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Como construir uma biblioteca sustentável na escola com os alunos

Selo com três dicas sobre Como construir uma biblioteca sustentável

Selo com três dicas sobre Como construir uma biblioteca sustentável

Criar um projeto junto com os alunos é ótimo para estimular a criatividade. Especialmente se a turma está envolvida na produção e na construção. Depois disso, todos são responsáveis por cuidar do espaço. Esse é basicamente o coração do projeto Casateca, da escola Nossa Senhora Medianeira em Curitiba, no Paraná. Inspirado nas técnicas de construção sustentável da bióloga Ângela Feijó, idealizadora do Espaço de Reutilização Artesanal (ERA), o projeto faz alunos do quinto ano colocarem a mão na massa.

As aulas práticas de matemática e ciências ofereceram reflexões sobre assuntos como a influência humana na alteração e destruição das paisagens; a responsabilidade social em recuperar parte do que foi perdido e até a a produção de resíduos.

Biblioteca sustentável

Liderado pela professora Eliane Santos, o trabalho começou em 2016. Tudo começou com uma aula sobre biomas, mudanças climáticas e suas causas e consequências. A professora estimulou as crianças de 9 e 10 anos a pensar como reutilizar material descartável. Com ajuda da equipe de Marcenaria, os alunos construíram oito placas com caixas de leite longa vida e garrafas PET. No ano seguinte, as novas turmas tiveram o mesmo conteúdo sobre biomas e discutiram o que poderiam fazer a partir das placas. Veio então a ideia de construir uma “casa” – que se transformou em uma biblioteca infantil.

Imagem da Casateca, biblioteca sustentável construída a partir de materiais recicláveis. Ao lado da construção há duas crianças sorrindo
Casateca é projeto de construção sustentável da escola Medianera em Curitiba (Foto: Paulinha Kozlowski/Reprodução Nova Escola)

“A direção nos autorizou a fazer uma casa de um andar. Nós tivemos que ter um projeto de verdade, com as medidas, largura da porta, da janela. Levei isso para os alunos para que pudéssemos estudar juntos quais seriam os formatos das novas placas. Se seriam retangulares, triangulares, para se encaixarem na nossa construção”, lembra Eliane. Essa conscientização surge em meio a uma necessidade urbanística e ambiental. Afinal, segundo a bióloga Ângela, são produzidas 300 mil toneladas de lixo por dia no Brasil. E apenas 1% passa por algum processo de reciclagem. “Ao dar um novo uso a materiais, reduz-se a quantidade de resíduos a tratar e a quantidade de gasto de energia”, define Ângela na página de seu programa.

“Conversamos de novo sobre o uso desse espaço construído por nós. Vai ser só para brincar? Vai ser um espaço de convivência? ”, lembra a professora. A casa sustentável então virou uma pequena biblioteca, com livros que foram doados e que os alunos podem compartilhar e levar para suas casas. “Dentro do espaço tem uma parede sem revestimento algum para o pessoal ver que é feita de caixa de leite”, afirma Eliane. Ela ressalta também que o lugar é de todos e as próprias crianças são responsáveis pela manutenção da casa.

Passo a passo

Eliane Santos resume o projeto Casateca para que ele possa ser replicado. Escolher resíduos plásticos para colocar dentro de caixas de leite é o primeiro passo. “Por exemplo saquinhos de frutas e verduras, de pão, macarrão, açúcar, tudo isso vale”, pontua. Coletando as caixas, é necessário construir uma armação quadrada de madeira com 1 metro em cada lado, que são as medidas internas, para acomodar esses novos “tijolos”. O revestimento é feito com tiras de jornal alternando com c2amadas de cola.

“É preciso também cobrir a placa com duas camadas de tinta emborrachada, conhecida também como batida de pedra, encontrada em lojas de tinta automotiva”, ensina a professora. “Essa tinta será responsável pela impermeabilização das paredes para que resista ao calor do sol e a umidade e chuva”. As portas da Casateca também foram reutilizadas. Elas eram de outro espaço da escola e as janelas foram construídas com reutilização de madeira. O telhado foi feito com reaproveitamento de telhas, intercaladas com garrafas pet, que garantem maior entrada de luz no ambiente. Além de ser sido utilizado o telhado verde, que é uma camada de terra e plantas colocada em cima de uma lona, que permite refrigeração do ambiente, mostra Eliane.

Quatro imagens diferentes dos alunos recortando, colando e montando a biblitoeca
Passo a passo da Casateca utiliza telhados, janelas e portas de materiais reutilizáveis (Reprodução/Nova Escola)

A decoração interna da casa sustentável ficou por conta dos móveis também construídos pelos alunos e suas famílias. Eles reutilizaram objetos como pneus, garrafas pet que se transformaram em pufes, sofás, porta-lápis e vassoura. Com o projeto pronto, o impacto é sentido dentro e fora da escola de Curitiba, ressalta a professora. “Os alunos que concluíram a Casateca formaram um grupo para conversar com os alunos que haviam iniciado o trabalho um ano antes, para que eles soubessem que a casa também era deles e nós já estamos recebendo até pedido de outras escolas que ficaram sabendo do nosso projeto e estão interessadas em replicar com os alunos”, conclui Eliane.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Como construir uma biblioteca sustentável na escola“, da reporter Paula Calçade para a Nova Escola. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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Educação democrática e engajamento dos estudantes

Imagem de dois jovens sentados lendo livros
(Pixabay)

O número de escolas públicas que buscam promover uma participação ativa dos estudantes cresceu muito no mundo. Para isso, eles usam projetos, programas, políticas e diálogos para conseguir colocar essas ideias em prática. Isso resulta em debates e posições muito importantes sobre questões urgentes da nossa sociedade.

Especialmente na educação, é nítido que escolas conteudistas, com relacionamentos hierárquicos e que promovem a competitividade são falhas. Pesquisas no novo campo interdisciplinar das ciências da aprendizagem já mostraram porque este modelo não funciona. Elas confirmam teses defendidas por educadores como o inglês A. S. Neill.

Seu neto, Henry Readhead, hoje diretor da escola Summerhill, esteve na 25ª Conferência Internacional de Educação Democrática (IDEC) e na 1ª Conferência Hadera pela Educação Inovadora para lembrar que, há quase cem anos, a escola criada por seu avô confirma cotidianamente que uma comunidade construída com base na compreensão de como nos desenvolvemos e aprendemos a nos relacionar com os outros garante a formação de pessoas felizes, saudáveis e produtivas.

Desafios reais

Agora, é preciso passar dos discursos e inspirações. As escolas e universidades democráticas encontram grandes dificuldades para efetivamente realizar seus projetos pedagógicos. Encontram barreiras em relação a financiamento, avaliação, formação dos educadores e demais agentes envolvidos. Ao que parece, todo o ecossistema tradicional da escola precisa ser transformado para haja um novo processo de aprendizagem. 

Por isso que a educação democrática vem buscando se fortalecer em redes nacionais e internacionais. Além das conferências mundiais anuais, consolidaram-se encontros regionais, apresentados em diversos workshops. Ela se fortalece também através da conexão com iniciativas orientadas pela democracia nos outros campos da ação social. Sobretudo as iniciativas que buscam formas mais sustentáveis, coletivas e criativas de organizar a produção econômica. E também iniciativas que promovem o diálogo multicultural e a justiça social. É nestas conexões que a educação democrática também se reinventa, escapando da tendência de se reconhecer como a solução para a educação, para continuar em busca das grandes questões.

Todos podem ser agentes de transformação

Foi neste ambiente que o movimento dos estudantes brasileiros de ocupação das escolas, que aconteceu entre 2015 e 2016, ganhou grande destaque. O movimento foi anunciado desde a abertura da conferência como a notícia mais importante para esta rede mundial. Nesse período, quase 1600 escolas, mais de 120 universidades, órgãos centrais de secretarias de educação e assembleis legislativas foram ocupadas e dezenas de ruas foram bloqueadas por estudantes em 21 estados da nação. Houve muita repressão, intimidação, ameaça, perseguição, mas os estudantes resistiram. A forma de luta foi a democracia radical: assembleias com plenos poderes de decisão, comissões responsáveis pelos cuidados coletivos, mobilização de apoio de amplos setores da sociedade.

Como resultados, o projeto de reorganização das escolas estaduais de São Paulo foi adiado, o secretário da educação se demitiu, as escolas técnicas passaram a oferecer merenda. No Rio, os estudantes conquistaram a eleição para diretores. No Rio Grande do Sul, foram liberados os recursos que não chegavam às escolas, professores foram contratados, a merenda foi melhorada, a proposta de privatização da gestão das escolas foi adiada.

A repressão se intensificou e a ocupação das escolas contra as medidas do governo federal de reforma do ensino médio e de cortes dos investimentos sociais (chamados de gastos públicos) não conseguiu impedir a sua aprovação no Congresso. No entanto, não parece improvável que o movimento seja retomado à medida em que estas reformas comecem a ser implementadas, se os estudantes não forem incluídos nos debates. O relato causou grande comoção, e este foi o principal tema do fechamento da Conferência.

Post com resumo e modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Da educação democrática para uma sociedade coletiva“, para o Portal Aprendiz. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.

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A necessidade do “nada” na vida das crianças

Imagem de uma área rural, com árvores ao fundo, e dois meninos descendo um morro, correndo e sorrindo
(Divulgação/Território do Brincar)

Disponibilizar tempo para brincar. Mas não meia hora. Meia hora é um tempo muito delimitado. O pensar, o criar, o fazer, o acontecer… não é em meia hora que vai acontecer esse brincar”. A frase é de uma professora de uma das seis escolas brasileiras que se dispôs a olhar o brincar dentro de seu território e com suas crianças, e em diálogo constante com o programa Território do Brincar. Essa troca, que propunha potencializar o brincar dentro e fora da escola, resultou em produções que foram lançadas pelo programa em 2015 – a exemplo do documentário Território do Brincar – Diálogos com escolas e de seu livro homônimo.

Afinal, como disseram no diálogo, é necessário tempo largo para que eles explorem livremente o que há ao seu redor. Ou, como nas palavras da coordenadora do programa Território do Brincar, Renata Meirelles, precisamos criar oportunidades para a criança poder ser aquilo que ela é. “O ócio é potente na infância para que a criança possa se alimentar daquilo que vem de dentro pra fora”, afirmou a educadora em entrevista.

No entanto, para especialistas, a nossa sociedade não tem investido em tempo, espaço e tampouco circunstância para isso. Em palestra no evento trianual do International Play Association, cuja última edição aconteceu em setembro em Calgary, Canadá, o psicólogo Peter Gray alertou que a sociedade atual sofre do que ele chama de Transtorno de Déficit do Brincar.

O transtorno de Déficit do Brincar

Baseando-se em análises históricas e sociais dos EUA e outros países, ele concluiu que houve um forte declínio do brincar. Paralelamente a isso, ocorreu o aumento de depressão, transtorno de ansiedade e suicídio entre crianças e jovens. “O desenvolvimento integral, considerando o desenvolvimento intelectual, emocional, social e cultural das crianças, está direta e intrinsecamente relacionado à possibilidade delas brincarem livremente”, afirmou.

Fato é que o “nada” é fundamental para que as crianças tenham autonomia na realização de seus quereres. O tempo cronometrado e fragmentado enfraquece a possibilidade de exploração da imaginação. E, corroído pelo acúmulo de obrigações, o ócio e tudo aquilo que se desdobra a partir dele vêm perdendo espaço.

Nesse sentido, um livro publicado pelo filósofo Byung-Chul Han traz algumas observações relevantes para esse debate. Na obra Sociedade do Cansaço, o autor volta seu olhar para a sociedade deste início de século 21. Segundo ele, essa é uma sociedade do desempenho e do trabalho. Somos estimulados 24 horas por dia, sete dias por semana. Sempre dispostos a executar múltiplas tarefas concomitantemente e mergulhados em um excesso de estímulos e informações.

As consequências do excesso de informação

Desprovidos de tempo livre e de espaço, acabamos sendo consumidos pelo cansaço. E isso destrói qualquer possibilidade de contemplação e lazer. “O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma”, afirma o filósofo. “Aparentemente, temos tudo; só nos falta o essencial, a saber, o mundo. O mundo perdeu sua alma e sua fala, se tornou desprovido de qualquer som”, diz.

O cenário estabelecido pelo autor dialoga, de certa forma, com a visão de Peter Gray e seu discurso da urgência do direito de brincar. Como apontou o psicólogo, é inconcebível que familiares e escolas estejam olhando para esse momento da vida como uma mera fase de construção de currículo, eliminando todo o potencial lúdico e expressivo da infância. O brincar permite à criança elaborar o mundo e dá sentido a suas experiências internas e externas. Além disso, amplia a compreensão do entorno. Segundo Gray, com a perda do brincar livre, perde-se a essência da infância.

É para essa direção que queremos caminhar? Muito tempo atrás, o escritor mineiro Guimarães Rosa já nos anunciava a importância do elemento contemplativo: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Por tudo isso, sim: já é tempo de nos posicionarmos em defesa do “nada” na vida das nossas crianças.

Matéria da repórter Fernanda Peixoto para o Conexão Planeta. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link: A necessidade do “nada” na vida das crianças.

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É preciso dar autonomia aos professores, diz coordenador do Pisa

Andreas Schleicher
Andreas Schleicher, vice-presidente para Educação da OCDE e coordenador do Pisa (Reprodução/Nova Escola)

“Precisamos dar mais autonomia aos docentes” e “Devemos favorecer a cultura de colaboração nas escolas”. As declarações são de Andreas Schleicher, coordenador do Pisa, principal avaliação internacional de desempenho de estudantes, durante o evento “Competências na Ibero-América”, realizado na capital paulista em 20 de fevereiro.

Surpreso? De fato, as afirmações sinalizam uma inflexão nas recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne 34 nações desenvolvidas e emergentes. “No passado, colocamos ênfase excessiva no professor como indivíduo”, admite Schleicher. Essa noção levava à conclusão que a chave era apostar todas as fichas na formação de professores. Afinal, eles seriam os principais responsáveis pela qualidade da educação.

Os resultados mais recentes da avaliação internacional mostram outros pontos importantes. Segundo Schleicher, não adianta ter professores bem formados se o sistema não lhes dá autonomia. E também se o ambiente nas escolas não favorece a colaboração. A importância desses dois últimos fatores aparece na evolução de países como o Vietnã, que melhorou significativamente seu desempenho no Pisa durante a última década. Além disso, essas questões combatem grandes questões como a evasão escolar e a falta de engajamento dos estudantes.

A seguir, trechos da entrevista com o coordenador do exame, realizada em conjunto por NOVA ESCOLA, o portal Porvir e o jornal Valor Econômico:

A defesa da autonomia docente e da formação colaborativa nas escolas é uma mudança nos pontos de vista defendidos até pouco tempo?

Sim. No passado, colocamos ênfase excessiva no professor como indivíduo e em seu processo de aquisição de conhecimento na formação inicial. E acabamos enfatizando pouco o tipo de ambiente em que os professores trabalham e ensinam. Muitos dos sistemas de educação mais bem sucedidos prestam muita atenção a como os professores colaboram nas escolas, como aprendem uns com os outros, observando aulas, dividindo conhecimento e experiência. Isso é o que distingue uma organização profissional de uma organização industrial.

Qual a diferença?

Numa organização industrial, o chefe sabe tudo e os empregados apenas desempenham tarefas. Numa organização profissional, o conhecimento é criado pelas pessoas que trabalham lá. Aí é que entram os processos de colaboração, em que a autonomia é também muito importante. Autonomia profissional não significa que eu faço o que quero. Significa que faço o que eu sei que é a coisa certa a fazer.

Nesse sentido, há espaço para aulas prescritivas?

Não dou aulas padrão, pois tenho a experiência profissional para julgar qual é a coisa certa a se fazer. Comparando com a medicina, o médico faz um diagnóstico e pensa num tratamento específico para fazer com que o paciente volte a ter saúde. Na Educação, ainda se dá o mesmo tratamento para todos – esperando que os resultados sejam bons. Não é a resposta. Acho que precisamos dar aos professores mais autonomia numa cultura colaborativa para moldar o ambiente de trabalho e ajudar estudantes a avançar.

Isso parece uma mudança de paradigma em relação à ideia de que sistemas de baixo desempenho precisam buscar soluções padronizadas.

Esse tipo de abordagem prescritiva desprofissionaliza a docência. Você torna a docência menos atraente. Se o trabalho de um professor é ler um livro didático, você não vai atrair ótimos profissionais, mesmo que sejam bem remunerados. O desafio é o oposto. Você precisa investir na capacidade dos professores.

Como isso impacta a implantação da Base Nacional?

A nova base curricular do Brasil é uma oportunidade incrível. No entanto, ela só vai acontecer se investirmos na capacidade das pessoas. O pior jeito de implementá-lo é desenvolver planos de aula prescritivos, que determinem o que e como ensinar. A boa resposta é investir na capacidade dos professores para entender qual é a intenção do currículo, qual a ideia por trás dele, e como trabalhá-lo.

Matéria publicada pela Nova Escola.

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Aprenda sete brincadeiras antigas jogadas por nossos pais e avós

Imagem com cinco brincadeiras antigas para as crianças jogarem

Imagem com cinco brincadeiras antigas para as crianças jogarem

Por Ingrid Matuoka e Thais Paiva, do Centro de Referências em Educação Integral 

Brincadeiras antigas  jogadas por pais e avós –  como pular corda ou amarelinha – vem perdendo espaço na era dos videogame e outros jogos digitais.

No entanto, como aponta o estudo Brinquedos, brincadeiras e cantigas de roda: como brincavam nossos pais e avós, resgatar essa cultura é um rico exercício, pois possibilita às crianças conhecer e vivenciar novas experiências, além de uma reflexão empática de como brincavam as infâncias de outrora.

Ao abordar e praticar as brincadeiras dos tempos dos pais e avós, amplia-se o repertório lúdico desses jovens. Além disso, neste processo de investigação, isto é, quando as crianças perguntam para seus familiares como brincavam, onde e com quais pessoas, ocorrem trocas férteis e aproximação entre as diferentes gerações por meio da valorização da experiência do outro.

Nesta perspectiva, o Centro de Referências em Educação Integral selecionou algumas práticas tradicionais que podem promover diálogos intergeracionais e, claro, entreter as crianças.

Brincadeiras antigas
(Pixabay)

Cantigas de roda

As cantigas de roda brasileiras têm grande influência das culturas africanas, indígenas e europeia e fazem parte do nosso folclore. Transmitidas de geração em geração, revelam muito sobre a cultura local, misturando tradição oral ao brincar.

Em cantigas de rodas, as crianças dão as mãos e cantam músicas que normalmente brincam com os nomes dos envolvidos. Além disso, costumam vir acompanhadas de coreografias, o que estimula a sintonia entre os pares. Afinal, eles precisam mover-se ao mesmo tempo, fazendo os gestos em sintonia.

Dentre as cantigas mais conhecidas, estão Escravos de Jó, Atirei o pau no gato e O cravo e a rosa. Há também Sapo Cururu e a tradicional Ciranda, cirandinha.

Pião

Com o pião em mãos, enrole o barbante ao redor do brinquedo, de cima a baixo, e segure uma ponta. A ideia é lançar o pião com um movimento similar ao de chicotear, ainda segurando uma das pontas. O objetivo é fazê-lo deslizar pela corda e rodar assim que a ponta de ferro bater no chão.

Se não der certo de primeira, não se frustre, esta brincadeira requer certa habilidade. Os mais velhos também podem entrar em ação para ensinar os macetes que facilitam fazer o pião rodopiar. E quando as crianças pegarem o jeito, pode-se desenhar um círculo no chão e desafiá-las a lançar o pião dentro da área delimitada.

Pular corda

Muito utilizada em coletivos de teatro para estimular e praticar o ritmo e a sintonia entre todos, pular corda em grupo é uma atividade que exige atenção no outro. Como essa brincadeira pode vir acompanhada de muitas canções, a comunicação entre os pequenos também tem papel relevante.

Com uma corda longa e três crianças ou mais, a brincadeira ganha forma. Em cada ponta, fica uma criança responsável por bater a corda em sincronia. Outra fica no meio e pode pular a corda de frente ou de lado para uma das pontas. Também é possível pularem duas ou mais pessoas juntas, em um pé só. Elas também podem tentar entrar no meio da corda para pular depois de ter começado a girar.

Esta brincadeira também pode ser realizada individualmente, de diversas maneiras. Uma delas é com um pé após o outro ou os dois juntos, e aumentando a velocidade. Vale contar qual o máximo de pulos feitos sem errar, e se desafiar a superar essa contagem.

Se quiser dificultar, pode-se pular a corda alternando entre um pulo normal e um cruzado. Quando os braços estiverem em sua frente, cruze a corda e tente passar as pernas pelo laço inferior, e descruze ao passar pela altura da cabeça, pulando a corda do jeito tradicional.

E para acompanhar os pulos, existem diversas músicas que podem ser cantadas junto.

Bolinha de gude

As bolinhas de gude permitem diversas brincadeiras. A maneira tradicional é uma competição em que uma criança acerta a bolinha do adversário para tentar capturá-la para si.

Conforme o combinado entre as crianças, as bolinhas podem ser devolvidas ao final da partida. No entanto, tudo varia de acordo com a capacidade de negociação entre os pares. O autoconhecimento dos pequenos para saber o que preferem e se são capazes de lidar com as perdas é muito importante.

Para dificultar a atividade, pode-se criar uma espécie de arena no chão, em formato triangular ou circular, colocando no centro três bolinhas de cada participante. As crianças têm que acertar as bolas partindo de fora da arena. Se alguém não acertar nenhuma bolinha, perde a vez. E se ela ficar presa dentro da área delimitada, também perde a bolinha.

Outras maneiras de brincar com as bolinhas de gude envolvem completar circuitos desenhados ou acertar latas e outros objetos posicionados no chão.

Para lançar as bolinhas, vale atenção à posição dos dedos. O indicador deve envolver a bolinha em formato de gancho, e o polegar serve para dar o impulso que vai lançar a bola. Os pais e avós também podem mostrar como jogavam e qual era a sua melhor técnica para fazer a bolinha atingir um alvo.

Rodar pneu de bicicleta ou bambolê com um pauzinho

Esta brincadeira funciona melhor em espaços abertos, em que a criança pode correr. Basta um pneu de bicicleta ou um bambolê posicionado na vertical e uma vareta, galho ou pauzinho para conduzi-lo.

O objetivo é conseguir percorrer a maior distância, ou por mais tempo, sem derrubar o pneu ou bambolê. Para dinamizar a atividade, pode-se criar uma pista de obstáculos e linhas de partida e chegada.

Amarelinha

O jeito mais simples de criar uma amarelinha, é desenhá-la no chão de cimento com giz de lousa. Faça um retângulo grande e divida-o em retângulo menores alternando entre um e dois espaços, e enumere-os de 1 a 10.

O objetivo da brincadeira é jogar um marcador, que pode ser uma pedra, em uma das casas e atravessar a amarelinha sem pisar no quadrado em que ele está. Na volta, é preciso pegá-lo do chão.

O desafio está em alternar entre pular em um pé só ou com os dois, bem como manter o equilíbrio para pegar o marcador. Quem completar todos os marcadores de 1 a 10 primeiro, sem errar, ganha. Para dificultar, pode-se adicionar mais marcadores e mais casas para pular.

Passa anel

Forme uma roda e peça que todos unam a palma das mãos, com os dedos apontando para o centro do círculo. Agora, uma criança vai ser escolhida para colocar um anel ou uma pedrinha na palma da mão. Ela deve percorrer toda a roda passando as suas mãos entre as mãos dos colegas.

Em determinado momento, ela deve deixar o objeto cair nas mãos de quem ela escolher, sem que os demais percebam. Depois, ela vai chamar outra criança para adivinhar onde está o anel. Se acertar, é sua vez de passar o anel. Se errar, está eliminada do jogo.

Aos poucos, as crianças aprendem a prestar atenção aos detalhes e a interpretar as expressões corporais para decifrar sutilezas. Além disso, elas aprendem a estabelecer relações de cumplicidade, uma vez que a criança que recebeu o anel também não pode revelar que o objeto está com ela.

Matéria publicada pelo Portal Aprendiz.

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Maria Peregrina: uma escola corajosa

Escola Maria Peregrina

*Artigo escrito por Jean Sigel, especialista em Marketing, Comunicação e Inovação, e co-fundador da Escola de Criatividade em parceria com Guilherme Fernandes, mestre em economia, estudioso, entusiasta da Educação Inovadora e sócio da Escola de Criatividade. Os profissionais colaboram voluntariamente com o Instituto GRPCOM no blog Educação e Mídia.

Escola Maria Peregrina
(Reprodução/Gazeta do Povo)

Coragem. Se fosse necessário responder a “velha” pergunta de como definir a Escola Maria Peregrina em uma só palavra esta certamente seria a nossa escolha.

Não que lá não exista muito planejamento, amor, consciência, autonomia, vontade e criatividade. Isso tudo está presente e visivelmente percebido nas expressões dos tutores, professores, alunos e dos fundadores. Mas a coragem de iniciar e manter até hoje a escola é marcante. Não é qualquer grupo que consegue conduzir uma escola no interior de SP sem mensalidades. E que ainda adota a pedagogia de projetos e é chancelada pelo próprio José Pacheco. E que também realmente ouve e inicia seus trabalhos com base nos interesses dos alunos e com o envolvimento das famílias e comunidade.

A liberdade para escolha do tema de cada projeto é uma das características marcantes da Maria Peregrina. Liberdade essa que traz desafios diretos aos tutores da Escola. Afinal, eles precisam ser humildes o suficiente para reconhecer que não são experts em todos os assuntos. Muitas vezes vão aprender tanto quanto os alunos. Após a definição do tema, os alunos escolhem os tutores para acompanhá-los e orientá-los durante o projeto. Depois, eles elaboram perguntas, muitas perguntas norteadoras que vão dar o caminho para o início da pesquisa e descoberta. O universo de pesquisa está nos livros, na biblioteca da escola, na internet e também na comunidade nas visitas fora da Escola. Ou seja, o velho sonho da Escola que não se restringe aos seus muros e mostra que a aprendizagem pode estar em qualquer lugar.

O processo da Maria Peregrina

Nos chamou bastante atenção como todo o processo é muito bem desenhado. A começar pela utilização das inteligências do cientista Howard Gardner como pilares para os projetos. Eles avaliam as 8 inteligências múltiplas: linguística, lógica-matemática, espacial, musical, corporal-sinestésica, intrapessoal, interpessoal e naturalista. E o educando, em conjunto com o tutor, define como o conteúdo que será estudado se encaixa nas mesmas. São as áreas de conhecimento “tradicionais” (matemática, física, química, biologia, etc ) que farão parte de cada uma das inteligências. A partir disso, os professores especialistas de cada área entram, orientam, ensinam e criam exercícios, avaliações e desafios aos alunos dentro de cada tema escolhido. É o reconhecimento, em base teórica, de que cada um possui seu potencial e sua característica. E que ter a mesma idade não significa os mesmos conhecimentos e mesma velocidade de desenvolvimento e aprendizado. Existe um planejamento e cuidado que vai muito além da escolha da melhor apostila para aplicar o conteúdo pré-definido como ocorre na maioria das escolas do país. E só para deixar claro, apostilas passam longe da Maria Peregrina.

Ouvir dos próprios alunos, que já são excelentes RPs, sobre o funcionamento do Ensino Médio nos deixou muito impressionados. Sobre liberdade, o quanto gostam de lá e a experiência muito positiva com o treinamento para o vestibular também. Mais uma comprovação de que a autonomia, comunicação e curiosidade desenvolvidas desde pequenos formam alunos mais capazes de sobreviver e inovar no mundo atual. Aliás se há uma palavra que se sobressai lá é autonomia. Esse é um dos grandes mantras da escola.  E isso na prática acontece lá dentro e fora dela com os projetos dos alunos ganhando asas. A partir dessa valorização dos alunos e seus conhecimentos, o engajamento estudantil é muito presente.

Coragem e comunicação aberta

Educadores da Escola Maria Peregrina
(Reprodução/Gazeta do Povo)

A coragem da escola é própria. Um exemplo provocador à muitas escolas e educadores, a Maria Peregrina aposta na essência de cada criança e adolescente. Na vontade da descoberta, no desejo de aprender, trabalhar e brincar junto. E também na comunicação aberta e afetuosa com pais e professores, no estímulo a autonomia com responsabilidade e nas relações humanas. Uma escola onde seu diretor fez mestrado para medir a felicidade de seus alunos e professores. Que acredita na singularidade de cada criança e estimula seus canais de expressão à partir de ideias e projetos colaborativos. O que aprendi? Como e Por que? O que queremos descobrir de novo? O que já sei e posso compartilhar? São apenas algumas das perguntas dos inúmeros projetos desenvolvidos pelos próprios alunos e que são tutoriados, apresentados, avaliados e compartilhados.

O sucesso da Maria Peregrina em ensinar os alunos a aprenderem e a interagir, a formar jovens curiosos, criativos, comunicativos e transformadores é encorajador. Especialmente diante de um sistema que pouco muda ao longo dos anos – o sistema educacional. A coragem da Escola está muito mais em se expor e inovar diante de pais, mães, educadores, pedagogos e uma sociedade que ainda resistem às mudanças e exigem o mesmo ensino de 30, 50 anos atrás do que em apresentar algo novo às crianças e jovens. Jovens aceitam, mudam e inovam rapidamente. Enquanto nós adultos não aceitamos a inovação porque simplesmente a mudança dói e dá trabalho. Inovação acontece apenas quando a aceitamos, quando temos coragem e realizamos. Um super estímulo para todos aqueles que como nós acreditam em uma educação que pode sim ser diferente do convencional, mais criativa e encantadora.

Matéria publicada pela Gazeta do Povo.