Aprendizagem criativa em escolas públicas: desafios e caminhos

A professora Débora Garófalo, da escola municipal Almirante Ary Parreiras, no bairro de Cidade Leonor, na Zona Sul de São Paulo, vivia em condições de trabalho semelhantes a dos outros 62 mil docentes da rede pública até fevereiro deste ano. Naquele mês, ela recebeu uma ligação da Fundação Varkey informando que seu nome estava na lista dos dez finalistas do Global Teacher Prize – o “Prêmio Nobel da educação. 

O vencedor foi o professor queniano Peter Tabichi, mas o projeto de Débora – em que alunos coletam lixo no entorno da escola para utilizá-la como matéria-prima para a construção de projetos relevantes à comunidade, por exemplo – a transformou em uma das grandes inspirações da educação no país. Hoje ela é responsável pela implementação da disciplina de Tecnologia na rede pública estadual paulista.

Para o fundador da Little Maker – uma metodologia de ensino embasada pela aprendizagem criativa – Diego Thuler, Débora é um exemplo entre outros docentes que realizam verdadeiros feitos heroicos na educação pública. “A Débora mostrou que é possível inovar práticas educacionais, proporcionando uma aprendizagem com mais significado, sem a necessidade de grandes investimentos, ou grandes ferramentas. Ela conseguiu engajar os alunos mostrando uma paixão real pela educação”, diz.

“Assim como ela, acredito que todos os atores envolvidos em educação,  independente se estarmos falando de rede pública ou privada, têm o dever de pensar no ensino público do país. Devemos discutir a corresponsabilização, entendendo que a educação é um compromisso de todos”, diz. 

Thuler é um dos membros da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa, um grupo multidisciplinar que procura, desde 2015, disseminar práticas de ensino criativas e “mão na massa” ao ensino público. A ideia é inspirar (e ser inspirado) por educadores, como a própria Débora.

O método mão na massa, ou maker, que já é bastante comum nos Estados Unidos, chegou ao Brasil por meio de colégios privados e iniciativas com recursos disponíveis para investir em inovação, mas ainda é raro na rede pública. Somado a isso, há outro grande desafio, como Levanta Thuler — a falta de formação de professores para práticas inovadoras de ensino. Para ele, o trabalho de Débora e da própria Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa podem ser grandes inspirações para uma significativa melhoria no ensino do país. 

Para Simone Lederman, pedagoga e coordenadora do Instituto Catalisador (organização da sociedade civil) toda instituição de ensino se beneficiaria com a aprendizagem criativa. Na rede pública, os benefícios se dariam, principalmente, na relação, já desgastada, entre o professor e o aluno.

“As estratégias criativas mão na massa promovem conexão de corpo e alma, que resultam em outra forma de conexão entre professores e alunos, novas formas de ensinar e aprender, novas possibilidades de construir significado no processo de aprendizagem”, diz.

“Elas deslocam o professor e o aluno daquele lugar de repetição desgastado. A Aprendizagem Criativa consegue criar movimento, trazer novidade, inovação, invenção e muda as relações. É possível criar novas formas de vínculos de respeito e de escuta e fala em sala de aula, o que também amplia o repertório de habilidades tanto de professores quanto de alunos”, completa.

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