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TCC revela as muitas vozes do ensino médio

Vozes do Ensino Médio

Imagem de divulgação do estudo Vozes do Ensino Médio

Guilherme Guerra e Paula Calçade precisavam escolher um tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso na Faculdade Cásper Líbero. Quando escolheram estudar o ensino médio na rede estadual de SP, não faziam ideia da dimensão que o projeto teria. Depois de um ano e meio de trabalho, mais de cem entrevistas e visitas a sete escolas (uma em Pindamongaba, as demais na capital), os dois produziram um retrato com mais nuances do que o senso comum faz supor.

Intitulado “Vozes do Ensino Médio”, esse retrato combina mazelas já conhecidas como infraestrutura deficiente e professores desmotivados com a carreira. Ele fala também sobre alunos desinteressados dos estudos e adolescentes que deixaram de frequentar a escola – e não lamentam essa opção. Mas também revelou iniciativas pedagógicas interessantes e muita diversidade social e cultural. E também jovens engajados na discussão dos temas do seu cotidiano, mais do que seus colegas de escolas particulares.

“Tem um lado bem mais vanguardista nos alunos da rede pública. Eles cobram muito a oportunidade de ter voz ativa dentro da escola”, diz Paula. Ela cursou o tradicional Colégio Batista Brasileiro, em São Paulo, privado. Assim como o Coração de Maria, em Santos, onde Guilherme concluiu o ensino médio. “Nas particulares, os alunos tendem a achar que pagar a mensalidade resolve todos os problemas”, completa Guilherme.

Paula se surpreendeu com casos com o de uma aluna de 15 anos da Alexandre von Humboldt, unidade de tempo integral na Lapa, zona oeste. Ela tinha uma reflexão madura e combativa sobre questões como o assédio sofrido dos meninos dentro da escola. Na Humboldt, aliás, os próprios alunos dedicam a semana de recepção aos calouros a discussões sobre o combate ao preconceito de raça e de gênero.

O ambiente também é mais liberal que o de escolas particulares. “Nessa escola da Lapa, vi um casal de meninas se beijando no pátio e normal, ninguém ficava reparando”, conta Guilherme.

O início da investigação

Paula e Guilherme estavam no 3º ano da Cásper, em agosto de 2016, quando decidiram o tema do TCC. O governo federal só divulgaria a proposta de reforma do ensino médio no mês seguinte. No entanto, a etapa já estava em evidência desde o ano anterior, graças à onda de ocupações de escolas por alunos em protesto contra o fechamento de unidades anunciado pelo governo estadual.

O trabalho de campo começou em março de 2017. Os universitários puderam dedicar à investigação muito mais tempo do que jornalistas têm para desenvolver pautas. Mas enfrentaram basicamente os mesmos entraves com que profissionais mais experientes se deparam na cobertura. Eles encontraram dados discrepantes, dificuldade de acesso a informações públicas e a escolas, professores e diretores resistentes a entrevistas e até mesmo uma ameaça de processo judicial da direção da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo).

Na questão do acesso às escolas, Paula e Guilherme optaram de início por visitar unidades de tempo integral. Normalmente, essas escolas têm desempenho melhor que a média da rede. A Secretaria de Educação foi bastante solícita em autorizar as visitas a colégios como o Humboldt e o Oswaldo Aranha, no Brooklin, zona sul.

Nas entrevistas iniciais nessas escolas, professores sugeriram aos universitários que procurassem unidades de periferia, mais próximas da realidade da rede. Segundo Paula e Guilherme, a partir daí a resposta da Assessoria de Imprensa da secretaria aos seus pedidos perdeu agilidade.

“No início, a assessoria queria sugerir escola, avisava a direção e éramos bem recebidos. Mas sabíamos que isso era porque a secretaria queria divulgar escolas modelo”, conta Paula. “Quando diversificamos o perfil das escolas, a secretaria passou a demorar muito para liberar. E entrar sem a ajuda dela era difícil, os diretores ainda são muito receosos. Chegamos a ficar um período de dois meses sem nenhuma visita marcada.”

Escolas que mostram a realidade

Paula e Guilherme disseram que também foi difícil conseguir informações sobre a rede. O que os obrigou a fazer uma dezena de requerimentos via LAI (Lei de Acesso à Informação). Em todos os casos, a secretaria seguiu o mesmo procedimento. Ou seja, depois de esgotado o limite de 20 dias para fornecer os dados, a assessoria pedia mais 10 dias, prazo previsto em lei, antes de negar o pedido. Com isso, os universitários tiveram de apresentar recurso para receber, por exemplo, informações sobre o Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo), principal indicador de qualidade da rede paulista.

“Foi um trabalho de oito meses conseguir os dados do Idesp de cada escola de SP entre 2014 e 2016. A secretaria negou o pedido via LAI sob os mais diversos pretextos. Como o de que seria um trabalho gigantesco reunir os dados”, diz Guilherme. “Estava quase desistindo quando nosso recurso foi deferido. Dois dias depois a planilha estava no meu e-mail.”

Mas algumas vezes ter acesso aos números foi só o começo de outros problemas. Guilherme passou madrugadas tabulando dados do Censo Escolar do governo federal que não batem com as informações da secretaria. O Censo, por exemplo, indica que a rede paulista tem 140 mil professores; segundo a secretaria, são 206 mil. Um dos motivos da discrepância é a metodologia. Afinal, o Censo só contabiliza docentes que estavam em sala de aula durante a coleta de dados. A saída foi combinar dois tipos de informações no TCC. Ou seja, cruzamentos feitos a partir de microdados do Censo nos gráficos e, nos textos, os números informados de forma sintética pela secretaria.

Paula e Guilherme usaram só transporte público para fazer o TCC. Eles cruzaram longas distâncias em ônibus lotados com equipamentos como câmeras e tripés. Mas não chegaram a passar por nenhuma saia-justa em suas incursões à periferia. O momento mais tenso do TCC foi a ameaça de processo da Apeoesp.

Guilherme conta que conseguir uma entrevista com a presidente da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha, a Bebel, foi bem mais complicado do que ele tinha imaginado. A primeira tentativa aconteceu em fins de março. Mas os universitários só foram recebidos numa sexta-feira no final de agosto para a gravação de um vídeo. Bebel considerou tendenciosas perguntas sobre seu relacionamento com a oposição no sindicato e encerrou a entrevista.

Os estudantes voltaram à Cásper e explicaram o que tinha acontecido ao seu orientador, Eduardo Nunomura, ex-repórter especial de veículos como Estadão e Veja. Discutiram o assunto e decidiram que publicariam o vídeo. Mas, na segunda-feira, a direção da Cásper recebeu uma carta em que a Apeoesp ameaçava abrir um processo se o material saísse na versão final. A assessoria jurídica da Cásper recomendou deixar o vídeo fora do TCC. “Acho que a Bebel não entendeu que o TCC não era sobre ela e o sindicato. Era sobre algo bem maior”, diz Guilherme.

O legado desse estudo

Apesar de terem enfrentando algumas situações frustrantes, os jornalistas recém-formados afirmam que o TCC foi um divisor de águas nas suas perspectivas de carreira. Ambos têm 23 anos e querem seguir trabalhando com educação. “O TCC despertou a vontade de cobrir o tema entre amigos nossos, isso foi muito bacana”, diz Paula, referindo-se a calouros que fazem reportagens para a Esquinas, revista-laboratório da Cásper, editadas por estudantes mais antigos, como ela e Guilherme, sob a supervisão de um professor.

Se prosseguirem na área, Paula e Guilherme já terão uma vantagem sobre seus colegas nas redações. Montaram um banco de fontes que exige amassar barro, visitar escolas, criar empatia – o broche feminista que Paula usou em algumas visitas atraía interesse imediato das meninas, que a procuravam para conversar.

O banco de fontes inclui personagens marcantes, Um exemplo disso é um menino que Guilherme entrevistou bem na reta final do trabalho, a duas semanas de entregar o projeto para a banca examinadora.

“Ele estava cansado, porque tinha feito cursinho o ano inteiro, e muito pessimista sobre suas chances de passar na Universidade de São Paulo. Foi uma entrevista bastante honesta e sincera, de um jovem de 18 anos muito lúcido sobre a realidade social, seu lugar no mundo. O sonho dele era passar em Letras na USP para poder voltar para a rede estadual como docente. O menino frisou várias vezes que queria fazer um trabalho melhor que o dos professores que teve na escola pública.”

Há duas semanas, Guilherme lembrou da entrevista e, por curiosidade, resolveu dar uma conferida no Facebook do menino. Descobriu que ele se matriculou em Letras na USP.

Matéria publicada pelo JEDUCA.

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Prêmio de Inclusão Escolar para professores está com inscrições abertas

Inclusão EscolarA Paratodos, em parceria com os Institutos Lecca, Mara Gabrilli e Rodrigo Mendes, está promovendo a segunda edição do Prêmio Paratodos de Inclusão Escolar. A iniciativa tem como objetivo premiar experiências pedagógicas inclusivas que foram desenvolvidas por professores das instituições de ensino regulares do país.

As inscrições podem ser feitas por professores da rede pública e da rede particular. Em 2016, os trabalhos aceitos eram restritos apenas para a Educação Infantil e Ensino Médio. Já a edição deste ano está aceitando projetos também do ensino Superior.

Professores de todo o Brasil podem inscrever sua experiência pedagógica dos anos letivos de 2016 e 2017. Junto com os relatos, é possível também anexar vídeos, aplicativos, projetos pedagógicos ou fotografias que apresentem ou ilustrem melhor a ideia.

Segundo a pesquisa Engajamento Escolar, da Galeria de Estudos e Avaliação de Iniciativas Públicas (GESTA), criada pela fundação Brava, jovens com deficiências ou doenças graves (crônicas ou contagiosas), portadores de necessidades especiais, ou até mesmo temporariamente enfermos muitas vezes são impossibilitados de acompanhar o conteúdo ou até mesmo de comparecer às aulas, contribuindo para aumentar os índices de evasão e abandono. Mais de 5% dos jovens declaram ter abandonado a escola por esse tipo de impedimento.

Prêmio e divulgação do seu projeto

O prêmio tem o propósito de reconhecer, estimular e disseminar ações inclusivas em todos os segmentos da educação. O vencedor do prêmio receberá um tablet, e os melhores relatos serão divulgados no Diversa. A plataforma, do Instituo Rodrigo Mendes promove uma troca de experiências e construção de conhecimento sobre educação inclusiva. As escolas nas quais foram desenvolvidas as experiências selecionadas como finalistas também serão premiadas com placas comemorativas.

Inscreva-se e veja mais detalhes no site do Paratodos.

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Ampliação de recursos para Ensino Médio é insuficiente e não reduz desigualdades, alerta CENPEC

Estudo do CENPEC alerta que ampliação de recursos para Ensino Médio é insuficiente e não reduz desigualdades, alerta CENPEC. O governo federal anunciou a liberação de R$ 406 milhões para o Programa de Fomento às Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral. O investimento garantirá a ampliação do número de escolas que ofertam matrícula em tempo integral de 516 para 967. O programa foi criado junto com a Reforma do Ensino Médio, aprovada em fevereiro de 2017.

O CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária avalia positivamente a ampliação anunciada pelo MEC. No entanto, ressalta que ela atenda menos de 5% das cerca de 20 mil escolas com ensino médio no país. A organização alerta para o fato de outras modalidades de ensino e um conjunto maior de escolas não terem recebido aumento de recursos. De acordo com o CENPEC, isso pode agravar as desigualdades educacionais no Brasil.

Wagner Santos, coordenador do Núcleo de Juventude do CENPEC, defende: “Um bom ensino médio deve garantir que todos os alunos tenham as mesmas possibilidades de desenvolvimento pessoal, de inserção no mercado de trabalho e de acesso ao ensino superior, independentemente de estudarem em tempo de integral ou parcial, ou em turmas do diurno ou noturno”.

Em 2018, alguns estados começam a colocar em prática as primeiras experiências do chamado “novo ensino médio”. É o caso de São Paulo. Na cidade, 33 escolas técnicas estaduais (Etecs), ligadas ao Centro Paula Souza, vão oferecer duas novas opções de curso baseados no modelo da reforma. Serão o ensino médio com habilitação técnico-profissional e o ensino médio com qualificação profissional. Serão oferecidas 1.741 na primeira modalidade, já com as 3.000 horas estabelecidas pela reforma. Já os cursos com qualificação, que terão 395 vagas, seguirão com as 2.400 horas atuais.

A medida provisória da Reforma do Ensino Médio afirma que os cinco itinerários formativos previstos serão oferecidos conforme as capacidades das redes de ensino. Isso não acontecerá de acordo com os contextos locais e com demandas das diversas juventudes. “No caso de São Paulo, há capacidade instalada para o ensino técnico, mas apenas nas Etecs. E como fica o restante da rede estadual ou outros estados, que têm dificuldades para oferecer qualquer um dos percursos?”, questiona Santos.

Formação de professores é essencial

Mônica Gardelli Franco, superintendente do CENPEC, lembra que para os cinco percursos previstos pela reforma são necessários infraestrutura e professores devidamente capacitados. “Hoje, apenas 54,9 % dos professores do ensino médio têm formação superior na área em que lecionam. Como irão oferecer uma formação aprofundada em determinada área sem formação?”, pergunta a dirigente.

Mônica acredita que, para que todas as escolas de ensino médio sejam impactadas, será necessário investir em formação de professores e equipes gestoras com o suporte de tecnologias, entre outras iniciativas. “Como temos a missão e o compromisso com a sociedade civil de produzir conhecimento e refletir e de impactar políticas públicas, estamos nos preparando para colaborar com os estados, principalmente na reflexão sobre o que significa um trabalho com juventude, aproveitando os cerca de 20 anos de trabalhos do CENPEC”, diz ela.