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Educação democrática e engajamento dos estudantes

Imagem de dois jovens sentados lendo livros
(Pixabay)

O número de escolas públicas que buscam promover uma participação ativa dos estudantes cresceu muito no mundo. Para isso, eles usam projetos, programas, políticas e diálogos para conseguir colocar essas ideias em prática. Isso resulta em debates e posições muito importantes sobre questões urgentes da nossa sociedade.

Especialmente na educação, é nítido que escolas conteudistas, com relacionamentos hierárquicos e que promovem a competitividade são falhas. Pesquisas no novo campo interdisciplinar das ciências da aprendizagem já mostraram porque este modelo não funciona. Elas confirmam teses defendidas por educadores como o inglês A. S. Neill.

Seu neto, Henry Readhead, hoje diretor da escola Summerhill, esteve na 25ª Conferência Internacional de Educação Democrática (IDEC) e na 1ª Conferência Hadera pela Educação Inovadora para lembrar que, há quase cem anos, a escola criada por seu avô confirma cotidianamente que uma comunidade construída com base na compreensão de como nos desenvolvemos e aprendemos a nos relacionar com os outros garante a formação de pessoas felizes, saudáveis e produtivas.

Desafios reais

Agora, é preciso passar dos discursos e inspirações. As escolas e universidades democráticas encontram grandes dificuldades para efetivamente realizar seus projetos pedagógicos. Encontram barreiras em relação a financiamento, avaliação, formação dos educadores e demais agentes envolvidos. Ao que parece, todo o ecossistema tradicional da escola precisa ser transformado para haja um novo processo de aprendizagem. 

Por isso que a educação democrática vem buscando se fortalecer em redes nacionais e internacionais. Além das conferências mundiais anuais, consolidaram-se encontros regionais, apresentados em diversos workshops. Ela se fortalece também através da conexão com iniciativas orientadas pela democracia nos outros campos da ação social. Sobretudo as iniciativas que buscam formas mais sustentáveis, coletivas e criativas de organizar a produção econômica. E também iniciativas que promovem o diálogo multicultural e a justiça social. É nestas conexões que a educação democrática também se reinventa, escapando da tendência de se reconhecer como a solução para a educação, para continuar em busca das grandes questões.

Todos podem ser agentes de transformação

Foi neste ambiente que o movimento dos estudantes brasileiros de ocupação das escolas, que aconteceu entre 2015 e 2016, ganhou grande destaque. O movimento foi anunciado desde a abertura da conferência como a notícia mais importante para esta rede mundial. Nesse período, quase 1600 escolas, mais de 120 universidades, órgãos centrais de secretarias de educação e assembleis legislativas foram ocupadas e dezenas de ruas foram bloqueadas por estudantes em 21 estados da nação. Houve muita repressão, intimidação, ameaça, perseguição, mas os estudantes resistiram. A forma de luta foi a democracia radical: assembleias com plenos poderes de decisão, comissões responsáveis pelos cuidados coletivos, mobilização de apoio de amplos setores da sociedade.

Como resultados, o projeto de reorganização das escolas estaduais de São Paulo foi adiado, o secretário da educação se demitiu, as escolas técnicas passaram a oferecer merenda. No Rio, os estudantes conquistaram a eleição para diretores. No Rio Grande do Sul, foram liberados os recursos que não chegavam às escolas, professores foram contratados, a merenda foi melhorada, a proposta de privatização da gestão das escolas foi adiada.

A repressão se intensificou e a ocupação das escolas contra as medidas do governo federal de reforma do ensino médio e de cortes dos investimentos sociais (chamados de gastos públicos) não conseguiu impedir a sua aprovação no Congresso. No entanto, não parece improvável que o movimento seja retomado à medida em que estas reformas comecem a ser implementadas, se os estudantes não forem incluídos nos debates. O relato causou grande comoção, e este foi o principal tema do fechamento da Conferência.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Da educação democrática para uma sociedade coletiva“, para o Portal Aprendiz. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Educação Fora da Caixa: documentário mostra como é uma educação democrática

Imagem de capa do documentário Fora da Caixa, com o título do material e o subtítulo "Como a educação democrática forma alunos e cidadãos", e um fundo colorido

A educação democrática ainda não é um assunto muito falado. Estruturas de ensino onde o protagonismo estão presentes no cotidiano parecem realidades muito distantes, especialmente para quem sempre estudou em escolas que não valorizam a voz de todos no processo de aprendizagem. Essa abordagem que busca a autonomia pode garantir um significado muito maior no ensino para os jovens. Pensando nisso, o documentário “Fora da Caixa” explorou um pouco mais essa alternativa educacional.

E, além de tudo isso, há uma questão muito importante relacionada com essa forma de ensinar: o combate à evasão escolar. Com um ensino mais humano, que presta atenção nas necessidades e vontades dos jovens, o engajamento dos alunos é muito maior. Ou seja, uma educação com mais sentido é essencial para ajudar a solucionar essa questão, que é um dos maiores desafios da educação brasileira. 

Jovens críticos e autônomos

‘Fora da Caixa – Como a Educação Democrática Forma Alunos e Cidadãos’ mostra como se dá esse processo de aprendizagem. Além de tornar essa experiência muito mais atraente e significativa, o processo social também é muito importante. Afinal, as escolas podem formar jovens mais críticos e autônomos, que podem repensar o ensino tradicional. Veja o material:

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Alexandra Elbakyan: “É verdade: eu roubo das editoras para dar aos cientistas”

Jovens lendo - Alexandra Elbakyan
Alexandra Elbakyan, fundadora do Sci-Hub
Alexandra Elbakyan, fundadora do Sci-Hub (Reprodução/Universo Racionalista)

A Robin Hood da ciência internacional tem 28 anos, se chama Alexandra Elbakyan, é de origem cazaque e licenciada em informática. E, acima de tudo, é uma pirata da informática que luta pelo livre acesso universal aos estudos científicos, e ela é considerada a herdeira de Aaron Swartz, o cofundador do Reddit.

Cinco grandes editoras – Reed Elsevier, Spring, Wiley, Blackwell, Sage e Taylor & Francis – publicam cerca da metade de estudos realizados em todas as universidades do mundo. E os blindam, como “xerifes de Nottingham”, diz, atrás de custosas barreiras de pagamento – por até 40 dólares por artigo. Consequentemente, isso impede a consulta de estudantes e pesquisadores que não possuem recursos. A solução que Alexandra lançou em 2011 é o Sci-Hub.cc: um site que disponibiliza gratuitamente todos os tipos de estudos. Por isso, a revista Nature, que em teoria é sua inimiga, a incluiu na lista das 10 pessoas mais importantes para a ciência em 2016.

Alexandra Elbakyan e o Sci-Hub

Pergunta: Como nasceu o Sci-Hub?

Resposta: Em 2009, para fazer a minha tese, tive que consultar uns trinta estudos. Todos eram pagos e com um preço médio de 30 dólares. Era demais para mim, então fui para a Internet. Baixei gratuitamente livros técnicos de páginas piratas e pensei que poderia fazer o mesmo com os estudos. Na realidade não eram tão fáceis. Me encontrei com uma comunidade de programadores, onde me explicaram como evitar as barreiras de pagamento. Então, anos depois lancei o Sci-Hub.

P: Como funciona?

R: Primeiro, você introduz o código de identificação do estudo. Depois, o Sci-Hub o busca na base de dados do LibGen, que contém aproximadamente 62 milhões de estudos pirateados. Se o estudo não estiver ali, nós o recuperamos do site a que pertence utilizando as credenciais dos pesquisadores que tem se colocado à nossa disposição.

P: Há quem assegura que isso prejudica a ciência. Ou seja, que o dinheiro que as editoras científicas recolhem são vitais para o sistema.

R: Isso é falso. Claro que publicar um estudo tem custos, mas muitos dos autores não ganham nada. Eles se conformam com o prestígio das revistas. Há ainda estudos de 10 ou 20 anos que só podem ser consultados mediante pagamento. Como é possível? A verdade é que os benefícios obtidos pelo acesso restrito são muito mais elevados do que seria necessário para cobrir as despesas de publicação. Só a Elsevier ganha cerca de 130 milhões de dólares por ano.

P: Qual é a reação dos cientistas em relação ao seu trabalho?

R: Ninguém se queixou de que seus estudos estavam disponíveis no Sci-Hub. Pelo contrário, foi reconhecido o que fizemos, que é algo que também beneficia a universidade. Incluindo até mesmo a prestigiosa Harvard, a mais rica do mundo. A universidade já admitiu que não poder enfrentar os preços impostos pelas editoras para que seus pesquisadores acessem os artigos.

P: Qual é o seu limite?

R: Sobretudo nos meses em que os acessos mais cresceram, o site caiu por conta do excesso de tráfego. Chegou até ao ponto de alguns me pediram para oferecer um acesso pago ao Sci-Hub para limitar o número de usuários. Me pareceu algo muito irônico.

P: Como você vai se defender de ações judiciais das editoras?

R: Meus servidores estão na Rússia. Nos Estados Unidos, não tenho nada, de modo que não há nada que possa ser apreendido.

Matéria publicada pelo Universo Racionalista.

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Carta: a prática em sala de aula acontece no encontro com o outro

Encontro com o outro
Rosely Marchetti Honório, professora de História da EMEF Infante Dom Henrique, em São Paulo. (Foto: Raoni Maddalena)

Caro e cara profissional da Educação,

É com imenso carinho que me aproprio deste espaço para celebrar com você o encerramento de 2017. Momento de reencontro, de renascimento, de recomeço. Enfim, de redefinição de projetos. A oportunidade de pensar sobre o que, o porquê e o como prosseguir, é necessariamente permeada por um processo reflexivo.

É no movimento dialético entre a possibilidade de aprender e o desejo de conhecer que nós, professores, conseguimos criar ações que repercutem socialmente e garantem os direitos de aprendizagem. Isto é o que temos aprendido, eu e o professor César Sampaio, parceiro na concepção e na realização do projeto vencedor do Prêmio Educador Nota 10 deste ano, “O Migrante Mora em Minha Casa”, que realizamos na EMEF Infante Dom Henrique (aliás, a escola passará a se chamar EMEF Carolina Maria de Jesus, em homenagem à grande escritora que viveu pertinho da escola, no bairro do Canindé, em São Paulo).

A análise de nossas experiências e o esboço de nossas intenções para 2018 nos conduzem à indagação sobre o caráter social de nossos planos pedagógicos. A prática em sala de aula acontece no cotidiano do encontro com o outro. O estudante, sujeito portador de história, de vivência, de saberes, de desejos e de vontades. É na interação entre professor e estudantes que compartilhamos um campo de conhecimentos. Nela, as fronteiras entre o ensinar e o aprender são desconstruídas. Isso acontece quando os envolvidos no processo compreendem que o conhecimento é tecido nas relações sociais.

A forma indigna como os estudantes de origem boliviana eram tratados pelos colegas brasileiros em sala de aula obrigou-nos a abordar profundamente a relação entre a migração e o trabalho escravo contemporâneo. O processo de sensibilização e de reflexão no qual todos nós mergulhamos, mediado pelo diálogo, pelo respeito e pela escuta recíproca. Isso contribuiu para que os envolvidos se entendessem e entendessem as suas vivências.

Aprendemos que, na relação com a aprendizagem, os estudantes participam e se interessam quando a realidade é trazida para a sala de aula e quando são ouvidos. O que confere sentido à existência da escola são crianças, adolescentes, jovens e adultos com os quais nos encontramos todos os dias.

Nestes últimos dias do ano, não vemos nada que nos faça querer parar e admirar. Já estamos em movimento e para o próximo ano. A ideia é iniciar a organização de um acervo permanente e sustentável sobre o cotidiano da escola na sua relação com o do território do Canindé e do Pari, onde fica a nossa escola, em diferentes temporalidades.

Reconhecimento do Prêmio Educador Nota 10 fortalece o projeto

O reconhecimento advindo com o recebimento do Prêmio Educador Nota 10 vem repercutindo. Um grupo de amigos, ex-alunos que concluíram o ensino fundamental há 25 anos retornou com muita vontade de contribuir. Todos entusiasmados com os rumos que a Escola vem tomando.

O que vemos à nossa frente são conquistas por uma Escola pública de qualidade. O futuro para o qual estamos sendo empurrados não pode ser visto com clareza nem apreciado de forma plena. É preciso continuar a  mover-se e agir.

Um grande abraço e feliz 2018!

Rosely Marchetti Honório, professora de História da EMEF Infante Dom Henrique e vencedora do Prêmio Educador Nota 10 de 2017

Matéria publicada pela Nova Escola

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Escola de SP exercita a democracia e envolve alunos na gestão

Matéria publicada pelo Catraquinha

Democracia é um tema muito importante no contexto atual e pode ser levada para o dia a dia da educação. É o que mostra a experiência da escola municipal de Guarulhos (SP) Manuel Bandeira, relatada pelo portal Porvir.

A escola envolve os alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental 1 na gestão democrática. Os estudantes participam de definições de investimentos financeiros, recreio, refeições e como conduzir a indisciplina. Essa mudança se deu a partir de 2013. Nesse ano, uma nova diretoria aproveitou a sistematização do Projeto Político-Pedagógico da rede municipal. Ela também se inspirou no Projeto Âncora, de Cotia (SP), iniciativa inspirada na Escola da Ponte.

Aos poucos, as crianças passaram a fazer parte das decisões. Hoje, a partir da gestão democrática, os alunos têm autonomia para se organizar por meio de um conselho composto por representantes da classe. Esse conselho avalia propostas discutidas em rodas de conversa, depois levadas a assembleias para serem votadas.

Conheça a iniciativa de perto

O Porvir acompanhou o funcionamento da escola, incluindo a construção coletiva que leva à escolha dos conteúdos a serem aprendidos em classe. Veja na íntegra aqui. E assista ao vídeo abaixo, um dos documentários da série Janelas de Inovação, da Fundação Telefônica com o Canal Futura, realizado por Caroline Monteiro e Abacateiro Filmes, que relata a experiência:

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“No Brasil, está a surgir a nova educação do mundo”, diz José Pacheco

A terceira edição do Seminário Internacional de Educação Inhotim, que aconteceu em setembro de 2016. O encontro reuniu profissionais de diversas áreas para falar das “Experiências em Trânsito” na educação. A seleção multicultural dos palestrantes enriqueceu o evento, trazendo vivências e pontos de vista diferentes.

“O Brasil tem tudo o que precisa, mas não percebe”

José Pacheco deu início ao encontro fazendo uma provocação à plateia: “o que vocês querem saber?”. Já percebeu o quanto paramos de fazer perguntas conforme vamos crescendo? Foi essa a reflexão que ele levantou. Porém, a frente ao silêncio do público ainda tímido, acionou o plano B e contou algumas de suas histórias. O professor fundou, em Portugal, a Escola da Ponte, que promove educação humanizada e fora dos padrões tradicionais. Enquanto falava para os participantes do seminário, seu projeto completava 40 anos do outro lado do oceano. E ele estava perdendo essa festa?

“Percebi que a pior coisa é um velho que sabe muito entre um monte de jovens que sabem muito mais”, ele explica. A afirmação é uma justificativa sobre como deixou a Ponte nas mãos de jovens que foram seus alunos. Depois disso, decidiu vir ao Brasil continuar propagando o que aprendeu por lá. O Projeto Âncora, em Cotia (SP), é um dos resultados de sua vinda. A escola, que começou a atuar através da arte há 5 anos, já ajudou muitas crianças e jovens com risco de evasão escolar e em situação de vulnerabilidade social por meio do desenvolvimento de talentos e provou que escola não é apenas um edifício. “Escolas não são prédios, escolas são pessoas”.

O pedagogo defende uma educação que valorize a autonomia do estudante. Pacheco está envolvido em centenas de projetos espalhados pelo Brasil. Sua maior preocupação é que uma educação de qualidade chegue a toda a população, como manda a lei. “Não é um milagre, é técnica também. O Brasil tem tudo o que precisa, mas não percebe. É no Brasil que está a surgir a nova educação do mundo”, defende ele, provocando comoção na plateia.

Saiba mais sobre o trabalho de José Pacheco e baixe seus livros gratuitamente em seu site.

“A intervenção urbana existe para nos deslocar”

À tarde, Natacha Costa subiu ao palco para fazer uma verdadeira proeza: apresentar os 19 anos de história da Associação Cidade Escola Aprendiz, que revolucionou o bairro da Vila Madalena, na capital paulista, e inspirou outros tantos bairros a fazer o mesmo. O Aprendiz começou em 1997 a partir da preocupação com dois temas: a escalada da violência em São Paulo e a valorização da adolescência. O grupo desenvolveu projetos para embelezar regiões obscuras do bairro – como o, agora famoso, Beco do Batman – e aproximar as crianças e famílias aos espaços culturais da Vila Madalena.

A Associação passou a trabalhar em todo o bairro, difundindo a ideia de bairro-escola, de uma educação que seja um projeto de sociedade e cidade. Suas ações partiam da valorização do estudante e da ocupação do espaço público. Ela também pressiona o governo para desenvolver políticas públicas. Não demorou para que essa luta fosse mais longe. Ela chegou à defesa da Educação Integral, que ganhou força com a criação do Centro de Referências na Educação Integral.

Dando voz para quem faz

O dia começou com o professor Pacheco dizendo que a escola é feita por pessoas e terminou, justamente, dando voz para essas pessoas. As professoras Liete, Nivia e Gizlaine, que participaram do programa do Inhotim “Descentralizando o acesso”, contaram suas experiências. O programa que levou professoras da escola pública para uma visita guiada ao museu de arte contemporânea e, depois, os alunos. Cada uma mostrou como a visita foi interpretada e utilizada dentro de suas salas de aula e na criação de projetos envolvendo toda a escola. É possível navegar pelos projetos desenvolvidos por essas educadoras no site da rede educativa do Inhotim.