Escolas públicas, gratuitas, para crianças e adolescentes de baixa renda – e com a pedagogia Waldorf: elas existem no Brasil. Seja pela rede municipal, estadual ou com organizações financeiras, essas instituições buscam ser um espaço popular de aprendizagem. Até dia 18/3, acontecerá uma campanha de financiamento coletivo para fortalecer o movimento de escolas públicas com pedagogia Waldorf.

Apesar de todos os problemas da educação brasileira, especialmente na esfera pública, essas escolas estão na contra-mão desse cenário. Elas valorizam e incentivam a participação dos pais; o envolvimento da comunidade; a criatividade no dia a dia; a sensibilidade; a convivência e a arte. E não têm como objetivo principal a entrada nas melhores universidades, mas sim a formação humana e social das crianças e dos jovens.

Existem diversas pedagogias diferentes, e muitas seguem o padrão principal das escolas atuais. No entanto, diversas vertentes também estão em busca da inovação na aprendizagem. E, portanto, essas alternativas excluem a competitividade, a necessidade de resultado e outras pressões do sistema escolar.

Mas, cá entre nós, educadores que buscam a transformação da educação, queremos é saber: como essas escolas se concretizaram diante de um sistema tão rígido? Conversei com alguns educadores e diretores dessas escolas. Mas, por enquanto,, uma dica: todas elas são judicialmente formadas como associações.

Antroposofia em Minas, Goiás e Sergipe

Em Minas Gerais, Camanducaia, a Escola Araucária, já com 40 anos, tem uma história que se repete também em Chapadão do Céu, Goiás: uma fazenda doada por alguém que queria uma escola no campo. A partir daí, uma comunidade de pais que conheciam a antroposofia (a base do ensino Waldorf) fez o vínculo com a prefeitura.

Na época, boa parte da população da cidade era analfabeta, e esse espaço virou um marco. Essa história é contada no documentário Escola Araucária, realizado em 2017, que está disponível no Youtube. Em Chapadão, essa mesma história aconteceu há 18 anos. Os fundadores da cidade escolheram um local e ali se iniciou uma entidade filantrópica. Como já conheciam essa pedagogia, aos poucos as  pessoas se formaram e integraram a equipe. Hoje a escola trabalha com 150 crianças.

A verba vem principalmente pelo Fundeb e é complementada por doações. Há também muito trabalho voluntário por parte de pais e moradores vizinhos. Eles ajudam a construir, doam brinquedos, cuidam do jardim e participam das festas e ciclos de aprendizagem.

Uma história um pouco diferente aconteceu em Aracaju. Lá são duas escolas com a pedagogia alemã que nasceram por iniciativa coletiva, a partir da união de professores, diretores, famílias e prefeitura. A Emei Doutor José Calumby Filho no terceiro ano e a Emef José Souza De Jesus, criada em maio do ano passado, ambas com apoio do Instituto Social Micael, e igual reconhecimento do MEC.

A beleza do semiárido

Na cidade de Palmeiras, no interior da Bahia, o sonho era ressignificar o sentido de educar no município. Um grupo de amigos se juntou e  se aproximou da prefeitura para pautar ideias, propostas, ações e parcerias Inicialmente era como um trabalho formação humana pros professores da rede pública. Aos poucos, tomou forma de uma escola inteira. E foi ao longo dessas conversas que a prefeitura demonstrou interesse em municipalizar, a partir de uma portaria legal.

Apesar da parceria público-privada não pagar a escola e colaborar através do envio de alguns materiais, Ana Claudia Costa Destefani, uma das fundadoras, conta que 50% do sustento é de padrinhos espalhados pelo Brasil. E que a estrutura é mesmo de projeto social, para alcançar todo o município.

Muito mais importante do que o reconhecimento do MEC que foi conquistado, Ana Claudia fala do reconhecimento pessoal e coletivo que vai se criando com a comunidade. Uma amostra disso é que todas as professoras hoje são moradoras do próprio município, contratadas pela associação, e que recebem bolsas para estudar a pedagogia.

“São elas que entendem a alma das crianças do local”, indica. “O fundamental da Waldorf é formar seres humanos livres e servir a todos sem classe, cor, religião. Para algumas regiões como o semiárido baiano, se não formos um projeto social, não cumpriremos a missão da pedagogia Waldorf”.

A missão de expandir

Dioneson, diretor de uma das duas escolas Waldorfs de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, também contou um pouco da sua experiência. Ele entende que a escola pública consegue realmente cumprir  com ideal de Steiner, fundador da pedagogia, através de “uma resposta à necessidade social”.

Foi assim que o primeiro espaço dessa pedagogia surgiu, lá na Alemanha, em meio ao cenário arrasador do fim da Primeira Guerra Mundial. Nela, filhos com as melhores condições financeiras e filhos dos trabalhadores de um fábrica de cigarros compartilhavam a mesma educação. Foi assim que o funcionamento foi autorizado pelas autoridades do local.

Para ele, lá na Europa, aqui no Brasil, ou em qualquer do mundo, essas escolas não podem existir de outra forma: “É quase indissociável ser waldorf e ser pública, a gente trabalha com ideal de educação, num formato que democratize o acesso e a permanência”.

E a pedagogia Waldorf vem como uma possível resposta aos anseios dos docentes. Esse formato que tem como objetivo “fomentar esse espaço social plural, rico em experiência, onde fundamentalmente não há uma barreira econômica para acesso”.

É assim que crianças e adolescentes de baixa renda passam a acessar e tem condições de permanecer nesse contexto pedagógico. “Contrariando uma prática excludente comum à grande maioria das escolas Waldorf no Brasil, acessíveis tão somente à pais que têm condições de pagar por tal serviço.”

E a intenção que vem sendo alimentada nesses 100 anos de pedagogia Waldorf é que as iniciativas públicas se ampliem. Rubens, com apoio do Instituto Ruth Salles, está nos últimos dias de campanha para realizar um trabalho de fôlego bastante promissor.

A pesquisa pretende organizar e publicar informações a respeito de algumas escolas Waldorfs públicas. E, assim, mostrar caminhos das pedras já trilhados, incentivar outras pessoas para que construam novas escolas pelo Brasil.

Eles vão abordar obstáculos enfrentados, constituição jurídica, formato dos convênios, autonomia pedagógica, como é a formação e contratação de professores, tudo que deu certo e o que deu errado, e como convivem com as mudanças de gestão nas prefeituras.

Além das escolas que entrevistamos, a pesquisa vai falar também com o Centro de Educação Infantil 316 Norte – Movimento Txai, localizada no Distrito Federal. Também apuramos que existem outras duas escolas waldorfs do povo pelo Brasil: uma na Paraíba, João Pessoa, e mais uma na Bahia. E parece que vem outras por aí.

Bruna Aieta está pesquisando relações e espaços que buscam a transformação da educação e da sociedade. Ela compartilhará algumas histórias no portal.