No interior de São Paulo, alunos reciclam 10 toneladas de materiais durante aulas “mão na massa”

Alunos de escolas do interior de São Paulo já transformaram, somente este ano, 323 quilos de lixo em protótipos de sucata produzidos durante as aulas do ensino infantil e fundamental. A expectativa é que, até o final do ano, o número chegue a 10,4 toneladas.

As sucatas são coletadas pela Little Maker, metodologia maker presente em 23 colégios situados em Campinas e região, como o Notre Dame, Progresso, Anglo Taquaral, entre outros, e pelos próprio alunos, que transformam materiais, como garrafinhas PET e caixas de leite em engenhocas significativas para as próprias aulas.

A prototipagem da sucata, que acaba reciclando materiais que iriam para o lixo, é parte da estratégia educacional da proposta, em que crianças e/ou adolescentes aprendem conteúdo curricular – como Língua Portuguesa, Matemática e Ciências Biológicas – enquanto constroem vários artefatos distintos. Tudo é produzido a várias mãos, cuja ideia principal é transmitir aos alunos atitudes e valores, tais como cooperação, colaboração, resiliência, criatividade, entre outros.

“Quando as crianças aproveitam sucatas no lugar de brinquedos que já chegam prontos, elas se tornam agentes de mudanças’, porque se reconhecem naquilo que produziram ao mesmo tempo em que colaboram com a natureza. Não precisamos dizer que a produção gigantesca de lixo já se tornou um problema mundial”, diz Diego Thuler, CEO da Little Maker. “Não se trata somente de uma questão de sustentabilidade, mas de consciência de reuso estimulada desde a infância”, completa.

Diego se refere, sobretudo, a um projeto de educação compreendido na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para os ensinos fundamental e médio, aprovada pelo Ministério da Educação no ano passado. Entre as dez diretrizes do plano, estão o “Pensamento Científico, Crítico e Criativo, a Empatia e Cooperação e a Responsabilidade e Cidadania” – elementos trabalhados pelo método maker.

Para Leandro Samora, professor do Ensino Fundamental do colégio Progresso, situado em Campinas, o trabalho com sucata ajuda os estudantes a ressignificar a relação com o próprio lixo.

“Os alunos vivem num contexto de consumismo muito grande, onde estão acostumados a ver as embalagens só com sua função primária, e logo as descartam. Quando eles usam a sucata para concretizar o plano teórico do projeto [Little Maker], acabam tendo uma perspectiva mais ampla de como podem utilizar os objetos. A ideia da sustentabilidade, que a gente sempre comenta em teoria, se faz mais lógica na prática, diz. 

Sucatas na educação mundial

A relação entre reciclagem e aprendizado é contemplada em diversos projetos educacionais ao redor do mundo: na África, a empreendedora britânica Anna Lowe toca um projeto que ensina jovens e adultos a reusar ou reformar objetos que iriam para o lixo, permitindo que eles voltem a participar de uma economia circular. “A quantidade de material reutilizado pode ser pequena, mas isso pode acontecer em qualquer lugar”, escreveu em um artigo para a Great Recovery.

Para o estadunidense Gary Stager, co-autor do livro Invent To Learn: Making, Tinkering, and Engineering in the Classroom (Inventar para Aprender: Fazer, Pensar e Construir na Sala de Aula, sem tradução para o português), um espaço maker não precisa construir sempre objetos de alta tecnologia ou de extrema utilidade. “Materiais reciclados como caixas de papelão, tecidos e restos de madeira podem ajudar os jovens a pensar ideias para a vida”.

Recentemente, o Brasil também mostrou um caso avançado de aprendizagem via reciclagem. Tornando-se finalista do Global Teacher Prize, premiação vista como o “Nobel” da educação, a professora paulistana Débora Garofalo conquistou os alunos da Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, na periferia de São Paulo, construindo protótipos de sucata. Nessa dinâmica, a educadora uniu suas aulas à urgência de combate às enchentes, sensibilizando alunos e a comunidade local para o aproveitamento de recicláveis descartados nas ruas. Ao total, resgataram uma tonelada de lixo.

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