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Cultura tem papel fundamental na integração entre escola e território

Imagem de cinco pessoas encostadas em uma parede de tijolo sorrindo e segurando bonecos de pano

Imagem de cinco pessoas encostadas em uma parede de tijolo sorrindo e segurando bonecos de pano

“É, de tédio a gente não morre.” Foi assim que Marília De Santis, gestora do Centro Educacional Unificado (CEU) Heliópolis, inaugurado em abril do ano passado, começou sua intervenção no evento “Encontros da Cultura: Arte e Educação”, promovido pela Representação do Ministério da Cultura (Minc) de São Paulo e pela Funarte. 

“É tanta coisa acontecendo hoje. Na cidade, no país e no mundo, que não dá pra falar de educação sem falar de cultura”. Marília é corresponsável pela gestão do conjunto de equipamentos que compõem o CEU Heliópolis. Cravado em uma comunidade que, após longos anos de movimentação social por direitos básicos, hoje se reconhece como Bairro Educador.

“A cidade precisa de artistas, educadores e arte-educadores. Enfim, de gente com alma para realizar isso que a gente sonha”, relatou a também educadora, enquanto comentava que, naquele momento, estudantes, professores, educadores e a comunidade de Heliopólis estavam reunidos para discutir a programação cultural do final de semana na região. “É assim que se faz articulação e educação cultural de verdade”, provocou.

Imagem do artista Eufra durante uma apresentação em um auditório
Eufra começou sua fala com um cordel (Reprodução/Portal Aprendiz)

 

 

De canto em canto

“A cultura é uma ferramenta, não uma obrigação”, disparou Eufra Modesto, enquanto explicava a iniciativa que desenvolve em Várzea Paulista, Campo Limpo e Jundiaí, chamada Folclorinho. Nele, cantigas antigas, cordéis e cantorias são ensinadas para as crianças, que são instigadas a dividir com suas famílias. A canção passada adiante acaba por despertar velhas lembranças nos pais e avós. Além disso, ela aprofunda os laços comunitários com a escola.

Ele revelou que, recentemente, quando chegou em uma escola, encontrou 150 avós e 150 netinhas e netinhos cantando a cantiga “Índia”, aprendida pelas crianças no projeto. A articulação gerada pela canção redundou em piqueniques e encontros mensais. “Esses encontros trazem ainda mais atividades, cantigas de roda, cordéis, poesias e cantigas matutas. O fazer cultural, a mudança que a gente precisa, é nessa ação, na atitude. No momento em que o educador recebe a ferramenta da cultura popular, esse material vira um encantamento”, defende.

A formação, inclusive, pode vir em plena ação educativa. Pelo menos é isso que a experiências do PIÁ, nas periferias paulistanas, têm mostrado. Inspirado nas metodologias da Escola Municipal de Educação Artística (EMIA), o programa leva quatro artistas, de diferentes linguagens, para desenvolverem trabalhos em turma. É um projeto que é diferente em cada espaço e com cada conjunto de artistas, que vão se formando como educadores no processo.

Ela conta que, atrás do CEU Jaçanã, onde uma turma do PIÁ se formou, havia um rio. Ele foi tema do trabalho dos artistas, que resolveram trabalhar as miudezas do local. Descobriram que Jaçanã era uma ave e deram um ovo de vidro para as crianças levarem para casa e “incubarem poéticas”, em um processo de criação de narrativas naquela região. Um pente enterrado na várzea do córrego também foi material de intervenções. Isso resultou numa exposição fotográfica, mostrando que o território é pleno de oportunidades artísticas e educativas.

Existir é resistir

Val também participa do Poronga, um centro de formação em arte-educação social em São Paulo, que desenvolve diversas linguagens artísticas com educadores que atuam em projetos sociais de ONGs ou na rede regular de ensino. O projeto privilegia a participação de homens e mulheres negras sem escolaridade para criar turmas diversas e com incidência social.

“Para mim, isso demonstra uma grande coerência sobre que mundo queremos transformar e como. Quantos professores e professoras negras você teve?”, questiona Val, que ressalta a importância de trabalhar com pessoas que sejam “subversivas apenas por resistirem em existir”, e com linguagens e artes não hegemônicas. “É muito forte você trabalhar com arte indígena e negra, criar processos de horizontalidade e mudar olhares. Você amplia sua perspectiva sobre o mundo de uma maneira intensa”, completa.

Os “Encontros da Cultura” irão seguir ao longo desse ano, sempre na última quarta-feira do mês. Saiba mais pela página do Facebook da Funarte-SP.

Esse post é um resumo com alterações do Caindo no Brasil de matéria publicada pelo repórter Pedro Roberto Nogueira para o portal Aprendiz, com o título “Cultura tem papel fundamental na integração entre escola e território”. Clique no link para conferir a matéria original e completa.

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Projeto valoriza saberes populares a partir das memórias dos rios do território

rios

Alberto Caieiro, heterônimo criado por Fernando Pessoa, escreveu em um de seus mais famosos poemas que nem mesmo o Tejo – maior e mais importante rio de Portugal – era mais belo que aquele de sua aldeia, pois só no curso d’água local habitavam as histórias que acompanhavam sua vida.

Nas periferias da cidade de São Paulo, o argumento não é diferente. Por um lado, os diversos rios, córregos, riachos e afluentes que recortam os territórios evocam memórias, saberes e outras narrativas. De outro, protagonizam situações de dificuldade vividas pelos moradores como as frequentes enchentes.

Com esta percepção e buscando tornar as aulas da turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) mais interessantes e contextualizadas ao cotidiano. A EMEF Carlos Augusto de Queiroz Rocha, localizada na zona sul da capital, começou um processo de escuta de seus estudantes.

“Percebemos que muitos não sabiam sequer o nome dos córregos que afetavam suas vidas, mesmo que morassem lá há 40 anos”, conta a professora Tania Uehara Alves. Nessa região periférica, ficou claro que não só os moradores, mas também os rios estão invisibilizados socialmente”.

rios
Alunos do EJA particiapam de estudo do meio do projeto “Um rio que passou em minha vida”. Eles analisaram o entorno do Córrego Zavuvus (Reprodução/Portal Aprendiz)

Da constatação, nasceu o projeto “Um rio que passou em minha vida”. O projeto tem a proposta de levar os conteúdos das diferentes disciplinas. O trabalho é feito dentro da perspectiva das discussões e memórias em torno dos cursos d’água do entorno da escola. Há especial destaque para três deles:  os córregos Zavuvus, Cordeiro e Apucas, todos pertencentes à bacia hidrográfica do Rio Pinheiros.

Assim, as águas foram utilizadas para entender porcentagens, estatísticas e proporções, ciclos hidrológicos. Os rios e a ocupação da cidade também adentraram a sala de aula por meio de manifestações culturais de diferentes naturezas. Textos de Mia Couto e Carolina de Jesus foram usados no projeto.

“Conseguimos fazer estudos do meio e percorrer toda a extensão dos córregos. Também fomos às casas dos alunos. Conversamos com seus filhos e netos e envolvemos as famílias no projeto”, relata Tania, que coordena o projeto.

Conscientização e afeto

Outro ponto trabalhado foi que, de forma geral, os alunos – muitos deles migrantes – não viam os córregos da região com o mesmo carinho que lembravam dos rios de suas infâncias, sinônimos de diversão e sustento. Sabendo da importância de um olhar empático para a conscientização e aprendizagem, o projeto buscou então tecer, de maneira interdisciplinar, relações entre os rios de agora e aqueles que ficaram na memória de cada um.

O processo histórico e político de urbanização das periferias também foi abordado pelo projeto com criticidade. Como resultado, os alunos passaram a ter um novo olhar para as enchentes que periodicamente assolam a comunidade. “O discurso inicial era de que elas eram culpa dos moradores que jogavam lixo na rua e nos córregos. Nosso trabalho foi mostrar que isso também contribui, mas que, na verdade, há um processo maior de descaso pelo qual a cidade passou”, explica Tania Uehara.

Outra estratégia bem sucedida foi utilizar a arte como ferramenta para reavivar as memórias dos alunos e valorizar suas identidades. “A população do bairro não se sente representada e nem valorizada, então trazer suas origens e identidades é uma ação de muita potência”, acredita Tânia. “Os alunos recuperam suas cantigas, reavivam memórias e trazem suas famílias para participar desse processo. É uma experiência profunda de conhecimento da própria história”, finaliza.

Territórios Educativos

O projeto “Um rio que passou em minha vida” foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio. O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida. Assim, integra os saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo.

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz