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Projeto Fundo Voar ajuda jovens professores a promoverem educação transformadora pelo Brasil

Fotografia de um jovem sorrindo, encostado em uma parede, com os braços abertos, os olhos fechados. Na parede, há um grande desenho de asas. Na parte inferior, há o texto "Educar é dar asas... encoraje esse voo!".
Fundo Voar: fotografia de um jovem sorrindo, encostado em uma parede, com os braços abertos, os olhos fechados. Na parede, há um grande desenho de asas. Na parte inferior, há o texto "Educar é dar asas... encoraje esse voo!".
(Reprodução/Facebook Fundo Voar)

Tudo começou quando 54 jovens foram selecionados para fazer parte da primeira turma do Programa de Formação de Lideranças, Ensina Brasil, em Janeiro de 2017.  Essa iniciativa busca dar oportunidade para que jovens comprometidos com a melhoria da educação brasileira possam atuar como professores em escolas públicas. Muitas vezes, essa participação inclui a mudança de cidade. E é nesse momento que os problemas financeiros surgem… Imagine ser jovem, se mudar para uma nova cidade e um novo estado. E sem possuir família ou amigos para dar um suporte inicial nesta transição.

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Neste cenário, alguns destes professores criaram, em 2017, o Fundo Voar. Pondo em prática um dos seus valores, “Tudo no seu nome”, o projeto busca conectar essas pessoas comprometidas a transformar a educação brasileira. N esperança de que, um dia, todos poderão fazer a diferença na educação básica. Desta forma, eles assumiram a responsabilidade de reduzir os impactos que encontraram durante o período de mudanças. Assim, garantindo uma experiência ainda melhor para os professores que ingressariam na próxima turma.

O Fundo Voar

Laís Brandão (Presidente), Patrícia Borges (Diretora de Operações) e Veruska Nogueira (Diretora de Finanças) são da turma de 2018 do Ensina Brasil. Juntas, elas decidiram dar continuidade a esse projeto tão importante e manter vivo o legado deixado pelos seus colegas.

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É através das doações de pessoas que acreditam na causa (chamados de Entusiastas) que eles disponibilizam empréstimos sem incidência de juros para estes professores (os Voantes). Desta maneira, eles podem focar em suas práticas docentes, gerando impacto na vida dos alunos de escolas públicas brasileiras. Afinal, eles acreditam que a profissão docente precisa e deve ser valorizada entre jovens. E que dar apoio e criar conexões são essenciais para que isto aconteça.

Quer ajudar?

Na Campanha 2017-2018, “O Poder da Ajuda”, foram arrecadados 30 mil reais. A quantia foi alocada para 13 Ensinas de 3 cidades diferentes. Esses empréstimos garantiram a segurança financeira que esses jovens precisavam para ingressar na carreira docente. Assim, eles podem impactar a vida de cerca de 300 alunos, cada um.

Agora, a Campanha 2018-2019, “Ninguém Voa Só”, já começou e vai até o início de fevereiro. A meta de arrecadação é de 35 mil reais. Esse valor vai garantir que mais jovens permaneçam no programa e iniciem suas carreiras como professores. Você pode ajudar esse projeto através do site do Fundo Voar, na sua página no Facebook e também diretamente através do
PayPal ou conta bancária. 

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Crianças e indígenas aprendem sobre astronomia no Norte do Brasil

Nélio Sasaki

Nélio Sasaki é português e tem um projeto que está inovando a educação na região norte do Brasil. Doutor em Astrofísica, ele é diretor do Planetário Digital de Manaus e do Planetário Digital de Parintinse. Além disso, é líder do NEPA e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Sua história no Amazonas começou em 2012, quando ele foi aprovado em concurso público para o cargo de professor  universitário. Na época, não havia qualquer ação concreta no sentido de promover o Ensino de Astronomia enquanto ciência no Estado do Amazonas.

Nélio Sasaki
(Foto: Divulgação)

Ela nos contou um pouco sobre esse projeto e essa jornada educacional que ele tem construído no Norte do país. Nélio falou que, em uma reunião para decidir o que seria realizado durante a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT)durante seu primeiro ano como professor no campus Parintins, ele solicitou uma oportunidade para falar sobre Astronomia. “O único objeto que eu tinha em mãos era o meu telescópio, o primeiro da cidade”, lembra. “A partir disso, ministrei palestras sobre Buracos Escuros, Astronomia Estelar, Astronomia Planetária, entre outros assuntos. E das 18h até às 21h, eu atendia em média 100 pessoas para observação do céu noturno. Tudo foi realizado de maneira bem simples. Inclusive, na falta de sala e/ou energia, dei palestra ao ar livre no jardim do campus. As observações do céu foram realizadas em um campo de futebol da universidade”.

Em toda essa jornada educacional, já foram realizadas ações como astronomia para crianças, indígenas e alunos com Síndrome de Down, inclusive em libras. Houve também capacitação de alunos e professores; letramento científico; observações; laboratório pedagógico de Astronomia; palestras; oficinas; workshops; elaboração de materiais paradidáticos sobre Astronomia (em libras e Línguas indígenas), entre outros. Olha só a conversa que nós tivemos onde ele conta um pouco mais sobre essa jornada, sobre a educação científica, além de dar dicas e grandes inspirações:

Como começou sua atuação na Amazônia e como você introduziu a Astronomia enquanto ciência na região?

Em junho de 2012, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) abriu concurso para professor universitário. Fiz o concurso e, em agosto de 2012 assinei o termo de posse. Logo depois, no mesmo mês, eu já estava ministrando minha primeira aula como docente  da UEA.

Naquele mesmo ano, em outubro, foi realizada a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT). No evento, ministrei palestras sobre Astronomia e colaborei com observações do céu com os telescópios disponíveis. As atividades fora bem sucedidas e, às vésperas do evento, também treinei um grupo de 15 alunos de diferentes cursos para ajudarem no atendimento ao público durante as observações. Atendemos, em média, 300 pessoas a cada noite de observação.

O que aconteceu depois do SNCT?

Após a SNCT, aquele grupo de estudantes queria continuar estudando sobre Astronomia. Porém, eu não tinha bolsa de estudos para todos eles. Foi então que resolvi escrever meu primeiro projeto para trazer recursos para uma região no interior do Amazonas, a ilha de Parintins. No início de 2013, recebi a notícia da aprovação do projeto. Foi então que, em maio, foi criado o Núcleo de Ensino e Pesquisa em Astronomia (NEPA).

O NEPA surgiu como núcleo interdisciplinar e suas ações são todas direcionadas para o Ensino de Astronomia e Astronáutica. Em 2014, conheci pessoalmente o Germano Afonso – renomado astrônomo que lida com Astronomia Indígena. Relatei a ele as atividades que o NEPA estava desenvolvendo no Amazonas. Germano me parabenizou e também ofereceu total apoio. Com o passar dos anos, os projetos foram sendo aprovados, um após o outro. Atualmente, comemoramos cinco anos de existência do NEPA. E temos cinco anos de ações voltadas ao Letramento Científico, através da Astronomia, no Amazonas.

Como as agências de fomento estão estimulando o trabalho com o estudo de Astronomia na região?

(Foto: Divulgação)

Temos a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), que tem nos apoiado bastante. Além dos projetos aprovados no âmbito do Programa de Popularização da Ciência, Tecnologia e Inovação, nos anos 2013, 2014 e 2015, que tiveram o financiamento da FAPEAM, também foi financiado pela FAPEAM a aquisição dos Planetários Digitais de Manaus e Parintins. Vale destacar que a FAPEAM possui mais de 83 programas vigentes, ou seja, é muito atuante não somente na área da Astronomia, mas também nas demais áreas do conhecimento.

Em 2015, começou a história do NEPA com o CNPq e, logo em seguida, CAPES, MCTIC e MEC. A essa altura o NEPA  tinha projectos aprovados na esfera estadual e também nacional. Em 2016, houve uma redução drástica nos recursos voltados para a pesquisa e para a popularização da Ciência e Tecnologia. Então, o núcleo recebeu a notícia da União Astronómica Internacional (IAU) que nosso projecto havia sido recomendado. Ficamos imensamente felizes, pois era a garantia de que todos os projetos teriam sequência. Em 2017 e 2018, o NEPA teve outros projetos recomendados e financiados pela IAU/OAD. Hoje, possuímos projetos em todas as esferas (estadual, nacional, internacional) e contamos com o apoio de várias agências de fomento e entidades renomadas.

Como é a relação dos estudiosos da universidade com os povos da região? Como os saberes locais são valorizados e os aprendizados compartilhados?

Bom, eu sou muito grato para os docentes de outras Instituições de Ensino Superiordo Brasil e do exterior. Recebemos apoio de várias partes: América do Sul, América Central, América do Norte, Europa, Ásia (principalmente do Japão) e Oceania. O apoio de cada um dos parceiros  internacionais e nacionais resultaram em projectos realizados em parceria com estas outras Instituições. Uma experiência inédita para a unidade da UEA em Parintins-AM.

Sobre os docentes da UEA, no começo, eles ficaram divididos. Alguns acharam excelente o surgimento deste processo. Outros optaram por esperar um pouco mais para ver o nosso trabalho consolidado. Por parte dos académicos, desde o início, eles abraçaram as nossas ideias. No começo do NEPA, tínhamos cinco estudantes. Hoje, já temos 28 estudantes, 24 do sexo feminino e 4 do sexo masculino. Desse total, 17 são bolsistas e 11 são voluntários, com mais de 11 linhas de ação diferentes.

Você poderia nos contar um pouco mais sobre seu trabalho sobre astronomia e educação inclusiva?

Atualmente, o NEPA trabalha com a seguinte diretriz:

Encorajar a participação das mulheres na Ciência, em particular, na Astronomia e Astronáutica;

– Promover a igualdade de género e étnica;

– Fortalecer as culturas Afro-indígenas existentes no Amazonas;

– Promover o Letramento Científico nas escolas do interior do Amazonas.

Dentre as 24 mulheres que compõem o núcleo, três são indígenas. São 17 projetos de extensão universitária da unidade de Parintins, num total de 33 projetos. Isso significa que 52% dos projetos de extensão universitária do campus de Parintins são do NEPA. Todos possuem seus respectivos bolsistas, um por cada projeto. Isso representa mais de 90 mil reais em investimento da Universidade do Estado do Amazonas e do Governo do Amazonas  na formação dos acadêmicos e nas pesquisas em Astronomia.

Os projetos que realizamos envolvem assuntos como: Ensino de Astrofísica; Astromatemática; Astroquímica; Astrolinguagem; Astrogeografia; Astronomia Indígenano; Astrofilosofia e Empoderamento Feminino; Astronomia Cultural; Astronomia dos Povos da Antiguidade; Astrobiologia para crianças; Astronomia em LIBRAS; e Astropedagogia. Tudo isso em diferentes etapas da educação, como Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos. Além das escolas regulares, trabalhamos com escolas de alfabetização, com a intenção de promover uma educação inclusiva. Também atendemos escolas da zona urbana, rural, ribeirinha e das comunidades indígenas e quilombolas.

Como esse trabalho aborda a educação inclusiva?

Nélio ensina astronomia para crianças
(Foto: Divulgação)

O NEPA também trabalha junto às escolas de Ensino Especial, alunos com Síndrome de Down e a Comunidade Surda. O projeto voltado para a Astronomia Indígena cria materiais lúdicos sobre Astronomia em Língua indígena. De forma aprecida, a Astronomia Afrobrasileira traz consigo a visão do céu conforme os negros trouxeram da África para o Brasil. As cartilhas e materiais são escritos em língua da matriz africana. O projecto Astronomia dos Povos da Antiguidade permite um diálogo entre a Astronomia e a disciplina Ensino Religioso. Também estudamos o diálogo entre Astronomia e Filosofia. A proposta é pensar  como a humanidade percebe o mundo, o cosmos e os impactos das tecnologias desenvolvidas pela humanidade.

Na área de Ensino, nossa tarefa é ministrar cursos de capacitação para professores e de formação para os alunos. Essas ações  permitiram os primeiros indígenas do Baixo Amazonas a serem convocados para a seletiva internacional que a Olimpíada Brasileira de Astronomia. Concomitantemente ao trabalho desenvolvido na área de Ensino, temos a divulgação científica. Assim, essas duas ações  atingem o público-alvo de 4-17 anos (alunos regularmente matriculados na escola), 18-99 anos (alunos da EJA) e os acadêmicos. Ou seja, vamos desde a Astronomia básica até a mais avançada. Na área da Pesquisa, temos duas frentes, a saber: uma que lida com Pesquisa em Ensino de Astronomia e outra que lida com Astronomia Planetária e Extragaláctica.

Você tem dicas e referências para quem gostaria de saber mais sobre o estudo de Astronomia?

A Região Norte é muito carente de recursos, quando comparada às demais regiões brasileiras. Quando o assunto é Astronomia, para os amantes desta Ciência, a única chance de se estudar sobre o assunto era sair do seu estado e ir estudar em outras regiões (Centro-Oeste ou Sudeste, por exemplo).

Hoje, o NEPA possui estrutura para receber aqueles que desejam estudar Astronomia no estado do Amazonas, na Região Norte. A tendência é que futuramente tenhamos uma graduação em Astronomia (a primeira do Norte do país). Ou seja, o NEPA busca transformar em um Centro de Estudos Avançados em Ensino de  Astronomia e nossa ligação com as escolas é muito forte, tanto na formação dos alunos quanto na formação dos professores. No ano de 2019, o NEPA em parceria com a OBA irá realizar o 1º EREA no Amazonas. Neste sentido, a dica e, ao mesmo tempo, a referência que eu deixo é justamente o NEPA – para todos que são amantes da Astronomia e residem no Amazonas.

Como professores de escolas com poucos recursos podem trabalhar Astronomia na sala de aula? Existem dicas de ferramentas?

Essa é uma questão excelente. Em geral, as escolas alegam não terem recursos para  se trabalhar com Astronomia. Neste caso, o NEPA consegue a verba junto aos órgãos de fomento e leva às escolas toda a estrutura necessária para o desenvolvimento das atividades de Astronomia naquela instituição. Um exemplo é o planetário. Normalmente, o NEPA coloca o planetário no barco e segue rio adentro atendendo as escolas das comunidades e/ou municípios vizinhos. Vale sublinhar que todas as ferramentas necessárias o NEPA levará, basta a escola agendar connosco pelo e-mail: secretaria.nepa@gmail.com.

Por fim, gostaria de agradecer às entidades pelo apoio, financiamento e/ou parcerias: FAPEAM, CNPq, CAPES, MCTIC, MEC, FUNAI, IAU/OAD,UNESCO, Astrónomos sem Fronteiras, FULLDOME, Governo do Amazonas, Governo Federal, Universidade do Estado do Amazonas, UFAM, OBA, SAB, ABP, APAS.

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O que aprendi com uma professora que não acredita em reclamar da Educação

Fotografia da professora Katherine K. Merseth sentada, segurando um microfone, durante palestra.

Esse texto é uma publicação da Revista Gestão Escolar, escrito pela Marlucia Brandão. Ela é diretora da EMEIEF Boa Vista do Sul, em Marataízes-ES, desde 2016, e professora de Língua Portuguesa, com especialização em Linguística Aplicada ao Português, Psicopedagogia Institucional e Ciências da Educação. Deu aulas em todas as etapas, da alfabetização à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Também foi Secretária de Educação de Marataízes entre 2011 e 2012. Nós compartilhamos o texto na íntegra pois achamos que o texto muito importante e inspirador para a educação, para os alunos e professores. Veja a matéria na íntegra no site.

Fotografia da professora Katherine K. Merseth sentada, segurando um microfone, durante palestra.
A professora norte-americana Katherine K. Merseth durante palestra no evento da Rede Conectando Saberes, em São Paulo (Reprodução/Gestão Escola – Foto: Acervo pessoal)

Por três momentos na minha vida ocupei um cargo de gestão. Incluindo neste momento em que estou na direção da EMEIEF Boa Vista do Sul, em Marataízes (ES). Gerir uma escola não é tarefa fácil. Ainda mais para quem acredita que essa missão tem que ser realizada de forma solitária.

Acredito verdadeiramente em uma gestão compartilhada, democrática e principalmente humanizada. Temos que gerir todas as aflições de uma escola. Desde a falta do gás de cozinha para fazer a merenda às dificuldades de aprendizagem dos nossos alunos. Mas também acredito que ficar apenas reclamando não traz resultado.

A escola como espaço transformador

Em maio, tive a oportunidade de participar de mais um encontro da Rede Conectando Saberes, uma iniciativa da Fundação Lemann. O evento reúne educadores com o intuito de buscar uma educação pública transformadora para todos os estudantes. Com o tema “Engajando para Conectar”, o encontro convidou a professora Katherine K. Merseth, da Universidade de Harvard, para conversar conosco. Em sua palestra, ela reafirmou que a escola pública tem jeito e que não foi reclamando que países como Finlândia, Singapura, Japão e Estados Unidos têm conseguido avanços na Educação. Foi, sim, com estudo, estratégia, formação de professores, planejamento e o envolvimento de todos os atores que fazem parte desse espaço transformador, que chamamos de escola.

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Temos o mau hábito de reclamar de tudo! Reclamamos do sistema, dos professores, da família. E o que mais me chama atenção nos encontros da Rede Conectando Saberes é que todos — professores, gestores, estudiosos da Educação — estão buscando caminhos para fazer acontecer essa Educação, de norte a sul, com ou sem estrutura, com ou sem material pedagógico necessário. São pessoas capazes de inspirar outros profissionais com o poder de transformação e a seriedade com que tratam a Educação pública. Eles fazem do limão uma limonada. E, assim, ganham um novo fôlego novo para as batalhas diárias dentro desse universo mágico e complexo, que chamamos de escola e nos mostram que a aprendizagem, se bem planejada e com propósito, tem o poder de vencer as dificuldades do dia a dia de uma escola.

Ouvi experiências de colegas que, com pouquíssimos recursos e com a estrutura física da escola comprometida, conseguem ofertar uma educação de qualidade. Como docente, não sou capaz de descrever como isso me reanima, bem como em meu papel de gestora.

Ouvir da professora Katherine K. Merseth que “o fator que mais influencia o desempenho do estudante é um professor motivado e decidido a aprender” serve como impulso para o desejo que nós, professores e gestores que integramos a Rede Conectando Saberes e todos os docentes comprometidos deste Brasil, sigamos em frente com entusiasmo e dedicação.

Parcerias e trocas de experiências

Acredito que é no poder da troca de experiências exitosas e nas parcerias firmadas com aqueles que acreditam, assim como nós, numa Educação verdadeira e transformadora, que podemos ajudar e levar para a nossa realidade escolar aquilo que deu certo em outras regiões — até mesmo em solos áridos da Educação.

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Segundo Katherine Merseth, toda escola se estrutura em pontos precisos. “O diretor da escola pública tem a função de definir expectativas altas e claras, monitorando sua implementação” e “O aprendizado de professores e estudantes está interligado”, disse ela no encontro. Essas duas colocações dependerão de um trabalho coletivo, organizado e compartilhado, em que todos os atores —famílias, alunos, comunidade escolar, professores, gestores, órgãos públicos —estejam imbuídos de um mesmo objetivo: ofertar e receber uma educação de qualidade. Para todos e todas.

Marlucia Brandão é diretora da EMEIEF Boa Vista do Sul, em Marataízes-ES, desde 2016, e professora de Língua Portuguesa, com especialização em Linguística Aplicada ao Português, Psicopedagogia Institucional e Ciências da Educação. Deu aulas em todas as etapas, da alfabetização à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Também foi Secretária de Educação de Marataízes entre 2011 e 2012.

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Projeto Roda Mundo viaja pelo Brasil em busca de propostas educacionais transformadoras

Imagem de uma aluna da Escola Céu Azul agachada perto de um pequeno lago, colocando seu barco de papel para flutuar
Imagem de uma aluna da Escola Céu Azul agachada perto de um pequeno lago, colocando seu barco de papel para flutuar
Escola Céu Azul (Divulgação)
A educação está passando por um intenso período de transformações. E, em muitos lugares, o ensino busca cada vez mais promover uma experiência consciente e com mais significado. Foi a partir disso que surgiu o Roda Mundo. Um projeto de viagem que vai perpassar por alguns estados brasileiros em busca de práticas inspiradoras.
O projeto foi criado pela Elis Simões, pedagoga e educadora, em parceria com Diego Botafogo, fotógrafo, cineasta e vídeo maker. Eles pretendem visitar  propostas educacionais para buscar, registrar e aprender com essas experiências. Assim, seja em escolas formais, não formais ou outro espaço educacional, eles estão atrás de repensar a educação. Essa busca constante por alternativas educacionais que trabalhem com significado e engajem os estudantes é fundamental para manter o aluno na escola e ampliar as possibilidades para crianças e jovens.

O Caindo no Brasil conversou com a Elis para entender mais sobre essa grande jornada. Veja mais:

Quais foram as principais motivações que deram início ao projeto?

As motivações iniciaram a partir de questionamentos pessoais acerca da minha própria prática. Conforme surgiam os desafios e demandas enquanto educadora infantil, me deparava com inúmeras questões. Como, por exemplo, minha formação, as propostas das instituições e até com formas e possibilidades de “resolução” de determinadas questões.

Imagem de uma aluna da Escola Céu Azul brincando em poças de água
Escola Céu Azul (Divulgação)

A partir disso, me coloquei a pensar e estar mais sensível ao me deparar com uma ambivalência sobre o que eu acreditava e o que eu realmente executava na prática junto das crianças. Trabalhei com diferentes contextos e propostas, e assim fui me apropriando e avaliando o que realmente fazia sentido para mim. Ainda sim, por muitas vezes, devido demandas institucionais, pude me encontrar em um espaço de reflexão acerca de inúmeros questionamentos como “Para quem?”, “A quem estamos destinando nosso trabalho?”, ”Queremos atender a quem?”, “De que forma? “.

Todas essas questões sem mesmo entrar num âmbito romantizado da educação, mas sim num lugar de pesquisa, constatação e reflexão. Logo, a maior motivação foi meu olhar para o próprio trabalho.

Assim, através de muito diálogo, percebi a importância de criar novas referências e motivações acerca da educação. Em um longo período de pesquisas e cursos, me articulei com diferentes temas para ampliar meu olhar e ganhar clareza nas próprias inquietações. Decidi então buscar pelo novo. Não no sentido de novidade, mas na possibilidade um outro encantamento, num outro formato, com novos cenários e rostos.

Encontro-me com inúmeras questões que conversam com problemáticas trazidas pelo Diego, que em meio a tantos diálogos, encara a perspectiva de encontrar através de suas fotografias um novo olhar, uma outra experiência. Assim, tornar possível articular imagem – observação – registro pautado em seu trabalho.

Tem algum caso que despertou essa inquietação que vocês possam nos contar?

Os casos – digo em plural pois foram diversas vezes – giram em torno das tantas práticas que não foram destinadas às crianças. Do não respeito ao tempo de cada um e sim de uma mera prestação de contas de conteúdo. Das tantas vezes que tive que interromper determinado momento embutindo um novo que talvez não fizesse tanto sentido. Das formas e estratégias criadas em torno de um modelo de turma que não se sustenta porque todos são diferentes. Sobre o tempo de aprendizado e todo seu processo de significado que pode ter ficado embaçado por alguma prática; pois no nosso sistema hierárquico é dito que é o professor que decide a hora de parar e a de continuar. Por não dar voz todas as vezes que puder ou desejei dar voz!

Quais são as expectativas de vocês para essa jornada?

As expectativas são bem amplas. Visamos não somente conhecer onde esses espaços educacionais ocupam, como ter a possibilidade de troca entre diferentes culturas, incluindo seus costumes, hábitos, referências e propósitos. Queremos conhecer histórias e pessoas que estejam engajadas em refletir, pensar e discutir sobre a Educação atual. Principalmente a Educação Infantil, a qual me atenho mais no trabalho prático no decorrer na minha carreira.

Buscamos percorrer por espaços, vislumbrar ideias e partilhar conhecimentos. Desejamos encontrar projetos que estejam comprometidos com uma educação consciente e significativa.

A evasão escolar e a falta de engajamento do estudante na escola são problemas sérios no Brasil. Como vocês enxergam isso e como a viagem vai buscar soluções para essas questões?

Tentando entender as diversas questões encontradas no âmbito educacional e de acordo com algumas já vivenciadas, percebemos que muitas estão relacionadas ao pouco espaço de diálogo entre escola- família-aluno. A invisível zona de troca e a ausência do espaço que é dado como possibilidade de voz para os alunos reverbera em muitas questões. Não somente no aprendizado, mas como no desencadeamento de evasão e desinteresse na escola.

Nosso modelo educacional se encontra num cenário em que os alunos recebem de forma passiva o conhecimento. Ou seja, uma educação em massa, que tenta atingir todos por igual, visando uma padronização dos pensamentos e atitudes. Consequentemente, ela não suporta o poder crítico e dialógico dos alunos.

Compreendemos que enquanto nossas escolas forem “fábricas de alunos”, não encontraremos possibilidades delas serem vistas como um lugar potente. Afinal, lugares onde não há espaço de voz, discussão e aceitação das diferenças, não representam uma aliança para os alunos.

O projeto “Roda Mundo” busca descobrir onde andam essas brechas e onde podemos encontrar disponibilidade para troca. Assim, podemos pensar sobre essas questões, através dessa permuta de experiências. Afinal, cada lugar é composto pelas suas relações sociais e intrapessoais, e por isso podemos nos enriquecer profissionalmente e pessoalmente. Acreditamos que a comunhão de ideias engajadas em reconhecer esse espaço de expressão individual transmuta em benfeitoria para o corpo escolar.

Imagem de um aluno durante uma atividade com potes e grãos de feijão
Escola Céu Azul (Divulgação)

Qual foi o critério de seleção dos projetos selecionados no itinerário?

O critério foi iniciado pela curiosidade em conhecer espaços específicos que descobrimos através de leituras, vídeos e ou relatos de parceiros de trabalho. Através de conversas, sugestões e pesquisas acerca das propostas dos espaços educacionais, começamos a traçar um repertório ampliando algumas ideias. Além disso, através de uma lista disponibilizada pelo MEC sobre propostas inovadoras, buscamos acrescentar outros locais. Nos atentamos para as que buscavam uma postura, espaço físico, e relação descrita entre escola e família, dentre outros aspectos. Em suma, priorizamos compor uma listagem que contemplasse diferentes propostas pedagógicas. Alguns exemplos são o método montessori, waldorf, construtivista, educação viva, creche parental e comunidade escolar. Assim, podendo ter uma visão mais ampla, alongando e amplificando nossas lentes e possibilidade de troca e pesquisa.

A partir da lista feita, traçamos um melhor roteiro que contemplasse nossa disponibilidade de data e o melhor trajeto a ser realizado, abrindo brecha e flexibilidade para acrescentar ou retirar itens da mesma.

Nós acreditamos que o projeto pode ser um apoio e incentivo para muitas pessoas com as mesmas angústias que vocês têm sobre o cenário atual da educação. Vocês tem alguma dica para os educadores?

A dica perpassa num lugar de encorajamento e planejamento. Atualmente, nos encontramos em muitos impasses financeiros e de estabilidade relacionado à carreira profissional , sendo assim encontrando maiores dificuldades nos diversos projetos pessoais a serem realizados.

É uma grande conquista conseguir planejar e organizar tamanho projeto, mas também um árduo trabalho. Sobre o planejamento, uma boa ideia é trocar e dialogar com pessoas que já tenham realizado ações parecidas e que podem contribuir de alguma forma para sua execução. Em seguida, as pesquisas e leituras acerca do foco que busca, transformam as informações em maior norte para assim serem concretizadas em planejamento e roteiro.

O roteiro foi planejado com diversas brechas a fim de serem preenchidas com informações e visitas que somente estando no próprio local, acreditamos encontrar.

O processo de encorajamento foi consequência de tamanho planejamento. Vivemos cada etapa de uma vez, tendo a consciência e percepção gradativa dos impasses e conquistas para a realização da mesma. Vislumbramos também o estabelecimento de parcerias, que possam de alguma forma contribuir para uma melhor trajetória do Roda Mundo.

Vocês pensaram em alguma maneira de divulgar o projeto de maneira simultânea?

Estamos atualmente desenvolvendo uma página no Instagram para amigos e parceiros poderem acompanhar nossa trajetória. Além disso, a partilha de experiências e vivências com todos os interessados é muito importante. Nós acreditamos no poder da troca e das tantas transformações possíveis.

Assim que tivermos uma quantidade razoável de materiais, criaremos um blog no propósito também de dividir registros escritos e fotográficos, como um banco de dados, com a preocupação de investigar e disseminar nossas experiências. Agradecemos muito pelo interesse e pela atenção.

O contato do Projeto Roda Mundo é viagemrodamundo@gmail.com.

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10 planos de aula para Educação Infantil

Imagem com três dicas de Atividades criativas para realizar na educação infantil

Imagem com três dicas de Atividades criativas para realizar na educação infantil

As férias estão terminando e chega o momento de renovar o planejamento para o novo ano letivo. E é hora de buscar atividades diferentes. Especialmente as que tragam novas formas de trabalhar áreas programadas para o desenvolvimento das crianças ao longo da Educação Infantil.

Para inspirar o seu trabalho, a Nova Escola selecionou dez planos de aula voltados apenas aos pequenos. Confira abaixo e clique nos títulos para conhecer todas as etapas propostas:

Identidade e autonomia

Por meio de fotos das crianças em seu dia a dia e de materiais básicos, é possível criar interações em que elas percebam a si e aos outros, identificando diferenças, vendo-se como parte de um grupo mais complexo e se reconhecendo como indivíduo. O plano é dividido em três etapas: “eu, eu e eu”, “eu, tu, eles” e “nós e todo mundo”. Indicado para creche e pré-escola.

Uso racional da água

Aproveitar bem os recursos naturais tem de ser um cuidado permanente. E as novas gerações precisam incorporar práticas nesse sentido desde cedo. Com algumas atividades, é possível colaborar para que os pequenos entendam como a água é escassa no planeta e como o uso irresponsável dela pode prejudicar toda a vida no planeta. Chega de torneira aberta durante a escovação! Para a pré-escola.

Aprender com o próprio nome

O nome das crianças abre um imenso campo de trabalho na pré-escola. É possível iniciar o processo de alfabetização pela lista da sala, mostrar como a escrita ajuda a resolver problemas práticos e ampliar o repertório de letras conhecidas.

Os livros e o prazer em ouvir histórias

O livro pode ser um dos melhores amigos da criança, e dá para incentivar essa relação já nos primeiros anos. O plano prevê atividades para pequenos de 1 a 3 anos, e permite criar o hábito de escutar histórias e de ter contato com textos de qualidade, enriquecer a imaginação e fortalecer os momentos em grupo.

É dançando que a gente aprende

A dança é mais que uma brincadeira para a hora da música. Ela ajuda a criança a conhecer seu corpo e a se expressar por meio de seus movimentos. Fizemos até um vídeo inspirado nesse plano de aula, indicado a creches, assista abaixo:

O uso do calendário

O calendário é algo tão corriqueiro na vida das pessoas que as crianças, muitas vezes, têm contato com ele em casa, vendo os pais planejando a semana ou marcando compromissos na agenda. Com os pequenos da creche, ele pode ser usado para introduzir várias formas de uso dos números.

Circuitos no pátio

Crianças gostam de se imaginar em trilhas, desafios, aventuras. Circuitos permitem despertar essa criatividade e muito mais. É possível construir um caminho com base em um desenho , desenvolver relações espaciais, interpretar informações, representar graficamente o ambiente e progredir no uso de vocabulário específico. Para creche e pré-escola.

Conversa para desenvolver a linguagem

Pensar, falar, ouvir, interpretar, responder. Diálogos envolvem uma série de processos na mente, o que é particularmente saudável para o desenvolvimento de uma criança na pré-escola. Estabelecer rodas para que os pequenos conversem pode ajudar na capacidade de articular seus pensamentos, ampliar o vocabulário e aprender a absorver as ideias dos outros.

Brincar na frente do espelho

O espelho é uma ferramenta fundamental para a criança entender a si mesma. O primeiro passo é se ver, mas o educador pode aproveitar para propor atividades que diversifiquem esse contato, com a turma fantasiada, de cara pintada, fazendo caretas ou experimentando expressões faciais. O plano de aula, indicado principalmente para a creche, inclui até sugestão de músicas para esses momentos.

Cantigas e brincadeiras de roda

Crianças gostam de testar seus sentidos, sobretudo os pequenos que ainda estão na creche. Tudo é uma novidade e exerce fascínio: o gosto, a textura, o cheiro, a imagem e o som que cada coisa tem ou faz. Cantigas são fundamentais para estimular a audição, não apenas pelo ritmo delas, mas também pela interação entre a fala e os sons do ambiente – que podem vir desde algo voltado para isso, como CDs ou instrumentos musicais, até objetos que sejam improvisados.

Esse post é uma reprodução integral da matéria publicada pelo repórter Ubiratan Leal para o portal Nova Escola, com o título “Os dez melhores planos de aula para Educação Infantil”. Clique no link para conferir a matéria original e completa.

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Sobre ser humana, sala de aula, sociedade. E sobre sonhos.

– Estou pensando como posso dizer isso pra senhora sem te ofender.

Foi assim que Amanda falou. E eu amei. Respondi empolgada com um “óóótimo!” E fiz um pequeno discurso sobre críticas construtivas. Enfatizo o pequeno discurso por causa de um dos itens do acordo co-construído com o 7° F. A professora não fará discursos muito longos ou desnecessários. Foi nesse mesmo contexto de criação dos novos acordos de convivência que Amanda soltou essa fala. Olhou indecisa pro ventilador que pouco cumpre sua função no mês de agosto em Cuiabá e voltou com uma nova oralidade digna de ser compartilhada:

– É que professora, às vezes a gente faz bagunça. Eu assumo. Mas aí a senhora pede pra gente parar várias vezes e não funciona. Aí a senhora começa a falar que preparou a aula pra gente e que ninguém se importa. Que a senhora tenta dar uma aula diferente mas que a gente não ajuda. É isso que eu queria falar pra senhora, professora.

– Obrigada pela sua fala, Amanda. Ela não foi nem um pouco ofensiva.

– Era isso que eu queria falar, isso é uma coisa que a senhora faz e a gente não gosta. Tem gente que chama isso de drama, né?

SIM! ELA ME CHAMOU DE DRAMÁTICA! Aff, eu amo a Amanda. Amo essa experiência de virar pra sala e falar:

– Então tá, agora é a vez de vocês falarem o que vocês não gostam na professora.

Eu entrei nas minhas quatro salas depois das férias com uma única certeza: a professora do fim do semestre passado ficou no semestre passado.

Fim de junho eu estava… Eu não estava. Eu não era. Eu não conjugava nenhum verbo de estado nem de ação. Só seguia no automático com uma pequena esperança de que os fenômenos da natureza trouxessem água milagrosa pra molhar meu agreste.

Entrega de notas pro conselho tenho que corrigir as provas nossa teve aluno que faltou no dia da prova preciso lavar roupa não tenho uma blusa descente pra trabalhar defina blusa descente seria aquela que desce? Tomara que caia? não raspei o suvaco axila maria eduarda meça suas palavras isso é jeito que moça fala por que é que eu tenho que tirar esses pelos que nasceram espontaneamente debaixo do meu braço mesmo? 7° G amanhã primeira aula preciso lembrar de devolver a caligrafia do Bruno e reservar o projetor

Resnãopire.

Não, isso não foi uma tentativa de escrita compulsiva beatnik. Isso foi uma tentativa de reprodução do meu pensamento acelerado. Um dos sintomas da famosa ansiedade-mal-do- século. Pensamento desenfreado que me tirou o sono, me tirou os sonhos, tomou conta de mim a ponto de me fazer esquecer quem eu realmente era.

Graças a ainda vigente legislação trabalhista minhas férias chegaram. A volta pra terra natal e pras estradas do meu interior foi mágica. Um reencontro comigo. Com a minha criança interior. Com a minha adolescente em crise interna, externa e eterna.

Voltei do recesso escolar como quem volta de um banho de cachoeira depois de horas de trilha no cerrado.

Renovada eu cheguei disposta a fazer diferente. Cheguei na piração de que a práxis docente é essa loucura mesmo. A ação-reflexão-ação me (des)orienta dentro e fora da sala de aula. Entre caos e organização eu vou continuar navegando. Ora enfrentando as altas marés ora em porto seguro. Porém sempre segura de que a adultice do cotidiano não pode romper minhas artimanhas de viver o hoje como quem vive o sempre.

Por isso minha primeira aula foi sobre saber ouvir o outro e construir junto com o outro um novo ambiente propício ao aprendizado. Por isso tive que pedir pros meus meninos e meninas apontarem meus defeitos antes de apontar os deles. Tive que falar sobre meus erros abertamente e comentar sobre minhas frustrações. Depois falamos sobre nosso relacionamento, sobre respeito, empatia, responsabilidades. Ainda deixei de tarefa: pesquise o que significa alteridade.

– Professora esse acordo que estamos fazendo é como se fossem as leis?

– Sim, Miguel! E digo mais: nós não estamos “brincando de fazer as leis da sociedade” aqui na sala de aula. Nós somos a sociedade e estamos construindo ela da forma que queremos hoje.

Senti e vi olhinhos cintilando no mesmo reflexo que o brilho dos meus.

É tão bom voltar a ser quem a gente não sabe que é.

Finalizo esse híbrido de gêneros textuais fazendo um apelo (porque como bem diagnosticou Amanda: sim, eu sou dramática):

Não perguntem as crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescerem.

Perguntem o que eles não querem deixar de ser.

Eu não quero deixar de ser sonhadora.

E você?