Projeto reúne cultura oriental e combate à evasão escolar no litoral de SP

Esporte, educação e cultura – mais especificamente a japonesa -, no litoral do Estado de São Paulo. Quem promove essa ação é Luiz Kuribara, que nasceu no Guarujá. Lá, grande parte da população vive na periferia ou em situações muito precárias, em comunidades com pouco acesso à educação. “A cidade tem um PIB alto, é muito rica, mas com uma população muito pobre. A questão educacional é muito precária e faltam incentivos para os projetos”, conta Luiz. “Então, nós tentamos vencer esse cenário tanto na sala de aula e nas escolas, quanto no meu próprio espaço. E é aí que entra uma esperança: o esporte”.

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Fotografia de Luiz sorrindo e acenando,, durante as Olimpíadas, segurando a Tocha Olímpica para o revezamento.
Luiz Kuribara durante o revezamento da Tocha Olímpica nos Jogos Rio 2016 – Foto: Rio2016/Fernando Soutello

Descendente de japoneses, ele pratica Karatê há 43 anos e morou no Japão por 3 anos pela carreira esportiva. “Lá, eu colhi todas as informações que eu podia sobre a cidade e a cultura. Eu vi uma divisão de renda mais igualitária e uma realidade onde mais pessoas estão em boas condições de vida, o que é muito diferente por aqui. Infelizmente, até nós alcançarmos um nível mais igualitário, muitas gerações se perdem nesse processo. E é por isso que nós não podemos deixar de pensar nas iniciativas que buscam diminuir essas diferenças”.

Esporte, karate e educação

Entre a trajetória de treinar com mestres de grandes templos, participar das Olimpíadas e conhecer, aqui no Brasil, o imperador do Japão, muitos projetos aconteceram. Dentro deles, um relacionado à própria área cultural japonesa, que integra essa tradição tão significativa com o que o nosso país tem de bom para oferecer. Isso resultou em uma modalidade específica, chamada Rengo-Kai, onde ele atuou com jovens da rede municipal do Guarujá.

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“A arte marcial encanta os jovens. Então, o que eu faço para atraí-los é impressionar. E é através disso que conseguimos engajá-los”, explica Luiz. “Depois, nós colocamos elementos da educação e abordamos temas como valores e autocuidado. E isso é muito positivo porque também ajuda a mudar a visão de que a luta é algo grosseira e violenta”.

O esporte, especialmente na escola, pode colaborar em muitos aspectos: tanto na questão da sala de aula quanto no autodesenvolvimento do corpo e da mente dos jovens. A primeira mudança, segundo o educador, é o comportamento. E esse aspecto é seguido por um desenvolvimento da harmonia da turma, gerando um grupo potencializado.

Na sala de aula

Fotografia de aproximadamente quinze jovens de kimono e ajoelhados no tatame, com os olhos fechados.
(Divulgação)

Através do esporte, é possível fazer com que os jovens participem mais do ambiente escolar. “No meu primeiro projeto, fui gestor de uma escola muito grande e referência aqui no Guarujá. O Plantando Sonhos era sobre os alunos serem protagonistas da própria história”, conta Luiz. “Nele, eu reunia os jovens que estavam cabulando aula ou que eram expulsos da sala. Era uma média de 5 adolescentes por turma que ficavam para fora e se reuniam no pátio. Eles não queriam estar na aula e, é claro, enfrentavam outros problemas sociais e familiares”.

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Ele conta que, logo quando todos se conheceram, houve um estranhando muito grande. “Eu era um descendente de japoneses que destoava da realidade deles e que, aparentemente, não pertencia naquele lugar. Mas mal sabiam eles que eu era vizinho da escola”, ele conta. Com o passar dos dias, além da luta e dos treinos, muitos assuntos pertinentes ao ambiente escolar surgiam.

“Nós falávamos sobre muitas outras mudanças. Uma delas era a limpeza da escola, que tinha mais de 20 sala. Eram mais de mil alunos em cada período. Eles contavam com apenas uma colaboradora, que muitas vezes não dava conta do enorme serviço. Então, em muitas situações as salas estavam sujas. Eles falavam ‘não tem como a gente treinar, tá tudo sujo’, e eu, depois de explicar que não havia problema em colaborar com a limpeza do nosso próprio espaço, limpava a sala. No começo, ninguém quis ajudar, mas com o passar dos dias, pouco a pouco eles viram que não tinha problema nenhum pegar na vassoura e cuidar da escola também.”

Além disso, muitos assuntos da sala de aula tradicional também são pertinentes. Luiz conta que, dentre outras matérias, eles não gostavam de história e geografia. “Mas nós começávamos a conversar sobre de onde vinha o esporte que eles praticavam e qual a sua história, por exemplo. Eu também falo muito sobre a parte histórica dos samurais, de onde eles vieram e como eles eram cuidadosos e atentos. E dentro disso nós falávamos também sobre assuntos como economia, viagens e culturas”, explica.

“Precisamos encontrar maneiras de ensinar de uma forma que faça sentido”

Fotografia de aproximadamente onze jovens. Seis deles estão em pé e cinco deles estão sentados. Todos estão de kimono, no tatame montado na sala de aula, sorrindo para a foto.

“Todo e qualquer conteúdo é válido, e nós precisamos encontrar maneiras de ensinar de uma forma que faça sentido, onde o conteúdo se encaixa na cabeça deles. E isso se refletia diretamente na sala de aula. E por isso esse ciclo dava certo e mostrava como todo processo é importante: a escola, a sala de aula, o esporte, a cultura e a interação”, ele complementa. “Quando nós juntamos tudo isso, o aluno sempre sai com uma bagagem de aprendizado significativo. E a comunidade escolar, junta, pode colaborar de inúmeras formas”.

Com isso, aos poucos, os alunos foram a se desarmando. Dado o contexto e a sua realidade, esses jovens sempre estavam com uma postura defensiva. Mas, com o passar do tempo, a situação ficou mais confortável para eles. Consequentemente, dentro da sala de aula, eles começaram a melhorar também. “Eu falava para eles que nem todos os dias seriam fáceis, mas que precisamos enfrentar as dificuldades da vida e sempre tentar compreender as pessoas e as situações ao nosso redor”.

Evasão escolar

A princípio, o projeto começou com os alunos que estavam à beira da evasão escolar. Com o tempo, os outros alunos também se interessaram e pediram para que eles pudessem participar das atividades também. Assim, foram abertas diversas turmas, com o objetivo de potencializar todos os alunos da sua maneira.

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“Existe uma cultura muito ruim na comunidade escolar onde os alunos ainda não se sentem confortáveis nesse ambiente. Mas, aos poucos, nós conseguimos mudar esse cenário”, conta Luiz. “Precisamos entender os jovens e entender suas realidades. Por isso, é muito importante tirar cada vez mais os projetos do papel e viabilizá-los na prática, apesar do nosso sistema ser muito engessado”.

O esporte pode ser um fato essencial para o desempenho e engajamento dos alunos na sala de aula. Para Luiz, o que acontece é que a forma de educar e transmitir conhecimento ainda está muito formal e, por isso, não consegue alcançar os jovens e seus interesses. Hoje, principalmente com a tecnologia, eles conseguem se comunicar com todo o mundo. E muitas vezes o professor não tem tempo para se atualizar e conseguir passar todo o conteúdo de uma forma mais atual. “Assim, através do Karatê, eu trabalhava assuntos diferentes de uma forma que os estimulava a correr atrás dos seus objetivos. Precisamos pegar os conhecimentos e passar para eles de uma forma que faça sentido”.

Portanto, meu objetivo era esse, melhorar as relações humanas. E a única coisa realmente importante nisso é ficar atento ao modo como você mesmo se relaciona. Nunca foi meu objetivo trabalhar a luta, mas sim o respeito e a perseverança.

Para os educadores

Um projeto desses é um grande desafio. Afinal, ele reúne alunos que estavam à beira da evasão escolar, cultura japonesa e artes marciais. E trazer tais mudanças para o ambiente escolar não é uma tarefa fácil. Afinal, quando falamos com os professores sobre essas questões práticas, toda essa jornada pode ser frustrante.

“Apesar do cenário muitas vezes negativo, para mim, o principal é que o professor tenha consciência da sua profissão. A questão financeira é muito grande e tem muito peso, mas o professor é quem dá o norte para uma pessoa. Ele é capaz de transformar a vida de um aluno com uma única palavra”, conta Luiz. “Por isso, os educadores não podem perder a fé na profissão que eles escolheram e lembrar que seu papel é fundamental na vida das pessoas.

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