Comunidades indígenas do Rio Uaupés cartografam sua região

O Baixo Rio Uaupés é um dos principais afluentes do Rio Negro, na Amazônia. Em seu entorno, habitam 11 comunidades multiétnicas indígenas, oriundas tanto do Brasil quanto da Colômbia. Para esses grupos, os igarapés, leitos e lagoas formados pelos encontros de água, são solos sagrados. Afinal, em sua mitologia, estas águas serpenteadas foram rotas de origem de uma cobra-canoa. Ela viajou do Lago do Leite até a cachoeira do Ipanoré, carregando no ventre os ancestrais que povoariam a região.

Esses e outros saberes referentes aos baixos leitos do Uaupés e outras terras indígenas do Alto Rio Negro foram mapeados por pesquisadores indígenas por meio da iniciativa Cartô Brasil Socioambiental. Ao todo, 12 mapas foram criados em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). Eles cartografaram ocupações humanas, lugares sagrados e históricos, paisagens e pontos de manejo de peixes, floresta e caça.

Região do Baixo Uaupé Comunidades indígenas
Um dos locais cartografados
é o sítio Itapinima, na região do Baixo Uaupés (Reprodução/Portal Aprendiz)

Lançado em fevereiro de 2017, o do baixo Uapés está disponível para download na plataforma Cidades Educadoras e aborda a cosmologia da região. Todos os outros foram distribuídos nas comunidades para uso em escolas, associações e de lideranças indígenas, moradores e agentes de saúde.

“A ideia de mapear as áreas de manejo das comunidades desse trecho do rio partiu das suas lideranças”, explica Aline Scolfaro, antropóloga do instituto. Como a região é muito próxima ao município São Gabriel das Cachoeiras (AM), as lideranças buscavam mecanismos para se defender de conflitos intercomunitários causados pelo desconhecimento a respeito das áreas tradicionalmente já delimitadas pelas populações locais.

O território e a juventude indígena

Essas mesmas lideranças também esperavam que a criação do mapa se convertesse um em projeto atraente para a juventude indígena. “A nova geração está começando a se desinteressar do conhecimentos dos territórios, das histórias dos lugares e antepassados. E inclusive os limites de áreas de uso. O mapa vem fortalecer a transmissão de conhecimento geracional”, complementa Aline.

Segundo a pesquisa Engajamento Escolar, da Galeria de Estudos e Avaliação de Iniciativas Públicas (GESTA), criada pela fundação Brava, a falta de entendimento sobre a importância da escola e da educação também colabora para aumentar os números do abandono e da evasão escolar.

Comunidade Cartografando
Comunidade Matapi cartografando em oficina de 2014 (Reprodução/Portal Aprendiz)

Cada comunidade deu sua contribuição iconográfica e estética para identificar características de seus territórios. No processo de sistematização, foi essencial a participação dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs). Os pesquisadores têm o papel de animadores em suas comunidades. Ou seja, eles cuidam tanto de boas práticas, como a coleta seletiva de lixo, até a articulação política. Geralmente jovens, eles unem  conhecimentos acadêmicos com os saberes tradicionais dos idosos dos grupos.

Os mapas são um conteúdo especialmente sensível em um período no qual as comunidades do território do Alto Rio Negro discutem seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental. Com previsão de conclusão em 2019, o documento é uma ferramenta estratégica na preservação das terras indígenas. Afinal, hoje elas perfazem 12,64% do território nacional.

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