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“Eu gostei dessa aula porque a gente saiu da sala, professora”.

Imagem de poste e pessoa colando lambe lambe

“Eu gostei dessa aula porque a gente saiu da sala, professora”.

Imagem com fanzines criados pelos alunos

Aquela fala de Gilberto continua ecoando em mim. Foi no semestre passado que essa aula aconteceu. Conheci uma menina que dava oficina de lambe-lambe e convidei ela para encerrar a aula de poesia concreta no sétimo ano.

Alguma coisa acontece quando alguém novo adentra uma sala de aula pela primeira vez. É um estranhar-se/entranhar-se misterioso. Um limiar entre o desejo de conhecer o outro e o desconcerto de ainda não conhecer.

Eu amo observar os alunos mais bagunceiros (também conhecidos como criativos inconformados) nesse prelúdio da “aula com gente de fora”. Alguns se curvam, abaixam o farol do olhar. Outro já revelam a juba e o reinado logo de cara. Independente da primeira reação, os rebeldes sempre gostam dessas aulas – mesmo quando fazem cara de desdém.

Foi na aula de lambe da Marcela que Karina assumiu pela primeira vez que não sabia ler. Falou em alto e bom tom. Depois scaneou a turma toda com seus olhos em pleno manifesto e proclamou:

– Mas estou aprendendo.

Ah Karina, te admiro tanto!

Outro episódio de forasteiros em sala de aula aconteceu meses depois. Conheci outra menina, minha xará Duda, que ministrava oficinas de zine. Não pensei duas vezes e convidei ela para encerrar a trajetória de crônicas que estava trilhando com os meus três oitavos.

Rolou meditação guiada, exposição aberta de medos, choro e muita criatividade na hora de produzir os zines.

Essas aulas fora da curva fazem com que o menino que nunca se expressou se solte, se acomode no incômodo. É um fenômeno raro que poderia ser mais cotidiano.

Poderia?

Pode!

A presença de Marcela e Duda anunciaram o início de uma nova fase no meu trabalho em sala de aula como professora de Língua Portuguesa. É necessário sair do comum e tornar isso comum. Os alunos anseiam, clamam, as vezes até esperneiam pelo inédito! E quando falo inédito, não me refiro a nada muito espetacular. Falo de uma volta na própria escola pra observar as coisas e fazer uma lista.

– Sabe tudo isso aí que vocês escreveram, gurizada? Tudo isso são substantivos! (Obrigada pela dica de aula, Camilla!)

Agora tudo que vejo, todos que conheço, toda novidade que pra mim se apresenta como pérola na concha do cotidiano me faz pensar: Como posso levar isso pra sala de aula?

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A educação é luta e aconchego

Conexão com estudantes: xícara de café no centro da foto e flores e livro no entorno

Contei para o 8° B que estava fazendo estágio em uma outra escola do bairro. Ensino médio. Noturno.

“Escreve uma crônica sobre essa experiência, professora”.

Desde quando começamos a estudar crônicas os alunos pegaram gosto pelo gênero. Dia desses Talita chegou com uma crônica que ela tinha escrito. Escreveu assim do nada, porque quis.

Enfim, aqui está a crônica que Lucas pediu. A crônica sobre essa curta experiência em uma sala de terceiro ano de Ensino Médio.

Fiquei um mês observando as aulas da professora Marisa. Todas as quintas a noite eu batia ponto lá na escola. Me sentia avulsa no início. Não era minha escola, eu não via meus alunos meio pequenos meio grandes (ainda se diz pré-adolescentes?). Os alunos do Ensino Médio já passaram do pré e da adolescência. São jovens. Alguns já adultos. Algumas já mães. Alguns pais – talvez. A mãe é informação explícita no contexto escolar. Já o pai…

Duas mães na mesma sala. Na lousa, aula sobre crase. No chão, panelinhas e chupetas. Assistiam à aula e as filhas.

Eu poderia encher todos os seguintes parágrafos de outras cenas que vi. De acontecimentos que realmente mexeram comigo. Mas até quem nunca pisou em uma sala de aula de uma escola pública – no período noturno, em uma turma de terceiro ano de Ensino Médio – consegue imaginar um esboço ainda que muito estereotipado e pessimista.

Eu prefiro preencher as linhas que seguem com a sensação de aconchego que carrego dentro de mim depois dessas quatro semanas de observação e desses poucos 40 minutos de aula que acabei de ministrar. Aconchego é mesmo a palavra que eu queria. Peço ajuda ao verbete.

Aconchegar (verbo transitivo direto e indireto)

  1. Chegar (umas coisas para junto de outras).
  2. Aproximar muito.
  3. Chegar muito a si.

Me aconcheguei a realidade daqueles alunos. Tão próximos do meu bairro, tão distantes de mim. No dia da minha aula, aconcheguei um texto a eles. “O legado das ocupações nas escolas”. Talvez quisesse deixar um legado ali. Simbólico, singelo.

Alguns chegaram atrasados, mas tiraram o fone de ouvido e se juntaram a roda. Nem todos participaram da conversa sobre o que foi lido, mas todos leram e responderam a provocação que estava na folha sobre a carteira:

O que você já fez para colaborar com um ambiente de aprendizagem e boa convivência na sua escola?

Não fiz nada. Presto atenção na aula. Comprei rifa para ajudar na pintura das salas. Organizei a rifa para ajudar na pintura das salas.

A resposta que eu mais gostei? Acho que foi a de João: Não fiz nada AINDA.

Ainda. Advérbio de tempo capaz de deixar tudo tão mais… aconchegante! Agradeço por ter sido tão bem-vinda pela professora Marisa e por todos os alunos do terceirão. Com aconchego e gratidão respondo agora uma das questões que a professora colocou no quadro no meu primeiro dia de estágio.

1) Argumente promovendo a progressão temática. Utilize um dos elementos coesivos abaixo:

CONTUDO

EMBORA

JÁ QUE

  1. a) A educação brasileira tem muitos desafios a enfrentar CONTUDO somos muitos os que estamos caminhando em busca de possibilidades onde parece que não há mais soluções. Estamos cada dia mais perto de nós, dos outros e do que queremos juntos. Ainda não chegamos lá, mas chegaremos. Como a Emily. A Emily que veio tirar foto comigo depois da aula e pediu meu face. “Vou te marcar no post de quando eu passar na UFMT” Mal sabe ela que já me marcou.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Entrelinhas e laços: as protagonistas

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

“Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz os assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modifica-lo.”

Assim que terminei de ler emocionada a crônica de Affonso Romano de Sant’Anna o 8ºC olhou pra mim como se eu fosse a autora daquelas palavras. Depois de um breve silêncio, um suspiro coletivo e uma fala de Caíque:

– Nossa, professora! Que texto profundo.

Foi assim, de primeira viagem, que meus navegantes do 8ºC entraram na maré das crônicas. Aquela aula de introdução ao novo gênero foi mesmo profunda. A sala percebeu que, de fato, as crônicas provocam reflexões e críticas.

Em casa, preparando um novo planejamento, reli a crônica “Porta de colégio” e nas entrelinhas encontrei uma nova passagem: o protagonismo juvenil. Era essa a temática que brilhava dentro da minha cabeça enquanto as abas cresciam na tela do meu computador.

Queria encontrar um texto que mostrasse aos alunos que enredo de crônica é sucessão de acontecimentos no presente. Queria um texto que mostrasse o agora. Uma crônica com personagens adolescentes que não frequentam a escola pensando em se preparar pra vida adulta, porque estão ocupados demais fazendo a vida acontecer no agora. Organizando debates na escola. Mobilizando o bairro. Promovendo eventos culturais.

Busquei em vários sites, contatei alguns colegas da área, mas não encontrei nenhuma crônica que atendesse minhas expectativas.

A segunda aula sobre crônicas no 8ºC não teve o texto que eu queria e não foi tão inspiradora quanto a primeira. Os alunos estavam agitados. Alguns mais que outros. Outros menos que alguns. Eu mesma não me excluo da agitação, pois tinha acabado de sair da minha turma de sétimo ano (professores de sextos e sétimos me entenderão!). Enfim, aquela aula foi bagunçada demais e não atingiu o ápice como a primeira. Saí de lá pensativa. “Preciso trazer sem falta um texto interessante sobre protagonismo juvenil pra essa turma na próxima aula”.

No fim do dia, estava em outra sala, do oitavo E, esperando alguns alunos terminarem a atividade. Olhei pra porta porque percebi um aglomerado anormal. O sinal já tinha tocado, o barulho do corredor já tinha cessado. Porém, lá estavam 5 alunas do 8 C me esperando. Uma delas fez sinal que queria falar comigo. Os dois alunos terminaram o exercício e saíram dando passagem para as meninas que me traziam uma alegria inesperada:

– Acho que você vai gostar da nossa ideia, professora.

Me disse Laura sorrindo até a ponta do rabo de cavalo que saudava o imponente coque de Jamile. Ao lado das duas, Michele e seu crespo proferiram:

– Sabe o que é professora, hoje depois da sua aula eu fiquei pensando muito numa coisa. Alguns alunos atrapalham as aulas, estão com muita falta de respeito e o bullying está passando de todos os limites. A Mari fez uma fala hoje lá pra turma, bem depois que a senhora saiu e eu fiquei pensando que a gente poderia passar em todas as salas conversando sobre isso. Fazendo tipo uma palestra.

– E falando sobre padrão de beleza, também! A gente quer falar sobre isso com os alunos.

Complementou Emily Cachos enquanto eu descia da minha elevação aos céus. A história de protagonismo juvenil que eu tanto busquei estava sendo encenada na minha frente!

Começamos a conversar sobre a proposta e as cinco meninas foram se empolgando a medida que minha animação crescia. Ou foi ao contrário? Não sei se delas pra mim ou de mim pra elas, mas sei que a energia fluiu tanto que a professora de matemática também entrou na sala e o entusiasmo nos abraçou. Pela primeira vez na minha escola senti o significado do substantivo sororidade.

Quando já estávamos saindo, Mari fisgou meu semblante e finalizou meu dia letivo fazendo um pedido:

– Professora Madu, escreve uma crônica do dia de hoje!

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

Escrevo essa pra Mari, Laura, Michele, Emily e Jamile. Escrevo pra todas as gurias e guris que tiveram iniciativa, que buscaram fazer qualquer coisa de diferente na escola. Escrevo para os adolescentes protagonistas, inquietos e curiosos. Para os jovens inconformados. Para os adultos que protagonizam a juventude desde o dia que conheceram Holden Caufield. Escrevo para os professores que querem levar um texto sobre protagonismo juvenil pra sala de aula mostrando pros alunos que melhor que ficção, só mesmo a realidade.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Camila Coragem: o que ensinar exige

Ensinar exige rigorosidade metódica.

Esse é um dos tópicos do sumário do clássico freiriano “Pedagogia da autonomia”.

Ensinar exige pesquisa.

Ensinar exige curiosidade.

Ensinar exige tantas coisas que eu dei conta só de ler o sumário do livro e fiquei dias processando todos os requisitos que Freire me contou naquela noite quente e chuvosa da primeira semana de novembro.

A reflexão me trouxe a lembrança de um episódio de maio que reverberou novas atitudes e práticas mais amadurecidas.

Eu levei minhas quatro turmas de sétimo ano na exposição itinerante da Bienal de São Paulo. Foi um desafio enorme trabalhar em sala de aula conceitos de arte contemporânea e pós modernidade. O tema da Bienal era incerteza viva.

Por ser tão incerta e tão viva eu falhei. Falhei no processo, falhei na visita e falhei na avaliação.

Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática

Cinco meses depois decido sair mais uma vez dos arredores da escola e mostrar que a construção do saber se dá em outros espaços, com outros sujeitos e sobre outros temas, diferentes dos do livro didático.

Dessa vez fiz diferente.

Fiz pequeno e intuitivo. Fiz grande e organizado.

Ensinar exige tomada consciente de decisões.

Estou desenvolvendo um projeto de produção audiovisual no contraturno. Os alunos escreveram o roteiro de um curta e agora estamos na fase de gravação. Camila é a aluna que mais se envolveu com esse projeto. Sempre tem aquela pessoa que se apaixona, agarra a ideia e se desenvolve de uma forma muito autêntica e genuína. Camila já gostava muito de fotografia. Ela começou a me seguir no Instagram e viu que eu também sou entusiasta desse universo. Ela se aproximou de mim, me pediu dicas e me enviou fotos suas. Eu vi ali uma semente brotar me pedindo mais água pra crescer.

Certo dia eu estava rolando o feed infinito no Facebook a procura de nada e encontrei uma oportunidade que caiu feito chuva no solo de Camila: uma oficina de fotografia criativa para iniciantes.

Consegui pagar meia inscrição pra ela e fomos juntas.

No caminho ela observava a transição pela janela do Uber. Da periferia para o centro.

– Você costuma vir pra esses lados da cidade, Camila?

– Não. Eu nunca saio do bairro. De vez em quando vou visitar uns parentes que tenho lá no Pedregal, sabe?

Pedregal é um extremo oposto ao da nossa escola.

– Minha mãe não me deixa sair sozinha. Nunca peguei ônibus só. Ela me deixou ir nesse curso porque a senhora conversou com ela e porque você está comigo… Ela fala que é perigoso uma menina sair por aí sozinha. E é mesmo né…

Fiquei um tempo em silêncio e na minha mente passou um filme de todas as vezes que transitei meu corpo sozinho pelo mundo. Sou uma mulher consciente dos desafios que enfrento na sociedade. Sou branca e venho de uma família de classe média do interior paulista. Tenho consciência de meus privilégios também. Sou adulta, mas já fui adolescente. De todas minhas identidades caleidoscópicas, naquele instante eu assumi a de educadora. Educadora responsável por levar “sozinha” uma aluna em um ambiente completamente diferente dos que ela frequenta para fazer um curso sobre um assunto que está fora dos parâmetros curriculares.

Respirei, inspirei e parafraseei Guimarães Rosa:

– É perigoso, Camila. Mas a vida exige coragem! Nós, mulheres, precisamos ser cuidadosas, sim.  Mas precisamos ser corajosas.

Chegamos no local do curso. Metade cheio. É o nome do café-bar, loja-galeria, ateliê colaborativo que abriu recentemente suas portas no centro histórico da capital mato-grossense. Eu amo esse lugar. Camila também amou. Ela observava tudo com um olhar de viajante que me fez recordar minha primeira viagem.

O curso estava dividido em duas partes: teórica e prática. No início ela estava tímida, mas no final saiu pelo café com seu celular e depois com a minha câmera registrando cada instante, cada cenário, cada universo que só o olhar dela é capaz de enxergar.

A foto de Camila

Depois da sessão fotográfica voltamos pra sala e exibimos nossas produções. Rodolfo, o fotógrafo que ministrou a oficina, ia passando as fotos na tela e fazendo comentários. De repente aparece a foto de Camila.

Foto de mulher negra

Eu finalizo meu relato aqui. Com essa foto que me preencheu a alma e me deixou afônica.

E com mais um tópico do sumário-poesia do nosso patrono da educação:

Ensinar exige convicção de que a mudança é possível.

Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços.

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Usar as palavras como ferramenta

Cena 1. Algum dia não registrado de abril. Talvez final de março. Segundo horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Não preciso esclarecer que Elias tem dificuldades na escrita e leitura. Diante do caos, eu dialogo. Peço pra ele olhar nos meus olhos. Ele desvia. Quando der o sinal você não sai, Elias. A gente vai ter uma conversa. O sino toca. Elias corre. Professora, o Elias fugiu! Pega ele, Rafael! Não. Deixa quieto.

Cena 2. Volta do intervalo.

Elias entra na sala empurrando os colegas. Senta na carteira e encontra minha carta colada com uma fita crepe em cima do seu caderno. Eu observo tudo pela fresta da porta, sem ser notada.

Elias, você pode até fugir de mim mas saiba que eu nunca vou desistir de você. Eu acredito em você. Sei do seu potencial. Com amor, professora Madu.

Elias sorri no canto de boca. Olha pros lados pra confirmar que ninguém viu aquele episódio. Guarda a carta na mochila e volta a fazer pose de bagunceiro. Eu sorrio sozinha e continuo meu caminho pelo corredor até chegar na sala do 7°G.

Cena 3. 11 de setembro de 2017. Quarto horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Eu continuo atendendo os alunos, carteira por carteira. Passo pelo Elias, abaixo e digo olhando em seus olhos: você pode ficar aqui quando der o sinal? É rapidinho, quero te mostrar uma coisa. Ele acena que sim com a cabeça baixa.

Cena 4. Fim da aula/dia.

Elias, eu poderia te levar até a coordenação. Poderia te dar uma advertência e você sabe os motivos, eu não preciso falar. Mas eu quero escrever uma carta de comprometimento junto com você. Pode ser?

Pode.

Ele responde baixinho. Em um tom de voz que eu desconhecia. Sua voz é mais doce do que eu imaginava.

Redigimos juntos a carta no meu caderno.

A partir de hoje, Elias se compromete com seus estudos. Ele será um aluno responsável com seu aprendizado. Ele fará as atividades em sala, mostrando todo seu potencial.

Professora, mas eu não vou conseguir. Eu não me acho capaz.

Você é.

Cena 5. Usar as palavras como ferramenta

Usar as palavras como ferramenta
Ilustração: Maria Barge

13 de setembro de 2017. Primeiro horário no 7°F. Luiza vem correndo afobada balançando um papel.

Calma, Luiza. Não precisa correr assim. A professora vai passar em todos os grupos para orientar a produção dos panfletos da campanha. Espere que a vez do seu grupo já vai chegar.

Mas professora, a senhora precisa ver isso. Olha o texto que o Elias escreveu pra colocar no panfleto. Ele escreveu sozinho, disse que foi da cabeça dele.

“Usar as palavras como ferramenta. Lutar para acabar com o preconceito em todo o brasil”

Eu li e logo pensei que os verbos não estavam no modo imperativo, conforme havia orientado no roteiro da aula. O “B” do Brasil estava minúsculo.

Afastei esse pensamento e olhei pra Luiza que sorria olhando pra Elias que sorria olhando pra mim.

Usar e lutar no infinitivo do universo de Elias. O brasil em expansão para a maiúscula imaginação criativa do menino que duvidava da sua própria capacidade.

Fui até a carteira de Elias e dei um beijo em sua testa pequena. Sentei ao lado dele e juntos fizemos as mudanças necessárias para que a frase estivesse dentro do formato do gênero textual em estudo. Ele compreendeu.

Não se esqueçam de colocar a frase de Elias entre aspas com o nome dele logo abaixo.

Meu nome vai aparecer no panfleto, professora?

Lógico! A frase é tua! A palavra é a tua ferramenta.

Cena 6. 39 graus. Meu quarto é quase meio dia. Quase hora de ir pra escola.

Sentada na janela, fecho os olhos para reviver a lembrança. Sinto uma gota de suor deslizar lentamente da dobra do meu joelho até meu tornozelo esquerdo. Junto escorre uma gota de mar que desagua em minha boca. Abro os olhos pro mundo. Mesmo sem óculos beijo mais cores no meu quintal. Suspiro e faço minha citação do dia:

A palavra é minha ferramenta.

Confira mais relatos de Madu aqui.

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Três Marias

Eu estava na biblioteca junto com Maria. Um dia antes da avaliação final, ela apareceu pela primeira vez na aula do contraturno. Fiquei o bimestre todo pensando em diferentes estratégias para levar Maria e outros alunos nas aulas de “reforço”. Tive poucos resultados positivos, confesso. Porém, nessa manhã em que Maria me apareceu eu fiquei feliz.

Suficientemente feliz.

Gosto da ideia do suficiente. Que é bastante, que satisfaz. As vezes a auto cobrança bate na porta e a gente quer sempre mais. Querer o suficiente é meu caminho nesse final de ano letivo.

Pois Maria me mostrou sua suficiência toda. No início da aula ela estava com sono e desanimada. Pedi pra que ela e Rogério, o outro aluno que compareceu naquela manhã, revisassem o conteúdo da avaliação e me falassem qual era a maior dificuldade deles.

– Produção de texto, prof.

Disse Rogério sem nem abrir o caderno.

– Escrever texto é difícil demais, professora.

Completou Maria, deitando e se espreguiçando sobre os livros que estavam na mesa.

– Então tá, vamos ler uma história, buscar um pouco de inspiração e treinar nossa escrita criativa!

Eles não estavam acompanhando a minha empolgação, mas eu não me abalei. Se um aluno desanimado te contamina fica difícil reverter o processo e contagiá-lo com a curiosidade pelo aprendizado.

Entreguei os livros e pedi pra que eles acompanhassem minha narração. Li com entonação um conto de Sylvia Orthof: Vovô General e Vovó Vedete.

Maria gargalhava no meio da leitura. Eu comecei a rir enquanto lia também. Rogério esboçou um sorriso tímido. O mundo literário é, de fato, fascinante!

“Esta é a simples e bela história de amor de duas pessoas bem diferentes. Afinal, o mundo tem lugar para muitas gentes diversas.”

Conversamos sobre o conto, sobre a estrutura do texto, relembramos os elementos da narrativa, o passo a passo dos três parágrafos e combinamos o tema da produção: o encontro de duas pessoas muito diferentes que terminou em romance.

Rogério escreveu rápido. Sentei ao seu lado e corrigimos algumas partes do texto. Lembro-me que no início do ano ele não sabia nem o que era parágrafo. Acompanhar o avanço dos alunos é de uma gratidão incomparável. Enquanto isso, Maria escrevia algumas linhas e apagava. Olhava pra gente e reclamava:

– Vote, professora! É muito difícil!

Rogério se foi e ficamos nós, as duas Marias. Na verdade, éramos as três. Alguém havia deixado um livro de Maria Clara Machado naquela mesa em que estávamos estudando. A menina e o vento. Peguei o livro e sentei ao lado de Maria.

– Olha, eu não vou mentir pra você. Escrever é um processo difícil, mas é muito gostoso. A gente acabou de ler uma história muito legal e eu tenho certeza que aí dentro da sua cabeça também tem uma história legal pedindo pra sair. Coloca ela no papel! Sem medo de errar!

Ela me respondeu com um olhar típico de Maria. Aquele olhar de quem se convenceu de algo que no fundo já sabia. Pegou o lápis e mergulhou. Eu pulei logo atrás.

Me perdi e me encontrei nas aventuras de Maria, uma menina corajosa que desafiou o vento e viajou com ele pelo Brasil afora. As tias e a mãe chamaram a polícia, pois estavam desesperadas com o sumiço de Maria. De repente…

– Professora, eu preciso fechar a biblioteca.

A bibliotecária me trouxe de volta a Cuiabá. Olhei pro relógio do celular assustada. Ao meu lado estava Maria. Ela nem se mexia. Estava finalizando um diálogo no verso da folha. Tive que despertá-la:

– Maria, a gente precisa ir embora.

Ela concordou, ainda em transe literária. Disse que terminaria o texto em casa e me entregaria depois.

Saímos e fomos caminhando lentamente pelo corredor. Disfrutando e compartilhando em silêncio aquele estado de poesia.

Deixei a outra Maria lá em cima da mesa, na esperança de que uma Maria diferente viva esse encontro que termina em…

Nunca termina.

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O dia em que Gabriela deixou Rosalina

Essa coisa de identidade sempre me intrigou muito. Por acreditar que os nomes e apelidos carregam facetas da nossa múltipla identidade, pedi, logo no primeiro dia de aula, para que cada aluno me escrevesse como queria ser chamado.

– “Como assim, professora, eu não entendi. ”

– “Seu nome é João Lucas, certo? Como você quer que eu te chame? De João? Luquinhas? Como você gosta de ser chamado?”.

Eles me olhavam sorrindo. Muitos alunos têm nome composto. Eu, que sou a “Maria mais a Eduarda”, já fui Duda na infância, Maria nas andanças e Madu na sala de aula, sei bem como é isso de ter muitos nomes e de ter suas próprias preferências.

Sentada na minha cama pouco dormida, segurando as folhas que voavam por conta do ventilador ligado no máximo, me diverti e me emocionei lendo as respostas. Eu amo ler meus alunos (apesar do trabalho que dá ler o que 120 pessoinhas escrevem).  Além do nome pelo qual queria ser chamado eu pedi também pra que eles me contassem seus maiores sonhos e me falassem de pessoas inspiradoras.

– “Minha mãe que trabalha e cuida de casa”

– “Meu sonho é conhecer São Paulo”

– “Meu sonho é ter a casa própria”

– “Meu sonho é ser rica”

No meio de tantas reflexões sobre a vida dessas crianças, planejamentos de aula: 40 horas semanais de trabalho que se estendem algumas noites a fio acabei por não priorizar a organização de uma planilha com os nomes que os meus alunos escreveram. A ideia era fazer a lista de chamada pelos nomes que cada um gostaria de ser chamado. Ser professora é aprender todo dia a lidar com as frustrações e a deixar de lado a auto cobrança.

Aquela menina quietinha, fora dos padrões estampados nas revistas de moda e beleza, isolada sempre no canto direito da sala, na sombra que o sol da tarde faz na janela, se chama Rosalina Gabriela. Duas semanas de aula rolando e eu chamando ela de Rosalina. Eu chamava ela sempre, porque sabia que ela sabia as respostas e porque ela tinha que saber que eu sabia. Três semanas passaram e eu fui guardar uma redação dela no portfólio quando me deparo com o papel que ela me entregou com as respostas do primeiro dia de aula. “Quero ser chamada de Gabriela”. Fiquei relembrando todas as vezes que me referi a Gabriela como Rosalina. Errei.

Segunda-feira brava, sol cuiabano a pino, últimas aulas do dia. Entrei no 7°E com frio na barriga. Uma vez uma professora me disse que quando a gente tem frio na barriga quer dizer que a gente se preocupa com o nosso público, que a gente tem respeito por ele. Gosto dessa definição.

Pedi pros alunos formarem grupos de três pessoas. “Você não vai escolher os grupos hoje, professora?” “Hoje não, pode juntar com quem vocês quiserem”. Quando falei isso já engoli uma preocupação: os alunos mais recatados. A Gabriela. Virei pra classe e disse: “Antes de juntar as carteiras eu vou entregar os portfólios com as redações corrigidas, vocês vão precisar delas pra fazer a atividade de hoje”.

Fui entregando, chamando nome por nome. Aline… João… Mari… Gabriela! Ela me brilhou. Sorri em resposta e continuei chamando outros alunos no mesmo ritmo. Lembro de ouvir alguém interrogando: “Gabriela?” “Sim, é meu segundo nome”. É teu primeiro, mulher! Pensei sozinha.

Gabriela fez grupo com Rafael e Caíque. Eu nunca tinha visto Gabriela conversar com nenhum dos dois. Caíque, inclusive, é da turma que olha pra janela e não da turma que se esconde na sombra dela. Conversou demais com Caíque a Gabriela. Reparei que uma hora ela estava explicando alguma coisa do exercício pra ele. Depois vi que ela riu de um jeito que a Rosalina não ria. Quase tive que pedir pra Gabriela parar de falar nesse dia. Mas não pedi.

Deixa ela, a Gabriela, cravo e canela. Deixa de ser Rosalina, vencer Gabriela.

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Entrelinhas e laços: Sobre ser humana, sala de aula, sociedade. E sobre sonhos.

– Estou pensando como posso dizer isso pra senhora sem te ofender.

Foi assim que Amanda falou. E eu amei. Respondi empolgada com um “óóótimo!” E fiz um pequeno discurso sobre críticas construtivas. Enfatizo o pequeno discurso por causa de um dos itens do acordo co-construído com o 7° F. A professora não fará discursos muito longos ou desnecessários. Foi nesse mesmo contexto de criação dos novos acordos de convivência que Amanda soltou essa fala. Olhou indecisa pro ventilador que pouco cumpre sua função no mês de agosto em Cuiabá e voltou com uma nova oralidade digna de ser compartilhada:

– É que professora, às vezes a gente faz bagunça. Eu assumo. Mas aí a senhora pede pra gente parar várias vezes e não funciona. Aí a senhora começa a falar que preparou a aula pra gente e que ninguém se importa. Que a senhora tenta dar uma aula diferente mas que a gente não ajuda. É isso que eu queria falar pra senhora, professora.

– Obrigada pela sua fala, Amanda. Ela não foi nem um pouco ofensiva.

– Era isso que eu queria falar, isso é uma coisa que a senhora faz e a gente não gosta. Tem gente que chama isso de drama, né?

SIM! ELA ME CHAMOU DE DRAMÁTICA! Aff, eu amo a Amanda. Amo essa experiência de virar pra sala e falar:

– Então tá, agora é a vez de vocês falarem o que vocês não gostam na professora.

Eu entrei nas minhas quatro salas depois das férias com uma única certeza: a professora do fim do semestre passado ficou no semestre passado.

Fim de junho eu estava… Eu não estava. Eu não era. Eu não conjugava nenhum verbo de estado nem de ação. Só seguia no automático com uma pequena esperança de que os fenômenos da natureza trouxessem água milagrosa pra molhar meu agreste.

Entrega de notas pro conselho tenho que corrigir as provas nossa teve aluno que faltou no dia da prova preciso lavar roupa não tenho uma blusa descente pra trabalhar defina blusa descente seria aquela que desce? Tomara que caia? não raspei o suvaco axila maria eduarda meça suas palavras isso é jeito que moça fala por que é que eu tenho que tirar esses pelos que nasceram espontaneamente debaixo do meu braço mesmo? 7° G amanhã primeira aula preciso lembrar de devolver a caligrafia do Bruno e reservar o projetor

Resnãopire.

Não, isso não foi uma tentativa de escrita compulsiva beatnik. Isso foi uma tentativa de reprodução do meu pensamento acelerado. Um dos sintomas da famosa ansiedade-mal-do- século. Pensamento desenfreado que me tirou o sono, me tirou os sonhos, tomou conta de mim a ponto de me fazer esquecer quem eu realmente era.

Graças a ainda vigente legislação trabalhista minhas férias chegaram. A volta pra terra natal e pras estradas do meu interior foi mágica. Um reencontro comigo. Com a minha criança interior. Com a minha adolescente em crise interna, externa e eterna.

Voltei do recesso escolar como quem volta de um banho de cachoeira depois de horas de trilha no cerrado.

Renovada eu cheguei disposta a fazer diferente. Cheguei na piração de que a práxis docente é essa loucura mesmo. A ação-reflexão-ação me (des)orienta dentro e fora da sala de aula. Entre caos e organização eu vou continuar navegando. Ora enfrentando as altas marés ora em porto seguro. Porém sempre segura de que a adultice do cotidiano não pode romper minhas artimanhas de viver o hoje como quem vive o sempre.

Por isso minha primeira aula foi sobre saber ouvir o outro e construir junto com o outro um novo ambiente propício ao aprendizado. Por isso tive que pedir pros meus meninos e meninas apontarem meus defeitos antes de apontar os deles. Tive que falar sobre meus erros abertamente e comentar sobre minhas frustrações. Depois falamos sobre nosso relacionamento, sobre respeito, empatia, responsabilidades. Ainda deixei de tarefa: pesquise o que significa alteridade.

– Professora esse acordo que estamos fazendo é como se fossem as leis?

– Sim, Miguel! E digo mais: nós não estamos “brincando de fazer as leis da sociedade” aqui na sala de aula. Nós somos a sociedade e estamos construindo ela da forma que queremos hoje.

Senti e vi olhinhos cintilando no mesmo reflexo que o brilho dos meus.

É tão bom voltar a ser quem a gente não sabe que é.

Finalizo esse híbrido de gêneros textuais fazendo um apelo (porque como bem diagnosticou Amanda: sim, eu sou dramática):

Não perguntem as crianças e adolescentes o que eles querem ser quando crescerem.

Perguntem o que eles não querem deixar de ser.

Eu não quero deixar de ser sonhadora.

E você?

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Entrelinhas e laços: respostas que completam

Júlia tem dificuldades na aula de português. Defasagem de leitura, escrita e interpretação. Júlia não é a única. Em uma sala com 32 alunos mais da metade se encontram na mesma situação. Corrijo. Não é a mesma situação. Cada aluno é um planeta distinto girando no seu próprio tempo de rotação e translação.

Tive essa ideia de relacionar o sistema solar com a sala de aula junto com meu amigo Danyllo, que é professor de matemática. O ápice da analogia foi a compreensão de que eu, professora, não sou o sol. Eu sou um objeto voador não identificado que perpassa por todos os planetinhas na tentativa de compreender o funcionamento mágico e único de cada biosfera. Inventamos assim uma nova galáxia: a sala de aula.

A galáxia do 7° G

Na galáxia do 7° G, Júlia é um corpo celeste que, assim como os outros trinta e um, possui suas próprias limitações e sonhos. Posso vestir a roupa de pesquisadora, exploradora ou astronauta, mas nunca vou compreender as complexas características da vida no planeta Júlia. Contudo, eu tento com tudo que posso. Me aproximo com cuidado, faço perguntas, escuto, respeito, abraço e beijo. Com amor se ganha amor. Descobri muitas coisas da vida de Júlia. Muitas passagens tristes que não me sinto à vontade de revelar aqui. Ela me contou em segredo. O que consigo relatar para dar sentido a essa história sem romper nosso voto de confiança é que Júlia é uma menina de 12 anos. Negra. Moradora de um bairro periférico. Dona de uma trajetória de vida que carrega memórias desgostosas e impactantes no seu processo de aprendizagem. Pelo menos até agora.

Semana passada decidi adiantar a temática do livro e mudar um pouco a perspectiva trabalhada. Assim como todos os seres vivos, os professores têm que se adaptar constantemente as condições do ambiente. O capítulo trabalhado até então aborda como tema central a figura do herói. Presuma: nada de heroína até então. Quando falei que naquela aula iríamos falar de heroína um aluno foi logo dizendo:

“Eu sei o que é heroína professora, é uma droga.”

Me assustei, porque pra mim o primeiro significado de heroína é o da mulher heroica enquanto que pra ele é o de uma substância entorpecente ilícita. Preciso escrever algum texto sobre referências.

“Sim, Henrique. É uma droga. Mas não é dessa droga que vamos falar hoje. A gente não estava estudando vários textos sobre heróis? Então, hoje vamos falar das heroínas, das mulheres. Vamos falar especificamente de uma heroína que, diferente dos outros heróis que vimos até então, existiu na vida real.”

Dificuldade de aprendizagem e Carolina de Jesus

Aula passada os alunos tinham feito um exercício que caracterizava os heróis como “pessoas que gostam de fazer coisas além de suas forças”. Adiantei o capítulo seguinte, que traz a temática dos heróis da realidade, e passei um vídeo sobre a vida de Carolina de Jesus. Para quem nunca ouviu falar dessa mulher maravilha, deixo aqui o vídeo da aula, gravado e editado pelo PHCortês, youtuber de 15 anos dono do canal “Meus heróis negros brasileiros”:

Depois do vídeo vieram as perguntas de interpretação. Eu sabia que muitos alunos me chamariam na carteira. “Professora, não entendi. Como assim?” Independente das órbitas planetárias, a dificuldade de compreensão e interpretação é geral. Na tentativa de encontrar vida em todos os planetas, estruturei perguntas de níveis mais fáceis e outras mais complexas. Sempre exijo dos alunos a resposta completa dos exercícios, para ajudá-los a compreender o enunciado e a responder da melhor forma possível, pensando sempre que o leitor da resposta pode não ter acesso a pergunta e por isso precisa ser muito bem informado apenas pela resposta.

A primeira pergunta do quadro era: “Quem foi Carolina de Jesus?”

Eu esperava que meus alunos escrevessem uma resposta completa com o máximo de informações possíveis extraídas do vídeo, com adjetivos que caracterizassem Carolina e descrevessem ela como uma mulher que superou todas as barreiras impostas pela sociedade. Eu sabia que cada um escreveria isso com as suas próprias palavras. Cada planeta tem seu idioma e eu acho isso fantástico! Mas as vezes tenho que corrigir ou exigir mais. Faz parte do meu trabalho expandir os horizontes de cada planetinha.

Júlia, aquela Júlia do começo do texto, me chamou com muita empolgação.

“Professora, vem aqui ver a minha resposta!”

Júlia tinha escrito apenas três palavras.

 “Uma mulher negra.”

Eu suspirei ao ler a força daquelas três palavras.

“Ótimo, Júlia! Mas vamos começar a resposta daquele jeito bem completo que a gente já aprendeu? ‘Carolina de Jesus foi…’ ”

“Ah! Tá bom! A senhora quer a resposta completa. Fica aqui. Vou fazer e você vê se tá certo. Não sai daqui.”

Eu atendi o pedido e fiquei ali observando o movimento das mãos de Júlia. Ela pegou a borracha e apagou a resposta. Pegou o lápis e começou a escrever calmamente. Disponho a resposta de Júlia para você, leitora ou leitor, de forma pausada para que você se aproxime mais da minha experiência. Acompanhe:

“Carolina de Jesus

foi uma

mulher negra

Júlia olhou pra mim com olhos de lua cheia e sorriso de lua crescente. Eu disse sorrindo:

“Isso. Continue. O que mais?”

Ela voltou a olhar para o caderno e completou brilhantemente sua resposta:

e inteligente.”

“Carolina de Jesus foi uma mulher negra e inteligente.”

Fiquei chocada com a inteireza da resposta escrita por Júlia, sem nenhum erro ortográfico. Nenhuma resposta, por mais completa que fosse, substituiria aquela resposta escrita por Júlia e aquele sorriso que falou rompendo meu silêncio perplexo:

“Está completa, professora?”

“Está completa Júlia”

Escrevo agora essa minha resposta sem vírgula, porque Júlia não é vocativo que se separa por vírgula.

Júlia é sujeito dessa oração.

Sujeita completa, ainda que por um instante prestes a descompletar.

Sujeita a tantas situações da vida cotidiana que diminuirão sua plenitude mas sujeita também a nova possibilidade de não se sujeitar.

Júlia não sujeita, como Carolina.

(Peço uma pausa para completar e esvaziar os pulmões)

(Para transitar entre esse completar e descompletar)

E foi assim que o eclipse de Carolina de Jesus e Júlia me completou.

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Entrelinhas e laços: o dia em que Gabriela deixou Rosalina

Essa coisa de identidade sempre me intrigou muito. Por acreditar que os nomes e apelidos carregam facetas da nossa múltipla identidade, pedi, logo no primeiro dia de aula, para que cada aluno me escrevesse como queria ser chamado.

– “Como assim, professora, eu não entendi. ”

– “Seu nome é João Lucas, certo? Como você quer que eu te chame? De João? Luquinhas? Como você gosta de ser chamado?”.

Eles me olhavam sorrindo. Muitos alunos têm nome composto. Eu, que sou a “Maria mais a Eduarda”, já fui Duda na infância, Maria nas andanças e Madu na sala de aula, sei bem como é isso de ter muitos nomes e de ter suas próprias preferências.

Sentada na minha cama pouco dormida, segurando as folhas que voavam por conta do ventilador ligado no máximo, me diverti e me emocionei lendo as respostas. Eu amo ler meus alunos (apesar do trabalho que dá ler o que 120 pessoinhas escrevem).  Além do nome pelo qual queria ser chamado eu pedi também pra que eles me contassem seus maiores sonhos e me falassem de pessoas inspiradoras.

– “Minha mãe que trabalha e cuida de casa”

– “Meu sonho é conhecer São Paulo”

– “Meu sonho é ter a casa própria”

– “Meu sonho é ser rica”

No meio de tantas reflexões sobre a vida dessas crianças, planejamentos de aula: 40 horas semanais de trabalho que se estendem algumas noites a fio acabei por não priorizar a organização de uma planilha com os nomes que os meus alunos escreveram. A ideia era fazer a lista de chamada pelos nomes que cada um gostaria de ser chamado. Ser professora é aprender todo dia a lidar com as frustrações e a deixar de lado a auto cobrança.

madu-gomesAquela menina quietinha, fora dos padrões estampados nas revistas de moda e beleza, isolada sempre no canto direito da sala, na sombra que o sol da tarde faz na janela, se chama Rosalina Gabriela. Duas semanas de aula rolando e eu chamando ela de Rosalina. Eu chamava ela sempre, porque sabia que ela sabia as respostas e porque ela tinha que saber que eu sabia. Três semanas passaram e eu fui guardar uma redação dela no portfólio quando me deparo com o papel que ela me entregou com as respostas do primeiro dia de aula. “Quero ser chamada de Gabriela”. Fiquei relembrando todas as vezes que me referi a Gabriela como Rosalina. Errei.

Segunda-feira brava, sol cuiabano a pino, últimas aulas do dia. Entrei no 7°E com frio na barriga. Uma vez uma professora me disse que quando a gente tem frio na barriga quer dizer que a gente se preocupa com o nosso público, que a gente tem respeito por ele. Gosto dessa definição.

Pedi pros alunos formarem grupos de três pessoas. “Você não vai escolher os grupos hoje, professora?” “Hoje não, pode juntar com quem vocês quiserem”. Quando falei isso já engoli uma preocupação: os alunos mais recatados. A Gabriela. Virei pra classe e disse: “Antes de juntar as carteiras eu vou entregar os portfólios com as redações corrigidas, vocês vão precisar delas pra fazer a atividade de hoje”.

Fui entregando, chamando nome por nome. Aline … João … Mari … Gabriela! Ela me brilhou. Sorri em resposta e continuei chamando outros alunos no mesmo ritmo. Lembro de ouvir alguém interrogando: “Gabriela?” “Sim, é meu segundo nome”. É teu primeiro, mulher! Pensei sozinha.

Gabriela fez grupo com Rafael e Caíque. Eu nunca tinha visto Gabriela conversar com nenhum dos dois. Caíque, inclusive, é da turma que olha pra janela e não da turma que se esconde na sombra dela. Conversou demais com Caíque a Gabriela. Reparei que uma hora ela estava explicando alguma coisa do exercício pra ele. Depois vi que ela riu de um jeito que a Rosalina não ria. Quase tive que pedir pra Gabriela parar de falar nesse dia. Mas não pedi.

Deixa ela, a Gabriela, cravo e canela. Deixa de ser Rosalina, vencer Gabriela.

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Entrelinhas e laços: muito prazer

Sou uma professora de Língua Portuguesa de uma escola da rede de ensino estadual de Mato Grosso. Refaço. Sou uma Maria cheia de angústias, que se transformam em coragem, todo dia-feira que atravesso os portões de minha escola cuiabana na esperança de vivenciar o aprendizado de forma genuína, criativa e emancipadora em conjunto com meus alunos.

Sou sonhadora. Sou realista. Sou recebida toda segunda-feira com um abraço do Henrique, dois chicletes da Laura e vários sorrisos, alguns mais tímidos outros escancarados. Dia desses fui recebida com uma carta endereçada para “minha professora mais querida desse colégio”. “Ti amuh professora”.

Olho pra sala de aula como se fosse uma grande narrativa complexa. Cheia de protagonistas, todos narradores personagens. Nas entrelinhas, busco os espaços ainda não percorridos, novos laços afetivos, convites para a descoberta do saber. Do duvidar e do questionar. Leva tempo pra construir e contar essa história cheia de aventuras e desventuras.

Você pode acompanhar aqui no site do Caindo no Brasil os capítulos dessa minha jornada

Relato minúcias inspiradoras, tropeços entre as trocas de sala, conquistas menores que a do ouro, mas valiosas como a água. Um registro extracurricular do pouco tudo que me move diariamente e me faz acreditar que apesar de tantos sujeitos ocultos, da falta de coerência e de concordância da educação pública brasileira nós continuaremos diariamente lutando por exclamações!