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Entrelinhas e laços: as protagonistas

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

“Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz os assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modifica-lo.”

Assim que terminei de ler emocionada a crônica de Affonso Romano de Sant’Anna o 8ºC olhou pra mim como se eu fosse a autora daquelas palavras. Depois de um breve silêncio, um suspiro coletivo e uma fala de Caíque:

– Nossa, professora! Que texto profundo.

Foi assim, de primeira viagem, que meus navegantes do 8ºC entraram na maré das crônicas. Aquela aula de introdução ao novo gênero foi mesmo profunda. A sala percebeu que, de fato, as crônicas provocam reflexões e críticas.

Em casa, preparando um novo planejamento, reli a crônica “Porta de colégio” e nas entrelinhas encontrei uma nova passagem: o protagonismo juvenil. Era essa a temática que brilhava dentro da minha cabeça enquanto as abas cresciam na tela do meu computador.

Queria encontrar um texto que mostrasse aos alunos que enredo de crônica é sucessão de acontecimentos no presente. Queria um texto que mostrasse o agora. Uma crônica com personagens adolescentes que não frequentam a escola pensando em se preparar pra vida adulta, porque estão ocupados demais fazendo a vida acontecer no agora. Organizando debates na escola. Mobilizando o bairro. Promovendo eventos culturais.

Busquei em vários sites, contatei alguns colegas da área, mas não encontrei nenhuma crônica que atendesse minhas expectativas.

A segunda aula sobre crônicas no 8ºC não teve o texto que eu queria e não foi tão inspiradora quanto a primeira. Os alunos estavam agitados. Alguns mais que outros. Outros menos que alguns. Eu mesma não me excluo da agitação, pois tinha acabado de sair da minha turma de sétimo ano (professores de sextos e sétimos me entenderão!). Enfim, aquela aula foi bagunçada demais e não atingiu o ápice como a primeira. Saí de lá pensativa. “Preciso trazer sem falta um texto interessante sobre protagonismo juvenil pra essa turma na próxima aula”.

No fim do dia, estava em outra sala, do oitavo E, esperando alguns alunos terminarem a atividade. Olhei pra porta porque percebi um aglomerado anormal. O sinal já tinha tocado, o barulho do corredor já tinha cessado. Porém, lá estavam 5 alunas do 8 C me esperando. Uma delas fez sinal que queria falar comigo. Os dois alunos terminaram o exercício e saíram dando passagem para as meninas que me traziam uma alegria inesperada:

– Acho que você vai gostar da nossa ideia, professora.

Me disse Laura sorrindo até a ponta do rabo de cavalo que saudava o imponente coque de Jamile. Ao lado das duas, Michele e seu crespo proferiram:

– Sabe o que é professora, hoje depois da sua aula eu fiquei pensando muito numa coisa. Alguns alunos atrapalham as aulas, estão com muita falta de respeito e o bullying está passando de todos os limites. A Mari fez uma fala hoje lá pra turma, bem depois que a senhora saiu e eu fiquei pensando que a gente poderia passar em todas as salas conversando sobre isso. Fazendo tipo uma palestra.

– E falando sobre padrão de beleza, também! A gente quer falar sobre isso com os alunos.

Complementou Emily Cachos enquanto eu descia da minha elevação aos céus. A história de protagonismo juvenil que eu tanto busquei estava sendo encenada na minha frente!

Começamos a conversar sobre a proposta e as cinco meninas foram se empolgando a medida que minha animação crescia. Ou foi ao contrário? Não sei se delas pra mim ou de mim pra elas, mas sei que a energia fluiu tanto que a professora de matemática também entrou na sala e o entusiasmo nos abraçou. Pela primeira vez na minha escola senti o significado do substantivo sororidade.

Quando já estávamos saindo, Mari fisgou meu semblante e finalizou meu dia letivo fazendo um pedido:

– Professora Madu, escreve uma crônica do dia de hoje!

Crônicas: imagem de mesa de trabalho vista de cima, com uma máquina de escrever e diversos papéis

Escrevo essa pra Mari, Laura, Michele, Emily e Jamile. Escrevo pra todas as gurias e guris que tiveram iniciativa, que buscaram fazer qualquer coisa de diferente na escola. Escrevo para os adolescentes protagonistas, inquietos e curiosos. Para os jovens inconformados. Para os adultos que protagonizam a juventude desde o dia que conheceram Holden Caufield. Escrevo para os professores que querem levar um texto sobre protagonismo juvenil pra sala de aula mostrando pros alunos que melhor que ficção, só mesmo a realidade.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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A educação é luta e aconchego

Conexão com estudantes: xícara de café no centro da foto e flores e livro no entorno

Contei para o 8° B que estava fazendo estágio em uma outra escola do bairro. Ensino médio. Noturno.

“Escreve uma crônica sobre essa experiência, professora”.

Desde quando começamos a estudar crônicas os alunos pegaram gosto pelo gênero. Dia desses Talita chegou com uma crônica que ela tinha escrito. Escreveu assim do nada, porque quis.

Enfim, aqui está a crônica que Lucas pediu. A crônica sobre essa curta experiência em uma sala de terceiro ano de Ensino Médio.

Fiquei um mês observando as aulas da professora Marisa. Todas as quintas a noite eu batia ponto lá na escola. Me sentia avulsa no início. Não era minha escola, eu não via meus alunos meio pequenos meio grandes (ainda se diz pré-adolescentes?). Os alunos do Ensino Médio já passaram do pré e da adolescência. São jovens. Alguns já adultos. Algumas já mães. Alguns pais – talvez. A mãe é informação explícita no contexto escolar. Já o pai…

Duas mães na mesma sala. Na lousa, aula sobre crase. No chão, panelinhas e chupetas. Assistiam à aula e as filhas.

Eu poderia encher todos os seguintes parágrafos de outras cenas que vi. De acontecimentos que realmente mexeram comigo. Mas até quem nunca pisou em uma sala de aula de uma escola pública – no período noturno, em uma turma de terceiro ano de Ensino Médio – consegue imaginar um esboço ainda que muito estereotipado e pessimista.

Eu prefiro preencher as linhas que seguem com a sensação de aconchego que carrego dentro de mim depois dessas quatro semanas de observação e desses poucos 40 minutos de aula que acabei de ministrar. Aconchego é mesmo a palavra que eu queria. Peço ajuda ao verbete.

Aconchegar (verbo transitivo direto e indireto)

  1. Chegar (umas coisas para junto de outras).
  2. Aproximar muito.
  3. Chegar muito a si.

Me aconcheguei a realidade daqueles alunos. Tão próximos do meu bairro, tão distantes de mim. No dia da minha aula, aconcheguei um texto a eles. “O legado das ocupações nas escolas”. Talvez quisesse deixar um legado ali. Simbólico, singelo.

Alguns chegaram atrasados, mas tiraram o fone de ouvido e se juntaram a roda. Nem todos participaram da conversa sobre o que foi lido, mas todos leram e responderam a provocação que estava na folha sobre a carteira:

O que você já fez para colaborar com um ambiente de aprendizagem e boa convivência na sua escola?

Não fiz nada. Presto atenção na aula. Comprei rifa para ajudar na pintura das salas. Organizei a rifa para ajudar na pintura das salas.

A resposta que eu mais gostei? Acho que foi a de João: Não fiz nada AINDA.

Ainda. Advérbio de tempo capaz de deixar tudo tão mais… aconchegante! Agradeço por ter sido tão bem-vinda pela professora Marisa e por todos os alunos do terceirão. Com aconchego e gratidão respondo agora uma das questões que a professora colocou no quadro no meu primeiro dia de estágio.

1) Argumente promovendo a progressão temática. Utilize um dos elementos coesivos abaixo:

CONTUDO

EMBORA

JÁ QUE

  1. a) A educação brasileira tem muitos desafios a enfrentar CONTUDO somos muitos os que estamos caminhando em busca de possibilidades onde parece que não há mais soluções. Estamos cada dia mais perto de nós, dos outros e do que queremos juntos. Ainda não chegamos lá, mas chegaremos. Como a Emily. A Emily que veio tirar foto comigo depois da aula e pediu meu face. “Vou te marcar no post de quando eu passar na UFMT” Mal sabe ela que já me marcou.

Texto escrito pela professora Maria Eduarda Gomes, colaboradora do Caindo no Brasil.Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços

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Racismo na escola: professora e jovem escrevem relato juntas

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA

Seis da matina. Ainda não levantei da cama, mas o barulho do alarme e a luz do celular na cara já me lembram que é dia feira. Tenho evitado ler mensagens antes de levantar como uma tentativa de criar um novo ritual matutino mais saudável. Mas nessa manhã uma mensagem pediu pra ser lida:

“Madu, a senhora sabe muitas coisas sobre campanhas contra o preconceito e tals. Hj eu presenciei uma coisa que eu pensei que nunca passaria na minha vida. E eu queria lutar contra o preconceito de alguma forma. Se a senhora souber algum jeito, me fale pfvr.”

Primeiro, uma alegria: as aulas do ano passado de criação de uma campanha contra o preconceito racial surtiram efeito! Quase de imediato minha alegria de professora se vai e a pergunta aparece em caixa alta e negrito na minha cabeça: Como posso ajudar essa aluna a lutar contra o preconceito?

Passei o dia com a perguntada grudada em mim.

Me coloquei no meu lugar, de quem não sofre com o racismo que assola nosso país. Me coloquei no lugar da Rafaela, minha aluna que me acordou com esse pedido tão… tão necessário!

Como? Como lutar contra o preconceito? Como não se sentir impotente diante dessa realidade perversa?

Rafaela me contou melhor o que tinha acontecido e eu entendi porque ela estava tão incomodada.

Então fiz um convite pra ela escrever aqui pra vocês. Um dos jeitos de lutar contra o preconceito é não se calando.

Em tempos de violência e repressão, não se calar é resistir.

Racismo na escola: imagem de homem negro bebendo água com placa "para negros", nos EUA
(Foto: Pixabay)

Deixo aqui as palavras dela e espero que elas cheguem longe e resistam

Olá, meu nome é Rafaela, tenho 13 anos e vim aqui falar sobre o preconceito racial.

O Brasil é considerado um dos países mais racistas do mundo, mesmo com tantas misturas de raças. Algumas pessoas pensam que o racismo nunca pode acontecer ou que é bem raro.

Infelizmente eu com apenas 13 anos vi o racismo acontecer na minha frente várias vezes. Infelizmente algumas pessoas maltratam outras para se sentir superior ou melhor que alguém.

Você julgar uma pessoa apenas por ela ser negra ou “diferente” é burrice. Nesse mundo não existe idade para sofrer e nem praticar o bullying. Meu melhor amigo foi revistado pela polícia simplesmente por ser negro e pobre. Tenho certeza de que tem muitas pessoas sofrendo por coisas piores.

Todos devemos nos unir e acabar com isso de uma vez. Eu sei que não é fácil mas poderíamos tentar pelo menos.

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Camila Coragem: o que ensinar exige

Ensinar exige rigorosidade metódica.

Esse é um dos tópicos do sumário do clássico freiriano “Pedagogia da autonomia”.

Ensinar exige pesquisa.

Ensinar exige curiosidade.

Ensinar exige tantas coisas que eu dei conta só de ler o sumário do livro e fiquei dias processando todos os requisitos que Freire me contou naquela noite quente e chuvosa da primeira semana de novembro.

A reflexão me trouxe a lembrança de um episódio de maio que reverberou novas atitudes e práticas mais amadurecidas.

Eu levei minhas quatro turmas de sétimo ano na exposição itinerante da Bienal de São Paulo. Foi um desafio enorme trabalhar em sala de aula conceitos de arte contemporânea e pós modernidade. O tema da Bienal era incerteza viva.

Por ser tão incerta e tão viva eu falhei. Falhei no processo, falhei na visita e falhei na avaliação.

Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática

Cinco meses depois decido sair mais uma vez dos arredores da escola e mostrar que a construção do saber se dá em outros espaços, com outros sujeitos e sobre outros temas, diferentes dos do livro didático.

Dessa vez fiz diferente.

Fiz pequeno e intuitivo. Fiz grande e organizado.

Ensinar exige tomada consciente de decisões.

Estou desenvolvendo um projeto de produção audiovisual no contraturno. Os alunos escreveram o roteiro de um curta e agora estamos na fase de gravação. Camila é a aluna que mais se envolveu com esse projeto. Sempre tem aquela pessoa que se apaixona, agarra a ideia e se desenvolve de uma forma muito autêntica e genuína. Camila já gostava muito de fotografia. Ela começou a me seguir no Instagram e viu que eu também sou entusiasta desse universo. Ela se aproximou de mim, me pediu dicas e me enviou fotos suas. Eu vi ali uma semente brotar me pedindo mais água pra crescer.

Certo dia eu estava rolando o feed infinito no Facebook a procura de nada e encontrei uma oportunidade que caiu feito chuva no solo de Camila: uma oficina de fotografia criativa para iniciantes.

Consegui pagar meia inscrição pra ela e fomos juntas.

No caminho ela observava a transição pela janela do Uber. Da periferia para o centro.

– Você costuma vir pra esses lados da cidade, Camila?

– Não. Eu nunca saio do bairro. De vez em quando vou visitar uns parentes que tenho lá no Pedregal, sabe?

Pedregal é um extremo oposto ao da nossa escola.

– Minha mãe não me deixa sair sozinha. Nunca peguei ônibus só. Ela me deixou ir nesse curso porque a senhora conversou com ela e porque você está comigo… Ela fala que é perigoso uma menina sair por aí sozinha. E é mesmo né…

Fiquei um tempo em silêncio e na minha mente passou um filme de todas as vezes que transitei meu corpo sozinho pelo mundo. Sou uma mulher consciente dos desafios que enfrento na sociedade. Sou branca e venho de uma família de classe média do interior paulista. Tenho consciência de meus privilégios também. Sou adulta, mas já fui adolescente. De todas minhas identidades caleidoscópicas, naquele instante eu assumi a de educadora. Educadora responsável por levar “sozinha” uma aluna em um ambiente completamente diferente dos que ela frequenta para fazer um curso sobre um assunto que está fora dos parâmetros curriculares.

Respirei, inspirei e parafraseei Guimarães Rosa:

– É perigoso, Camila. Mas a vida exige coragem! Nós, mulheres, precisamos ser cuidadosas, sim.  Mas precisamos ser corajosas.

Chegamos no local do curso. Metade cheio. É o nome do café-bar, loja-galeria, ateliê colaborativo que abriu recentemente suas portas no centro histórico da capital mato-grossense. Eu amo esse lugar. Camila também amou. Ela observava tudo com um olhar de viajante que me fez recordar minha primeira viagem.

O curso estava dividido em duas partes: teórica e prática. No início ela estava tímida, mas no final saiu pelo café com seu celular e depois com a minha câmera registrando cada instante, cada cenário, cada universo que só o olhar dela é capaz de enxergar.

A foto de Camila

Depois da sessão fotográfica voltamos pra sala e exibimos nossas produções. Rodolfo, o fotógrafo que ministrou a oficina, ia passando as fotos na tela e fazendo comentários. De repente aparece a foto de Camila.

Foto de mulher negra

Eu finalizo meu relato aqui. Com essa foto que me preencheu a alma e me deixou afônica.

E com mais um tópico do sumário-poesia do nosso patrono da educação:

Ensinar exige convicção de que a mudança é possível.

Conheça mais relatos do Entrelinhas e Laços.

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“Ser professor é trabalhar para promover diariamente microtransformações”

Há 178 dias, através do programa Ensina Brasil, eu pisava em sala de aula como professor pela primeira vez. Jamais imaginei que aquela segunda-feira significaria tanto para mim.

Quando abracei a oportunidade de trabalhar como Professor na rede pública, já imaginava os desafios que vinham pela frente. As dificuldades da Educação Pública brasileira não são novidade para ninguém: infraestrutura precária, ausência de recursos tecnológicos, realidades sociais e familiares complexas, defasagem idade-série e evasão em massa no Ensino Fundamental II e Médio.

Hoje, eu vejo que não é isso que impossibilita o desenvolvimento do aluno. Dificulta? Sem dúvida, mas não é condição suficiente para impedir. Infraestrutura precária não impede o aluno de aprender. Ausência de recursos tecnológicos sofisticados muito menos. Realidades sociais complexas interagem de maneira imprevisível no ambiente e você precisa aprender a conviver com isso.

Quem disse que lidar com o que é diferente é fácil? Não se trata de romantizar. Trata-se de entender e acolher o que é real. É admitir que você não é herói, mas que se você sair de lá, mais uma oportunidade de influenciar aquela realidade estará sendo deixada de lado. É perceber que o momento perfeito para começar algo é agora.

Ser professor é resistir

O primeiro grande ensinamento que a profissão me trouxe talvez tenha sido compreender que o ato de ser Professor exige resistência. É real e cruel a pressão que o Sistema exerce sobre os profissionais. Por sinal, não gosto de me referir ao Sistema como um ente imaginário. Refiro-me ao somatório de burocracias sem fim, comunicação hostil no ambiente escolar, disputas de poder desvinculadas dos objetivos de aprendizagem, dificuldades estruturais, distanciamento de algumas famílias do ambiente escolar.

É perceber que se você não exercer pressão no sentido oposto, permanentemente, o Sistema te devora. Piscou? O Sistema te engoliu. O segundo grande ensinamento é de que resistência, desvinculada de propósito, te transforma num peso morto. O Sistema exerce tanta pressão sobre você, que se você não exercer uma pressão maior no sentido contrário, já era.

Percebi que estava sendo engolido quando depois de 2 ou 3 meses em aula em sala, meus níveis de motivação caíram drasticamente. O brilho no olho dava lugar a uma sensação de frustração e um sentimento de impotência diante daquela realidade.

Ser professor

Microtransformações

Carregava comigo as dificuldades de dia a dia, com peso de quem assumia para si a responsabilidade pelas escolhas feitas por outras pessoas. Compreendi que meu objetivo é outro: é mostrar o “caminhos das oportunidades”. É trabalhar para promover diariamente microtransformações positivas na vida de cada um dos meus alunos.

Foi então que escolhi fazer uma mudança importante na forma como eu lidava com essas questões. Optei conscientemente por exercer pressão através da construção de um personagem, que desde então representa a forma como eu lido com as dificuldades do dia a dia. Escolhi ser e interpretar alguém que a partir do momento em que pisa em sala de aula, torna-se a pessoa mais entusiasmada, alegre e contagiante do ambiente. Escolhi contagiar meus alunos pela alegria. Escolhi me aperfeiçoar na arte de motivar. Entendi que naquele contexto, ser o Professor que meus alunos precisam significa ser a pessoa que opta por contagiar pela presença integral, sincera, atenta e genuína.

“Sou preguiçoso”

Esses dias ouvi de alguns alunos do período noturno:

– “Como ele consegue, depois de trabalhar o dia todo, chegar com esse gás?” (Algo dito por jovens na faixa dos seus 16 anos que já trabalham durante o dia inteiro antes de ir à aula).

Na medida em que você pratica, misturam-se realidade e ficção. Hoje já não sei mais o que é o personagem e quem é o Pedro “de verdade”. O que deveria nascer como encenação foi incorporado ao que sou. Perdeu-se dentro do meu próprio Sistema. Junto com essa reflexão, percebo também que:

  • Professor precisa ser “fazedor”. Quer começar um projeto de informática e programação? Vai. Quer começar um Grêmio Estudantil? Vai. Deu errado? Corrige e continua.
  • Professor precisa acolher a incerteza a sua volta e mesmo com todas as pressões do Sistema, fazer acontecer.
  • Professor precisa se permitir errar muito. Acolher o erro e refletir sobre ele faz parte do processo.

É preciso saber parar, pensar e recomeçar. E que sensação boa a de aprender errando! Nesse 11 de agosto, Dia Nacional do Estudante, celebramos aqueles que buscam constantemente evoluir e ampliar seus conhecimentos.

A todos os professores do Brasil, meu desejo que jamais esqueçamos da mágica por trás dos “erros”. Nessa breve experiência na rede pública, reconheço cada vez mais que quando incentivamos o desenvolvimento da curiosidade e interesse pelas coisas que existem e acontecem no mundo, estudar fica muito mais fácil, divertido e prazeroso!

Citando Milton Nascimento, em “Coração de Estudante”: “Há que se cuidar da vida; Há que se cuidar do mundo”. Aproveitemos esse dia para recarregarmos as energias diante das dificuldades do dia a dia e para mantermos vivo o Estudante que há dentro de cada um de nós, Professores.

Feliz Dia Nacional do Estudante!

Conheça outros relatos de professores do Ensina Brasil no Entrelinhas e Laços.

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Usar as palavras como ferramenta

Cena 1. Algum dia não registrado de abril. Talvez final de março. Segundo horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Não preciso esclarecer que Elias tem dificuldades na escrita e leitura. Diante do caos, eu dialogo. Peço pra ele olhar nos meus olhos. Ele desvia. Quando der o sinal você não sai, Elias. A gente vai ter uma conversa. O sino toca. Elias corre. Professora, o Elias fugiu! Pega ele, Rafael! Não. Deixa quieto.

Cena 2. Volta do intervalo.

Elias entra na sala empurrando os colegas. Senta na carteira e encontra minha carta colada com uma fita crepe em cima do seu caderno. Eu observo tudo pela fresta da porta, sem ser notada.

Elias, você pode até fugir de mim mas saiba que eu nunca vou desistir de você. Eu acredito em você. Sei do seu potencial. Com amor, professora Madu.

Elias sorri no canto de boca. Olha pros lados pra confirmar que ninguém viu aquele episódio. Guarda a carta na mochila e volta a fazer pose de bagunceiro. Eu sorrio sozinha e continuo meu caminho pelo corredor até chegar na sala do 7°G.

Cena 3. 11 de setembro de 2017. Quarto horário no 7°F.

Elias não faz nada durante a aula. Na verdade, ele faz tudo. Anda pela sala, joga bolinha de papel, xinga a Letícia, bate no Jonas, dá um chute na carteira de Felipe. Eu continuo atendendo os alunos, carteira por carteira. Passo pelo Elias, abaixo e digo olhando em seus olhos: você pode ficar aqui quando der o sinal? É rapidinho, quero te mostrar uma coisa. Ele acena que sim com a cabeça baixa.

Cena 4. Fim da aula/dia.

Elias, eu poderia te levar até a coordenação. Poderia te dar uma advertência e você sabe os motivos, eu não preciso falar. Mas eu quero escrever uma carta de comprometimento junto com você. Pode ser?

Pode.

Ele responde baixinho. Em um tom de voz que eu desconhecia. Sua voz é mais doce do que eu imaginava.

Redigimos juntos a carta no meu caderno.

A partir de hoje, Elias se compromete com seus estudos. Ele será um aluno responsável com seu aprendizado. Ele fará as atividades em sala, mostrando todo seu potencial.

Professora, mas eu não vou conseguir. Eu não me acho capaz.

Você é.

Cena 5. Usar as palavras como ferramenta

Usar as palavras como ferramenta
Ilustração: Maria Barge

13 de setembro de 2017. Primeiro horário no 7°F. Luiza vem correndo afobada balançando um papel.

Calma, Luiza. Não precisa correr assim. A professora vai passar em todos os grupos para orientar a produção dos panfletos da campanha. Espere que a vez do seu grupo já vai chegar.

Mas professora, a senhora precisa ver isso. Olha o texto que o Elias escreveu pra colocar no panfleto. Ele escreveu sozinho, disse que foi da cabeça dele.

“Usar as palavras como ferramenta. Lutar para acabar com o preconceito em todo o brasil”

Eu li e logo pensei que os verbos não estavam no modo imperativo, conforme havia orientado no roteiro da aula. O “B” do Brasil estava minúsculo.

Afastei esse pensamento e olhei pra Luiza que sorria olhando pra Elias que sorria olhando pra mim.

Usar e lutar no infinitivo do universo de Elias. O brasil em expansão para a maiúscula imaginação criativa do menino que duvidava da sua própria capacidade.

Fui até a carteira de Elias e dei um beijo em sua testa pequena. Sentei ao lado dele e juntos fizemos as mudanças necessárias para que a frase estivesse dentro do formato do gênero textual em estudo. Ele compreendeu.

Não se esqueçam de colocar a frase de Elias entre aspas com o nome dele logo abaixo.

Meu nome vai aparecer no panfleto, professora?

Lógico! A frase é tua! A palavra é a tua ferramenta.

Cena 6. 39 graus. Meu quarto é quase meio dia. Quase hora de ir pra escola.

Sentada na janela, fecho os olhos para reviver a lembrança. Sinto uma gota de suor deslizar lentamente da dobra do meu joelho até meu tornozelo esquerdo. Junto escorre uma gota de mar que desagua em minha boca. Abro os olhos pro mundo. Mesmo sem óculos beijo mais cores no meu quintal. Suspiro e faço minha citação do dia:

A palavra é minha ferramenta.

Confira mais relatos de Madu aqui.