A educação (é) possível, palavra de professor

“Vou te explicar, só uma vez, porque apesar de parecer inteligente, você ainda é muito novo pra entender. Não tem a malícia, a experiência da vida. Aqui, as coisas não são do jeito que você quer. Tudo tem seu ritmo, o momento certo. Você não pode chegar aqui e querer mudar tudo. Fazer a revolução, entende? Não, aqui você entra no esquema, no jogo. Ou entra no jogo ou tá fora do baralho.”

Essas são as linhas que dão início ao conto “Papo reto”, mas que também expressam o sentimento de toda a coletânea da qual faz parte, Te Pego Lá Fora, de Rodrigo Ciríaco. Longe das idealizações, o educador, escritor e “traficante literário” mostra um retrato fiel, difícil de olhar, mas gostoso de ler, da educação básica que temos, mas também da escola que queremos.

Dividido em quatro “estações”, o livro começa com os relatos de Verão. Com aquela leveza de quem vai curtir um dia na praia e, chegando lá, se depara com as pancadas d’água. São palavras difíceis de digerir, pela mera possibilidade de terem acontecido, ainda que na literatura isso não fique tão claro quanto num texto jornalístico. E nem precisa. No Outono, algumas folhas – ou fichas – já caíram, vemos as tentativas de um educador ansioso por mudanças desde a sala dos professores – de onde é rechaçado como um rato – até a “frente do front” – do Palácio dos Bandeirantes.

O Inverno é dureza. Com ele, chegam as reflexões das realidades que podem nunca mudar, como se o frio se mantivesse para sempre. Vale a pena se agasalhar e esperar que passe? E, finalmente, como se não fosse chegar nunca, a Primavera mostra que sim: “Raízes nordestinas que são resgatadas com maestria, num verso bem mesclado, num cordel, num trava-língua, embolado. Num repente chapado que alguém estranha: isso num é Rap? Não. Parece. Mas é raiz. Poesia. E abrem sorrisos. Lindos. Que um dia me disseram: professor, eu não gosto disso. Isso é coisa de bicha.”

Rodrigo Ciríaco

Saraus de Rodrigo

Ciríaco mostra que literatura e educação são possíveis. Mostra que alguns escolheram ficar, pagando para ver com seus baixos salários, o potencial inexplorado daqueles que gostam mesmo é de consumir (Pó)esia, mas que jamais teriam descoberto se não tivessem experimentado. Os Saraus – como o Mesquiteiros, organizado por Rodrigo no Centro Cultural da Penha mensalmente – são apenas um exemplo de porta de entrada para poemas mais fortes.

Esse livro também pode mostrar, além de realidades mascaradas, as referências silenciadas. A obra tem o poder de te deixar inquieto para saber mais. Entender quem são esses nomes que compartilham as linhas com Jorge Amado e Guimarães Rosa.

Para mais informações sobre o autor, suas obras e o Sarauzin dos Mesquiteiros, acesse: www.facebook.com/rodrigociriacoprofessor. Também leia os relatos de Madu Gomes, uma professora de escola pública na periferia de Cuiabá que conta suas práticas e desafios no Caindo no Brasil.

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