Imagem de criança negra sorrindo e correndo na grama
(Pixabay)

Educar é uma tarefa complexa, afinal, preparar um cidadão para o mundo exige um esforço contínuo. Como fica essa missão quando falamos de criação de crianças negras em um mundo ainda marcado por preconceito racial? Esta foi a pauta da edição 44 do podcast Tricô de Pais, organizado pelo blog Paizinho Vírgula, do especialista em criação com apego Thiago Queiroz: paternidade afro.

Participaram do debate os convidados Marlos Sanuto, pai de dois filhos, Hélio Gomes, que tem uma menina, e Leandro Gomes, que é pai do pequeno Benjamin, de quatro meses. Os três são negros e hoje exercem uma importante função social: educar os filhos e prepará-los para o mundo. Os desafios da paternidade afro são inúmeros e, durante o papo, eles elencaram algumas situações que já viveram. Além disso, eles dão dicas importantes para outros pais que estão também nesse processo.

Ancestralidade e identidade

Para boa parte das crianças negras, o primeiro contato com a ancestralidade e construção da própria identidade é o cabelo. Foi assim que Matheus, filho de Marlos, descobriu sua negritude. Quando ele perguntou, ainda criança, “pai, vou ter o cabelo igual ao seu?”. Por isso, valorizar o cabelo afro e mostrar a potência de seu significado é muito relevante no processo de educação das crianças negras.

No entanto, a afirmação de identidade por meio do cabelo não é tão simples. Em meio ao fenômeno das “barbearias gourmet”, por exemplo, os convidados concordaram que quase sempre é difícil encontrar um profissional negro nesses ambientes. “Eu fui lá porque contrataram um ‘cara nosso’. Ele sabia o que estava fazendo ali” – disse Helio referindo-se à barbearia perto do onde mora.

No caso de Marlos, ele percebeu que precisava tratar do assunto racismo quando o próprio filho reproduziu um pensamento racista. Com seis anos, o garoto disse que não queria mais brincar com os outros meninos da rua de baixo. Quando o pai perguntou o motivo, a resposta foi um choque: “porque gente escura fede”.

“Ao invés de brigar tive que parar e tentar entender de onde estava vindo essa leitura, que é uma reprodução”, contou Marlos. Foi aí que ele percebeu que não adiantava reprimir a criança, mas sim entender o contexto. Só assim seria possível destrinchar para ela, que não tinha entendimento do que aquilo representava, o significado daquela frase. As crianças as quais Matheus se referia tinham uma série de ausências, vinham de comunidades e não viviam a mesma realidade que ele. Tratava-se de um problema social. Racial também, só que muito mais complexo.

Além de fazê-lo entender o contexto das outras crianças, o pai também precisou fazer com que o filho entendesse o próprio contexto: ele era negro, filho de negro, pertencente à uma família negra. Quando reproduzia falas como aquela, estava se colocando como parte daquele grupo. Foi então que o garoto se deu conta.

O racismo é um problema de todos

Já Helio é pai da pequena Elis, uma criança branca. Tem nas mãos, igualmente, o desafio de ensinar a ela as questões de uma sociedade altamente preconceituosa. “E tenho que mostrar pra ela que ela tem vários privilégios”, ressalta o pai. Afinal de contas, o racismo é um problema de todos.

O cuidado na educação dos filhos é sempre redobrado em virtude da cor de pele, quando se trata de uma criança negra, como defende Leandro Gomes. “O que eu posso fazer para evitar que meu filho passe por determinadas injurias e preconceitos que eu passei na minha vida?” é o que ele sempre leva como questionamento para pensar em formas de viabilizar uma criação melhor. O caminho, para ele, é a resiliência. Para que o filho entenda que o lugar dele é onde ele quer estar, precisa ser resiliente.

Os três convidados concordaram que uma das formas de facilitar a educação afro é a representatividade. As crianças negras ainda não se veem na publicidade, no cinema, nos personagens infantis. Oferecer essas figuras como representantes delas mesmas é, segundo Leandro, uma “busca por independência e quebra de amarras sociais”.

Matheus, o filho de Marlos, depois de ser apresentado à série Cosmos, se sentiu tão representado e empoderado que até evoluiu na escola – hoje ele se mostra mais interessado e faz um paralelo interdisciplinar com o que vê na televisão, conta o pai.

Essa representatividade ganhou forma, recentemente, com o lançamento do filme Pantera Negra onde, pela primeira vez, o negro é um herói para todos.

Quer ouvir o podcast na íntegra? Clique aqui e confira.

Matéria publicada pelo Catraquinha.