5 maneiras de falar sobre Pantera Negra na sua aula

Imagem com cinco dicas de como falar sobre Pantera Negra na sala de aula

AVISO: O texto a seguir pode conter spoilers

Pantera Negra já é um fenômeno do cinema. Lançado no dia 15 de fevereiro, se tornou o filme da Marvel com maior arrecadação de bilheteria na primeira semana. Fotos e vídeos de crianças e adultos – em sua maioria, negros – orgulhosos volta e meia aparecem nas redes sociais. Escolas e ONGs nos EUA e aqui no Brasil lançam campanhas de financiamento colaborativo para levar alunos para assistir ao filme.

Antes mesmo de sua estreia, Pantera Negra já gerava expectativas. Afinal, essa foi a primeira produção da gigante Marvel sobre um herói negro, com elenco predominantemente negro. Se você está alheio a todo o falatório, é bom tentar entender, pois provavelmente seus alunos sabem sobre o assunto.

O filme fala sobre T’Challa (Chadwick Boseman), um jovem príncipe prestes a assumir o trono deixado por seu pai. Junto com a responsabilidade de ser rei, vem a responsabilidade de receber os poderes do herói Pantera Negra, passado também entre gerações da família real.

T’Challa lidera a nação fictícia Wakanda, localizada na África. Um país rico que conjuga o respeito à natureza e às tradições com um avançado desenvolvimento tecnológico.

Questões políticas e ideológicas incrementam a narrativa, que vai além da clássica jornada de queda e ascensão do herói. “O filme traz a grande contribuição de mostrar a diversidade das pessoas negras. Ele expressa nos figurinos coloridos e variados, nas paisagens urbanas cosmopolitas conjugadas com áreas de paisagem natural, sem criar hierarquias batidas entre rural e urbano”, defende Giovana Xavier, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Imagem de divulgação do Filme Pantera Negra
(Divulgação)

A professora Ariane Cristina Neves, da EMEF Professora Ana Maria Alves Benetti, SP, também falou sobre a importância do filme. “É um prato cheio para o professor aplicar a lei 10.639” (sobre a obrigatoriedade de trabalhar a história e a cultura afro-brasileira nas escolas), afirma.

Mesmo sem ter visto o filme, Ariane já estudou a respeito e elaborou projetos didáticos. Junto com suas colegas, elas criaram atividades para turmas do Ensino Fundamental 1. No projeto, eles vão relacionar o filme com aspectos da cultura afro-brasileira, como as lendas e os reinados africanos.

Com a ajuda de Ariane e Giovana, a Nova Escola trouxe sugestões de temas para educadores. Assim, você pode abordar o assunto nas aulas ou em conversas com seus alunos. Afinal, uma educação que faça mais sentido dentro da realidade dos alunos e que promova a representatividade é essencial para promover o engajamento entre eles. É importante ressaltar também que o filme contém cenas de violência, e sua classificação indicativa é de 14 anos. Confira depois do trailer:

Mitos africanos e o respeito pela ancestralidade

O filme começa com uma explicação mística sobre a fundação do país fictício Wakanda, na África. A lenda também explica de onde vêm os poderes do herói, Pantera Negra. “Muitos povos usam lendas e mitos para explicar alguns fenômenos da natureza. O candomblé e a umbanda trazem essa relação entre natureza e divindade”, lembra Ariane. Em outro momento, vemos que a coroação de um líder do governo, o rei, envolve o contato com os espíritos e uma série de elementos místicos. Em sala de aula, converse com seus alunos sobre quais lendas e mitos de países africanos eles conhecem. Se necessário, você mesmo pode trazer algumas referências e pedir que eles pesquisem na internet.

Plano de aula do Nova Escola: Influências culturais da África

Reinados africanos

Estamos acostumados a ver a história da África somente a partir da colonização e a escravidão. No entanto, o continente já era rico de histórias e reinados muito antes disso.

O protagonista do filme, T’Challa, é um príncipe prestes a assumir o trono, após a morte de seu pai. Aproveite a trajetória de T’Challa para apresentar aos alunos outros grandes reis e rainhas africanos. Alguns exemplos são a rainha N’zinga, de Angola, Makeda, da Etiópia ou o império Ashanti. Se, como Ariane, você quiser relacionar o conteúdo com a cultura brasileira, há outras alternativas. Uma sugestão é investigar por que algumas manifestações artísticas populares, como o congado, trazem as figuras de reis e rainhas.

A força da mulher

Uma guarda real formada exclusivamente por mulheres. E que é liderada por uma general capaz de contrariar seu marido em nome do que acredita. Uma agente secreta que viaja pelo mundo ajudando refugiados. Uma jovem princesa cientista que tem seu laboratório de pesquisa e desenvolve tecnologias avançadas, que potencializam os poderes de seu irmão.

Em Pantera Negra, as mulheres estão longe de ser coadjuvantes na trama. E estão longe também de assumir o papel da “mocinha” que precisa ser salva pelo herói. E além disso, elas ainda são peças fundamentais na resolução dos problemas. Por isso, valorizar essas figuras femininas ajuda a quebrar estereótipos construídos desde cedo no imaginário das crianças sobre atividades, profissões e posturas femininas e masculinas.

Colonização africana no século 19

A atriz Lupita Nyong’o, que interpreta a agente secreta Nakia, afirmou recentemente em uma entrevista que Wakanda representa o que as nações africanas poderiam ter sido, se não tivessem sido colonizadas pelos brancos: grandes potências tecnológicas.

A temática da colonização e da subjugação dos africanos pelas nações europeias no século 19 é citada em todo o filme. Tanto em momentos de ação, quanto em cenas de humor e drama. O próprio vilão demonstra ter consciência a respeito, quando provoca a funcionária de um grande museu em Londres que guarda artefatos africanos dos séculos 16 e 17. Estudantes do Ensino Fundamental 2 ou do Ensino Médio podem fazer uma reflexão sobre o processo de colonização do continente. Eles ainda podem discutir sobre as danosas consequências para sua economia e política.

Movimento negro: autopreservação ou luta armada?

Martin Luther King e Malcolm X
Martin Luther King e Malcolm X em seu único encontro presencial, em 1964. (Reprodução/Nova Escola)

Wakanda buscou se resguardar dos acontecimentos externos ao longo dos anos. As montanhas ao seu redor e uma barreira criada com o metal mais precioso da Terra ajudam a esconder o grau gigantesco de desenvolvimento tecnológico. Para o mundo externo, esse é um país em desenvolvimento que sobrevive de agricultura familiar.

Ao longo da narrativa, o isolamento é questionado por alguns personagens. E isso passa a se tornar um peso na consciência do protagonista. Eles não deveriam usar seu poder para ajudar os negros pobres e explorados em todo o mundo? Por sua postura antagônica, muitos comparam o protagonista e o vilão com dois ativistas que fizeram história no movimento dos direitos civis nos Estados Unidos: Martin Luther King e Malcolm X. Enquanto o primeiro era pastor e buscava o diálogo com as instituições que oprimiam os negros na década de 1960, o segundo tinha uma visão mais extremista e acreditava que a supremacia branca deveria acabar através do conflito direto.

Por isso, é muito interessante explorar com os alunos a vida dos ativistas e suas semelhanças e diferenças com os personagens. Além disso, os alunos dos anos finais do Fundamental 2 e do Ensino Médio podem debater sobre os diferentes tipos de ativismo. Outra atividade é propor que os alunos se coloquem no lugar do soberano de Wakanda: o que eles fariam? Compartilhariam seu conhecimento para ajudar os negros a se rebelarem, mesmo que isso causasse mais guerras, ou protegeriam seus recursos para garantir o conforto de sua nação, alheios aos acontecimentos globais?

Matéria publicada pela Nova Escola.

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