobre a carteira:

O que você já fez para colaborar com um ambiente de aprendizagem e boa convivência na sua escola?

Não fiz nada. Presto atenção na aula. Comprei rifa para ajudar na pintura das salas. Organizei a rifa para ajudar na pintura das salas.

A resposta que eu mais gostei? Acho que foi a de João: Não fiz nada AINDA.

Ainda. Advérbio de tempo capaz de deixar tudo tão mais… aconchegante! Agradeço por ter sido tão bem-vinda pela professora Marisa e por todos os alunos do terceirão. Com aconchego e gratidão respondo agora uma das questões que a professora colocou no quadro no meu primeiro dia de estágio.

1) Argumente promovendo a progressão temática. Utilize um dos elementos coesivos abaixo:

CONTUDO

EMBORA

JÁ QUE

  1. a) A educação brasileira tem muitos desafios a enfrentar CONTUDO somos muitos os que estamos caminhando em busca de possibilidades onde parece que não há mais soluções. Estamos cada dia mais perto de nós, dos outros e do que queremos juntos. Ainda não chegamos lá, mas chegaremos. Como a Emily. A Emily que veio tirar foto comigo depois da aula e pediu meu face. “Vou te marcar no post de quando eu passar na UFMT” Mal sabe ela que já me marcou.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Racismo na escola: professora e jovem escrevem relato juntas

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA

Seis da matina. Ainda não levantei da cama, mas o barulho do alarme e a luz do celular na cara já me lembram que é dia feira. Tenho evitado ler mensagens antes de levantar como uma tentativa de criar um novo ritual matutino mais saudável. Mas nessa manhã uma mensagem pediu pra ser lida:

“Madu, a senhora sabe muitas coisas sobre campanhas contra o preconceito e tals. Hj eu presenciei uma coisa que eu pensei que nunca passaria na minha vida. E eu queria lutar contra o preconceito de alguma forma. Se a senhora souber algum jeito, me fale pfvr.”

Primeiro, uma alegria: as aulas do ano passado de criação de uma campanha contra o preconceito racial surtiram efeito! Quase de imediato minha alegria de professora se vai e a pergunta aparece em caixa alta e negrito na minha cabeça: Como posso ajudar essa aluna a lutar contra o preconceito?

Passei o dia com a perguntada grudada em mim.

Me coloquei no meu lugar, de quem não sofre com o racismo que assola nosso país. Me coloquei no lugar da Rafaela, minha aluna que me acordou com esse pedido tão… tão necessário!

Como? Como lutar contra o preconceito? Como não se sentir impotente diante dessa realidade perversa?

Rafaela me contou melhor o que tinha acontecido e eu entendi porque ela estava tão incomodada.

Então fiz um convite pra ela escrever aqui pra vocês. Um dos jeitos de lutar contra o preconceito é não se calando.

Em tempos de violência e repressão, não se calar é resistir.

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA
(Foto: Pixabay)

Deixo aqui as palavras dela e espero que elas cheguem longe e resistam

Olá, meu nome é Rafaela, tenho 13 anos e vim aqui falar sobre o preconceito racial.

O Brasil é considerado um dos países mais racistas do mundo, mesmo com tantas misturas de raças. Algumas pessoas pensam que o racismo nunca pode acontecer ou que é bem raro.

Infelizmente eu com apenas 13 anos vi o racismo acontecer na minha frente várias vezes. Infelizmente algumas pessoas maltratam outras para se sentir superior ou melhor que alguém.

Você julgar uma pessoa apenas por ela ser negra ou “diferente” é burrice. Nesse mundo não existe idade para sofrer e nem praticar o bullying. Meu melhor amigo foi revistado pela polícia simplesmente por ser negro e pobre. Tenho certeza de que tem muitas pessoas sofrendo por coisas piores.

Todos devemos nos unir e acabar com isso de uma vez. Eu sei que não é fácil mas poderíamos tentar pelo menos.

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Entrelinhas e laços: as protagonistas

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

“Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz os assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modifica-lo.”

Assim que terminei de ler emocionada a crônica de Affonso Romano de Sant’Anna o 8ºC olhou pra mim como se eu fosse a autora daquelas palavras. Depois de um breve silêncio, um suspiro coletivo e uma fala de Caíque:

– Nossa, professora! Que texto profundo.

Foi assim, de primeira viagem, que meus navegantes do 8ºC entraram na maré das crônicas. Aquela aula de introdução ao novo gênero foi mesmo profunda. A sala percebeu que, de fato, as crônicas provocam reflexões e críticas.

Em casa, preparando um novo planejamento, reli a crônica “Porta de colégio” e nas entrelinhas encontrei uma nova passagem: o protagonismo juvenil. Era essa a temática que brilhava dentro da minha cabeça enquanto as abas cresciam na tela do meu computador.

Queria encontrar um texto que mostrasse aos alunos que enredo de crônica é sucessão de acontecimentos no presente. Queria um texto que mostrasse o agora. Uma crônica com personagens adolescentes que não frequentam a escola pensando em se preparar pra vida adulta, porque estão ocupados demais fazendo a vida acontecer no agora. Organizando debates na escola. Mobilizando o bairro. Promovendo eventos culturais.

Busquei em vários sites, contatei alguns colegas da área, mas não encontrei nenhuma crônica que atendesse minhas expectativas.

A segunda aula sobre crônicas no 8ºC não teve o texto que eu queria e não foi tão inspiradora quanto a primeira. Os alunos estavam agitados. Alguns mais que outros. Outros menos que alguns. Eu mesma não me excluo da agitação, pois tinha acabado de sair da minha turma de sétimo ano (professores de sextos e sétimos me entenderão!). Enfim, aquela aula foi bagunçada demais e não atingiu o ápice como a primeira. Saí de lá pensativa. “Preciso trazer sem falta um texto interessante sobre protagonismo juvenil pra essa turma na próxima aula”.

No fim do dia, estava em outra sala, do oitavo E, esperando alguns alunos terminarem a atividade. Olhei pra porta porque percebi um aglomerado anormal. O sinal já tinha tocado, o barulho do corredor já tinha cessado. Porém, lá estavam 5 alunas do 8 C me esperando. Uma delas fez sinal que queria falar comigo. Os dois alunos terminaram o exercício e saíram dando passagem para as meninas que me traziam uma alegria inesperada:

– Acho que você vai gostar da nossa ideia, professora.

Me disse Laura sorrindo até a ponta do rabo de cavalo que saudava o imponente coque de Jamile. Ao lado das duas, Michele e seu crespo proferiram:

– Sabe o que é professora, hoje depois da sua aula eu fiquei pensando muito numa coisa. Alguns alunos atrapalham as aulas, estão com muita falta de respeito e o bullying está passando de todos os limites. A Mari fez uma fala hoje lá pra turma, bem depois que a senhora saiu e eu fiquei pensando que a gente poderia passar em todas as salas conversando sobre isso. Fazendo tipo uma palestra.

– E falando sobre padrão de beleza, também! A gente quer falar sobre isso com os alunos.

Complementou Emily Cachos enquanto eu descia da minha elevação aos céus. A história de protagonismo juvenil que eu tanto busquei estava sendo encenada na minha frente!

Começamos a conversar sobre a proposta e as cinco meninas foram se empolgando a medida que minha animação crescia. Ou foi ao contrário? Não sei se delas pra mim ou de mim pra elas, mas sei que a energia fluiu tanto que a professora de matemática também entrou na sala e o entusiasmo nos abraçou. Pela primeira vez na minha escola senti o significado do substantivo sororidade.

Quando já estávamos saindo, Mari fisgou meu semblante e finalizou meu dia letivo fazendo um pedido:

– Professora Madu, escreve uma crônica do dia de hoje!

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

Escrevo essa pra Mari, Laura, Michele, Emily e Jamile. Escrevo pra todas as gurias e guris que tiveram iniciativa, que buscaram fazer qualquer coisa de diferente na escola. Escrevo para os adolescentes protagonistas, inquietos e curiosos. Para os jovens inconformados. Para os adultos que protagonizam a juventude desde o dia que conheceram Holden Caufield. Escrevo para os professores que querem levar um texto sobre protagonismo juvenil pra sala de aula mostrando pros alunos que melhor que ficção, só mesmo a realidade.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Camila Coragem: o que ensinar exige

Ensinar exige rigorosidade metódica.

Esse é um dos tópicos do sumário do clássico freiriano “Pedagogia da autonomia”.

Ensinar exige pesquisa.

Ensinar exige curiosidade.

Ensinar exige tantas coisas que eu dei conta só de ler o sumário do livro e fiquei dias processando todos os requisitos que Freire me contou naquela noite quente e chuvosa da primeira semana de novembro.

A reflexão me trouxe a lembrança de um episódio de maio que reverberou novas atitudes e práticas mais amadurecidas.

Eu levei minhas quatro turmas de sétimo ano na exposição itinerante da Bienal de São Paulo. Foi um desafio enorme trabalhar em sala de aula conceitos de arte contemporânea e pós modernidade. O tema da Bienal era incerteza viva.

Por ser tão incerta e tão viva eu falhei. Falhei no processo, falhei na visita e falhei na avaliação.

Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática

Cinco meses depois decido sair mais uma vez dos arredores da escola e mostrar que a construção do saber se dá em outros espaços, com outros sujeitos e sobre outros temas, diferentes dos do livro didático.

Dessa vez fiz diferente.

Fiz pequeno e intuitivo. Fiz grande e organizado.

Ensinar exige tomada consciente de decisões.

Estou desenvolvendo um projeto de produção audiovisual no contraturno. Os alunos escreveram o roteiro de um curta e agora estamos na fase de gravação. Camila é a aluna que mais se envolveu com esse projeto. Sempre tem aquela pessoa que se apaixona, agarra a ideia e se desenvolve de uma forma muito autêntica e genuína. Camila já gostava muito de fotografia. Ela começou a me seguir no Instagram e viu que eu também sou entusiasta desse universo. Ela se aproximou de mim, me pediu dicas e me enviou fotos suas. Eu vi ali uma semente brotar me pedindo mais água pra crescer.

Certo dia eu estava rolando o feed infinito no Facebook a procura de nada e encontrei uma oportunidade que caiu feito chuva no solo de Camila: uma oficina de fotografia criativa para iniciantes.

Consegui pagar meia inscrição pra ela e fomos juntas.

No caminho ela observava a transição pela janela do Uber. Da periferia para o centro.

– Você costuma vir pra esses lados da cidade, Camila?

– Não. Eu nunca saio do bairro. De vez em quando vou visitar uns parentes que tenho lá no Pedregal, sabe?

Pedregal é um extremo oposto ao da nossa escola.

– Minha mãe não me deixa sair sozinha. Nunca peguei ônibus só. Ela me deixou ir nesse curso porque a senhora conversou com ela e porque você está comigo… Ela fala que é perigoso uma menina sair por aí sozinha. E é mesmo né…

Fiquei um tempo em silêncio e na minha mente passou um filme de todas as vezes que transitei meu corpo sozinho pelo mundo. Sou uma mulher consciente dos desafios que enfrento na sociedade. Sou branca e venho de uma família de classe média do interior paulista. Tenho consciência de meus privilégios também. Sou adulta, mas já fui adolescente. De todas minhas identidades caleidoscópicas, naquele instante eu assumi a de educadora. Educadora responsável por levar “sozinha” uma aluna em um ambiente completamente diferente dos que ela frequenta para fazer um curso sobre um assunto que está fora dos parâmetros curriculares.

Respirei, inspirei e parafraseei Guimarães Rosa:

– É perigoso, Camila. Mas a vida exige coragem! Nós, mulheres, precisamos ser cuidadosas, sim.  Mas precisamos ser corajosas.

Chegamos no local do curso. Metade cheio. É o nome do café-bar, loja-galeria, ateliê colaborativo que abriu recentemente suas portas no centro histórico da capital mato-grossense. Eu amo esse lugar. Camila também amou. Ela observava tudo com um olhar de viajante que me fez recordar minha primeira viagem.

O curso estava dividido em duas partes: teórica e prática. No início ela estava tímida, mas no final saiu pelo café com seu celular e depois com a minha câmera registrando cada instante, cada cenário, cada universo que só o olhar dela é capaz de enxergar.

A foto de Camila

Depois da sessão fotográfica voltamos pra sala e exibimos nossas produções. Rodolfo, o fotógrafo que ministrou a oficina, ia passando as fotos na tela e fazendo comentários. De repente aparece a foto de Camila.

Foto de mulher negra

Eu finalizo meu relato aqui. Com essa foto que me preencheu a alma e me deixou afônica.

E com mais um tópico do sumário-poesia do nosso patrono da educação:

Ensinar exige convicção de que a mudança é possível.

Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços.

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Sobre ser humana, sala de aula, sociedade. E sobre sonhos.

– Estou pensando como posso dizer isso pra senhora sem te ofender.

Foi assim que Amanda falou. E eu amei. Respondi empolgada com um “óóótimo!” E fiz um pequeno discurso sobre críticas construtivas. Enfatizo o pequeno discurso por causa de um dos itens do acordo co-construído com o 7° F. A professora não fará discursos muito longos ou desnecessários. Foi nesse mesmo contexto de criação dos novos acordos de convivência que Amanda soltou essa fala. Olhou indecisa pro ventilador que pouco cumpre sua função no mês de agosto em Cuiabá e voltou com uma nova oralidade digna de ser compartilhada:

– É que professora, às vezes a gente faz bagunça. Eu assumo. Mas aí a senhora pede pra gente parar várias vezes e não funciona. Aí a senhora começa a falar que preparou a aula pra gente e que ninguém se importa. Que a senhora tenta dar uma aula diferente mas que a gente não ajuda. É isso que eu queria falar pra senhora, professora.

– Obrigada pela sua fala, Amanda. Ela não foi nem um pouco ofensiva.

– Era isso que eu queria falar, isso é uma coisa que a senhora faz e a gente não gosta. Tem gente que chama isso de drama, né?

SIM! ELA ME CHAMOU DE DRAMÁTICA! Aff, eu amo a Amanda. Amo essa experiência de virar pra sala e falar:

– Então tá, agora é a vez de vocês falarem o que vocês não gostam na professora.

Eu entrei nas minhas quatro salas depois das férias com uma única certeza: a professora do fim do semestre passado ficou no semestre passado.

Fim de junho eu estava… Eu não estava. Eu não era. Eu não conjugava nenhum verbo de estado nem de ação. Só seguia no automático com uma pequena esperança de que os fenômenos da natureza trouxessem água milagrosa pra molhar meu agreste.

Entrega de notas pro conselho tenho que corrigir as provas nossa teve aluno que faltou no dia da prova preciso lavar roupa não tenho uma blusa descente pra trabalhar defina blusa descente seria aquela que desce? Tomara que caia? não raspei o suvaco axila maria eduarda meça suas palavras isso é jeito que moça fala por que é que eu tenho que tirar esses pelos que nasceram espontaneamente debaixo do meu braço mesmo? 7° G amanhã primeira aula preciso lembrar de devolver a caligrafia do Bruno e reservar o projetor

Resnãopire.

Não, isso não foi uma tentativa de escrita compulsiva beatnik. Isso foi uma tentativa de reprodução do meu pensamento acelerado. Um dos sintomas da famosa ansiedade-mal-do- século. Pensamento desenfreado que me tirou o sono, me tirou os sonhos, tomou conta de mim a ponto de me fazer esquecer quem eu realmente era.

Graças a ainda vigente legislação trabalhista minhas férias chegaram. A volta pra terra natal e pras estradas do meu interior foi mágica. Um reencontro comigo. Com a minha criança interior. Com a minha adolescente em crise interna, externa e eterna.

Voltei do recesso escolar como quem volta de um banho de cachoeira depois de horas de trilha no cerrado.

Renovada eu cheguei disposta a fazer diferente. Cheguei na piração de que a práxis docente é essa loucura mesmo. A ação-reflexão-ação me (des)orienta dentro e fora da sala de aula. Entre caos e organização eu vou continuar navegando. Ora enfrentando as altas marés ora em porto seguro. Porém sempre segura de que a adultice do cotidiano não pode romper minhas artimanhas de viver o hoje como quem vive o sempre.

Por isso minha primeira aula foi sobre saber ouvir o outro e construir junto com o outro um novo ambiente propício ao aprendizado. Por isso tive que pedir pros meus meninos e meninas apontarem meus defeitos antes de apontar os deles. Tive que falar sobre meus erros abertamente e comentar sobre minhas frustrações. Depois falamos sobre nosso relacionamento, sobre respeito, empatia, responsabilidades. Ainda deixei de tarefa: pesquise o que significa alteridade.

– Professora esse acordo que estamos fazendo é como se fossem as leis?

– Sim, Miguel! E digo mais: nós não estamos “brincando de fazer as leis da sociedade” aqui na sala de aula. Nós somos a sociedade e estamos construindo ela da forma que queremos hoje.

Senti e vi olhinhos cintilando no mesmo reflexo que o brilho dos meus.

É tão bom voltar a ser quem a gente não sabe que é.

Finalizo esse híbrido de gêneros textuais fazendo um apelo (porque como bem diagnosticou Amanda: sim, eu sou dramática):

Não perguntem as crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescerem.

Perguntem o que eles não querem deixar de ser.

Eu não quero deixar de ser sonhadora.

E você?

 

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Três Marias

Eu estava na biblioteca junto com Maria. Um dia antes da avaliação final, ela apareceu pela primeira vez na aula do contraturno. Fiquei o bimestre todo pensando em diferentes estratégias para levar Maria e outros alunos nas aulas de “reforço”. Tive poucos resultados positivos, confesso. Porém, nessa manhã em que Maria me apareceu eu fiquei feliz.

Suficientemente feliz.

Gosto da ideia do suficiente. Que é bastante, que satisfaz. As vezes a auto cobrança bate na porta e a gente quer sempre mais. Querer o suficiente é meu caminho nesse final de ano letivo.

Pois Maria me mostrou sua suficiência toda. No início da aula ela estava com sono e desanimada. Pedi pra que ela e Rogério, o outro aluno que compareceu naquela manhã, revisassem o conteúdo da avaliação e me falassem qual era a maior dificuldade deles.

– Produção de texto, prof.

Disse Rogério sem nem abrir o caderno.

– Escrever texto é difícil demais, professora.

Completou Maria, deitando e se espreguiçando sobre os livros que estavam na mesa.

– Então tá, vamos ler uma história, buscar um pouco de inspiração e treinar nossa escrita criativa!

Eles não estavam acompanhando a minha empolgação, mas eu não me abalei. Se um aluno desanimado te contamina fica difícil reverter o processo e contagiá-lo com a curiosidade pelo aprendizado.

Entreguei os livros e pedi pra que eles acompanhassem minha narração. Li com entonação um conto de Sylvia Orthof: Vovô General e Vovó Vedete.

Maria gargalhava no meio da leitura. Eu comecei a rir enquanto lia também. Rogério esboçou um sorriso tímido. O mundo literário é, de fato, fascinante!

“Esta é a simples e bela história de amor de duas pessoas bem diferentes. Afinal, o mundo tem lugar para muitas gentes diversas.”

Conversamos sobre o conto, sobre a estrutura do texto, relembramos os elementos da narrativa, o passo a passo dos três parágrafos e combinamos o tema da produção: o encontro de duas pessoas muito diferentes que terminou em romance.

Rogério escreveu rápido. Sentei ao seu lado e corrigimos algumas partes do texto. Lembro-me que no início do ano ele não sabia nem o que era parágrafo. Acompanhar o avanço dos alunos é de uma gratidão incomparável. Enquanto isso, Maria escrevia algumas linhas e apagava. Olhava pra gente e reclamava:

– Vote, professora! É muito difícil!

Rogério se foi e ficamos nós, as duas Marias. Na verdade, éramos as três. Alguém havia deixado um livro de Maria Clara Machado naquela mesa em que estávamos estudando. A menina e o vento. Peguei o livro e sentei ao lado de Maria.

– Olha, eu não vou mentir pra você. Escrever é um processo difícil, mas é muito gostoso. A gente acabou de ler uma história muito legal e eu tenho certeza que aí dentro da sua cabeça também tem uma história legal pedindo pra sair. Coloca ela no papel! Sem medo de errar!

Ela me respondeu com um olhar típico de Maria. Aquele olhar de quem se convenceu de algo que no fundo já sabia. Pegou o lápis e mergulhou. Eu pulei logo atrás.

Me perdi e me encontrei nas aventuras de Maria, uma menina corajosa que desafiou o vento e viajou com ele pelo Brasil afora. As tias e a mãe chamaram a polícia, pois estavam desesperadas com o sumiço de Maria. De repente…

– Professora, eu preciso fechar a biblioteca.

A bibliotecária me trouxe de volta a Cuiabá. Olhei pro relógio do celular assustada. Ao meu lado estava Maria. Ela nem se mexia. Estava finalizando um diálogo no verso da folha. Tive que despertá-la:

– Maria, a gente precisa ir embora.

Ela concordou, ainda em transe literária. Disse que terminaria o texto em casa e me entregaria depois.

Saímos e fomos caminhando lentamente pelo corredor. Disfrutando e compartilhando em silêncio aquele estado de poesia.

Deixei a outra Maria lá em cima da mesa, na esperança de que uma Maria diferente viva esse encontro que termina em…

Nunca termina.

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O dia em que Gabriela deixou Rosalina

Essa coisa de identidade sempre me intrigou muito. Por acreditar que os nomes e apelidos carregam facetas da nossa múltipla identidade, pedi, logo no primeiro dia de aula, para que cada aluno me escrevesse como queria ser chamado.

– “Como assim, professora, eu não entendi. ”

– “Seu nome é João Lucas, certo? Como você quer que eu te chame? De João? Luquinhas? Como você gosta de ser chamado?”.

Eles me olhavam sorrindo. Muitos alunos têm nome composto. Eu, que sou a “Maria mais a Eduarda”, já fui Duda na infância, Maria nas andanças e Madu na sala de aula, sei bem como é isso de ter muitos nomes e de ter suas próprias preferências.

Sentada na minha cama pouco dormida, segurando as folhas que voavam por conta do ventilador ligado no máximo, me diverti e me emocionei lendo as respostas. Eu amo ler meus alunos (apesar do trabalho que dá ler o que 120 pessoinhas escrevem).  Além do nome pelo qual queria ser chamado eu pedi também pra que eles me contassem seus maiores sonhos e me falassem de pessoas inspiradoras.

– “Minha mãe que trabalha e cuida de casa”

– “Meu sonho é conhecer São Paulo”

– “Meu sonho é ter a casa própria”

– “Meu sonho é ser rica”

No meio de tantas reflexões sobre a vida dessas crianças, planejamentos de aula: 40 horas semanais de trabalho que se estendem algumas noites a fio acabei por não priorizar a organização de uma planilha com os nomes que os meus alunos escreveram. A ideia era fazer a lista de chamada pelos nomes que cada um gostaria de ser chamado. Ser professora é aprender todo dia a lidar com as frustrações e a deixar de lado a auto cobrança.

Aquela menina quietinha, fora dos padrões estampados nas revistas de moda e beleza, isolada sempre no canto direito da sala, na sombra que o sol da tarde faz na janela, se chama Rosalina Gabriela. Duas semanas de aula rolando e eu chamando ela de Rosalina. Eu chamava ela sempre, porque sabia que ela sabia as respostas e porque ela tinha que saber que eu sabia. Três semanas passaram e eu fui guardar uma redação dela no portfólio quando me deparo com o papel que ela me entregou com as respostas do primeiro dia de aula. “Quero ser chamada de Gabriela”. Fiquei relembrando todas as vezes que me referi a Gabriela como Rosalina. Errei.

Segunda-feira brava, sol cuiabano a pino, últimas aulas do dia. Entrei no 7°E com frio na barriga. Uma vez uma professora me disse que quando a gente tem frio na barriga quer dizer que a gente se preocupa com o nosso público, que a gente tem respeito por ele. Gosto dessa definição.

Pedi pros alunos formarem grupos de três pessoas. “Você não vai escolher os grupos hoje, professora?” “Hoje não, pode juntar com quem vocês quiserem”. Quando falei isso já engoli uma preocupação: os alunos mais recatados. A Gabriela. Virei pra classe e disse: “Antes de juntar as carteiras eu vou entregar os portfólios com as redações corrigidas, vocês vão precisar delas pra fazer a atividade de hoje”.

Fui entregando, chamando nome por nome. Aline… João… Mari… Gabriela! Ela me brilhou. Sorri em resposta e continuei chamando outros alunos no mesmo ritmo. Lembro de ouvir alguém interrogando: “Gabriela?” “Sim, é meu segundo nome”. É teu primeiro, mulher! Pensei sozinha.

Gabriela fez grupo com Rafael e Caíque. Eu nunca tinha visto Gabriela conversar com nenhum dos dois. Caíque, inclusive, é da turma que olha pra janela e não da turma que se esconde na sombra dela. Conversou demais com Caíque a Gabriela. Reparei que uma hora ela estava explicando alguma coisa do exercício pra ele. Depois vi que ela riu de um jeito que a Rosalina não ria. Quase tive que pedir pra Gabriela parar de falar nesse dia. Mas não pedi.

Deixa ela, a Gabriela, cravo e canela. Deixa de ser Rosalina, vencer Gabriela.

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Entrelinhas e laços: Sobre ser humana, sala de aula, sociedade. E sobre sonhos.

– Estou pensando como posso dizer isso pra senhora sem te ofender.

Foi assim que Amanda falou. E eu amei. Respondi empolgada com um “óóótimo!” E fiz um pequeno discurso sobre críticas construtivas. Enfatizo o pequeno discurso por causa de um dos itens do acordo co-construído com o 7° F. A professora não fará discursos muito longos ou desnecessários. Foi nesse mesmo contexto de criação dos novos acordos de convivência que Amanda soltou essa fala. Olhou indecisa pro ventilador que pouco cumpre sua função no mês de agosto em Cuiabá e voltou com uma nova oralidade digna de ser compartilhada:

– É que professora, às vezes a gente faz bagunça. Eu assumo. Mas aí a senhora pede pra gente parar várias vezes e não funciona. Aí a senhora começa a falar que preparou a aula pra gente e que ninguém se importa. Que a senhora tenta dar uma aula diferente mas que a gente não ajuda. É isso que eu queria falar pra senhora, professora.

– Obrigada pela sua fala, Amanda. Ela não foi nem um pouco ofensiva.

– Era isso que eu queria falar, isso é uma coisa que a senhora faz e a gente não gosta. Tem gente que chama isso de drama, né?

SIM! ELA ME CHAMOU DE DRAMÁTICA! Aff, eu amo a Amanda. Amo essa experiência de virar pra sala e falar:

– Então tá, agora é a vez de vocês falarem o que vocês não gostam na professora.

Eu entrei nas minhas quatro salas depois das férias com uma única certeza: a professora do fim do semestre passado ficou no semestre passado.

Fim de junho eu estava… Eu não estava. Eu não era. Eu não conjugava nenhum verbo de estado nem de ação. Só seguia no automático com uma pequena esperança de que os fenômenos da natureza trouxessem água milagrosa pra molhar meu agreste.

Entrega de notas pro conselho tenho que corrigir as provas nossa teve aluno que faltou no dia da prova preciso lavar roupa não tenho uma blusa descente pra trabalhar defina blusa descente seria aquela que desce? Tomara que caia? não raspei o suvaco axila maria eduarda meça suas palavras isso é jeito que moça fala por que é que eu tenho que tirar esses pelos que nasceram espontaneamente debaixo do meu braço mesmo? 7° G amanhã primeira aula preciso lembrar de devolver a caligrafia do Bruno e reservar o projetor

Resnãopire.

Não, isso não foi uma tentativa de escrita compulsiva beatnik. Isso foi uma tentativa de reprodução do meu pensamento acelerado. Um dos sintomas da famosa ansiedade-mal-do- século. Pensamento desenfreado que me tirou o sono, me tirou os sonhos, tomou conta de mim a ponto de me fazer esquecer quem eu realmente era.

Graças a ainda vigente legislação trabalhista minhas férias chegaram. A volta pra terra natal e pras estradas do meu interior foi mágica. Um reencontro comigo. Com a minha criança interior. Com a minha adolescente em crise interna, externa e eterna.

Voltei do recesso escolar como quem volta de um banho de cachoeira depois de horas de trilha no cerrado.

Renovada eu cheguei disposta a fazer diferente. Cheguei na piração de que a práxis docente é essa loucura mesmo. A ação-reflexão-ação me (des)orienta dentro e fora da sala de aula. Entre caos e organização eu vou continuar navegando. Ora enfrentando as altas marés ora em porto seguro. Porém sempre segura de que a adultice do cotidiano não pode romper minhas artimanhas de viver o hoje como quem vive o sempre.

Por isso minha primeira aula foi sobre saber ouvir o outro e construir junto com o outro um novo ambiente propício ao aprendizado. Por isso tive que pedir pros meus meninos e meninas apontarem meus defeitos antes de apontar os deles. Tive que falar sobre meus erros abertamente e comentar sobre minhas frustrações. Depois falamos sobre nosso relacionamento, sobre respeito, empatia, responsabilidades. Ainda deixei de tarefa: pesquise o que significa alteridade.

– Professora esse acordo que estamos fazendo é como se fossem as leis?

– Sim, Miguel! E digo mais: nós não estamos “brincando de fazer as leis da sociedade” aqui na sala de aula. Nós somos a sociedade e estamos construindo ela da forma que queremos hoje.

Senti e vi olhinhos cintilando no mesmo reflexo que o brilho dos meus.

É tão bom voltar a ser quem a gente não sabe que é.

Finalizo esse híbrido de gêneros textuais fazendo um apelo (porque como bem diagnosticou Amanda: sim, eu sou dramática):

Não perguntem as crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescerem.

Perguntem o que eles não querem deixar de ser.

Eu não quero deixar de ser sonhadora.

E você?

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Entrelinhas e laços: respostas que completam

Júlia tem dificuldades na aula de português. Defasagem de leitura, escrita e interpretação. Júlia não é a única. Em uma sala com 32 alunos mais da metade se encontram na mesma situação. Corrijo. Não é a mesma situação. Cada aluno é um planeta distinto girando no seu próprio tempo de rotação e translação.

Tive essa ideia de relacionar o sistema solar com a sala de aula junto com meu amigo Danyllo, que é professor de matemática. O ápice da analogia foi a compreensão de que eu, professora, não sou o sol. Eu sou um objeto voador não identificado que perpassa por todos os planetinhas na tentativa de compreender o funcionamento mágico e único de cada biosfera. Inventamos assim uma nova galáxia: a sala de aula.

A galáxia do 7° G

Na galáxia do 7° G, Júlia é um corpo celeste que, assim como os outros trinta e um, possui suas próprias limitações e sonhos. Posso vestir a roupa de pesquisadora, exploradora ou astronauta, mas nunca vou compreender as complexas características da vida no planeta Júlia. Contudo, eu tento com tudo que posso. Me aproximo com cuidado, faço perguntas, escuto, respeito, abraço e beijo. Com amor se ganha amor. Descobri muitas coisas da vida de Júlia. Muitas passagens tristes que não me sinto à vontade de revelar aqui. Ela me contou em segredo. O que consigo relatar para dar sentido a essa história sem romper nosso voto de confiança é que Júlia é uma menina de 12 anos. Negra. Moradora de um bairro periférico. Dona de uma trajetória de vida que carrega memórias desgostosas e impactantes no seu processo de aprendizagem. Pelo menos até agora.

Semana passada decidi adiantar a temática do livro e mudar um pouco a perspectiva trabalhada. Assim como todos os seres vivos, os professores têm que se adaptar constantemente as condições do ambiente. O capítulo trabalhado até então aborda como tema central a figura do herói. Presuma: nada de heroína até então. Quando falei que naquela aula iríamos falar de heroína um aluno foi logo dizendo:

“Eu sei o que é heroína professora, é uma droga.”

Me assustei, porque pra mim o primeiro significado de heroína é o da mulher heroica enquanto que pra ele é o de uma substância entorpecente ilícita. Preciso escrever algum texto sobre referências.

“Sim, Henrique. É uma droga. Mas não é dessa droga que vamos falar hoje. A gente não estava estudando vários textos sobre heróis? Então, hoje vamos falar das heroínas, das mulheres. Vamos falar especificamente de uma heroína que, diferente dos outros heróis que vimos até então, existiu na vida real.”

Dificuldade de aprendizagem e Carolina de Jesus

Aula passada os alunos tinham feito um exercício que caracterizava os heróis como “pessoas que gostam de fazer coisas além de suas forças”. Adiantei o capítulo seguinte, que traz a temática dos heróis da realidade, e passei um vídeo sobre a vida de Carolina de Jesus. Para quem nunca ouviu falar dessa mulher maravilha, deixo aqui o vídeo da aula, gravado e editado pelo PHCortês, youtuber de 15 anos dono do canal “Meus heróis negros brasileiros”:

Depois do vídeo vieram as perguntas de interpretação. Eu sabia que muitos alunos me chamariam na carteira. “Professora, não entendi. Como assim?” Independente das órbitas planetárias, a dificuldade de compreensão e interpretação é geral. Na tentativa de encontrar vida em todos os planetas, estruturei perguntas de níveis mais fáceis e outras mais complexas. Sempre exijo dos alunos a resposta completa dos exercícios, para ajudá-los a compreender o enunciado e a responder da melhor forma possível, pensando sempre que o leitor da resposta pode não ter acesso a pergunta e por isso precisa ser muito bem informado apenas pela resposta.

A primeira pergunta do quadro era: “Quem foi Carolina de Jesus?”

Eu esperava que meus alunos escrevessem uma resposta completa com o máximo de informações possíveis extraídas do vídeo, com adjetivos que caracterizassem Carolina e descrevessem ela como uma mulher que superou todas as barreiras impostas pela sociedade. Eu sabia que cada um escreveria isso com as suas próprias palavras. Cada planeta tem seu idioma e eu acho isso fantástico! Mas as vezes tenho que corrigir ou exigir mais. Faz parte do meu trabalho expandir os horizontes de cada planetinha.

Júlia, aquela Júlia do começo do texto, me chamou com muita empolgação.

“Professora, vem aqui ver a minha resposta!”

Júlia tinha escrito apenas três palavras.

 “Uma mulher negra.”

Eu suspirei ao ler a força daquelas três palavras.

“Ótimo, Júlia! Mas vamos começar a resposta daquele jeito bem completo que a gente já aprendeu? ‘Carolina de Jesus foi…’ ”

“Ah! Tá bom! A senhora quer a resposta completa. Fica aqui. Vou fazer e você vê se tá certo. Não sai daqui.”

Eu atendi o pedido e fiquei ali observando o movimento das mãos de Júlia. Ela pegou a borracha e apagou a resposta. Pegou o lápis e começou a escrever calmamente. Disponho a resposta de Júlia para você, leitora ou leitor, de forma pausada para que você se aproxime mais da minha experiência. Acompanhe:

“Carolina de Jesus

foi uma

mulher negra

Júlia olhou pra mim com olhos de lua cheia e sorriso de lua crescente. Eu disse sorrindo:

“Isso. Continue. O que mais?”

Ela voltou a olhar para o caderno e completou brilhantemente sua resposta:

e inteligente.”

“Carolina de Jesus foi uma mulher negra e inteligente.”

Fiquei chocada com a inteireza da resposta escrita por Júlia, sem nenhum erro ortográfico. Nenhuma resposta, por mais completa que fosse, substituiria aquela resposta escrita por Júlia e aquele sorriso que falou rompendo meu silêncio perplexo:

“Está completa, professora?”

“Está completa Júlia”

Escrevo agora essa minha resposta sem vírgula, porque Júlia não é vocativo que se separa por vírgula.

Júlia é sujeito dessa oração.

Sujeita completa, ainda que por um instante prestes a descompletar.

Sujeita a tantas situações da vida cotidiana que diminuirão sua plenitude mas sujeita também a nova possibilidade de não se sujeitar.

Júlia não sujeita, como Carolina.

(Peço uma pausa para completar e esvaziar os pulmões)

(Para transitar entre esse completar e descompletar)

E foi assim que o eclipse de Carolina de Jesus e Júlia me completou.

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Entrelinhas e laços: o dia em que Gabriela deixou Rosalina

Essa coisa de identidade sempre me intrigou muito. Por acreditar que os nomes e apelidos carregam facetas da nossa múltipla identidade, pedi, logo no primeiro dia de aula, para que cada aluno me escrevesse como queria ser chamado.

– “Como assim, professora, eu não entendi. ”

– “Seu nome é João Lucas, certo? Como você quer que eu te chame? De João? Luquinhas? Como você gosta de ser chamado?”.

Eles me olhavam sorrindo. Muitos alunos têm nome composto. Eu, que sou a “Maria mais a Eduarda”, já fui Duda na infância, Maria nas andanças e Madu na sala de aula, sei bem como é isso de ter muitos nomes e de ter suas próprias preferências.

Sentada na minha cama pouco dormida, segurando as folhas que voavam por conta do ventilador ligado no máximo, me diverti e me emocionei lendo as respostas. Eu amo ler meus alunos (apesar do trabalho que dá ler o que 120 pessoinhas escrevem).  Além do nome pelo qual queria ser chamado eu pedi também pra que eles me contassem seus maiores sonhos e me falassem de pessoas inspiradoras.

– “Minha mãe que trabalha e cuida de casa”

– “Meu sonho é conhecer São Paulo”

– “Meu sonho é ter a casa própria”

– “Meu sonho é ser rica”

No meio de tantas reflexões sobre a vida dessas crianças, planejamentos de aula: 40 horas semanais de trabalho que se estendem algumas noites a fio acabei por não priorizar a organização de uma planilha com os nomes que os meus alunos escreveram. A ideia era fazer a lista de chamada pelos nomes que cada um gostaria de ser chamado. Ser professora é aprender todo dia a lidar com as frustrações e a deixar de lado a auto cobrança.

madu-gomesAquela menina quietinha, fora dos padrões estampados nas revistas de moda e beleza, isolada sempre no canto direito da sala, na sombra que o sol da tarde faz na janela, se chama Rosalina Gabriela. Duas semanas de aula rolando e eu chamando ela de Rosalina. Eu chamava ela sempre, porque sabia que ela sabia as respostas e porque ela tinha que saber que eu sabia. Três semanas passaram e eu fui guardar uma redação dela no portfólio quando me deparo com o papel que ela me entregou com as respostas do primeiro dia de aula. “Quero ser chamada de Gabriela”. Fiquei relembrando todas as vezes que me referi a Gabriela como Rosalina. Errei.

Segunda-feira brava, sol cuiabano a pino, últimas aulas do dia. Entrei no 7°E com frio na barriga. Uma vez uma professora me disse que quando a gente tem frio na barriga quer dizer que a gente se preocupa com o nosso público, que a gente tem respeito por ele. Gosto dessa definição.

Pedi pros alunos formarem grupos de três pessoas. “Você não vai escolher os grupos hoje, professora?” “Hoje não, pode juntar com quem vocês quiserem”. Quando falei isso já engoli uma preocupação: os alunos mais recatados. A Gabriela. Virei pra classe e disse: “Antes de juntar as carteiras eu vou entregar os portfólios com as redações corrigidas, vocês vão precisar delas pra fazer a atividade de hoje”.

Fui entregando, chamando nome por nome. Aline … João … Mari … Gabriela! Ela me brilhou. Sorri em resposta e continuei chamando outros alunos no mesmo ritmo. Lembro de ouvir alguém interrogando: “Gabriela?” “Sim, é meu segundo nome”. É teu primeiro, mulher! Pensei sozinha.

Gabriela fez grupo com Rafael e Caíque. Eu nunca tinha visto Gabriela conversar com nenhum dos dois. Caíque, inclusive, é da turma que olha pra janela e não da turma que se esconde na sombra dela. Conversou demais com Caíque a Gabriela. Reparei que uma hora ela estava explicando alguma coisa do exercício pra ele. Depois vi que ela riu de um jeito que a Rosalina não ria. Quase tive que pedir pra Gabriela parar de falar nesse dia. Mas não pedi.

Deixa ela, a Gabriela, cravo e canela. Deixa de ser Rosalina, vencer Gabriela.