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Sem salário, professor recebe ajuda de alunos para seguir dando aulas

Fotografia do professor Bruno, sorrindo e no meio da sala de aula, rodeado por aproximadamente doze alunos.
Professor Bruno Paiva e alunos (Reprodução/Facebook)

No dia 15 de maio, o professor Bruno Rafael Paiva teve uma grande surpresa quando foi trabalhar. Ao entrar na sala do 1º ano do curso de edificações da EEEP Balbina Viana Arrais, em Brejo Santo, no Ceará,  ele se deparou com uma ação muito bonita dos seus alunos.

Depois de dois meses sem receber salário, o professor que leciona sobre artes, mundo do trabalho e horário de estudo, pensava em desistir das aulas. Afinal, ele não mora na mesma cidade da escola e estava com dificuldades. Por isso, seus alunos organizaram uma rifa, arrecadando mais de 400 reais para ajudar o professor. Além disso, eles entregaram também uma cesta de chocolates. 

Quando Paiva entrou na aula, participou de uma brincadeira que o levou até o prêmio. “Eu sempre tive uma relação muito boa com todos os meus alunos. Mas isso é uma coisa que eu jamais poderia esperar”, conta o professor, que se emocionou com a ação. 

Dificuldades de quem é professor

“Na escola em que trabalho, todos os professores recebem em dia, não é certo dizer que atrasam”, explica Paiva. “O problema é que, como sou substituto, estou enfrentando uma burocracia que leva de dois a três meses para colocar meu nome na folha de pagamento. Isso é terrível.”

O professor diz que já havia recorrido a todo tipo de ajuda, já que sua mãe, também professora, não recebeu parte do dinheiro que deveria. Além disso, ele estava se mudando de casa, tinha dívidas do carro e já estava com a energia cortada. “Tivemos que ir morar na casa da minha avó”, diz Paiva. “Eu já estava sem esperança”.

O próprio professor postou o vídeo com a reação, feito pelos alunos. A publicação já bateu mais de 150 mil compartilhamentos no Facebook. Segundo ele, muita gente tem mandado mensagens de apoio e pedidos de entrevistas. Paiva diz que o salário deve cair no dia 1º de junho, como está programado, mas a ação dos alunos já serviu de força para que ele continue. “Além da matéria, eu sempre me preocupei em ensinar os alunos a serem cidadãos”, diz ele.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Sem salário, professor recebe ajuda de alunos para seguir dando aulas“, do repórter Nathan Fernandes para a Revista Galileu. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Empatia: as escolas e o acolhimento às crianças com Asperger

Imagem de menino sorrindo enquanto brinca em um túnel de pano na escola
Imagem de menino sorrindo enquanto brinca em um túnel de pano na escola
(Pixabay)

A inclusão ainda é um tema delicado para as instituições de ensino. Nem todas estão realmente preparadas para receberem, por exemplo, alunos especiais, e quase sempre falta empatia. Confusão e caos também marcam esse processo, segundo mães e pais de crianças com Síndrome de Asperger.

Henrique tinha nove anos quando recebeu o diagnóstico. Ele adorava dinossauros e era fanático por números. Ter interesse por um tema e focar nele por determinado período é justamente uma das características do Asperger. Um “Aspie” pode se tornar praticamente um especialista nos assuntos que gosta.

“Quando meu filho começou a estudar, não sabíamos exatamente o que ele tinha. A primeira escola para a qual ele foi era grande, mais tradicional. Mas ele não conseguiu ficar de jeito nenhum. Os professores não estavam nem um pouco preparados. Foi uma tristeza”, contou à Nova Escola a mãe do Henrique, Izabel Grandinetti Barros, que é também presidente da Associação da Síndrome de Asperger Asa-Tea MG.

Izabel então decidiu trocar o filho de escola e colocá-lo numa menor. A experiência foi ótima, só tinham oito alunos por sala e Henrique recebeu o mais importante: acolhimento. “Havia uma parceria muito grande minha com a diretora e a psicóloga da escola; uma disposição em ouvir o nosso lado. Lá ninguém nunca forçou nada. Quando o Henrique não queria ir para a quadra, elas deixavam ele ficar brincando com os dinossauros dele numa boa. E de tempos em tempos a gente voltava a conversar, para ir ajustando tudo” – contou.

Joana Elkis, coordenadora educacional da escola Alecrim, em São Paulo, defende que a escuta é fundamental no processo de acolher crianças com condições especiais. A escola precisa se adaptar às dificuldades e trabalhar de acordo com elas. É necessário respeitar o tempo do aluno, que é diferente para cada um.

A coordenadora diz que é preciso encontrar caminhos para que a criança seja incluída e participe das atividades em sala. E valorizar seus potenciais é a melhor forma de promover essa inclusão. “Pegar essa super habilidade e reverter isso para o grupo acaba sendo interessante para todos” – completa.

Tudo isso é notado não só pelas crianças, mas pelos pais. Afinal, eles sentem o acolhimento em relação aos filhos, como conta a mãe de Henrique. “Nunca vou me esquecer do quanto ele ficou feliz quando a professora propôs que ele desse uma ‘palestra’ sobre dinossauros para os colegas. Ele se sentiu realizado e os alunos também gostaram. Eles estavam estudando dinossauros naquela época, então cada um fez uma pesquisa individualmente e depois o Henrique foi lá na frente falar para a classe”.

Comunicação

Uma das características de um Aspie é a dificuldade em compreender figuras de linguagem como as metáforas. “O fato de verem o mundo de um modo mais objetivo e concreto pode atrapalhar a comunicação. Seja na compreensão do que o professor está falando ou na maneira que a criança (com Asperger) fala com os colegas, que muitas vezes não tem filtro”, observa Joana.

Por isso, em sala de aula, os professores precisam trabalhar com muito cuidado a comunicação. Tanto para que estes alunos assimilem os ensinamentos quanto para que eles sejam compreendidos pelos demais.

Além disso, “os docentes têm de estar sempre próximos para evitar processo de isolamento dos ‘Aspies’, atuando até como mediadores, trabalhando para que essa criança e os colegas se aproximem” – defende Anna Augusta Sampaio de Oliveira, professora do departamento de Educação Especial da Unesp, segundo a Nova Escola.

É preciso também investir na formação e capacitação dos profissionais para lidarem da melhor maneira possível com alunos que apresentam dificuldades especiais, como os Aspie. Desde 2008 está previsto em lei a existência de uma rede de suporte ao Atendimento Educacional Especializado. Na escola Alecrim, por exemplo, a equipe tem constante contato com textos e filmes que tratam deste tema, de acordo com a coordenadora Joana.

Henrique, ao cursar a faculdade de História, encontrou dificuldades com a matéria de filosofia. Como alternativa, o professor dividiu toda a prova em tópicos para facilitar a compreensão e o raciocínio do aluno. Deu certo! Hoje, já formado, ele está na segunda graduação, Direito.

Síndrome de Asperger

Em 2013 a síndrome foi incluída no chamado Transtorno do Espectro Autista (TEA), até então era considerada uma condição distinta. A nova classificação agrupou algumas categorias. Se antes eram quatro principais (Comunicação, Interação Social, Interesses Restritos e Comportamentos Repetitivos), hoje, as duas primeiras foram agrupadas em uma só.

Na área de Comunicação & Interação Social, são analisados o grau de respostas atípicas, déficits para responder a interações com outras pessoas, dificuldade de manter relacionamentos/amizades, dificuldade de interpretação em relações não-verbais.

Nas outras categorias se analisa o grau e a frequência das chamadas obsessões por interesses restritos (como enfileirar objetos ou números ou determinadas cores). A terceira área analisa os comportamentos considerados repetitivos, em que ocorre um apego excessivo à rotina, além de atividades e movimentos reiterados e constantes.

O autismo, incluindo a síndrome de Asperger, é muito mais comum do que a maioria das pessoas pensa. De acordo com o jornal El País, cerca de 1% da população mundial tem algum tipo de TEA, segundo dados dos Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças do Governo dos Estados Unidos.

Dados do CDC (Center of Deseases Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, mostram que existe hoje um caso de autismo a cada 110 pessoas. Só no Brasil, estima-se que cerca de dois milhões de pessoas são autistas. São mais de 300 mil só no Estado de São Paulo.

Matéria publicada pelo Catraquinha.

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Professor, me olhe nos olhos

por Liz Dórea

Mamãe, dentre outros segredos, já foi pedagoga. Nunca falou palavra sobre a faculdade. Provavelmente, suspeito, porque aprendeu o que é ensinar sujando as botas no barro da vida concreta. Minha mãe é filha da multidão, amante do céu aberto, gente com gente demais dentro de si. É como existência que não sacia e precisa sentir o calor que só um sussurro no pé do ouvido abrasa. Por isso, não me espanto que tenha largado os artigos acadêmicos e metido o corpo no mundo. Mas mesmo a alma mais braba sentiria as pernas bambearem diante dum quadro negro cravado numa parede de pau-a-pique, empesteado pelas partículas de areia cuspidas pelo chão batido.

Ainda assim, no miolo do agreste baiano, onde deus parece ter se esquecido das vidas que ali pelejavam pra sobreviver, minha mãe acreditava, até a medula dos ossos, no tento de ensinar. Talvez educação seja ainda sua razão de estar no mundo. Mas quando a maior dúvida dum estudante é saber se vai ter o que comer na janta, educador nenhum tem o privilégio de arrebitar o nariz.

Tampouco força, menos ainda recurso. Numa escola agrária dum município paupérrimo, quem prepara a aula é a pedagogia da miséria. A pedagogia da violência doméstica; do alcoolismo, do trauma, da fome. Então, a professora baixa a cabeça e olha com respeito pr’aquele corpo desnutrido e guerreiro, porque dar vida à educação onde a própria vida é um fiapo dói. E nunca deixou de doer.

Amanhã, se a memória cair nos pensamentos de mamãe, aposto a alma que seus olhos vão aguar. Não à toa, tive donde puxar o hábito do choro incontido. Mas, assim como eu, ela reconheceu que seus ombros não suportariam o mundo. E não suportaram. A escola do sertão virou memória política e eu zarpei de casa pra estudar em São Paulo. Alguns anos galoparam desde lá. Mas nunca vou me esquecer do que ela ainda me disse antes de partir: empatia, Lica. Aquelas crianças iam pra escola pela merenda. Escola era pra sobreviver. E eu, gozando de toda a condição material do mundo, fui embora, com a garganta seca de engolir.

Diante de mim, desterrada e pequena, a Universidade. Sentei em suas cadeiras (que em minha utopia Hollywoodiana seriam poltronas num anfiteatro) e esperei o momento de olhar nos olhos daqueles homens e daquelas mulheres que galgaram o professorado na mais abastada instituição de ensino da A m é r i c a Latina. O instante não chegou. No fim do segundo ano de graduação, não espero mais. Já sigo feito uma lâmpada queimada: de olhar defunto e com a consciência de que ninguém, lá do alto do ofício, percebeu que um dia ele cintilou.

Daí, daquele ano em diante, me fiz apática e impenetrável tal qual todos os excelentíssimos professores doutores defronte de mim. Não levem a mal meu instinto; mas é que sobrevivo num regime de redução de danos. Foi preciso descolar meu peito do corpo pra não espumar. Pra não endoidecer com a total ausência de sentimento da educação universitária. Eu, você e eles. Nada, senão, caixas-pretas assertivas, com grande potencial de armazenamento.

Poderia ser diferente?

Estou exigindo demais? Não, não quero que saiba meu nome, professor. Quero que me olhe nos olhos. Quero que me enxergue como mulher, de carne, osso, paixão, dor e história. Quero que me escute declamar Cecília. Percebo seu rosto triste e magro, seu lábio amargo, suas retinas vazias e indago: em que espelho ficou perdida a sua face? Eu me interesso pela resposta. Porque todos temos dias ruins. Dias pra querer atear fogo no mundo ou dormir por dois anos. Então, me perdoe, mas às vezes o insight genial dum filósofo do século passado cujo nome não sei pronunciar pouco me emociona naquele momento.

Lá fora, pr’além das paredes anêmicas da sala de aula, existe uma vida, real e honesta, pra me ouriçar os pelos. precisamos, nós, ombro a ombro, acolher o arrepio. Aprender a deixar o sangue quente pulsar. Deixar que escorra pelos poros, que inunde a boca, que salte aos olhos. Deixar sentir. E entender que, eu e você, podemos sangrar. Empatia é isso, diria mamãe. Mas quem sou eu pra lhes ensinar alguma coisa? Deixo essa tarefa pra vida. Por enquanto, isso aqui é só mais uma opinião apaixonada, professor. Nada, senão, a confissão melancólica de quem descobriu, ainda na fibra da infância, que empatia não acha lugar nem no peito, quem dirá num Lattes.

Ilustração de Natalie Majolo. Originalmente publicado no Jornal do Campus, jornal produzido pelos alunos de Jornalismo da USP. 

Liz Dórea é baiana incurável, exilou-se na terra-da-garoa pra estudar jornalismo, já que nada sabe na vida, senão, palavrear. Faz verbo e fotografia como quem pudesse esquecer a saudade de casa. Mas, sabendo que falha, aceita o inverno, a melancolia e a gastrite de café porque não pode, sozinha, dinamitar a ilha de Manhattan.

Confira mais relatos sobre educação e sala de aula no Entrelinhas e Laços.

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Empatia na educação municipal de São Paulo

Como desenvolver a empatia na educação? A capacidade de se colocar no lugar do outro está ganhando cada vez mais importância no desenvolvimento socioemocional durante a primeira infância. Em 2018, a Secretaria de Educação de São Paulo incluirá empatia como conteúdo da grade curricular dos alunos. A empatia estará ao lado de outras competências também socioemocionais.

Criatividade, trabalho em equipe, pensamento crítico e outras competências serão desenvolvidas. Ao todo, serão nove as novas habilidades. Em entrevista ao Estado de São Paulo, o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, ressalta que as novas mudanças demandarão uma formação específica para os professores da rede pública. “Estamos muito seguros de que isso vai acontecer”, afirma.

Por que desenvolver a empatia na educação?

Diversos especialistas defendem que o desenvolvimento da empatia beneficia a saúde mental das crianças e evita a depressão. Michele Borba, psicóloga educacional, escreveu o livro “Unselfie: Why Empathetic Kids Succeed in Our All-About-Me World” é uma dessas especialistas.

O site Catraquinha ressalta como diversos relatórios de tendências ressaltam a importância da empatia na educação. Publicações como o Horizon Report e o World Happiness Report 2016 colocam o desenvolvimento de competências socioemocionais como uma das principais tendências globais. As pesquisas também apontam que empatia deve ser o tema central discutido com os alunos ao longo de todos os anos de estudo.

Na educação da Dinamarca, desenvolver a empatia é tão importante quanto disciplinas curriculares. Matemática, literatura e outros componentes do currículo são desenhados com o objetivo de incorporar a empatia durante todo o desenvolvimento do estudante.

Quer se aprofundar?

O programa Escolas Transformadoras criou uma publicação sobre a importância da empatia na educação. A publicação conta com diversos artigos de especialistas e educadores. Natacha Costa, Maria Amélia Cupertino, André Gravatá, Stela Barbieri e outros escreveram textos com diversos olhares sobre o tema. Clique na imagem abaixo para baixar gratuitamente a publicação:

Empatia na educação