Rede de professores transformadores une educadores que fazem a diferença

Muitas vezes, falamos de transformação na educação e não vemos professores que estão todos os dias na sala de aula nas rodas de conversa. Nos últimos anos, esse cenário tem mudado. Parte disso, se deve ao poder de organização de redes dos próprios educadores. Nossa colaboradora Bruna Aieta entrevistou Elô Lebourg, idealizadora da rede Professores transformadores.

Elô Lebourg é professora, pesquisadora e mestra em Educação. “Descobri que sou uma pessoa transformadora durante minha incrível jornada no projeto Lavras Novas: nosso patrimônio! Por três anos, eu e meus alunos da Escola Municipal de Lavras Novas vivemos experiências educativas (e afetivas!) incríveis”, ela conta. O processo não é fácil e a educadora percebeu que sentia falta de ter outros professores por perto. Daí surgiu a ideia de criar essa rede que quer unir professores que transformam a educação todos os dias.

Qual foi o impulso inicial da criação da rede? Como aconteceu todo o processo?

Em minha experiência como professora, em Ouro Preto-MG, nem sempre pude contar com o apoio dos colegas docentes que trabalhavam nas mesmas escolas que eu… Sentia necessidade de conversar sobre minha prática e sobre os desafios que vivia em sala de aula. Precisava da orientação dos colegas e, também, de falar sobre minhas tantas angústias… Então, fui em busca de uma rede de professores com esse objetivo – o de estabelecer possibilidades de diálogo e de trocas de experiência – mas não encontrei o que estava procurando. Por isso, tive a ideia de criar a rede Professores transformadores. Estudei muito à época, escrevi um projeto, conversei com professores sobre a ideia, convidei colegas para me ajudar a materializá-la e, então, em 2015, a rede foi criada!  

Quais dicas você dá para um professor se organizar e criar um grupo de professores transformadores na sua cidade?

Importante ressaltar que, embora a rede tenha surgido no contexto de Ouro Preto-MG, ela pretende dialogar com docentes de outras cidades, Estados e até países. Caso um professor ou um coletivo de professores tenha interesse, pode vir a fazer parte da rede de onde estiverem. São várias as instâncias de participação.

Que tipo de troca está mais presente na rede?

Temos conversado bastante sobre nossas práticas e nossos projetos como professores. De várias formas, nos aproximamos para falar sobre como temos encarado a complexidade de ser professor no Brasil atualmente. Às vezes, essas conversas são lamentos, que acolhemos amorosamente. Às vezes, elas são uma forma de apresentar sonhos e ideias de professores que estão buscando maneiras mais interessantes de dar aula. Entre sonhos e lamentos, o grupo tem percebido a transformação a partir desse movimento de consciência do papel do professor, das suas potencialidades e das formas de superar limites.

E o que a rede oferece hoje pro mundo?

Creio que estamos oferecendo uma escuta amorosa e ativa para os professores que compõem a rede. Também temos organizado possibilidades de diálogo por meio dos textos escritos por nossos colunistas (publicamos três textos por semana, no nosso site e na página de nossa rede no Facebook), das nossas campanhas digitais e das ações presenciais que realizamos.

Roda de conversa sobre educação democrática, na 1ª Semana de Integração do Curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana-MG. Foto: Divulgação

O que é preciso transformar na educação?

A educação já está em constante transformação, assim como cada um de nós. Como professores, compreender isso pode ser libertador. O entendimento de que as relações nunca se repetem também: para cada estudante, serei uma professora diferente. Ultrapassando a atuação do professor, algo precisa ser transformado com urgência: a educação necessita ser compreendida, de uma vez, como um direito e ser valorizada, sistêmica e estruturalmente, em termos de políticas de Estado. Os governos necessitam cumprir o que está posto na Constituição brasileira e investir na educação do povo e na valorização dos professores. 

O que é ser um professor transformador?

Para mim, um professor transformador é aquele que atua de maneira engajada e responsável na formação dos seus alunos. Ele também se assume em constante formação e compreende a importância do seu papel para a transformação social. Ao mesmo tempo, é um profissional que reconhece que não cabe a ele o papel de “salvar” o país por meio da educação, e que se distancia da cruel lógica de que a docência é um “dom” ou uma “vocação”. Um professor transformador é um trabalhador do povo.

O contexto político atual da educação pública impacta como o movimento de transformar a educação?

Impacta muito, como todo contexto político. Especificamente agora, temos percebido o fortalecimento de uma mentalidade que culpabiliza os professores por muitos problemas educacionais e sociais, que tem criado o mito de um professor doutrinador que atua nas escolas e que necessita ser vigiado, exposto, denunciado. O professor corre perigo numa sociedade que o percebe dessa maneira. No momento, estamos ainda mais atentos a isso e trabalhando sempre com a perspectiva de acolher professores que estão enfrentando dificuldades ou sofrendo perseguições.

Vocês publicaram um livro há pouco tempo atrás. Como foi sua participação na obra impressa?

Lançamento do livro Nós, professores transformadores: olhares sobre protagonismo e valorização docente, em Recife-PE. Foto: Divulgação

Sou organizadora e coautora de dois livros da rede. Logo em 2015, quando lançamos as colunas escritas por professores da rede, percebemos que os textos impactavam positivamente os professores leitores. E o potencial de alcance desses textos era incrível!

Nesse momento, tivemos a ideia de organizar parte desse conteúdo em um material impresso. Foi então que, em 2016, lançamos o primeiro livro da rede, Nós, professores transformadores: olhares sobre protagonismo e valorização docente, escrito por cinco professores. A ideia foi tão bem recebida que, em 2019, vamos lançar nosso segundo livro, Professores em travessia pela educação: textos sobre práticas docentes e transformação. Dessa vez, somos sete autores, num livro mais robusto e que traz reflexões importantes sobre a educação brasileira e a prática docente.

Qual artigo da sua autoria que você mais gostou? Por quê?

De 2015 a 2018, publiquei 95 textos pela rede Professores transformadores! Foi uma experiência potente, na qual pude ressignificar aspectos importantes da minha prática, além de fazer conhecer um pouco das histórias que tenho vivido, como professora. Certamente, escolher um texto entre tantos é uma tarefa complicada, então digo que um dos textos que mais me impactou escrever foi O professor e a compaixão (publicado em 07/08/2017 e que compõe o segundo livro de nossa rede).

Nele, conto sobre um menininho, de cerca de um ano de idade, que foi agredido, pelos pais, na minha frente. A cena foi tão violenta que adoeci logo em seguida. Este texto foi escrito para tentar nos lembrar de que, numa frequência maior do que pensamos, meninos como esse, “educados” por meio da violência, serão nossos alunos. Precisamos, como professores, criar essa consciência de que a história de vida dos nossos alunos nos importa e de que, frequentemente, lidaremos com crianças, adolescentes e jovens que vivem uma realidade massacrante. Não podemos nos esquecer de que acolhê-los, com compaixão e empatia, também faz parte do nosso trabalho como professores.

1 Comment

  1. Trabalho no Lied da E.Estadual José de Alencar. Eu tenho muito interesse de contribuir para alunos e professores inovadores.

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