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Educação para a cidade: como incluir o território na aprendizagem

Imagem de uma menina tirando uma foto com um celular através de uma grade em um campo

Em 2016, a EMEF Emiliano Di Cavalcanti passou a ser uma escola de tempo integral. Eles buscaram colocar no currículo práticas pedagógicas focadas no desenvolvimento integral e cidadão dos estudantes. Uma delas foi o projeto “Território do saber: Trabalho de Campo”, desenvolvido pelo professor Carlos Asakawa Novais, que reflete a descoberta e redescoberta dos territórios. Por lecionar geografia, o educador encara os territórios como uma categoria de análise, uma ferramenta para entender o mundo. Por isso, iniciou o projeto junto a escola em 2011. Antes da incorporação da Educação Integral ao Projeto Político Pedagógico (PPP) da EMEF.

Na época, o trabalho de campo era oferecido no contraturno escolar aos interessados. Mas o objetivo era o mesmo: não limitar-se ao perímetro da escola, apresentando novos lugares e reflexões sobre o território. Nesse modelo, os estudantes faziam uma viagem grande por ano e diversas visitas ao bairro e arredores da escola. Assim, eles trabalham temas como impacto do turismo, moradia e transporte. Já as “grandes” viagens tinham como principais destinos cidades paulistas como Campos do Jordão, Taubaté e Registro, em um reconhecimento de patrimônios históricos e ambientais.

Territórios Educativos

Imagem de uma menina tirando uma foto com um celular através de uma grade em um campo
(Reprodução/Youtube)

Com a mudança do PPP da escola e a adesão à Educação Integral, a escola transformou o projeto em uma prática regular. Assim, ele se tornou parte de uma série de projetos denominados Território do saber. Segundo o professor responsável pela ação, essa decisão expandiu as possibilidades do Trabalho de Campo. Afinal, ele passou a ter mais verba e tempo disponíveis para as atividades.

“As saídas têm sempre uma intenção pedagógica. Portanto é preciso ter uma bibliografia específica para a turma e planejar as atividades. Educação integral não significa apenas aumentar o tempo do aluno na escola. E sim trabalhar uma série de competências, que é o que buscamos fazer com esse projeto”, explica Carlos. Atualmente, há duas turmas de anos mistos, que têm aulas duas vezes por semana e realizam, em média, uma viagem grande por semestre e outras dez saídas nas proximidades da escola.

O projeto Território do Saber: Trabalho de Campo foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos. Essa é uma iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Há também o patrocínio da Universidade Estácio. O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que explorem as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida, integrando saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo e de diversos tipos de unidades escolares. Confira os outros projetos vencedores.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Escola integra território ao currículo e expande educação para a cidade”, da repórter Nana Soares para o portal da Cidade Escola Aprendiz. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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O que faz de Horizonte, Ceará, a única cidade educadora do Nordeste

Crianças caminhando pela Cidade educadora Horizonte
Crianças caminhando pela Cidade educadora Horizonte
Crianças caminhando pela cidade Horizonte (Divulgação/Facebook da prefeitura)

Localizada a 40 km de Fortaleza, capital do Ceará, Horizonte é a única cidade do Estado e também do Nordeste a integrar a Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE).

O compromisso, firmado em 2016, inseriu o município em uma rede de cidades no Brasil e no mundo. Nessa rede, há o comprometimento de reconhecer e promover seu papel educador na formação integral dos habitantes. Assim, rompendo com a lógica de políticas fragmentadas e baseando-se na intersetorialidade. Alguns exemplos são áreas como educação, saúde, meio ambiente e cidadania.

Em 2017, a Secretaria Municipal de Educação e a Prefeitura de Horizonte convidaram Márcio Carvalhal, coordenador da Rede Juntos pela Educação Integral, a desenhar juntamente à gestão um programa de Cidade Educadora.

Especialista na implementação de projetos similares – foi um dos responsáveis pela criação do Ecomuseu de Maranguape (CE)  – Márcio conta como tem sido essa trajetória. “De agosto até dezembro de 2017, estruturamos uma formação sobre educação integral e cidade educadora agregando as secretarias da cidade. Já este ano, formamos um grupo de trabalho para construir o programa”.

O grupo se concentra na produção de conteúdos, metas e estratégias. Seu objetivo é ajudar a sistematizar e oxigenar práticas educadoras já existentes na cidade. Assim, é possível sua multiplicação: “Horizonte tem muitas ações de cidade educadora, mas elas estão isoladas. O programa vem fortalecê-las, dando sentido e intencionalidade educacional, possibilitando sua inovação”, elucida Márcio.

Memória e escuta: conheça algumas práticas educadoras de Horizonte

Sala de memórias de Horizonte

As práticas do território horizontino são possíveis porque, segundo o coordenador, a população local tem boa predisposição para fazer uso de espaços públicos e está aberta a novas experiências pedagógicas. Uma das iniciativas são as Salas de Memórias.  Essas casas antigas e desabitadas foram convertidas em museus onde moradores contam histórias. Assim, eles preservam patrimonial e memorialmente seu bairro.

Na área de cidadania, Prefeito Mirim  é um projeto onde uma criança se candidata para ser prefeita pelo período de dois anos. Com isso, há um envolvimento efetivo nas políticas públicas da cidade. Ela tem disponível a verba do Orçamento Participativo da Criança e do Adolescente. Assim, ela pode usar isso para aplicar em projetos escolhidos pela comunidade infantil. Ano passado, uma das ideias votadas foi a construção de parques infantis nas praças. Outras sugestões vencedoras foram escolas de futebol que funcionem aos sábados e realizações de competições esportivas entre as escolas.

Já na área da saúde, a cidade se destaca pelo incentivo ao parto humanizado. Eles apostam na formação profissional de doulas e parteiras para assistir mulheres que optarem por esse tipo de concepção. O Hospital e Maternidade Venâncio Raimundo de Sousa é referência na temática e foi convidado a falar na Semana das Cidades Educadoras.

Cidade educadora pressupõe educação integral

Durante a tecedura do programa Cidade Educadora, o grupo de trabalho tem enfrentado o desafio de discutir a escola integral para além do alargamento da jornada diária. Márcio acredita que será um processo lento transformar a escola tradicional. Afinal, nesse modelo as provas ainda balizam a qualidade do ensino, em espaços que entendam a concepção de sujeito integral.

“Ainda existe uma ligeira resistência em colocar a escola à serviço da comunidade. Porque ainda se tem o conceito de que a rua é um lugar perigoso e de que é preciso tirar os jovens dela”. Ele reforça que um dos motes de lançamento do programa será justamente a compreensão de que a cidade educadora só é possível se a educação praticada nela partir da concepção de desenvolvimento integral do ser humano. A partir dessa perspectiva da educação, o engajamento dos alunos é algo muito mais natural e comum. Consequentemente, questões como a evasão escolar, por exemplo, podem ser resolvidas com mais facilidade.

Além da consolidação de metas, estratégias e conteúdos, Márcio prevê que o programa incentive a participação da sociedade. “Durante sua execução, serão identificados líderes, em especial as mulheres, que têm bastante força nas comunidades”, ele conta. “Esses líderes precisam de uma organização mínima para formar comitês locais de comunidades educadoras que adicionem ideias ao programa”.

O GT reuniu-se para seu último encontro no dia 21 de fevereiro e pretende finalizá-lo em março. A ideia é apresentá-lo em abril para a prefeitura e Secretaria de Educação e também no Encontro de Redes Brasileiras de Cidades Educadoras.  O encontro acontecerá esse ano em Vitória (ES), sede nacional da Associação Internacional de Cidades Educadoras. Depois de aprovado, o programa terá duração até 2020.

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz.

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Tião Rocha e o caminho do afeto na educação

Educação e afeto podem estar muito próximos ou muito distantes no cotidiano da escola. Para debater esse tema, o SESC Campo Limpo reuniu Angelina Pereira, especialista em Biodança; Binho, que fundou o Sarau do Binho e outras ações culturais; e Tião Rocha, idealizador e diretor-presidente do CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) para o painel “O caminho do afeto para a educação”.

Educação e afeto a partir de vivências integrativas

Angelina começou definindo a prática da Biodança. Segundo ela, um sistema que favorece o desenvolvimento humano através de vivências integrativas, induzidas pela música e dança. Desenvolvida por Rolando Toro, a prática valoriza “a musicalidade do universo, que deve existir dentro de cada ser humano. A pessoa perde sua identidade por estar dentro de um protocolo”, explica.

Educação e afeto estão muito presentes na prática. A base da Biodança tem muita relação o afeto, porque defende o “olhar de verdade” e o aprender com o outro, na troca. “O educador precisa de alguém que olhe para ele”, completa, dialogando com o público, formado majoritariamente por professores da rede pública, “eles não conseguem melhorar se sempre são rechaçados”. Conheça mais sobre seu trabalho no site da Escola Paulista de Biodanza.

“Professor é aquele que ensina, educador é aquele que aprende”

Tião RochaTião começou – e prosseguiu – sua fala de forma bem mineira: contando causos. Como, por exemplo, a história de sua tia, que era uma rainha. Na escola, nunca acreditavam quando ele contava isso, os professores logo falavam para ele ficar quieto e prestar atenção na história da realeza que estava sendo contada, sem inventar moda. Apenas após anos de faculdade que ele pôde se encontrar com a história de sua família-real: estudando sobre os reis do Congado e a cultura afrobrasileira.

Seguindo seus estudos, se formou, fez mestrado e doutorado, até se tornar professor. Com o tempo, porém, percebeu que “a faculdade queria ensinagem, e não aprendizado”. Se cansou das fórmulas e “decorebas” e pediu demissão. Naquele momento, ele pensou: “a partir de hoje quero ser educador. Professor é aquele que ensina, educador é aquele que aprende”. Tião criou, então, uma instituição que o ajudasse a aprender. Em seu Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, localizado em Araçuaí (MG) mostra que “é possível fazer educação fora da sala de aula”. A experiência foi retratada pelo documentário Quando Sinto que Já Sei, que colaborou no livro do Caindo no Brasil.

Tião Rocha já levou sua filosofia e seus ensinamentos para diversas regiões do país e hoje atua em comunidades rurais do Maranhão para desenvolver um centro de referência em educação do campo. Para ele “a educação é algo que acontece no plural. Não é algo que você tem, é algo que você troca. Educador é aquele que gera o processo de troca de aprendizado”.

“O sarau tem sido uma forma de `afetar` o outro”

Robinson Padial, mais conhecido como Binho, é poeta e organiza saraus na periferia há mais de 20 anos. Em 1995, conheceu Angelina e a prática da Biodança e foi nessa mesma época que começou a incluir a poesia no cotidiano de seu bar, na zona sul de São Paulo. Desde então, são muitas as atividades realizadas no território pelo Coletivo Sarau do Binho que “afetam” seus participantes de forma transformadora. Entre elas: a biblioteca comunitária Brechoteca, a bicicloteca – que distribui livros em pontos de ônibus da região – e a Felizs – Feira Literária da Zona Sul, da qual a conversa fez parte.

O encontro terminou com os professores presentes na platéia contando suas experiências dentro e fora de sala de aula. Eles dividiram os momentos que usaram do afeto para se aproximar de crianças e jovens e transformar suas vidas. Para finalizar a noite, os presentes participaram de uma vivência de Biodança, guiada por Angelina, com música e integração para aquecer a noite fria paulistana com muita compaixão e empatia.

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Zonas Livres de Leitura democratizam acesso ao conhecimento

Imagine uma biblioteca digital gratuita. Um acervo de mais de 100.000 títulos diversificados e em vários idiomas instalado em seu celular ou tablet. Nessa biblioteca, não há cartões de acesso nem registro de seus hábitos de leitura, há apenas um cadastro inicial. Seus dados são protegidos e não há publicidade nem nada que interrompa sua leitura.

Por um mês, os cerca de 4 milhões de habitantes da Croácia viveram essa realidade. Isso foi possível graças à implementação pioneira das “Free Reading Zones” (“Zonas Livres para Leitura”, em tradução livre). Este é um conceito formulado pela editora croata Mirela Roncevic, especialista nos novos potenciais de leitura trazidos pelo meio digital e coordenadora do projeto No Shelf Required, que financiou o projeto piloto.

As “Free Reading Zones” – ou FREZ – são áreas (que podem ter a extensão de um único restaurante ou até um país inteiro) em que a leitura é livre para qualquer pessoa. Basta baixar um aplicativo para acessar o acervo. Nesse sistema, o usuário faz download do app (que funciona com geolocalização). Basta se cadastrar e ele e já tem acesso imediato aos livros. É possível inclusive fazer download para leitura offline. É totalmente gratuito para quem usa, tendo apenas uma mensagem de boas vindas oferecida por quem o financia.

“A ideia de bibliotecas não é nova, mas há muitas regiões em que o acesso aos livros é limitado e é para isso que surgem as Free Reading Zones: para eliminar qualquer barreira de acesso aos livros e dar ao usuário o poder de escolha”, explica Mirela, afirmando que as FREZ são sistemas em que todas as partes envolvidas ganham.

Embora gratuito para o usuário final, o projeto garante que os autores e editoras continuem recebendo por seu trabalho via financiadores. “Disponibilizar um acervo tão grande e honrar os autores têm custos, a questão é que ele não é repassado ao leitor”, pondera a editora croata. O modelo estabelecido até agora foi de remunerar não a cada download, mas a cada leitura das obras. Um diferencial é que o valor é pago mesmo para leituras parciais, sendo calculado de acordo com a porcentagem lida.

Zonas Livres de Leitura

Primeiras experiências

A semente das Free Reading Zones brotou pela primeira vez nos Estados Unidos. Uma empresa de e-books chamada Total Boox queria disponibilizar seu acervo para os usuários das bibliotecas parceiras. Mirela tornou-se responsável pelo projeto e viu o potencial de democratização da leitura trazido por ele.

No início, o modelo tinha as bibliotecas como financiadoras, em uma proposta de transformação radical de seus papeis na comunidade. “Esse modelo aniquila completamente a ideia de comprar conteúdo e passar a tê-lo como propriedade, algo muito estrutural no modelo atual. Em vez disso, propunha que elas fomentassem o acesso a leitura”, narra ela em seu livro “Free Reading Zones”, no qual relata a experiência. Por propor uma mudança tão estrutural, foram poucas as bibliotecas que abraçaram o projeto. “Então pensei: por que as bibliotecas são as únicas organizações a pagar por isso? Por que não todo espaço público ou privado que deseja fomentar a leitura?”

Croata, Mirela enxergou em seu país natal as características perfeitas para a implantação das zonas livres de leitura. Depois de estruturar o modelo de negócio e aperfeiçoar as FREZ, levou o acervo já constituído com a Total Boox para o projeto-piloto no país europeu. Durante um mês, o café local foi uma área onde os livros podiam ser lidos livremente.

Croácia: país livre para leitura

Com a experiência no Velvet Café, ficou nítido que a ideia agradava a população croata. Então, em 5 de dezembro de 2016, o país europeu tornou-se um território livre para leitura. A FREZ foi adotada por um mês. O financiador foi o No Shelf Required, da própria Mirela, que o fez para demonstrar o potencial das Free Reading Zones. Ao fim do período, buscava estimular que governos e empresas continuassem a sustentar a ideia.

Na primeira semana, 24 mil pessoas se registraram no aplicativo “Croatia Reads”. Ele disponibilizou um acervo de mais de 100 mil livros à população. No mesmo período, foram 136.000 downloads de e-books. Também foram quase 24 mil leituras, a maioria em inglês, e que custaram cerca de 30 mil dólares.  No total, foram 33 mil pessoas cadastradas no aplicativo entre 5 de dezembro e 5 de janeiro de 2017.

Apesar das conversas e negociações com o governo e com instituições privadas, o projeto ainda não teve continuidade após o fim da experiência piloto. No entanto, deve seguir em proporções menores, abarcando o perímetro de empresas ou cidades de pequeno porte. “Sigo esperançosa que o Croatia Reads vá inspirar gestores a permanecerem abertos à ideia da Croácia como uma biblioteca virtual gratuita”, afirma Mirela.

Quanto custa?

Segundo os cálculos da idealizadora, seriam necessários cerca de 800 mil dólares anuais para custear o programa na Croácia – incluindo aí os 17 milhões de turistas que visitam o país e que também teriam acesso à FREZ, o que ela considera um custo muito baixo comparado aos benefícios trazidos. “Se eu pudesse escolher o patrocinador, seria o Estado, afinal de contas é dele a responsabilidade de promover educação e leitura no país, mas não acho que deva se limitar a ele.  Empresas, ONGs e quaisquer outros patrocinadores são bem-vindos, todos vão seguir as mesmas regras e, no fim, quem tem que se beneficiar é a população. Isso é inegociável”, defende ela.

 Multiplicação da experiência

O aspecto mais enfatizado por Mirela Roncevic quando fala das FREZ é o acervo ser o mesmo para toda a população. Além disso, a editora frisa a simplicidade do modelo, que permite sua replicação em qualquer lugar.

No entanto, ainda há a inevitável barreira do acesso tecnológico. No Brasil, por exemplo, apenas 28% das pessoas das classes D e E acessam a internet, enquanto na classe A esse número chega a 95%, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2015. A criadora das Free Reading Zones reconhece essa dificuldade. No entanto, ela acredita que ela não pode ser um empecilho para a implantação do projeto.

“Por aqui também tivemos dificuldades: menos de 10% dos cidadãos têm Ensino Superior e há mais de mil ilhas em nosso território, locais onde o acesso a bibliotecas é bem mais escasso”, pondera. “Mas percebemos que a FREZ aumenta o hábito de leitura das pessoas”, completa Mirela. Ela identificou que a pequena extensão da Croácia permitiu que a experiência fosse realizada em todo o território.

O retorno trazido pelos usuários também mostrou que o Croatia Reads foi de fácil navegação e não houve grandes dificuldades para acessá-lo. Isso aconteceu mesmo entre quem tem menos afinidade com a tecnologia. “Meu ponto é que você precisa criar as condições para que as pessoas leiam e então deixá-las livres para seguirem seu caminho. Eu sei que isso parece idealista, mas temos que começar de algum lugar.”

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz

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Coletivos usam filosofia e arte para atrair alunos de escolas públicas

Era dia 9 de Agosto, quando fomos visitar a Escola Estadual Padre Sabóia de Medeiros, na região sul de São Paulo. Era hora do intervalo e os alunos caminhavam pelo pátio, curiosos com os jovens forasteiros do Coletivo Válvula. Eram mais de 100 pessoas dispersas em um espaço azul com grades acinzentadas nas portas.

Quando o microfone foi ligado, Rodrigo Alcântara começou a apresentar os coletivos participantes daquele dia. Os jovens foram, aos poucos, se posicionando em volta e participando daquele projeto prático de aprendizagem.

“Entre a Ação e o Acesso” foi um espetáculo de interpretação e dança realizado pelo Válvula. O grupo tem embasamento teórico nos pensamentos de Deleuze e as obras de Francis Bacon. A partir de filosofia e arte, os atores buscam trazer a educação de uma maneira mais significativa para estudantes de escolas públicas do Estado de São Paulo. O projeto é feito parceria com Núcleo Iêê, Fragmento Urbano, Pretas Peri, Coletivo Calcâneos, Poetas Edson Lima, Vic Oliveira e Ingrid Martins.

Filosofia e Arte Coletivo Válvula

Filosofia e arte pelas ruas da cidade

Com o objetivo de causar uma interferência positiva na rotina dos estudantes, o projeto proporcionou aos alunos um acesso cultural itinerante, unindo filosofia e arte. Nele, o transporte público foi visto não só como espaço de locomoção para chegar à escola todos os dias. Agora ele também é visto como espaço de interferência, cultura e possibilidades.

O evento foi iniciado com apresentação do espetáculo “Linha de Fuga”, na própria escola. Seguido de uma série de intervenções artísticas no transporte público, até a chegada no Projeto Casulo. Lá, aconteceu o fechamento do projeto por meio de um sarau com participação ativa dos próprios alunos.

Aulas de Filosofia foram inspiração

Cidade EducadoraO Coletivo Válvula nasceu em 2014 no Núcleo Luz, da Fábrica de Cultura. A partir das aulas de filosofia com Emílio Terron, os integrantes começaram a pensar essa matéria como inspiração para trabalhos corporais com a dança.

O grupo foi inspirado particularmente pelo texto no “Atual, virtual e o possível”, proposto por Gilles Deleuze. Eles passaram a criar coreografias e explorar a cultura a partir de fenômenos filosóficos propostos por pensadores como Francis Bacon e Focault.

As apresentações começaram nas instituições estaduais nas quais os próprios integrantes do coletivo estudaram. O trabalho foi tão inspirador que acabou ganhando forma e força para percorrer o Estado, apoiado por editais.

O Válvula percebeu a necessidade dos alunos de expor talentos, habilidades e desabafos. Com isso, passou a realizar saraus abertos, após as próprias apresentações. Assim, todos podem participar de forma ativa do espetáculo.

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Mapear para não esquecer: os territórios negros da cidade de São Paulo

São Paulo tem em sua história diversos territórios negros que surgiram durante o período escravocata. O Centro de Culturas Negras do Jabaquara (CCNJ) tem como missão manter viva a história de resistência e valorização das culturas negras.

A Casa, que hoje integra o Museu da Cidade, foi levantada por escravos e logo se tornou ponto de resistência. Quando padres mudaram-se para o Sítio da Ressaca, não raro abrigavam negros em fuga da escravidão. Em 1980, ao lado da casa feita de taipa de pilão, ergueu-se o prédio de vidro e concreto que hoje abriga o CCNJ.

Neste local, um grupo de professores realizou o curso “Potenciais Educativos do Território Urbano: rumo à uma Cidade Educadora”. Guiados pelo coletivo Crônicas Urbanas, os educadores exploraram o apagamento da identidade negra de territórios consagrados de São Paulo, como o Bixiga e a Liberdade.

Os territórios negros em São Paulo

Os historiadores Fábio Dantas e Lilian Arantes e a publicitária Fernanda Fragoso Zanelli ouviram as histórias dos professores com a cidade de São Paulo. Eles apontaram para o fato de que são raríssimas as vezes em que o elemento étnico-racial faz parte dos relatos. Segundo os especialistas, essa já é uma primeira forma de apagamento das vivências negras no território. Esse processo fica ainda mais evidente quando pouco se fala de tradições ou histórias não-brancas em determinados bairros.

A Liberdade, por exemplo, antes da imigração japonesa, tinha forte tradição africana. A Praça da Liberdade era chamada de Largo da Forca. Ali eram condenadas, mortas e enterradas as pessoas escravizadas que lutaram por sua libertação. De maneira similar, o bairro do Bixiga era sede de diversos jornais e associações negras, como o Clarim D’Alvorada. Hoje, ambas as regiões são conhecidas por outras colonizações. Isso reforça como a política governamental de embranquecimento da cidade teve grande alcance.

Coletivo Crônicas Urbanas
Os historiadores Fábio, Lilian e a jornalista Fernanda são membros do coletivo Crônicas Urbanas. O grupo trabalha direito à cidade com perspectiva racial (Reprodução/Portal Aprendiz)

Itinerâncias da Experiência Negra

Contemplado pelo edital Redes e Ruas de 2016, o Crônicas Urbanas iniciou a empreitada de resgatar uma história sistematicamente apagada formal e informalmente em toda a cidade, a partir do mapeamento de territórios negros. Os pesquisadores realizaram um extenso trabalho histórico com o objetivo de cartografar a São Paulo negra. O resultado desse levantamento realizado pelo Crônicas Urbanas pode ser conferido no Guia dos Itinerários da Experiência Negra: Um passeio histórico por São Paulo.

Mata dos territórios negros em SP
Mapear os pontos de resistência negra é um dos trabalhos do coletivo Crônicas Urbanas (Reprodução/Portal Aprendiz)

Potenciais Educativos

O curso “Potenciais Educativos do Território Urbano: rumo à Cidade Educadora” é uma iniciativa da Associação Cidade Escola Aprendiz. A iniciativa que incentiva o conhecimento dos territórios negros na cidade de São Paulo foi viabilizada por meio do Programa Cidades Educadoras. Para a execução, foram criadas parcerias com a Diretoria Regional de Educação do Butantã e coletivos, instituições e organizações sociais de São Paulo.

Fonte: Portal Aprendiz

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3 cidades educadoras que transformaram suas realidades locais pelo aprendizado

Atualmente, 470 cidades de 36 países se reconhecem como cidades educadoras. Organizadas em rede pela Associação das Cidades Educadoras (AICE), acreditam que todas as cidades têm potencial educativo. O Portal Aprendiz listou 3 cidades brasileiras que estão trabalhando para ativar esse potencial. Com o trabalho, esses municípios buscam garantir desenvolvimento integral para todos os cidadãos.

Grêmios escolares para tornar Santos uma cidade educadora

Cidades Educadoras
Foto: Reprodução

Conhecido por sediar o maior porto da América Latina, a cidade do litoral paulista tem sido reconhecida por diversas iniciativas educacionais. A secretaria de educação do município investe em diversas ações que fortalecem a ligação da comunidade com a escola. Como uma cidade com muitos moradores idosos, o município também criou projetos como o “Vovô Sabe Tudo”. A iniciativa leva idosos para participar da educação como condutores de bondes, contadores de história e cuidadores de hortas comunitárias.

Além disso, grêmios escolares foram incentivados e criou-se uma Câmara Jovem. Cidades educadoras contam com a participação jovem. As duas ações buscam fortalecer os espaços de participação voltados para crianças e adolescentes. Projetos como esses também permitem que os jovens se envolvam ativamente nos debates sobre o futuro da cidade.

Programa que envolve várias secretarias muda realidade de Sorocaba

Reconhecida pela Unesco desde 2010 como uma Cidade Educadora, o município criou em 2005 o programa “Cidade Educadora, Cidade Saudável”. O projeto uniu esforços da Secretaria de Educação com as de Saúde, Esporte, Lazer, Cultura e Cidadania e Segurança.

A partir disso, parques, praças, ciclovias e academias ao ar livre foram construídos. A prefeitura também trabalhou para despoluir o Rio Sorocaba.  O Portal Aprendiz conta: “A partir daí, estabeleceu-se um sistema pedagógico ancorado em três pilares: aprender a cidade, aprender na cidade e aprender com a cidade. Como toda mudança, a proposta exigiu a qualificação dos educadores e a criação de roteiros pedagógicos que envolvessem as escolas e espaços”.

O projeto não parou por ai. Trilhas educativas foram adotadas para que os professores criassem percursos pedagógicos pela cidade e se entendessem como mediadores de conhecimento. Com a tarefa de repensar a educação, os profissionais acabavam por rever também seus papéis.

Ecomuseu no interior do Ceará apoia a criação de uma comunidade educadora

Ecomuseu recebendo moradores
Foto: Reprodução | Portal Aprendiz

Perto de Fortaleza, o município de Cachoeira abriga o distrito de Maranguape, e nele, seu Ecomuseu comunitário, sediado num antigo casarão que hoje faz parte de uma terra coletiva. Mapeada pelo Caindo no Brasil em 2013, a comunidade rural tem cerca de 1500 habitantes que vem experimentando como podem aprender juntos em diálogo com o território.

“Com o Ecomuseu a comunidade interage mais com o global. Vamos abrindo horizontes maiores e as pessoas vão mudando seu sistema de crenças, ao mesmo tempo em que fortalecem o que há de cultural, popular e tradicional”, reflete Nadia Helena, da coordenação dos projetos de educação do Ecomuseu. O acervo do projeto é preparado continuamente pelos moradores e estudantes, através de pesquisas escolares.

A matéria do Portal Aprendiz reforça como a cidade aprendeu, com seu passado de cooperação para garantir as colheitas e a posse da terra, a trabalhar em conjunto. A Escola Municipal José de Moura entrou de cabeça na jogada. Ao lado da cultura e do meio ambiente, a educação é um dos pilares do Ecomuseu para que a comunidade seja uma referência nas cidades educadoras.

“O projeto entrou em definitivo na vida escolar. Todo o público da escola, educadores, estudantes e funcionários, passam a integrar as atividades de educação integral. O Ecomuseu se estende para escola e a escola para eles, misturando o espaço físico, os tempos e ativos de aprendizado”, afirma Nádia.

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BrincaCEU une gerações pela valorização do brincar

BrincaCEU Educação Integral

“O CEU Butantã é o CEU mais crianceiro da cidade.”

A afirmação é de Naíme Andréa da Silva, ex-gestora do CEU Butantã. A convicção da educadora deve-se a dois fatores. O aniversário da instituição é celebrado no mesmo dia que a homenagem a São Cosme e Damião, tidos como protetores das crianças. A data comemora ainda a criação do projeto BrincaCEU. Iniciado em 2015, reafirma a importância do brincar para o desenvolvimento das crianças de todas as idades.

Alinhado aos conceitos de educação integral e cidade educadora, o projeto proporciona à comunidade do CEU Butantã, especialmente aos alunos e suas famílias, um momento dedicado exclusivamente ao brincar. E no BrincaCEU o brincar é coisa séria. Configura-se como uma oportunidade para unir gerações e potencializar o coletivo, a criatividade e o desenvolvimento infantil.

“Em sua concepção, o BrincaCEU carrega a ideia de que as crianças são sujeitos. Defendemos que, em uma Cidade Educadora, o olhar delas indica o bem estar coletivo. Se está bom para os pequenos, está bom para todo mundo”, ressalta Naíme. Para garantir o protagonismo da infância, o projeto foi desenhado congregando vários núcleos do CEU. Juntos, somaram forças para oferecer um brincar de qualidade às crianças que ali frequentam. Conforme relembra Diambas Correia, analista de esportes e cultura do CEU Butantã e co-criadora da iniciativa, faltava um espaço dedicado a elas, especialmente aos fins de semana.

Os primeiros brinquedos disponibilizados no BrincaCEU foram doados pela própria comunidade, já que o CEU não tinha verba para adquiri-los. O projeto foi concebido inicialmente como uma atividade mensal. Ele começou tímido, mas efetivo, congregando alunos da educação infantil até a Educação de Jovens e Adultos (EJA), os professores e as famílias. Tornou-se assim uma opção a mais de lazer na região, especialmente depois que expandiu suas fronteiras para o resto da cidade.

Cidade que brinca

A alta adesão ao BrincaCEU não deixou dúvidas de que a iniciativa era uma demanda dos moradores. Menos de um ano depois do início das atividades, o projeto começou a receber convites para levar suas brincadeiras a outros lugares de São Paulo. Isso acrescentou um caráter itinerante à ideia original. Os CEMEIs Jaqueline e Chácara do Jóquei e a Paulista Aberta foram alguns dos territórios que receberam o BrincaCEU, cuja presença pode ser vista em outros eventos do CEU Butantã alinhados com a proposta.

Para Naíme, a expansão do projeto põe em prática o conceito de Cidade Educadora. A cidade absorvendo a escola e a escola se deixando penetrar pelas dinâmicas do território. “Em uma época em que a própria Cidade é um tema em efervescência, o BrincaCEU rompe os muros e realiza encontros temáticos. Em fevereiro é tomado pelo carnaval, novembro é negro, e por aí vai. Visitamos outros territórios, participamos da Virada da Educação e recebemos a programação de outras entidades e escolas dentro do CEU”, resume a professora.

Paulista Aberta

BrincaCEU na Paulista Aberta (Reprodução/Portal Aprendiz)

Na Paulista Aberta, as crianças do CEU Butantã desenharam suas realidades nas calçadas e na rua. Nos projetos Mão na Massa e Chá de Ideias, os alunos ocuparam uma padaria até então desativada da região, brincaram e refletiram sobre culinária. No próprio CEU Butantã, o projeto adaptou-se para participar do projeto SPCine. Na ocasião do lançamento de “O Começo da Vida”, as mães trocaram sobre aleitamento materno e assistência ao parto humanizado enquanto os bebês brincavam entre elas.

Para Naíme, que hoje atua como colaboradora no projeto e supervisora de práticas profissionais, a mistura – não só entre territórios mas, principalmente, entre pessoas -, é a espinha dorsal do BrincaCEU.  “É como a vida funciona: só a escola insiste em categorizar as pessoas por idade e fases da vida, como se só pudéssemos aprender entre os iguais. Por isso acreditamos que trazer para brincar juntas crianças de diferentes idades, suas famílias e professores é uma ruptura.”

Cultura popular

Apresentação do grupo Frô de Chita, que vai compor o time de educadoras do BrincaCEU (Reprodução/Portal Aprendiz)

Aceito pela comunidade do Butantã, o BrincaCEU é constantemente redesenhado e articula novas frentes e ações para promover o brincar e a valorização da infância. Atualmente, a equipe investe nos saberes da cultura popular e pretende aproximar ainda mais os moradores. Diambas Correia é parte fundamental neste processo.

A educadora sentiu a necessidade de valorizar também a cultura popular junto aos participantes do projeto. Segundo observava, as crianças tinham pouca afinidade com os saberes e brincadeiras tradicionais. Ela escolheu então um grupo-chave para repassar esses conhecimentos às novas gerações: as mulheres do bairro.

Diambas selecionou um grupo de 40 mulheres que frequentavam as atividades do CEU. Elas integraram o grupo Frô de Chita, que trabalha danças populares, teatro e contação de histórias. A ideia é acoplar o grupo ao BrincaCEU a partir de 2018, transformando essas mulheres nas educadoras do projeto.

“[O BrincaCEU] é multigeracional e, por conta dessa característica, pensamos em resgatar brincadeiras, lendas e cantigas com o grupo de cultura popular”, explica Diambas. “Essa interação é um dos resultados mais bonitos do projeto. Hoje a maioria das crianças mora em apartamentos ou casas sem quintal. Entender o poder do brincar junto e querer participar disso é uma apropriação muito importante”, complementa ela.

Territórios Educativos

O projeto BrincaCEU foi um dos 10 contemplados pela 2ª edição do Prêmio Territórios Educativos, iniciativa do Instituto Tomie Ohtake em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e patrocínio da Estácio. O prêmio busca reconhecer e fortalecer experiências pedagógicas que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola está inserida. Assim, integra os saberes escolares e comunitários. Este ano, o programa recebeu 67 inscrições oriundas de todas as Diretorias Regionais de Ensino de São Paulo.

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“No Brasil, está a surgir a nova educação do mundo”, diz José Pacheco

A terceira edição do Seminário Internacional de Educação Inhotim, que aconteceu em setembro de 2016. O encontro reuniu profissionais de diversas áreas para falar das “Experiências em Trânsito” na educação. A seleção multicultural dos palestrantes enriqueceu o evento, trazendo vivências e pontos de vista diferentes.

“O Brasil tem tudo o que precisa, mas não percebe”

José Pacheco deu início ao encontro fazendo uma provocação à plateia: “o que vocês querem saber?”. Já percebeu o quanto paramos de fazer perguntas conforme vamos crescendo? Foi essa a reflexão que ele levantou. Porém, a frente ao silêncio do público ainda tímido, acionou o plano B e contou algumas de suas histórias. O professor fundou, em Portugal, a Escola da Ponte, que promove educação humanizada e fora dos padrões tradicionais. Enquanto falava para os participantes do seminário, seu projeto completava 40 anos do outro lado do oceano. E ele estava perdendo essa festa?

“Percebi que a pior coisa é um velho que sabe muito entre um monte de jovens que sabem muito mais”, ele explica. A afirmação é uma justificativa sobre como deixou a Ponte nas mãos de jovens que foram seus alunos. Depois disso, decidiu vir ao Brasil continuar propagando o que aprendeu por lá. O Projeto Âncora, em Cotia (SP), é um dos resultados de sua vinda. A escola, que começou a atuar através da arte há 5 anos, já ajudou muitas crianças e jovens com risco de evasão escolar e em situação de vulnerabilidade social por meio do desenvolvimento de talentos e provou que escola não é apenas um edifício. “Escolas não são prédios, escolas são pessoas”.

O pedagogo defende uma educação que valorize a autonomia do estudante. Pacheco está envolvido em centenas de projetos espalhados pelo Brasil. Sua maior preocupação é que uma educação de qualidade chegue a toda a população, como manda a lei. “Não é um milagre, é técnica também. O Brasil tem tudo o que precisa, mas não percebe. É no Brasil que está a surgir a nova educação do mundo”, defende ele, provocando comoção na plateia.

Saiba mais sobre o trabalho de José Pacheco e baixe seus livros gratuitamente em seu site.

“A intervenção urbana existe para nos deslocar”

À tarde, Natacha Costa subiu ao palco para fazer uma verdadeira proeza: apresentar os 19 anos de história da Associação Cidade Escola Aprendiz, que revolucionou o bairro da Vila Madalena, na capital paulista, e inspirou outros tantos bairros a fazer o mesmo. O Aprendiz começou em 1997 a partir da preocupação com dois temas: a escalada da violência em São Paulo e a valorização da adolescência. O grupo desenvolveu projetos para embelezar regiões obscuras do bairro – como o, agora famoso, Beco do Batman – e aproximar as crianças e famílias aos espaços culturais da Vila Madalena.

A Associação passou a trabalhar em todo o bairro, difundindo a ideia de bairro-escola, de uma educação que seja um projeto de sociedade e cidade. Suas ações partiam da valorização do estudante e da ocupação do espaço público. Ela também pressiona o governo para desenvolver políticas públicas. Não demorou para que essa luta fosse mais longe. Ela chegou à defesa da Educação Integral, que ganhou força com a criação do Centro de Referências na Educação Integral.

Dando voz para quem faz

O dia começou com o professor Pacheco dizendo que a escola é feita por pessoas e terminou, justamente, dando voz para essas pessoas. As professoras Liete, Nivia e Gizlaine, que participaram do programa do Inhotim “Descentralizando o acesso”, contaram suas experiências. O programa que levou professoras da escola pública para uma visita guiada ao museu de arte contemporânea e, depois, os alunos. Cada uma mostrou como a visita foi interpretada e utilizada dentro de suas salas de aula e na criação de projetos envolvendo toda a escola. É possível navegar pelos projetos desenvolvidos por essas educadoras no site da rede educativa do Inhotim.