Publicado em Deixe um comentário

Crianças e indígenas aprendem sobre astronomia no Norte do Brasil

Nélio Sasaki

Nélio Sasaki é português e tem um projeto que está inovando a educação na região norte do Brasil. Doutor em Astrofísica, ele é diretor do Planetário Digital de Manaus e do Planetário Digital de Parintinse. Além disso, é líder do NEPA e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Sua história no Amazonas começou em 2012, quando ele foi aprovado em concurso público para o cargo de professor  universitário. Na época, não havia qualquer ação concreta no sentido de promover o Ensino de Astronomia enquanto ciência no Estado do Amazonas.

Nélio Sasaki
(Foto: Divulgação)

Ela nos contou um pouco sobre esse projeto e essa jornada educacional que ele tem construído no Norte do país. Nélio falou que, em uma reunião para decidir o que seria realizado durante a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT)durante seu primeiro ano como professor no campus Parintins, ele solicitou uma oportunidade para falar sobre Astronomia. “O único objeto que eu tinha em mãos era o meu telescópio, o primeiro da cidade”, lembra. “A partir disso, ministrei palestras sobre Buracos Escuros, Astronomia Estelar, Astronomia Planetária, entre outros assuntos. E das 18h até às 21h, eu atendia em média 100 pessoas para observação do céu noturno. Tudo foi realizado de maneira bem simples. Inclusive, na falta de sala e/ou energia, dei palestra ao ar livre no jardim do campus. As observações do céu foram realizadas em um campo de futebol da universidade”.

Em toda essa jornada educacional, já foram realizadas ações como astronomia para crianças, indígenas e alunos com Síndrome de Down, inclusive em libras. Houve também capacitação de alunos e professores; letramento científico; observações; laboratório pedagógico de Astronomia; palestras; oficinas; workshops; elaboração de materiais paradidáticos sobre Astronomia (em libras e Línguas indígenas), entre outros. Olha só a conversa que nós tivemos onde ele conta um pouco mais sobre essa jornada, sobre a educação científica, além de dar dicas e grandes inspirações:

Como começou sua atuação na Amazônia e como você introduziu a Astronomia enquanto ciência na região?

Em junho de 2012, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) abriu concurso para professor universitário. Fiz o concurso e, em agosto de 2012 assinei o termo de posse. Logo depois, no mesmo mês, eu já estava ministrando minha primeira aula como docente  da UEA.

Naquele mesmo ano, em outubro, foi realizada a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT). No evento, ministrei palestras sobre Astronomia e colaborei com observações do céu com os telescópios disponíveis. As atividades fora bem sucedidas e, às vésperas do evento, também treinei um grupo de 15 alunos de diferentes cursos para ajudarem no atendimento ao público durante as observações. Atendemos, em média, 300 pessoas a cada noite de observação.

O que aconteceu depois do SNCT?

Após a SNCT, aquele grupo de estudantes queria continuar estudando sobre Astronomia. Porém, eu não tinha bolsa de estudos para todos eles. Foi então que resolvi escrever meu primeiro projeto para trazer recursos para uma região no interior do Amazonas, a ilha de Parintins. No início de 2013, recebi a notícia da aprovação do projeto. Foi então que, em maio, foi criado o Núcleo de Ensino e Pesquisa em Astronomia (NEPA).

O NEPA surgiu como núcleo interdisciplinar e suas ações são todas direcionadas para o Ensino de Astronomia e Astronáutica. Em 2014, conheci pessoalmente o Germano Afonso – renomado astrônomo que lida com Astronomia Indígena. Relatei a ele as atividades que o NEPA estava desenvolvendo no Amazonas. Germano me parabenizou e também ofereceu total apoio. Com o passar dos anos, os projetos foram sendo aprovados, um após o outro. Atualmente, comemoramos cinco anos de existência do NEPA. E temos cinco anos de ações voltadas ao Letramento Científico, através da Astronomia, no Amazonas.

Como as agências de fomento estão estimulando o trabalho com o estudo de Astronomia na região?

(Foto: Divulgação)

Temos a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), que tem nos apoiado bastante. Além dos projetos aprovados no âmbito do Programa de Popularização da Ciência, Tecnologia e Inovação, nos anos 2013, 2014 e 2015, que tiveram o financiamento da FAPEAM, também foi financiado pela FAPEAM a aquisição dos Planetários Digitais de Manaus e Parintins. Vale destacar que a FAPEAM possui mais de 83 programas vigentes, ou seja, é muito atuante não somente na área da Astronomia, mas também nas demais áreas do conhecimento.

Em 2015, começou a história do NEPA com o CNPq e, logo em seguida, CAPES, MCTIC e MEC. A essa altura o NEPA  tinha projectos aprovados na esfera estadual e também nacional. Em 2016, houve uma redução drástica nos recursos voltados para a pesquisa e para a popularização da Ciência e Tecnologia. Então, o núcleo recebeu a notícia da União Astronómica Internacional (IAU) que nosso projecto havia sido recomendado. Ficamos imensamente felizes, pois era a garantia de que todos os projetos teriam sequência. Em 2017 e 2018, o NEPA teve outros projetos recomendados e financiados pela IAU/OAD. Hoje, possuímos projetos em todas as esferas (estadual, nacional, internacional) e contamos com o apoio de várias agências de fomento e entidades renomadas.

Como é a relação dos estudiosos da universidade com os povos da região? Como os saberes locais são valorizados e os aprendizados compartilhados?

Bom, eu sou muito grato para os docentes de outras Instituições de Ensino Superiordo Brasil e do exterior. Recebemos apoio de várias partes: América do Sul, América Central, América do Norte, Europa, Ásia (principalmente do Japão) e Oceania. O apoio de cada um dos parceiros  internacionais e nacionais resultaram em projectos realizados em parceria com estas outras Instituições. Uma experiência inédita para a unidade da UEA em Parintins-AM.

Sobre os docentes da UEA, no começo, eles ficaram divididos. Alguns acharam excelente o surgimento deste processo. Outros optaram por esperar um pouco mais para ver o nosso trabalho consolidado. Por parte dos académicos, desde o início, eles abraçaram as nossas ideias. No começo do NEPA, tínhamos cinco estudantes. Hoje, já temos 28 estudantes, 24 do sexo feminino e 4 do sexo masculino. Desse total, 17 são bolsistas e 11 são voluntários, com mais de 11 linhas de ação diferentes.

Você poderia nos contar um pouco mais sobre seu trabalho sobre astronomia e educação inclusiva?

Atualmente, o NEPA trabalha com a seguinte diretriz:

Encorajar a participação das mulheres na Ciência, em particular, na Astronomia e Astronáutica;

– Promover a igualdade de género e étnica;

– Fortalecer as culturas Afro-indígenas existentes no Amazonas;

– Promover o Letramento Científico nas escolas do interior do Amazonas.

Dentre as 24 mulheres que compõem o núcleo, três são indígenas. São 17 projetos de extensão universitária da unidade de Parintins, num total de 33 projetos. Isso significa que 52% dos projetos de extensão universitária do campus de Parintins são do NEPA. Todos possuem seus respectivos bolsistas, um por cada projeto. Isso representa mais de 90 mil reais em investimento da Universidade do Estado do Amazonas e do Governo do Amazonas  na formação dos acadêmicos e nas pesquisas em Astronomia.

Os projetos que realizamos envolvem assuntos como: Ensino de Astrofísica; Astromatemática; Astroquímica; Astrolinguagem; Astrogeografia; Astronomia Indígenano; Astrofilosofia e Empoderamento Feminino; Astronomia Cultural; Astronomia dos Povos da Antiguidade; Astrobiologia para crianças; Astronomia em LIBRAS; e Astropedagogia. Tudo isso em diferentes etapas da educação, como Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos. Além das escolas regulares, trabalhamos com escolas de alfabetização, com a intenção de promover uma educação inclusiva. Também atendemos escolas da zona urbana, rural, ribeirinha e das comunidades indígenas e quilombolas.

Como esse trabalho aborda a educação inclusiva?

Nélio ensina astronomia para crianças
(Foto: Divulgação)

O NEPA também trabalha junto às escolas de Ensino Especial, alunos com Síndrome de Down e a Comunidade Surda. O projeto voltado para a Astronomia Indígena cria materiais lúdicos sobre Astronomia em Língua indígena. De forma aprecida, a Astronomia Afrobrasileira traz consigo a visão do céu conforme os negros trouxeram da África para o Brasil. As cartilhas e materiais são escritos em língua da matriz africana. O projecto Astronomia dos Povos da Antiguidade permite um diálogo entre a Astronomia e a disciplina Ensino Religioso. Também estudamos o diálogo entre Astronomia e Filosofia. A proposta é pensar  como a humanidade percebe o mundo, o cosmos e os impactos das tecnologias desenvolvidas pela humanidade.

Na área de Ensino, nossa tarefa é ministrar cursos de capacitação para professores e de formação para os alunos. Essas ações  permitiram os primeiros indígenas do Baixo Amazonas a serem convocados para a seletiva internacional que a Olimpíada Brasileira de Astronomia. Concomitantemente ao trabalho desenvolvido na área de Ensino, temos a divulgação científica. Assim, essas duas ações  atingem o público-alvo de 4-17 anos (alunos regularmente matriculados na escola), 18-99 anos (alunos da EJA) e os acadêmicos. Ou seja, vamos desde a Astronomia básica até a mais avançada. Na área da Pesquisa, temos duas frentes, a saber: uma que lida com Pesquisa em Ensino de Astronomia e outra que lida com Astronomia Planetária e Extragaláctica.

Você tem dicas e referências para quem gostaria de saber mais sobre o estudo de Astronomia?

A Região Norte é muito carente de recursos, quando comparada às demais regiões brasileiras. Quando o assunto é Astronomia, para os amantes desta Ciência, a única chance de se estudar sobre o assunto era sair do seu estado e ir estudar em outras regiões (Centro-Oeste ou Sudeste, por exemplo).

Hoje, o NEPA possui estrutura para receber aqueles que desejam estudar Astronomia no estado do Amazonas, na Região Norte. A tendência é que futuramente tenhamos uma graduação em Astronomia (a primeira do Norte do país). Ou seja, o NEPA busca transformar em um Centro de Estudos Avançados em Ensino de  Astronomia e nossa ligação com as escolas é muito forte, tanto na formação dos alunos quanto na formação dos professores. No ano de 2019, o NEPA em parceria com a OBA irá realizar o 1º EREA no Amazonas. Neste sentido, a dica e, ao mesmo tempo, a referência que eu deixo é justamente o NEPA – para todos que são amantes da Astronomia e residem no Amazonas.

Como professores de escolas com poucos recursos podem trabalhar Astronomia na sala de aula? Existem dicas de ferramentas?

Essa é uma questão excelente. Em geral, as escolas alegam não terem recursos para  se trabalhar com Astronomia. Neste caso, o NEPA consegue a verba junto aos órgãos de fomento e leva às escolas toda a estrutura necessária para o desenvolvimento das atividades de Astronomia naquela instituição. Um exemplo é o planetário. Normalmente, o NEPA coloca o planetário no barco e segue rio adentro atendendo as escolas das comunidades e/ou municípios vizinhos. Vale sublinhar que todas as ferramentas necessárias o NEPA levará, basta a escola agendar connosco pelo e-mail: secretaria.nepa@gmail.com.

Por fim, gostaria de agradecer às entidades pelo apoio, financiamento e/ou parcerias: FAPEAM, CNPq, CAPES, MCTIC, MEC, FUNAI, IAU/OAD,UNESCO, Astrónomos sem Fronteiras, FULLDOME, Governo do Amazonas, Governo Federal, Universidade do Estado do Amazonas, UFAM, OBA, SAB, ABP, APAS.

Publicado em Deixe um comentário

Material do IBGE mostra como explorar dados estatísticos em sala de aula

Imagem do site do IBGEduca

Imagem do site do IBGEduca

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é o órgão responsável por prover dados e informações sobre o Brasil. Neste ano, eles lançaram uma página com dicas e sugestões para educadores. Nela, eles abordam como trabalhar os dados levantados pelo instituto na sala de aula.

O IBGEduca

O IBGEeduca disponibiliza atividades que contam com material visual. Isso inclui gráficos, tabelas, folders e infográficos, e contemplam desde a educação infantil até o ensino médio. Também conta com dicas para planejamento da aula, sugestões de discussões e roteiros de perguntas para guiar a análise dos dados.

LEIA MAIS: 5 dicas para aprender Ciências na prática

É possível filtrar as atividades de acordo com etapa de ensino, disciplina e tema. Os professores também podem trocar experiências na aba Blog do professor. Lá é possível compartilhar projetos desenvolvidos a partir do conteúdo da plataforma e acessar o que já foi feito por outros docentes. O site conta ainda com segmentos voltados a crianças e jovens, com materiais específicos para cada faixa etária. Veja mais detalhes no site do IBGEEduca.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “IBGE disponibiliza material sobre como explorar dados estatísticos em sala de aula“, da reporter Juliana Fontoura para a Revista Educação. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

Publicado em Deixe um comentário

Professor usa fake news para ensinar ciência e olhar crítico na escola

Imagem de aproximadamente cinco jovens sentados analisando notícias no notebook, e no centro deles está o professor interagindo.

As fake news são alvo de debate ao redor de todo o mundo por causa do seu possível impacto na democracia. Essas notícias inventadas geralmente têm o objetivo de viralizar na internet e influenciar consumidores e eleitores. No entanto, elas têm sido usadas em uma escola particular do interior paulista para ensinar pensamento crítico e pesquisa científica.

A iniciativa é do professor de ciências Estêvão Zilioli, de Ourinhos, cidade localizada a 360 km de São Paulo. Ele desenvolveu um curso semanal voluntário no contraturno para alunos do ensino médio. No projeto, os próprios estudantes buscam as notícias de cunho duvidoso para análise em sala de aula. A ideia é que eles próprios se perguntem: essa notícia tem fontes e dados confiáveis? Merece ser acreditada – e compartilhada?

Imagem de aproximadamente cinco jovens sentados analisando notícias no notebook, e no centro deles está o professor interagindo.
(Reprodução/BBC Brasil)

“Eles trazem as notícias das quais ficam desconfiados. Começamos com notícias de ciências e saúde. Mas os alunos se interessaram também por notícias de entretenimento e política, por estarmos em um ano eleitoral”, conta Zilioli à BBC Brasil. “O método de checagem é o mesmo para todas: buscar informações de fontes confiáveis. Estou falando de método científico, de busca de informações seguras que possam ser demonstradas, até para eles entenderem que não é simples provar as coisas.”

Olhar crítico e educação científica

As aulas buscam discutir as notícias e encontrar formas de checar as informações online. Assim, eles buscam as fontes originais dos fatos ou pesquisam em artigos acadêmicos, IBGE e sites de tribunais eleitorais, etc.

Eles já analisaram notícias que afirmavam que determinadas frutas ingeridas em jejum curavam câncer. Ou sobre uma mãe que teria aplicado botox na filha pequena. E até uma sobre o cientista Stephen Hawking, que faleceu em março deste ano, falando sobre vida extraterrestre.

Muitas notícias colaboram para que os alunos entendam também sobre as nuances das publicações. “Vimos que há notícias falsas, mas também as que são baseadas em fatos verdadeiros, mas com títulos sensacionalistas”, explica o professor. “Eles já estão mais treinados a ver o que é falso ou não do que recebem do grupo da família (no WhatsApp) e pensam duas vezes antes de acreditar. 

A ideia fez o professor ser selecionado para o projeto Inovadores, do Google, que o ajudou a idealizar um site. O portal foi batizado pelos alunos de Ourinhos de HoaxBusters, ou Caça-boatos. Ele terá uma espécie de “termômetro” para identificar o quanto cada notícia analisada tem de veracidade.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Professor usa fake news para ensinar ciência na escola“, da reporter Paula Adamo Idoeta para a BBC Brasil. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

Publicado em Deixe um comentário

Foldscope: microscópio de baixo custo promove educação científica nas escolas

Imagem de dois meninos na sala de aula sorrindo e olhando o Foldscope
Imagem de dois meninos na sala de aula sorrindo e olhando o Foldscope
(Reprodução/Foldscope)

O olhar investigativo e a educação científica são essenciais para uma educação mais efetiva e com mais significado. No entanto, esse estímulo é muito pouco explorado dentro de um sistema educacional conteudista e sem engajamento. Além disso, há uma grande falta de investimento, como na falta de infraestrutura e na formação de educadores.

Pensando nisso, há uma alternativa muito interessante de tornar o acesso à ciência algo mais fácil e ainda aumentar o engajamento dos alunos. O Foldscope é um microscópio feita de origami que ajuda várias de pessoas ao redor do mundo a ter acesso a uma educação científica acessível. Ele foi criado pelo bioengenheiro e professor-assistente da Escola de Medicina de Stanford, Manu Prakash, e é de baixo custo. Seu objetivo, além de promover uma educação de fácil acesso, é ajudar no diagnósticos de doenças. Especialmente em países de baixa renda, onde os resultados de análises podem demorar muito tempo. 

Educação acessível e de qualidade

Imagem do Foldscope, em papel de cor azul claro
(Reprdução/Foldscope)

O Foldscope conta com todas as funcionalidades de um microscópio comum. Mas ele é construído apenas a partir de uma dobradura de papel. O material é vendido a partir de US$ 1,00. Ou seja, o valor é extremamente baixo. Cada modelo de Foldscope pode ser montado através de um código de cores muito didático. Por isso, ele há a necessidade de instruções escritas e ele é acessível também para leigos. Cada aparelho funciona como se fosse um microscópio desenhado especificamente para o diagnóstico de uma doença. Atualmente, há mais de 30 modelos, cada um com uma funcionalidade.

Apesar do material ser estrangeiro, a ideia é extremamente coerente com a situação atual do nosso ensino. Afinal, o seu objetivo é ser de baixo-custo e estimular a educação científica. O site do Foldscope, apesar de estar em inglês, mostra mais detalhes sobre a sua construção e sobre a trajetória desse projeto. 

 

Publicado em Deixe um comentário

Educação Científica e questões sociais: programa Cientista Beta abre novas turmas

Imagem de aproximadamente 15 jovens sentados no chão, em círculo, sorrindo aplaudindo
(Divulgação)

A educação científica é uma maneira muito interessante de explorar a criatividade dos estudantes. Além do estímulo acadêmico, ela pode promover um grande engajamento na sala de aula. E foi pensando em todo o significado – que vai além do ensino conteudista – que a ciência pode trazer para a educação que surgiu o Cientista Beta.

Criado em 2015, esse projeto foi idealizado pela sua atual diretora Kawoana Vianna, estudante do último ano da Medicina na UFRGS. Ela desenvolveu projetos científicos durante o ensino médio e percebeu o quanto essa experiência foi decisiva na sua trajetória. Por isso, seu objetivo era achar uma maneira de proporcionar essa vivência para outros jovens. Assim, ela fundou o Cientista Beta. Uma organização sem fins lucrativos que busca despertar o sentido questionador e experimentador que todo cientista tem. 

Para isso, ela atua no desenvolvimento de programas como o Decola Beta. Um projeto onde jovens de 13 a 19 anos podem explorar a ciência através e problemas da sociedade e fazer descobertas como métodos alternativos para a detecção do glifosato, auxiliando deficientes na locomoção urbana ou até mesmo criar um diagnóstico mais barato para a endometriose. Agora, o Decola Beta está fazendo uma campanha de financiamento coletivo para que 48 jovens de baixa renda participem e realizem seus projetos científicos.

O Decola Beta e a Educação Científica

O Programa de Iniciação Científica Decola Beta é um projeto que o Cientista Beta executa desde o seu primeiro ano. Ele já recebeu 245 estudantes e tem duração de seis meses. Para participar, alunos do ensino fundamental, médio e técnico se inscrevem e passam por um processo de seleção. Eles buscam jovens engajados e que sabem qual o problema do mundo que querem transformar em projeto de pesquisa.  

Ao entrar no programa, o estudante é conectado a um mentor. Logo em seguida, ele recebe conteúdos e desafios desenvolvidos pela equipe do Cientista Beta. A partir disso, o objetivo é que em 6 meses a ideia saia do papel e se transforme em um projeto científico, com experimentos, resultados e conclusões. Nesse processo, além da experiência científica, o estudante se envolve com problemas da sociedade e explora sua criatividade e comunicação. Além disso, em todas as ações o projeto busca a diversidade na seleção dos jovens cientistas. Seja de gênero, ao dar uma atenção consciente para o número de mulheres integrantes; geográfica, ao selecionar jovens do Brasil inteiro; e, principalmente, socioeconômica, ao criar um programa de bolsas.

Gráfico sobre a diversidade dos mentorados pelo projeto

Gráfico sobre a diversidade dos mentorados pelo projeto

 

Em 2018, dos 109 jovens selecionados, 48 são de baixa renda e não tem condições de arcar com os custos do programa (a taxa é de R$ 300,00 por jovem e cobre os 6 meses de programa). Por isso, para manter em pleno funcionamento, o Programa e toda a equipe se engajou em lançar um Financiamento Coletivo totalmente focado nesta nova turma de bolsistas! Afinal, essa iniciativa super legal pode ajudar a construir uma tecnologias, educação e um futuro melhor para o país através da educação científica. Saiba mais sobre o projeto e acesse o link da campanha. 

Publicado em Deixe um comentário

Alunos desenvolvem microscópio com R$ 25 e ideia será expandida para escolas públicas

Imagem de inseto sendo vista pelo microscópio de baixo custo
Lente usada para leitura de DVD aumenta imagem em até 300 vezes (Foto: John Pacheco/G1)

Baseado numa ideia americana, mas com a criatividade e o jeitinho brasileiro, dois alunos e um professor do Instituto Federal do Amapá (Ifap) desenvolveram um pequeno microscópio de baixo custo gastando cerca de R$ 25, utilizando materiais reutilizados e pequenos acessórios. O objetivo é expandir a produção e aumentar o ensino de Biologia em escolas públicas sem laboratórios. 

O Caindo no Brasil acredita que iniciativas como essa aumentam o interesse pela educação científica tanto pelos criadores da solução quanto para os alunos que serão beneficiados. Além disso, garante uma maior conexão entre a vida dos alunos e a escola. Isso pode ajudar a combater a evasão escolar e aumentar o engajamento dos jovens na escola.

Desenvolvido pelos alunos Carlos Eduardo Silva e Thaís Rodrigues, ambos de 16 anos, orientados pelo professor Joádson Rodrigues, o projeto é realizado apenas parafusos, capas de CD e pequenas lanternas. As lentes são formadas por leitores de DVD reaproveitados. Além disso, a visualização de pequenos microorganismos pode ser feita no microscópio com o uso do celular.

 
Imagem do microscópio de baixo custo
Equipamento desenvolvido usa aparelho celular como lente (Foto: John Pacheco/G1)
 

O G1 do Amapá entrevistou os estudantes: “Aqui no Ifap não tínhamos o laboratório de biologia quando entrei, em 2016. O professor havia visto esse trabalho na internet nos Estados Unidos e quis trazer para a nossa realidade. Fomos vendo o projeto original e trocando as peças para outros materiais mais acessíveis”, comentou Carlos Eduardo, que cursa Edificações. 

Projeto apoiará comunidades ribeirinhas

O Ifap vai iniciar ações de extensão para levar o microscópio para escolas da periferia e da Zona Rural. “Essa extensão vai ser proposta para as escolas ribeirinhas, onde não tem esse laboratório. Vamos educar professores e alunos, pois não precisa nem de energia elétrica, somente o celular”, declarou Márcio Castro, diretor-geral do campus Macapá.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação Alunos do Ifap desenvolvem microscópio com R$ 25 e ideia será expandida para escolas públicas”, do repórter John Pacheco para o G1 Amapá. 

Publicado em Deixe um comentário

Em escola rural, crianças montam coleção de insetos em projeto de ciências

Imagem de um aluno segurando e observando uma planta durante experimento
Imagem de um aluno segurando e observando uma planta durante experimento
(Reprodução/Porvir)

A professora Maria Cristina Fachin Liberalesso contou para o Porvir como desenvolveu um projeto de iniciação científica com alunos do quarto ano do ensino fundamental. Compartilhamos a matéria na íntegra:

Durante minha profissão, pude provar que o aluno só aprende quando a proposta de trabalho atende ao seu interesse e necessidade. Ele precisa ser o construtor dessas aprendizagens. É fundamental que desenvolva desde cedo habilidades de percepção, observação, investigação, reflexão, análise, formulação de conceitos e conclusões. A partir dessas concepções, vivenciamos em 2016, na escola rural Escola Municipal de Ensino Fundamental São Thomáz de Aquino, em Pinhal Grande (RS), uma experiência com a turma do 4º ano do ensino fundamental. O projeto de ciências “Pequeno Cientista” durou cerca de seis meses e teve como objetivo proporcionar à turma a aprendizagem através da pesquisa prática.

Tudo começou quando encontramos o banheiro das meninas cheio de insetos. Isso despertou o interesse da turma em saber mais sobre aquela bicharada. Vi na situação uma oportunidade de grandes descobertas. A primeira delas: a lâmpada do banheiro ficou acesa durante uma noite inteira e os insetos foram atraídos pela luz. Aos poucos, muitas curiosidades foram surgindo. Registramos tudo o que a turma queria saber, levantamos hipóteses e, mais tarde, confrontamos com respostas que iríamos obter através das pesquisas.

A busca por informações

Fotografamos e colhemos exemplares dos insetos, que foram postos sobre uma lâmina de isopor para exames. Também fomos para a internet e selecionamos materiais de interesse para estudos. O assunto tomou conta da turma, e a coleção de lepidópteros da sala de aula aumentou, pois os alunos sempre traziam mais. Montamos um laboratório que era diariamente monitorado, tendo os registros feitos em diários de bordo. Vimos ovos de mariposa, nascimento de lagartas, formação casulos e metamorfoses completas.

Imagem de quatro alunos reunidos procurando e estudando insetos na grama
(Reprodução/Porvir)

Nem tudo saiu como a gente esperava, também surgiram algumas surpresas. Mesmo assim, tudo era aproveitado para estudo. Um dia encontramos uma lagarta morta, e um aluno disse que ela morreu de depressão porque estava fora do seu ambiente. Então, trabalhamos sobre a importância de se respeitar a natureza. Outro dia, encontramos uma mariposa que se confundia com a calçada e pesquisamos sobre mimetismo, camuflagens e disfarces.

Organizamos e classificamos a coleção do laboratório. Cada exemplar foi catalogado de acordo com sua ordem, família e nome científico. Registramos tudo através de gráficos.

Durante o projeto, foram feitas observações fora da sala de aula, para descobrir de onde vinham tais insetos e quais eram seus habitats. Pesquisamos sobre o modo de vida, estrutura corpórea, utilidades e prejuízos para o ser humano e para a natureza. Pesquisamos também sobre o clima e a meteorologia para saber as condições favoráveis ao aparecimento dos bichos no banheiro.

Como complemento, fizemos entrevistas e enquetes na localidade para saber sobre a influência desses insetos na agricultura e na vida das pessoas. Constatamos o uso excessivo de agrotóxicos para controle de pragas, inclusive em hortas e pomares, o que gera degradação ambiental e desiquilíbrio ecológico.

Durante as entrevistas, um dos alunos ouviu que as mariposas pretas eram bruxas. Então, trabalhamos também acerca da mitologia. Concluímos: “As pessoas acreditam, mas na realidade não são e a gente tem que respeitar as crenças delas.”

Um encerramento para o projeto científico

Ao final das atividades, montamos o projeto científico como se fosse um trabalho acadêmico de pesquisa, com todos os passos. Em dois momentos, os alunos apresentaram pesquisas em eventos formatados como seminário.

O projeto foi sendo guiado pelo interesse dos alunos. Cada descoberta gerava novas perguntas. Eu, como professora, não dei respostas. Sempre que surgiam dúvidas, a turma era conduzida a pesquisas e experimentos. Os alunos aprenderam coletar, registrar e processar dados e informações, pesquisar, fazer experimentos, preencher formulários, fazer anotações, diários de bordo, resumos, confrontar e socializar conhecimentos, formular opiniões, hipóteses, conceitos e conclusões, argumentar, montar tabelas, gráficos, quadros comparativos, esquemas, desenhos e painéis.

Dentro da capacidade de cada um, todos participavam das atividades, interagindo coletiva ou individualmente. A avaliação foi constante e formativa. A gente retomava uma ação até que a turma ou determinados alunos conseguissem dominar, respeitando sua capacidade de aprendizagem.

Como produto final do projeto, montamos um livro que foi apresentado à comunidade escolar. Afinal, a divulgação do trabalho e dos resultados é parte importante na pedagogia de projetos.

Post escrito pela professora Maria Cristina Fachin Liberalesso e publicado pelo Porvir com o título Em escola rural, crianças montam coleção de insetos em projeto de ciências.

Publicado em Deixe um comentário

Como cientistas brasileiros colonizaram o YouTube

A pesquisadora Aline Ghilardi, 31, é uma paleontóloga “que segue o estereótipo” da profissão. Ela busca entender como eram e como evoluíram os dinossauros, principalmente os que viviam no Brasil. Recentemente, recebeu ajuda de uma fonte incomum para localizar os restos de “arcossauros mesozoicos”, como estas criaturas são chamadas no jargão da paleontologia. Fãs do canal que ela mantém no YouTube a alertaram para a presença de ossadas em algumas cacimbas (que é como são chamados os reservatórios naturais d’água) no interior pernambucano.

Ela e o marido, o também paleontólogo Tito Aureliano, são responsáveis pelo Colecionadores de Ossos, um de vários canais do YouTube surgidos nos últimos anos e que fazem sucesso explorando um filão da divulgação de conhecimentos científicos. Um tema contra-intuitivo no mundo virtual, supostamente dominado por conteúdo banal ou apelativo.

Aline Ghilardi e Tito Aureliano
A paleontóloga Aline Ghilardi aproveita a pesquisa de campo para gravar os vídeos (Reprodução/YouTube)

É possível encontrar uma boa lista dos principais canais de ciência do YouTube brasileiro no ScienceVlogs Brasil, uma página surgida em 2015 e que funciona como um “selo de qualidade” para os canais desta temática.

Há conteúdos para todos os gostos. Nos canais, é possível aprender sobre assuntos tão diversos e complexos quanto cladística (um sistema adotado na biologia para classificar os seres vivos); o paradoxo de Fermi (sobre o contato com civilizações alienígenas); e buracos negros, entre outros.

Quem fala sobre o quê

Mas alguns atingem um público amplo. Entre os mais populares estão o Manual do Mundo (9,1 milhões de inscritos), o Nerdologia (1,8 milhão) e o Canal do Pirula (598 mil). Este último é batizado com o apelido do biólogo e doutor em zoologia pela USP Paulo Miranda Nascimento, que construiu sua audiência com vídeos longos sobre temas como evolução, meio ambiente, e religião.

Iberê Thenório e Mariana Fulfaro, do canal Manual do Mundo
Iberê Thenório e Mariana Fulfaro, do canal Manual do Mundo (Reprodução/Manual do Mundo)

Nos canais, é possível aprender sobre temas como astronomia e física (Space Today, Ciência Todo Dia, Primata Falante e o Ciência e Astronomia), biologia (Papo de Biólogo e Biologia Total) e até robótica (no canal Peixe Babel, da mineira Camila Laranjeira).

A divulgação científica é bem forte no YouTube fora do Brasil. Para quem tem um bom entendimento da língua inglesa, vale a pena olhar canais como o Veritasium, o SciShow e o SmarterEveryDay.

Nicho e super-nicho

“O YouTube tem canais de nicho, e tem os de super-nicho. O meu é de super-nicho. Tem mais de mil vídeos, e são todos de astronomia”, diz o geofísico e doutor em geociências Sérgio Sacani, 42, do canal SpaceToday, dedicado à astronomia.

Segundo ele, a maioria dos inscritos do canal é de jovens adultos, e não necessariamente crianças.

“Por exemplo, se eu postar um vídeo hoje às duas da tarde, ninguém assiste. O pessoal que acompanha o meu canal já sabe que eu posto geralmente à noite, e é um público mais velho. É um público que trabalha. Então, durante o dia, eles não estão em casa para assistir vídeo”, diz. Antes de criar um canal de YouTube, Sérgio mantinha um blog com o mesmo nome. Uma parte dos seguidores “migrou” para a plataforma de vídeos, diz Sacani, cujo trabalho “oficial” é com engenharia de petróleo.

O público também é mais velho no canal da paleontóloga Aline Ghirardi. A maior faixa de espectadores tem de 24 a 35 anos de idade, segundo ela.

“O YouTube pede para postarmos no começo da tarde, que é quando as crianças estão acessando o site. E hoje o maior público do YouTube é de crianças. Mas não necessariamente isso funciona para a gente da divulgação científica”, diz Pedro Loos, 21, responsável pelo canal Ciência Todo Dia, que tem 257 mil inscritos. Ele começou a gravar, editar e publicar os próprios materiais ainda muito jovem, com 14 anos de idade. Naquela época, os envios eram sobre jogos eletrônicos.

Loos está concluindo o curso de Física na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje, ele vive da renda gerada pelo canal e pretende manter o projeto depois de formado. Um dos vídeos mais populares do canal é sobre o paradoxo de Fermi, visto mais de 300 mil vezes.

Se o universo é tão antigo e vasto, é provável que existam várias civilizações alienígenas. Mas se é assim, porque é que nenhuma delas nunca fez contato conosco? Essa é a contradição batizada em homenagem ao físico Enrico Fermi (1901-1954), e que Loos aborda no vídeo.

Tecnologia e exatas

O designer Estevão Pessota, 29, costuma deixar a TV ligada no YouTube. O próprio mecanismo de sugestões do site cria uma “playlist” para ele com os últimos envios dos canais de ciência e tecnologia nos quais está inscrito. Ele conta que um dos primeiros canais a chamar a atenção foi o PressTube (cujo clássico são os vídeos de objetos sendo destruídos em uma prensa hidráulica). Depois, migrou para sites com mais substância.

Os canais “cabeçudos” não se resumem a páginas de ciências exatas, porém. O historiador e professor Davi Martins, por exemplo, usa o YouTube para acompanhar canais que tratam de psicologia (como o do psicanalista lacaniano e professor da USP Christian Dunker) e, claro, de história (como o Leitura ObrigaHistória).

“Há muita crítica na academia a alguns canais como o Nerdologia (que também trata de História). Mas os próprios acadêmicos da área raramente se propõem a fazer algo desse tipo”, diz Martins.

“Sempre teve demanda, é só um novo meio”

Para o biólogo Paulo Jubilut, 37, não é correto dizer que o público brasileiro estava “carente” de conteúdos científicos. “Na realidade as pessoas já consumiam isto. Tinham acesso à divulgação científica por meio de jornais, revistas, TV. O que a internet fez foi criar uma nova forma de acesso. As pessoas são curiosas por natureza. Quem descobrir uma forma de atingir essa curiosidade vai fazer sucesso”, diz ele.

Até 2011, Jubilut dava aulas de Biologia em um cursinho em Santa Catarina, onde mora. Acabou demitido depois de “brigar com uns alunos bagunceiros”, segundo diz. Hoje, é responsável por uma página no Facebook que tem 3,3 milhões de curtidas. O canal no YouTube está com 1,1 milhão de inscritos.

Professor Paulo Jubilut
(Reprodução/Youtube)

“Me tornei um produtor de conteúdo de Biologia. Hoje são 25 pessoas trabalhando no escritório”, conta ele, que oferece videoaulas da disciplina e também presta consultoria para empresas. Embora o canal não se restrinja ao conteúdo didático, Jubilut recebeu recentemente o selo do YouTube Educação (ou YouTubeEdu). Trata-se de uma espécie de “certificado” que o site fornece para alguns produtores de conteúdos educativos.

A partir desse novo modelo, surge também uma nova forma de ensinar. Especialmente para as escolas e dentro das salas de aula. Afinal, essa é uma ótima maneira de cativar os alunos, devido ao grande interesse dos jovens por esse formato. Ou seja, essa ferramenta tem um grande potencial para engajar os alunos, promover sentido na educação, despertar o interesse (inclusive científico) e ainda combater a evasão escolar.

Da prensa de Gutenberg a Carl Sagan

Se você era criança na década de 1990, é possível que se lembre do programa O Mundo de Beakman, que foi exibido no Brasil pela primeira vez de 1994 a 2002, pela TV Cultura. Na geração anterior, o astrônomo Carl Sagan fez sucesso com a série Cosmos. Co-produzida pela BBC, a série foi exibida no Brasil pela Rede Globo, em 1982. O ator Sílvio Navas dublava a voz de Sagan na versão brasileira.

Mas a história da divulgação científica é muito mais antiga: foi ainda nos séculos 16 e 17 que os cientistas começaram a abandonar o latim (a língua “oficial” da ciência da época) e passaram a publicar livros em línguas vernáculas (como inglês, italiano ou espanhol), que alcançavam um público mais amplo.

Considerado um dos pais do método científico, o astrônomo Galileu Galilei (1564-1642) foi também um dos primeiros a escrever um livro de ciência para leigos. A obra foi redigida em italiano e utilizava diálogos entre personagens para facilitar o entendimento.

Na década de 1740 o editor inglês John Newbery (1713-1767) já comercializava livros de divulgação científica voltados para crianças e adolescentes. Um deles chegou a vender 30 mil cópias, uma quantidade muito expressiva para a época.

Matéria publicada pela BBC Brasil.

Publicado em Deixe um comentário

Os desafios dos professores de ciências para implementar abordagem investigativa no ensino

O aluno chega à sala de aula, senta em sua carteira, coloca o material sobre a mesa. O professor fala, escreve no quadro e o estudante escuta e copia tudo em seu caderno. A cena é, possivelmente, a que vem à cabeça da maior parte dos brasileiros ao tentar lembrar das aulas vivenciadas no período escolar. Inclusive nas disciplinas da área de ciências da natureza, em que há inúmeras possibilidades para que o aluno investigue, crie hipóteses e coloque a mão na massa.

O sistema em que o foco é o professor – e não o processo de aprendizagem – é antigo e vem sendo reproduzido há muito tempo. Os atuais docentes da educação básica, em geral, tiveram a mesma experiência ao longo de sua formação. O mesmo acontece com os pais, os gestores e os próprios alunos. Nesse cenário, sair da lógica vigente no país e implementar um ensino com maior protagonismo do aluno torna-se uma tarefa árdua.

Liliane Miranda, professora de química na rede pública em Arcos, Minas Gerais, conta que só conseguiu enxergar outras possibilidades para além das aulas expositivas após fazer uma pós-graduação em ensino de ciências por investigação. Desde então, vem tentando implementar iniciativas que deem ao aluno a possibilidade de protagonizar seu próprio processo de aprendizagem, criar hipóteses e buscar soluções para problemas reais. Mudar a cultura dos próprios alunos, porém, vem sendo um grande desafio. “Quando o professor quer inovar, o aluno estranha. Pergunta se não tem nada pra copiar”, conta.

Abordagem investigativa

Neste ano, a professora realizou um projeto sobre lixo com os alunos do ensino médio. A proposta era analisar como a comunidade em que vivem lida com o que descarta. “Os alunos aplicaram questionários nas casas, para investigar qual o perfil da comunidade em relação a lixo, a atitude referente a lixo e patrimônio. O que observei é que a atitude prática, para eles, parece que não é fazer científico”, diz a educadora.

Liliane fez um longo trabalho de explicação de todas as etapas do processo de pesquisa. “No final das contas, achei que foi bastante proveitoso. Mas não foi fácil”, analisa. Além da formação inicial nas licenciaturas apresentar problemas. Isso faz com que os professores só tenham contato com modelos diferentes de ensino nas especializações. A formação em serviço pouco tem contribuído com a melhora do quadro do ensino de ciências. “O que mais se aborda na formação continuada é a questão de avaliação, esquecendo que avaliação é o resultado. É preciso pensar no processo em si”, avalia Jenifer Xavier, professora de ciências e biologia na rede pública estadual de São Paulo.

A educadora, que estudou o ensino por investigação em seu mestrado, afirma que há diversos entraves para aplicar esse modelo de aula no dia a dia. No caso das aulas práticas, o problema é a falta de infraestrutura. A escola em que trabalha, por exemplo, não possui laboratório. No caso das aulas calcadas na realização de leituras de textos, elaboração de hipóteses e discussões – foco de suas pesquisas – o maior desafio é a cultura escolar.

“Aulas em que você instiga o aluno a falar são aulas que geram um pouco mais de barulho. Isso incomoda o gestor. Há a tradição de que o aluno só aprende em silêncio, mas, na verdade, ele aprende quando há troca”, afirma.

A importância do diálogo para incentivar a abordagem investigativa

Segundo Jenifer, o primeiro passo para colocar em prática o ensino por investigação é justamente estabelecer um canal de comunicação com o estudante. “Às vezes, você vê que o aluno não escreve, mas, oralmente, tem raciocínio maravilhoso”, explica. Por isso, é importante instigar a turma a elaborar hipóteses em voz alta. Isso faz com que ele passe por cima do medo de errar ou de ser julgado pelo professor.

Mas os desafios não se restringem à rede pública. Nas escolas particulares, apesar da infraestrutura não ser um problema, há a pressão do vestibular, e, em alguns casos, a ideia de que para ser aprovado é preciso ter abordagem conteudista. “Estudantes, pais, gestores e o próprio professor precisam enxergar que, ao desenvolver projetos, adquirem habilidades que não adquirem decorando conceitos”, diz Aline Geraldi, professora de biologia e física do ensino fundamental e médio na rede particular em Jundiaí (SP).

Aline também orienta projetos de iniciação científica dos alunos na escola onde trabalha, inclusive buscando parcerias com universidades. Na sala de aula, diz procurar instituir aulas com metodologias ativas, instigando os alunos a criar hipóteses. Mas analisa que nem sempre o docente tem essa liberdade. “É complicado para todos os educadores porque temos material didático para cumprir, um currículo extenso. Quando a escola dá autonomia para o professor, fica mais fácil.”

Publicado em Deixe um comentário

3 curiosidades para você conhecer o legado da cientista Marie Curie

Muito se sabe sobre Marie Curie, cientista responsável por descrever os elementos químicos Polônio e o Rádio e primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel — Física (1903) e Química (1911). Mas para celebrar a vida dessa mulher incrível, separamos três fatos sobre ela que você talvez não conheça.

Ela foi educada em segredo

Curie nasceu e cresceu em Varsóvia, na Polônia, que na época era controlada pelo Império Russo. Ela obteve sua educação universitária na Flying University. A instituição secreta polonesa que educava mulheres em locais que migravam de acordo com a necessidade.

Isso ocorreu porque na época os russos consideravam educar mulheres uma atividade ilegal: “Os esforços de germanização e rusificação (dependendo da pare da Polônia onde se vivia) visando o ensino superior tornaram quase impossível os cidadãos participarem de um currículo que, de alguma forma, não estivesse trabalhando para apagar a cultura polonesa”, explica o especialista Eric Grundhauser, para o Atlas Obscura.

Marie Curie

Mulheres fizeram uma vaquinha para ajudá-la a continuar suas pesquisas sobre o Rádio — elemento que ela mesma descobriu

Quando visitou os Estados Unidos em 1921 Marie Curie ganhou um grama de Rádio para continuar suas pesquisas graças a uma arrecadação feita por mulheres norte-americanas — naquele período, esse material era extremamente caro. O presidente dos EUA durante aquele período, Warren G. Harding, e sua esposa, Florence Harding, apoiaram o esforço de angariação de fundos.

“Ela, que descobriu o Rádio, que compartilhou livremente todas as informações sobre seu processo de extração, e que havia dado o Rádio para que os pacientes com câncer pudessem ser tratados, encontrou-se sem os meios financeiros para adquirir a substância cara”, relata Ann Lewicki no periódico Radiology. Em 1921 um grama de rádio custava US$ 100 mil, o que hoje equivale a aproximadamente US$ 1,3 milhão.

O esforço feminino deu certo e em menos de um ano a quantia foi obtida. O que sobrou, exatos US$ 56.413,54 foram deixados para as pesquisas da filha Irène Joliot-Curie. Ela recebeu o Nobel em 1935.

Os cadernos dela (ainda) são super radioativos

“As décadas de exposição de Marie Curie [à radiação] a deixaram cronicamente doente e quase cega de catarata e, finalmente, causaram a morte aos 67 anos, em 1934, de anemia grave ou leucemia”, escreve Denis Grady para The New York Times. “Mas ela nunca soube plenamente que seu trabalho havia arruinado sua saúde”.

O efeito da radioatividade é tão grande que hoje, mais de 100 anos após suas descobertas, os cadernos que a cientista utilizava ainda estão contaminados pelas substâncias. Hoje, seus arquivos são guardados em caixas de chumbo: para acessá-los, é preciso assinar um termo de responsabilidade.

“E não são apenas os manuscritos de Curie que são perigosos de tocar. Se você visita a coleção de Pierre e Marie Curie na Biblioteca Nacional, na França, muitas de suas posses pessoais — de móveis a livros de receitas — requerem roupas protetoras para serem manipuladas com segurança”, afirma Adam Clark Estes ao Gizmodo.

Matéria publicada em Smithsonian

Publicado em Deixe um comentário

Crianças brasileiras enviam experimento para Estação Espacial

Experimentos Científicos

Pela segunda vez na história, experimentos científicos brasileiros serão realizados na Estação Espacial Internacional (ISS). A primeiro a vez aconteceu em 2006, com o astronauta Marcos Pontes. Dessa vez, porém, os idealizadores da pesquisa serão consideravelmente menos experientes: estudantes da sétima série do Ensino Fundamental.

Um grupo de 335 estudantes participam da 12ª edição do Student Spaceflight Experiments Program (SSEP). Um programa do Centro Nacional para Educação Científica para Terra e Espaço (NCESSE), em que o governo norte-americano busca estimular a pesquisa entre os jovens.

Experimentos Científicos
Estação Espacial Internacional (Reprodução/Revista Galileu)

Brasileiros também participaram

O ingresso dos  brasileiros só foi possível graças ao engenheiro espacial Lucas Fonseca, diretor da Missão Garatéa, um consórcio privado brasileiro com objetivo de colocar um nanosatélite na órbita da lua.

Foram enviados 73 projetos de três escolas (Colégio Dante Alighieri e Escola Municipal Perimetral, de São Paulo, e da ONG Projeto Âncora, de Cotia). Eles foram apresentados a um júri técnico de 60 avaliadores, formado por pesquisadores das instituições que integram a Missão Garatéa. Dessas iniciativas, foram escolhidos dez trabalhos, que passaram por um processo de qualificação até chegarem a três finalistas.

O vencedor embarca ainda no primeiro semestre de 2018 no foguete da empresa americana SpaceX em direção ao ISS. O experimento será realizado por um astronauta da Nasa e, após quatro a seis semanas, será trazido de volta à Terra para análise dos resultados.

Conheça os experimentos finalistas

“Cimento espacial”

De que forma a microgravidade afeta o processo de endurecimento do cimento? A hipótese considerada pelos autores deste experimento é a da possível ocupação de outros planetas pelo homem. Isso se torna uma realidade cada vez mais próxima. Por isso, para o experimento,  serão acrescentados outros elementos ao cimento, como mistura de plástico verde. A turma descobriu que na ISS há uma impressora 3D que usa este material, por isso farão uso dele, que é um plástico sustentável.

“Efeitos da microgravidade sobre o sangue conservado para transfusão sanguínea”

Este trabalho da área médica visa estudo de possibilidade de atendimento de astronautas que venham a precisar de transfusão de sangue.

“A intervenção do tungstato no desenvolvimento bacteriano na microgravidade”

De que maneira a microgravidade interfere na atuação do tungstato de prata na inibição do desenvolvimento bacteriano? A bactéria utilizada foi a causadora do tétano. Este trabalho de física, química e biologia usa o tungstato, substância desenvolvida recentemente por um cientista brasileiro como forma de combater o tétano. Um dos objetivos é descobrir se há formas de criar uma vacina mais barata para a doença.

Matéria publicada pela Revista Galileu