Que a sociedade deixe de consumir algo, deixe de exigir certo produto, mude sua cultura. É esse o tamanho do desafio que uma escola em Ubatuba abraçou. A ideia foi de fomentar, ao invés da devastadora produção de palmito, a extração do fruto da palmeira, e a comercialização dele como um alimento diferente, saboroso e regional – um sorvete do sudeste –, que nem antigamente.

Escola e comunidade se juntam para resgatar cultura extrativista da Mata Atlântica. Na foto, grupo completo posa para registrar o momento do trabalho em campo

O resultado já se vê: atualmente a polpa da juçara é fonte econômica de algumas comunidades quilombolas e tradicionais de Puruba e região norte do município, um dos poucos locais onde há resquícios originários de Mata Atlântica, e onde vivem os alunos da Escola Municipal José Belarmino Sobrinho.

“Ao invés de vender o palmito por um valor irrisório, retiram a polpa, reproduzem as sementes, replantam em áreas degradáveis”, conta o professor de português e vice-diretor da escola, Israel Paulo. É ele que lidera essa iniciativa de educação, cultura e meio ambiente na escola.

Escola se junta com a comunidade

Com tema norteador “Caiçara Sim – com muito orgulho!”, a instituição se juntou ao esforço comunitário, e está espalhando essa outra tradição. São educadores e educandos como agricultores de valores, ideias, atitudes, o resgate de nossas raízes que transforma. Uma mudança de foco, simples, mas que atinge todo o sistema de cultivo, produção e consumo.

estudantes plantando palmito para resgatar cultura extrativista da Mata AtlânticaCom fama de problemático, o palmito é produto que leva dez anos para ser colhido. É um produto pouco acessível, que modifica e muito o ecossistema da floresta. Esse extrativismo vem da demanda do mercado, um mercado que exige demais da mata. Foi e é preciso buscar alternativas.

Os estudantes viram na prática o cultivo sustentável da palmeira e de outras árvores nativas da região. Aprenderam que é possível – e gostoso – consumir a fruta da árvore. Agora, estão também semeando, produzindo mudas e plantando por vários cantos do entorno. Se juntaram com diversos moradores para espalhar essa ideia e fomentar essa outra cultura.

O professor Israel está fazendo sobre esse acontecimento o seu trabalho de mestrado, em liderança, na americana Andrews University. Conta que foi em 2016, durante um evento da semana do meio ambiente, que o projeto tomou forma. Isso aconteceu quando o sogro, o especialista agroflorestal, Eraldo Alves Filho, deu uma palestra:

“Ele que incentivou a fazer a semeadura. E conscientizar os alunos da importância da sustentabilidade, a importância de preservar a palmeira juçara. Então ele foi o precursor dessa ideia, e eu aderi”. É por esse caminho que seguem: regionalidade, desenvolvimento local sustentável e valorização da cultura tradicional.

Bruna Aieta está pesquisando relações e espaços que buscam a transformação da educação e da sociedade. Ela compartilhará algumas histórias no Caindo no Brasil