O começo da vida é uma janela de oportunidade para o desenvolvimento integral da criança que pode impactar sua vida adulta. Essa é a essência do Descobrir Brincando, um projeto com foco na primeiríssima infância, que vai do zero aos três anos. “Minha teoria de mudança é que, ao tratar dos adultos cuidadores, fortaleço o desenvolvimento integral da criança”, conta Ana Maria Bastos, fundadora do projeto. Dessa forma, sua busca está em preparar melhor pais, parentes ou qualquer responsável para estimular a criança a alcançar seu potencial máximo. E mais: fazer isso nas periferias.

Ana posando parar foto de divulgação do Descobrir Brincando Paraisópolis, com parede verde ao fundo
Ana criou o Descobrir Brincando ao adaptar para a periferia os cuidados com a primeiríssima infância descobertos na Suíça (Foto: Projeto Draft)

É no começo da vida que a criança desenvolve a estrutura do cérebro, sua capacidade de se comunicar e de raciocinar. Por isso, o conceito de estimular os pais cuidadores é fundamental em qualquer núcleo familiar. Mas o negócio de Ana prioriza o impacto social. Por isso, desenvolve esse trabalho com as classes C e D da periferia de São Paulo. Ao longo do último ano, o principal projeto da empresa foi o programa Novo Olhar. Ele foi desenvolvido junto com o Hospital Albert Einstein e a Fundação Mapfre, na favela de Paraisópolis, zona sul da capital paulista.

 

É uma série de seis encontros de quatro horas cada um para ensinar adultos a perceberem os bebês por outros ângulos. Ou seja, “enxergá-los como seres capazes”, com personalidade e grande necessidade de interagir e trocar. A imersão começa, justamente, com o resgate das memórias que os adultos têm da infância. De acordo com Ana, é esta percepção que faz com que eles se relacionem com os bebês de maneira completa.

“Além de ter o básico, que é comida e moradia, é importante deixar claro para os responsáveis que a criança não precisa tanto de recursos financeiros. O que faz diferença é o repertório apresentado a elas, a construção de um ambiente favorável, ter todas as necessidades físicas e afetivas atendidas. Na verdade, o adulto é a coisa mais importante”, diz.

Para crianças mais felizes, cuide do adulto que cuida dela

O modelo desenvolvido por ela é inspirado na abordagem Pikler-Lóczy, criada nos orfanatos de Budapeste, na Hungria, quando a cidade trabalhava para se reerguer após a Segunda Guerra. Ana conta que o conceito defende uma relação respeitosa entre adultos e bebês, que não segue a lógica do manda e obedece. Ela descobriu o método com o choque de realidade que só viver na prática proporciona.

Antes de ir em frente com o plano, no entanto, voltou para a sala de aula e foi fazer pós-graduação em Educação Infantil no Instituto Singularidades. Ela estava convencida de que o caminho mais interessante era desenvolver um trabalho voltado para as classes C e D que, na visão dela, enfrentam as maiores dificuldades. Ainda assim, não sabia muito bem por onde começar.

Mais estudo e sustentabilidade financeira

Mães sentadas no chão e fazendo atividades do Descobrir Brincando Paraisópolis
Ana chegou à periferia com o programa Novo Olhar, do Descobrir Brincando, por meio de uma parceria com o hospital Albert Einstein (Foto: Projeto Draft)

Em 2016, Ana participou de dois programas que a ajudaram a fazer conexões e ir em frente. O primeiro foi o Laboratório de Educação de Harvard. “Eles buscavam projetos sociais e fizeram um intenso processo seletivo. Entrei e era a única pessoa mais velha e que não tinha vindo da periferia”, lembra. O negócio de Ana passou ainda por um programa de aceleração da Artemísia, que reuniu 28 iniciativas de impacto social. “Fiquei entre os três destaques finais. É algo que te dá um respaldo”, diz. No fim daquele ano veio uma boa surpresa: o Einstein enfim tinha um patrocínio para colocar seu projeto para rodar por um ano a partir de 2017.

Ao fim do ciclo de um ano, Ana percebe uma série de vitórias na iniciativa em Paraisópolis. “No programa percebemos que as mães já conseguiam interagir com as crianças de outro ponto de partida, com um estímulo mais interessante.” O projeto está, nesse momento, em negociação para ser ou não renovado por mais um ano. “Estou torcendo”, diz Ana. Em 2017, a empresa alcançou uma patamar interessante de faturamento: foram 250 mil reais, montante que a empreendedora pretende aumentar ao longo deste ano. No cálculo de Ana, no entanto, não é só o balanço financeiro que importa. “Quanto maior o lucro, maior o impacto”, diz, lembrando que as ações do Descobrir Brincando já alcançaram 900 famílias e 1.200 educadores, ajudando no desenvolvimento de 24 mil crianças indiretamente.

Para 2018, com o negócio mais maduro, há também novos planos. No laboratório de Harvard, Ana entrou em contato com um método que usava jogos como ferramenta para ensinar conceitos científicos. Ao longo do ano passado, se apropriou da ideia e desenvolveu, ela mesma, alguns jogos de tabuleiro para ensinar adultos assuntos como neurociência e desenvolvimento da arquitetura cerebral.

Post com modificações produzidas pelo Caindo no Brasil da publicação “Método suíço de cuidado com bebês para a favela de Paraisópolis? Sim, é o Descobrir Brincando”, da reporter Giovanna Riato para o Projeto Draft. Leia a matéria original e na íntegra clicando no link.